O café é benéfico ou não à saúde?

O café é benéfico ou não à saúde?
NUTRICAO
História do café:

O café é uma planta nativa da Etiópia (país do continente africano).


A planta atravessou o Mar Vermelho e foi levado para a Península Arábica. A Arábia foi a responsável pela propagação da cultura do café. Este povo foi o primeiro a cultivar e tinha controle sobre o cultivo e preparação da bebida. Tanto que o nome café é originário da palavra árabe qahwa, que significa vinho, por ser considerado o "vinho da Arábia" quando chegou à Europa no século XIV.


O Iêmen (localizado no Sudoeste da Ásia) foi o primeiro país a receber as sementes de café provenientes da Etiópia. Os primeiros manuscritos sobre a bebida (datam de 575 d.C) e descrevem a Lenda de Kaldi, onde um pastor de cabras da Etiópia observou o efeito excitante que as folhas e os frutos do café produziam quando o seu rebanho mastigava a planta.
Kaldi experimentou seus frutos, confirmando os dotes estimulantes, e seu consumo in natura se disseminou pela região.


O consumo de café no Iêmen popularizou-se até que foi iniciada a primeira produção comercial em larga escala do produto no século XIV. Em pouco tempo, seu valor mercantil seria cobiçado pelo Ocidente.


Em 1615 o café torrado chegou à Veneza, porém, foram os holandeses a obter as primeiras mudas em 1616.


A França recebeu os grãos em 1644, mas o consumo da bebida tornou-se popular apenas em 1699 com a passagem do embaixador turco Suleiman Aga por Paris onde apresentou a bebida ao Rei Luís XIV.


O café chegou ao norte do Brasil em 1727, trazido da Guiana Francesa para o Brasil pelo Sargento-Mor Francisco de Mello Palheta a pedido do governador do Maranhão e Grão Pará.


Devido às nossas condições climáticas, o café se espalhou rapidamente no Vale do Rio Paraíba.


A busca pela região ideal para a cultura do café se estendeu por todo o país, se firmando hoje em regiões do Estado de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Espírito Santo, Bahia e Rondônia. O café continua hoje, a ser um dos produtos mais importantes para o Brasil e a qualidade do café santista determinou a criação do Café Tipo Santos.


O Brasil é o maior produtor mundial de café. O cultivo ocorre nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Paraná.

Espécies cultivadas em território nacional:

• Café arábica
(Coffea arabica L.): produto mais fino, requintado e de melhor qualidade. Originalmente produzido no oriente, este tipo de café é cultivado em altitudes acima de 800m. Predomina nas lavouras de Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Bahia, Rio de Janeiro e em parte do Espírito Santo.

• Café robusta ou conilon
(Coffea Canephora): usado para a fabricação de cafés solúveis e apresenta menos acidez e teor de cafeína maior. Predomina nas lavouras do Espírito Santo, em Rondônia e em parte da Bahia e de Minas Gerais.


O café como conhecemos:
Os etíopes ingeriam a sua polpa macerada ou misturada em banha durante as refeições. Também a utilizavam como um suco fermentado que era transformado em bebida alcoólica. A infusão do fruto ocorreu no ano 1000 d.C., colocando os frutos em água fervida. Somente no século XVI, na Pérsia, os primeiros grãos de café foram torrados para se transformar na bebida que hoje conhecemos.


Antes de torrados, os grãos são selecionados, passam por triagem e calibragem. O processo de torra consiste em submeter o grão à elevação progressiva e rápida da temperatura, fazendo com que sua umidade interna chegue a 3%. Durante o processo, os grãos são mexidos continuamente para que a torra seja uniforme. Esta fase é determinante na característica final da bebida, pois o grau de torra evidencia e/ou esconde muitas propriedades do grão e há um grau de torra diferente para cada tipo de café.


