Meu Parceiro, meu carrasco

Meu Parceiro, meu carrasco
PSICOLOGIA

 No mês de Junho mais um dia dos namorados foi comemorado e o ar romântico da data ficará na memória de muitas pessoas que se encontraram, presentearam e trocaram palavras carinhosas. Mas nem todas as pessoas se sentiram assim e os momentos que para elas seriam de felicidade, do nada, se transformaram em tristeza e lágrimas.



Ter um relacionamento com um homem de comportamento misógino é assim, você nunca sabe qual será o sentimento da vez. Quando você ama muito, sofre muito e não sabe o porquê de tudo isso. Todo relacionamento com uma pessoa assim é como viver constantemente em uma verdadeira montanha-russa emocional. Quando você atende o telefonema do seu parceiro você nunca sabe o que te espera do outro lado da linha.




Misógino é uma palavra grega utilizada como referência a quem odeia mulheres: miso (odiar) e gyne (mulher). Mas no caso em questão, esse comportamento é destrutivo e dirigido exclusivamente a parceira e não a todas as mulheres. Socialmente ninguém sabe como ele realmente é e como se comporta com quem diz amar.


De acordo com a Dra. Susan Forward e Joan Torres, autores do livro “Os homens que odeiam suas mulheres e as mulheres que os amam. Quando amar é sofrer e você não sabe por quê”, você está envolvida com um misógino quando acontecer várias das situações abaixo no seu relacionamento:


- Seu companheiro controla a sua vida e acredita que tem todo o direito de fazer isso;
- Você deixou de lado atividades que gostava e se afastou de pessoas importantes em sua vida;
- Ele grita, ameaça ou ignora com um silêncio insuportável quando é contrariado;
- Você vive “pisando em ovos” e controlando suas falas e ações para não irritá-lo;
- Ele menospreza suas opiniões, sentimentos e conquistas;
- Ele a confunde ao passar de um comportamento amável ao raivoso de forma inesperada;
- Ele é extremamente ciumento e possessivo;
- Você se sente constantemente confusa, inadequada ou até mesmo desequilibrada com ele;
- Ele a culpa por tudo de errado no relacionamento.


Inicialmente o misógino é um ser encantador, podendo ser daqueles tipos que mandam flores, escrevem poesias, fazem surpresas invejadas por todas as suas amigas. Ele conquista a mulher de uma forma rápida, atendendo todas as suas expectativas de carinho e atenção e com isso fica quase que impossível atribuir a ele a culpa e a responsabilidade quando os problemas começam a aparecer. O homem vai, aos poucos, ganhando terreno na relação e vendo o quanto pode controlar e manipular sua companheira. Esta em contrapartida evita reclamar e desagradá-lo para preservar a relação e com isso vai enfraquecendo enquanto ele vai dominando sua vida.

Esse controle começa a ser mostrado quando as palavras se tornam ofensivas, carregadas de críticas e julgamentos, chegando até ao controle da sexualidade e financeiro. E por mais que a mulher queira agradá-lo, tudo o que ela faz é errado, e o pior, ele a convence de que ela é a única culpada. Todos os seus argumentos são tão lógicos e tão preocupados com o bem da relação que a mulher realmente acredita ser responsável por tudo que dá errado. Tudo o que ele quer é que ela se esforce mais, demonstre mais amor, seja compreensiva, atenda suas necessidades e nunca se aborreça com ele.


Ele pode mudar de um momento de explosão para o profundo arrependimento, voltando a ser aquela pessoa encantadora do início do relacionamento em que você acreditava que te completasse em todos os aspectos que sempre sonhou. Consegue passar da agressividade ao choro arrependido de um instante ao outro. O seu discurso muda das severas críticas as promessas de que tudo vai mudar, pois não aguentaria viver sem o seu amor. Esse tipo de homem fica procurando motivos o tempo inteiro para minar a relação e colocar a culpa na parceira. Ele sofre por esse motivo que ele mesmo acredita existir e se convence de que precisa responsabilizá-la e fazê-la sofrer ainda mais por ter feito isso.



Mas você pode estar pensando: “Até parece que eu me deixaria me manipular dessa maneira!”, mas ele tem todo um repertório de argumentos, táticas e armas para oprimir suas parceiras. Podem acontecer através de comportamentos intimidativos, gritos, ameaças, acessos de raiva, insultos, mudanças bruscas de comportamento, críticas constantes e até fazer ameaças implícitas de danos físicos. Mas na maior parte do tempo seus comportamentos são motivados por forças que estão além da percepção consciente.


Ele usa e abusa da violência verbal e essas agressões verbais podem devastar a saúde mental quando usada de forma prolongada. A pressão psicológica constante provoca uma destruição emocional imensa em quem recebe, deixando cicatrizes para a vida inteira. Suas palavras sempre possuem um ar de ensinamento para tornar a mulher uma pessoa melhor, mas não importa o quanto ela mude, nunca será o suficiente e ainda por cima continuará sendo a errada e culpada por tudo.



Como os misóginos oprimem suas parceiras:
- Através da negativa;
- Através da alteração dos fatos;
- Alega que seu comportamento é um reflexo dos erros da parceira;
- A mulher não pode reagir, pois ele fica mais furioso e encara tudo como ataque pessoal, provando o quanto ela é inadequada dentro daquele contexto;
- Se o misógino se sente ameaçado de perder algo importante, pode tornar-se bruto, pois através do medo poderá controlar melhor a parceira.

