O texto Literário em Sala de Aula

O texto Literário em Sala de Aula
PEDAGOGIA
A escolarização do texto literário é algo que deve ocorrer, mas de forma adequada. É papel de a escola formar leitores, e isso requer um trabalho cuidadoso com a Literatura, além, é claro, dos outros tipos de leitura que não a literária.

O mundo que nos cerca é regido por uma série de valores e constituído de uma série de ideias, cuja discussão e conhecimento permitem nosso relacionamento com o real, a construção de nossa visão de mundo, a apreensão dos valores culturais vigentes na sociedade e o desenvolvimento de uma perspectiva crítica quanto aos aspectos, regras e princípios sobre os quais se constrói a realidade.

As experiências efetivas de sujeitos comuns que temos no contexto escolar contribuem para a nossa formação individual, em todos os aspectos. Assim, a formação do leitor também perpassa o ambiente escolar, sendo, pois, tarefa primordial da escola ensinar a linguagem verbal, nas modalidades, oral e escrita, seja na produção textual, seja na leitura e compreensão de textos.

Nesse campo, a escola tem realizado uma "prática" segundo a qual os alunos passam semanas copiando textos, e decorando listas de coletivos, superlativos, aumentativos, diminutivos, regras de acentuação e divisão silábica, ou classificando as palavras quanto à tonicidade ou ao número de sílabas. A insistência sobre esses tópicos ou sobre exercícios mecânicos de análise sintática jamais propiciará resultados positivos em produção e leitura de textos, pois o ensino gramatical exige uma mostra de como os mecanismos se apresentam ou funcionam no texto do aluno, além do raciocínio sobre o emprego das estruturas e construções linguísticas.

A leitura deve ser, pois, uma atividade comum a todas as áreas do currículo e ponto de origem da compreensão do mundo. É necessário que cada professor reaprenda o que é ler e pratique a leitura, produzindo o necessário entrelaçamento entre a leitura do mundo, a leitura do não verbal e a leitura da palavra falada e escrita.

Grande parte das produções da Literatura Infantil apresenta um caráter educativo, formador, e, assim, essas produções quase sempre se vinculam ao contexto escolar. Até mesmo Monteiro Lobato, em seu “A menina do nariz arrebitado” inseriu na capa do livro uma observação dizendo que se tratava de um ‘livro de leitura para as segundas séries’.

A indústria editorial tem explorado amplamente esse segmento, com infinitas publicações que deixam o professor até mesmo confuso na hora de escolher, tantas são as opções. Para evidenciar esse direcionamento da maior parte das produções da Literatura Infantil, à escola basta observar que muitos desses títulos trazem uma ficha de leitura com atividades propostas.

Assim, é fato que a Literatura infantil tem habitado, sobretudo, o ambiente escolar. Na correria da vida atual são poucos os pais que têm tempo livre para sentar-se em conjunto com seus filhos para ler histórias. O apelo televisivo também é muito forte, de maneira que, quando estão em casa, as crianças passam horas diante da televisão, sem contar as opções de jogos de videogame ou pela internet. A leitura acaba sendo uma atividade que os próprios pais deixam a encargo da escola.

Vale ressaltar aqui o papel fundamental que tem o ‘dar exemplo’. É sabido que a criança aprende ao ver o que os adultos fazem. Enganam-se quem pensa que uma criança aprende somente aquilo que ensinamos que nos propomos a falar, explicar. Ela está atenta a todas as situações da casa, da escola, dos amigos da família. E claro, ser um leitor exige espelhar-se em um leitor. Não é só da escola o papel de formar leitores.

Em casa a criança também precisa ter acesso aos livros, envolver-se na leitura com alguém que leia para ela. São momentos de carinho, em que a criança se sentirá segura, e que influenciarão o despertar do gosto pela leitura. Além disso, ver que outras pessoas estão lendo também ajuda, para sentir curiosidade de participar dessa ação. Essa é uma questão a ser pensada na escola também. O professor constantemente pede que as crianças leiam, mas não lê. Esse é um ponto fundamental na formação de professores. É necessário que o professor sinta-se como leitor, experimente os textos que irá trabalhar em sala de aula, coloque-se no papel de criança para entendê-la, claro, do ponto de vista de educador, facilitador do aprendizado.

A escolarização da literatura é algo que tem gerado polêmica. Não há como ter escola sem ter escolarização de saberes, conhecimentos, artes (SOARES, 2006, p. 20). A escola é o espaço por excelência do aprendizado, das metodologias, das disciplinas. Mas isso tudo deve ser pensado na perspectiva de adequação: as disciplinas devem ser trabalhadas em conjunto, interdisciplinarmente, e não fechadas; as metodologias devem ser atuais, e focar-se mais no aprender, que coloca a criança no centro da questão, e não no ensinar, que centraliza toda a ação no professor. Da mesma maneira, há que se pensar em uma forma adequada de se escolarizar a arte, e dentre as formas de arte, a Literatura.