Ao comprar o pó, preferir os de cor marrom clara. Os de coloração muito escura indicam que foram submetidos a altas temperaturas por tempo prolongado, o que destrói seus compostos benéficos.


A água deve ser filtrada ou mineral e não estar em temperatura de fervura porque isso ocasiona a perda de oxigênio (deixando um sabor desagradável) e de vitaminas e substâncias antioxidantes.


O selo da Associação Brasileira da Indústria de Café tem o objetivo de identificar cafés certificados, coletando amostras no mercado e analisando-as em laboratórios para garantir a qualidade dos produtos.


A partir receber autorização para usar o selo, o produto é monitorado continuamente pelo programa e a indústria deve seguir normas de qualidade e segurança alimentar para garantir que o café vendido tenha o mínimo de impurezas.


As marcas autorizadas a utilizar o Selo de Pureza podem ser visualizadas no link: http://www.abic.com.br/publique/media/SEP_marcasautorizadas.pdf
Formas de preparo e consumo do café:

• Affogato (afogado): expresso servido sobre sorvete.

• Americano: apresenta as mesmas características que o café carioca e longo. É um café diluído em água quente, podendo apresentar 50mL ou mais. Recebeu este nome devido ao consumidor americano gostar de tomar bastante café, mas com sabor menos acentuado.

• Cappuccino: bebida contendo 1/3 de expresso, 1/3 de leite vaporizado e 1/3 de espuma de leite vaporizado. Pode-se ou não acrescentar um pouco de pó de chocolate e/ou canela.

• Carioca: apresenta 25 a 35 ml de café (assim como o expresso e o curto), mas é diluído em 20ml de água quente.

• Carioca: consiste em 25 a 35 mL de café expresso diluído em 20mL de água quente, sendo menos forte/concentrado.

• Coado: feito no coador, é menos denso porque fica mais tempo em contato com a água, o que suaviza seu aroma e seu sabor.

• Colonial: acompanhamentos do café que se distinguem do café continental pela maior variedade de comestíveis. Composto de fatias e sucos de frutas, leite, pão, manteiga, marmelada, mel, queijo, ovos quentes ou mexidos, bacon, cereais, presunto, salsichas, bolos e biscoitos.

• Continental: acompanhamentos do café, típicos do continente europeu, cuja a preferência é por um café acompanhado apenas de pão francês ou pão de forma ou torradas, geleia, manteiga e suco.

• Cortado: espesso com uma pequena quantidade de leite quente, para reduzir a acidez.

• Descafeinado: os grãos de café são despejados em água quente para amolecê-los e depois mergulhá-los em um solvente ou cozinhá-los com gás carbônico, sendo as pequenas moléculas da cafeína são atraídas para fora dos grãos.

• Expresso (também conhecido como “café curto”): é mais concentrado, mais consistente e possui aroma mais intenso, isto porque a quantidade de pó dissolvido é maior por volume de água, se comparada à quantidade presente no café coado.
No Brasil, o expresso é servido em xícaras de 40 a 50 mL pois a cultura brasileira está habituada com quantidade, enquanto que na Itália as xícaras contém 25 a 35 mL.

• Flat white: bebida popular na Austrália e Nova Zelândia, feito com 1/3 de expresso e 2/3 de leite vaporizado.

• Latte (ou café com leite): mistura de 50% de leite com 50% de café coado.

• Longo: é servido em xícaras de 50 mL, sendo indicado para quem gosta de tomar muito café. Pode ou não ser diluído em água quente.

• Macchiato (manchado): uma pequena quantidade de espuma de leite vaporizado é servida sobre o café expresso.

• Marocchino: deriva do cappuccino. Coloca-se pó de chocolate em uma taça de vidro transparente, despeja-se o leite espumante e o café expresso (ordem inversa do cappuccino). O vidro permite ver camadas diferentemente coloridas da bebida.