A vida a dois torna-se o foco de tudo e a mulher tem que viver em função de agradar o seu homem. Para isso precisa renegar suas vontades, engolir o choro, desistir de sonhos, afastar pessoas, ignorar seu sofrimento e pode até chegar a acreditar que está ficando louca, pois por mais que esteja convencida pelo outro de que tudo vai mal porque ela não é boa o suficiente, também não consegue ver que tamanha deficiência é essa que possui.



É uma situação desesperadora, intrigante e totalmente fora do seu controle, pois nada que faça será o suficiente. E outro aspecto que pode ajudar a acreditar que está ficando louca é que socialmente, na frente das outras pessoas ele é um ser absolutamente diferente. Ninguém diria que te trata desta maneira. Caso reclame dele para os outros, também é culpada por gostar de se fazer de vítima e de fazer os outros pensarem mal dele.




Dessa forma, para a mulher tornar o relacionamento menos doloroso ela se anula, perde a noção do que realmente está acontecendo entre os dois e acaba perdendo também a sua própria identidade, pois passa a ser o que o outro quer que seja. O misógino a faz acreditar que tudo o que ela faz está errado, que ela não se esforça o bastante pelo bem da relação, que não o ama, que dá motivos para as brigas e que não é boa o suficiente para ele. O pior de tudo é que ele pode acabar te convencendo de que é isso mesmo. Ele te trata como “lixo” e você pode acabar acreditando que é mesmo e passar a se ver e a se tratar como tal.



É um esgotamento emocional tão intenso e implacável que nem se consegue ter tempo de se fortificar para a próxima briga. É preciso ver como sinal de alerta de que as coisas não estão normais, quando você se acostuma com o sofrimento e vive em função de doar muito mais de si, em troca de momentos esporádicos de paz. Que a sua vida se tornou uma busca constante de tentar fazer o outro feliz.



Este tipo de relação conturbada pode trazer a mulher perdas significativas em sua autoestima, problemas de sono, depressão, síndrome do pânico, problemas alimentares, isolamento e problemas com álcool e drogas. Apesar do misógino ser visto como vilão e a mulher como a vítima, ela também contribui para que esse comportamento aumente e se repita quando não coloca limites, não estabelece regras, se anula e se deixa levar pensando em algo maior que é o seu sentimento por ele. O outro só vai até onde você o permite ir. Se ele chegou até esse ponto é porque você foi conivente tempo demais, seja por medo ou seja por amor. Na maioria das vezes, o primeiro pensamento que vem é de que tudo vai passar, é apenas uma fase e ele voltará a ser “aquele” que a conquistou.

Uma mulher que vive essa situação precisa quebrar esse padrão e pode:
- Continuar submissa para manter seu relacionamento;
- Separar-se;
- Construir uma nova relação com o mesmo homem.



Se escolher manter a relação precisará se fortalecer, resgatar sua autoestima, estabelecer limites, reassumir sua própria vida, se posicionar diante do seu parceiro e assumir o seu papel no relacionamento e para isso, provavelmente, precisará de ajuda terapêutica, pois ficará muito pesado fazer toda essa “reestruturação emocional” sozinha.


Com isso pode acontecer que a medida que ela se fortaleça e comece a conquistar seu objetivo, o misógino desista de aterrorizá-la para ficar ao seu lado ou desista da relação. Se ela realmente sente que o ama, terá que primeiramente amar a si mesma, para aguentar e ter coragem de correr o risco de perdê-lo nesse processo. Afinal, é quase inadmissível para ele perder o controle.



Porém, raramente o misógino busca terapia e se começa o acompanhamento, assim que se fortalece abandona o processo. Ele acredita que quem tem culpa de tudo é o outro e é muito difícil de entrar em contato com seu interior e perceber que constrói a maioria das dificuldades na relação, que é extremamente carente de amor e reconhecimento, e o mais difícil, admitir que é o único responsável por sua felicidade.



Nesses casos a mulher precisa amar primeiramente a si mesma mais que ao outro, tanto para não se deixar envolver em um tipo de relação como essa, como para ter forças para sair dela caso esteja vivendo esse tipo de situação. Se anular em nome do outro não é sinônimo de relacionamento saudável.


Sugestões de Leitura:
FOWARD, S; TORRES, J. Homens que odeiam suas mulheres e as mulheres que os amam. Quando amar é sofrer e você não sabe por quê. Editora Rocco, 1994.
DELAHAIE, P. Amores que nos fazem mal. Larousse, 2005.



Referência Bibliográfica
FOWARD, S; TORRES, J. Homens que odeiam suas mulheres e as mulheres que os amam. Quando amar é sofrer e você não sabe por quê. Editora Rocco, 1994.
GRANATO, B, M, R. Armas que um misógino tem para oprimir suas parceiras. Disponível em: <http://www.stum.com.br/clube/artigos.asp?id=18892>. Acesso em: 10 de Jan. 2011.
GRANATO, B, M, R. Relacionamentos conturbados: misoginia. Disponível em: <http://somostodosum.ig.com.br/clube/artigos.asp?id=18146>. Acesso em: 10 de Jan. 2011.
NEMI, S. Comportamento/Misógino: Relações amorosas conturbadas. Disponível em: <http://www.portalmulher.net>. Acesso em: 19 de Jan. 2011.

Patrícia Oguma
Psicóloga Clínica graduada em Psicologia Licenciatura Plena e Formação do Psicólogo, atua hoje em consultório particular na Cidade de Santo André, na região do ABC Paulista. Graduada também em Comunicação Social, com ênfase em Publicidade e Propaganda e formada no curso de Magistério. Pós graduanda em Neuropsicologia na FMABC.
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