A Literatura faz-se presente na escola em três instâncias: a biblioteca escolar; a leitura e estudo de livros de literatura; a leitura e estudo de textos durantes as aulas (SOARES, 2006, p. 22-23).

A biblioteca escolar deve ser de fato visitada, e, para isso, deve estar organizada. Há escolas que, infelizmente, utilizam a biblioteca como depósito de coisas diversas. Isso não pode acontecer, nem é preciso falar. Mas é possível reverter situações assim com bons professores. Propor uma visita semanal à biblioteca, deixar as crianças escolherem um livro para folhear, sentir, levar para casa, também são maneiras de incentivar a leitura.

A leitura e estudo de livros de literatura na escola configuram-se, quase sempre, em tarefa ou dever escolar. O livro é selecionado pelo professor, na maioria das vezes, o de Língua Portuguesa, é dado um prazo para a leitura, exige-se uma atividade que comprove a leitura. Enfim, essa leitura no contexto escolar diferencia-se da leitura por entretenimento, em que a única finalidade de ler é, tão somente, ler.

Mas a forma mais recorrente da presença da Literatura na escola é em formas de fragmentos que devem ser lidos e interpretados, presentes no livro didático. Além disso, esses excertos de textos literários nem sempre são utilizados para finalidade de leitura. São pretextos para o estudo de questões de gramática, de ortografia, ou simplesmente para a interpretação superficial, com questionários que exploram o texto de maneira simplista.

É desnecessário dizer que usar poemas para identificar substantivos, ou para encontrar encontros vocálicos, ou quaisquer outras determinações gramaticais, não está adequado à escolarização do texto literário. Perde-se o lúdico da poesia, o trabalho com a linguagem, a percepção poética, e, assim, também se perde o gosto em ler poesia.

Percebe-se, ainda, a recorrência dos mesmos autores, e das mesmas obras, não dando uma configuração do todo da Literatura. Isso limita a Literatura ao conhecimento de determinados autores e determinados textos, e, quando a criança não os domina, não sabe Literatura.

Com isso, muitas vezes ensinar Literatura na escola se resume a apresentar listas de autores, com suas respectivas obras, e o texto literário em si é relegado a um segundo plano, bem distante, aliás. O contato com o texto literário é fundamental. É assim, e somente assim, que se pode estudar Literatura. A compreensão do texto literário e o gosto pela leitura literária somente podem ser obtidos pelo contato com a Literatura em si mesma, e não pelos nomes, datas, títulos (sem texto), que a compõe.
Outro problema está no uso de fragmentos, os pedaços de obras. Evidencia-se nesse uso a falta de contextualização e de textualidade. Perde-se a noção de texto em sua unidade de sentido, que deveria ser percebida pelo leitor como um todo significativo e coerente.

O texto literário sai de seu suporte literário para habitar as páginas do livro didático, e em pedaços! Ler um livro de literatura é uma atividade totalmente diferente de ler um texto no livro didático. As finalidades são diferentes, a forma de contato é diferente, as sensações são diferentes. E, ainda, há casos em que não se mantém o texto literário em sua forma original, modificando-se a paragrafação, a versificação, ou outros aspectos que lhe compõe.

E, ao ser transferido do livro de literatura para o livro escolar, o texto literário não tem mais o objetivo de emocionar, divertir, dar prazer, surpreender; passa a ser um texto para ser estudado (SOARES, 2006, p. 43). Esse ‘estudo’ é característico da escolarização, e não há como não escolarizar o que está na escola. Mas é importante que se escolarize adequadamente, buscando no texto literário os aspectos que o compõe, enquanto Literatura, e não outras questões que seriam mais bem estudadas em outros suportes:

Os objetivos de leitura e estudo de um texto literário são específicos a este tipo de texto, devem privilegiar aqueles conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias à formação de um bom leitor de literatura: a análise do gênero do texto, dos recursos de expressão e de recriação da realidade, das figuras autor-narrador, personagem, ponto de vista (no caso da narrativa), a interpretação de analogias, comparações, metáforas, identificação de recursos estilísticos, poéticos, enfim, o ‘estudo’ daquilo que é textual e daquilo que é literário (SOARES, 2006, p. 43-44. Grifos da autora).

Todas essas prerrogativas resultariam em uma escolarização mais adequada do texto literário, ou, pelo menos, em uma tentativa de se escolarizar adequadamente a inevitável escolarização do texto literário.

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