• Mocaccino (também chamado “café moca”): é uma variação do cappuccino, com menos leite e acrescido de chocolate, coberto com creme de chantilly. Para prepará-lo, coloca-se chocolate em pó na xícara e sobre este o café expresso, leite quente e uma camada de chantili. Na superfície espalha-se um pouco de chocolate em pó ou escamas de chocolate como decoração.

• Pingado: semelhante ao café com leite, porém a mistura é feita com 2/3 de café coado e apenas 1/3 de leite.

• Ristretto: 15 a 20 mL de café expresso servido na xícara de 50 mL.
Benéfico para a saúde ou não?

A composição química do cafezinho varia dependendo da espécie de grão, grau de torra, moagem e do método de preparação da bebida.


O grão de café é rico em minerais (potássio, magnésio, cálcio, sódio, ferro, manganês, rubídio, zinco, cobre, estrôncio, cromo, vanádio, bário, níquel, cobalto, chumbo, molibdênio, titânio e cádmio), lipídios, açúcares naturais, aminoácidos, ácidos clorogênicos (7% a 9%) e niacina.


Os ácidos clorogênicos são polifenóis (substâncias antioxidantes que protegem as membranas celulares e por meio da modulação da atividade enzimática e redução do estrese oxidativo) que estão presentes no café, frutas cítricas, maçãs, peras, alcachofra e berinjela.


O café é a maior fonte de ácidos clorogênicos da alimentação, havendo de 500 a 800 mg de ácido clorogênico/litro de café.


Diabetes tipo 2


Estudos epidemiológicos tentam verificar a associação entre o consumo de café e o risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2.


Como o café descafeinado foi associado ao menor risco de desenvolvimento da doença, foi sugerido que os ácidos clorogênicos são os responsáveis por: redução da absorção de glucose no intestino pela inibição da enzima glicose-6-fosfato translocase; inibição dos transportadores de glicose dependentes de sódio no intestino nas vilosidades intestinais, retardando a absorção da glicose; maior secreção de peptídeo semelhante ao glucagon; inibição da glucose-6-fosfatase, reduzindo a gliconeogênese; e menor geração de estresse oxidativo com consequente menor resistência à insulina.


Doenças cardiovasculares:

Estudos divergem quanto aos efeitos do café na lipemia, mostrando tanto que a ingestão da bebida pode reduzir a susceptibilidade do colesterol LDL à oxidação como que o consumo de café não filtrado elevaria os o LDL colesterol.
Devido à contradição, os dados atuais não são consistentes para haver um posicionamento sobre o tema.


Peso corporal

A cafeína estimula a termogênese e a lipólise, induzindo a perda de peso corporal, não sendo observado este efeito com a ingestão de café descafeinado.
Pressão arterial
Estudos experimentais mostram que a cafeína provoca vasoconstrição, devido a sua ação antagonista à adenosina, promovendo elevação na pressão arterial sistólica e diastólica.


Apesar disso, estudos epidemiológicos são inconsistentes, referindo tanto associações positivas como inversas ou inexistentes entre o consumo de café e a pressão arterial sistêmica. Esses resultados podem ser explicados pela presença de outros compostos químicos no café com ação contrária ao efeito constritor da cafeína como (por exemplo, os ácidos clorogênicos).


Gravidez

A ingestão de café durante a gestação não parece ser prejudicial quando ingerido em quantidades moderadas. Contudo, a cafeína atravessa a placenta e o embrião não possui as enzimas necessárias para inativá-la de forma eficiente, ocasionando concentrações farmacologicamente ativas de cafeína no plasma de recém-nascidos.


Pesquisadores sugerem que o consumo de 200 a 400 mg/dia de cafeína durante a gravidez está relacionado ao nascimento de bebês com baixo peso, aborto espontâneo e/ou maior tempo de gestação.


Devido à diversidade de resultados, a Organização Mundial de Saúde recomenda o limite de 300 mg/dia durante a gestação, mas alguns países recomendam um limite de 200 mg/dia.


Anemia ferropriva

Os compostos fenólicos inibem a absorção do ferro não-heme, por tornarem este menos disponível para absorção no lúmen intestinal. Contudo, não se observa influência na absorção do ferro quando o café é ingerido uma hora antes ou depois da refeição.


Úlcera ou gastrite


Não existem evidências de que o consumo de bebidas com cafeína possa causar úlcera gástrica ou duodenal. No entanto, o consumo excessivo de cafeína deve ser evitado por pacientes com úlcera porque estimulam a secreção gástrica de ácido clorídrico.


Osteoporose

Embora estudos mostrem que a cafeína pode provocar eliminação do cálcio pela urina, o metabolismo do cálcio é regulado por diversos fatores (paratormônio e hormônio estimulante da tiroide, vitamina D, calcitonina, glicocorticoides e estrogênios), apenas o consumo acima de 700 mg de cafeína/dia pode interfere no metabolismo do cálcio.


Por cautela, recomenda-se um consumo limitado de 300 a 400 mg/dia de cafeína para mulheres na menopausa e pessoas idosas.


Alterações psiquiátricas


Logo após a ingestão, a cafeína altera o estado de vigília, promovendo um maior estado de alerta e atenção, seguindo-se de ansiedade.


A cafeína modula a ação de neurotransmissores (dopamina e noradrenalina), responsáveis pela atenção, cognição e bem-estar mental.


A sensibilidade a esses efeitos varia entre indivíduos, dependendo da tolerância, idade, personalidade e fatores psicológicos, havendo maior sensibilidade aos efeitos indesejáveis da cafeína por indivíduos com alterações psiquiátricas.
Nesses casos, recomenda-se uma dose máxima de 200 a 300 mg de cafeína/dia.


Parkinson


O Parkinson é causado por degeneração dos neurônios dopaminérgicos, causando incapacidade de controle voluntário dos movimentos.


Estudos epidemiológicos mostram que o consumo de café está inversamente associado ao risco da doença, não sendo encontrada qualquer associação em relação ao consumo da bebida descafeinado.


Apesar de não haver explicação conclusiva, a hipótese é de que a cafeína associada ao ácido clorogênicos são neuroprotetores porque possuem ação anti-inflamatória.


Alzheimer

Esta doença neurodegenerativa resulta na redução progressiva das capacidades cognitivas devido ao aumento das concentrações da proteína beta-amiloide.


É provável que a cafeína seja capaz de modular as concentrações cerebrais da beta-amiloide e estimularia a produção e a renovação do líquor (líquido que irriga o cérebro), retardando a degeneração cerebral causadora da doença.


Cefaleia

As propriedades vasoconstritoras da cafeína tem efeito analgésico, além de potenciar a ação dos medicamentos (paracetamol, ácido acetilsalicílico e ibuprofeno) usados no tratamento da dor de cabeça.
Conclusão:

O café é uma bebida estimulante e cada indivíduo deve buscar a dose diária que o satisfaça. A bebida deve ser vista como um alimento saudável que, consumida com moderação, não ocasiona problemas à saúde e pode até trazer benefícios.


Segundo a Organização Mundial da Saúde, “não há indícios de que o uso de cafeína cause dependência porque pesquisas em seres humanos não conseguiram encontrar qualquer ativação do circuito cerebral de dependência (sistema límbico) com a ingestão de cafeína”. Assim, o café não é remédio já é considerado como uma planta como funcional por possuir grande quantidade de polifenóis antioxidantes.




Referências:


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Débora Lopes Souto
Doutora em Ciências Nutricionais (2012-2015) e Mestre em Nutrição Humana (2010-2011) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Especialista em Nutrição Clínica (Associação Brasileira de Nutrição). Autora de livro, artigos científicos e trabalhos publicados em anais de eventos. Atende em consultório particular e atua como pesquisadora no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (RJ).
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