História da Tradução e da Interpretação

História da Tradução e da Interpretação
IDIOMAS
Os processos de tradução e da interpretação não constituem atos da contemporaneidade como muitos imaginam. Pesquisadores nos contam que, embora relacionemo-las aos movimentos pós-guerra, a qual imaginaria a interpretação simultânea, esta já era praticada desde o Egito Antigo e do Império Romano quando da utilização nas línguas orais. Isto se constata em documentos datados de três mil anos antes de Cristo, cuja escrita em "baixo-relevo egípcio no túmulo de um príncipe que faz referência a um supervisor de intérpretes. (...) Esta atividade estava essencialmente ligada a Administração Pública." AP | PORTUGAL (2012). As atividades praticadas pelos tradutores e intérpretes continuaram inalteradas durante séculos que antecederam a Idade Média, período que a língua francesa predominava como língua dos nobres nos negócios e nas relações internacionais. Somente em 1919, após a Conferência de Paris deixaria de sê-lo, visto que políticos exigiam a implantação do multilinguismo, dada às aberturas comerciais com países anglo-saxônicos e demais de origem diversas favorecendo a língua inglesa.

As práticas de tradução e da interpretação aconteciam em mosteiros, concílios e sinagogas, já que naqueles espaços haviam cristãos advindos de toda parte do mundo para desenvolverem sua formação teológica. Esta prática favoreceria as relações mercantis, internacionais, diplomáticas e ações militares que exigiam forças armadas de diferentes países que seguiam em missão de paz e/ou guerra; reestruturação de países em momentos pós-guerra. Ainda citado por AP | PORTUGAL (2012), nesse período: " (...) Cristóvão Colombo constatou que o seu intérprete de árabe e hebreu de pouco lhe serviu para comunicar com os índios. Consequentemente, e após essa primeira viagem, ele decide capturar alguns índios e ensinar-lhes o espanhol para que lhe pudessem ser úteis como intérpretes na expedição seguinte. O mesmo aconteceu com espanhóis que estiveram presos pelos índios e que aprenderam a língua e os costumes deles, servindo depois também de intérpretes." Tal fato nos remota as primeiras ações que nos levará ao estudo e formação do tradutor e da tradução - intérprete/interpretação: que o é e como se forma o profissional dessa área, tema oportuno para outro momento de discussão mais adiante.

É importante salientar que antes desse movimento utilizava-se o gesto e mímica quando a língua oral era inoperante e a figura do tradutor/intérprete inexistia. Situações dessa natureza criariam a personagem da tradução e da interpretação, mas sem nenhum cunho acadêmico, bastava que detivesse a técnica conhecesse a língua podendo migrar de uma para a outra com pouca dificuldade, sendo ainda esta atividade de caráter voluntário. Passados anos e dados os avanços mercantis e o surgimento de organismos internacionais há necessidade de aperfeiçoar as estratégias da tradução e da interpretação, ocasião que surge a Interpretação Simultânea, cuja proposta implicava na interpretação palavra por palavra o que implicava numa reprodução fiel dos termos, sem a menor preocupação semântica e/ou pragmática das ideias, uma vez que nesta metodologia nenhuma reflexão por parte do tradutor intérprete é permitida, já que toda tradução é automática e em seguida ao pronunciado pelo expositor. Na perspectiva de melhorar a ação interpretativa, a Interpretação Consecutiva surge como alternativa a não funcionalidade da Interpretação Simultânea, visto que esta teoria traria algumas implicações de desordem comunicacional junto as Pessoas e as organizações.

Todavia, a Interpretação Consecutiva apresentava outra situação complexa, dessa feita, o tempo seria o problema, afinal, quando, quanto e como deveria interferir o intérprete nos discursos dos envolvidos parecia à questão da época e acredita-se que até os dias atuais esta seja uma excelente reflexão para aqueles que a usam como modelo amortizador nos processos Inter comunicacionais. Apesar das eternas e profundas discussões, a interpretação Simultânea é definitivamente aceita como modelo operacional. Isto porque aproxima também as relações interculturais e exige mais competências e habilidades profissionais do tradutor intérprete, sendo modelo adotado por respeitados organismos mundial. Concernente a prática de interpretação de língua de sinais, são praticamente inexistentes registros que identifiquem as primeiras ações, dadas histórias difusas a este respeito. Pereira (2008) afirma: "(...). Historicamente não é possível rastrear o exato momento em que os intérpretes começaram a atuar, mas é plausível imaginar que desde que povos de diferentes línguas mantiveram contato houve, também, a necessidade de intérpretes. No caso das pessoas surdas, existem hipóteses de que a interpretação surgiu no meio familiar foi, aos poucos, se estendendo aos professores de crianças surdas e ao âmbito religioso.

Com o passar do tempo, o fortalecimento dos movimentos sociais e políticos das comunidades surdas e o reconhecimento legal das línguas de sinais surgiu, finalmente, o ILS profissional." (Pereira, 2008, p. 138) Isto por si só basta para que se abram campos de discussão e grupos de trabalhos sobre a História da Interpretação e da Tradução da Língua de Sinais no Brasil e no mundo. Tradução ou Interpretação Neste cenário da tradução e da interpretação gera uma inquietação sobre o fazer do profissional intérprete de língua de sinais. O que este realmente faz? Tradução, interpretação, ambos? Em palavras precisas, ainda segundo Pereira (2008, p. 136), assim as distingue: "(...) tradução é o termo geral que se refere a transformar um texto a partir uma língua fonte, por meio de vocalização, escrita ou sinalização, em outra língua meta. A diferenciação é feita, em um nível posterior de especialização, quando se considera a modalidade da língua para qual está sendo transformado o texto. Se a língua meta estiver na modalidade escrita trata-se de uma tradução; se estiver na modalidade vocal (também chamada de oral) ou sinalizada (presenciais ou de interação imediata), o termo utilizado é interpretação." Pereira (2008, p. 136).

Nesta mesma perspectiva se encontrou outro conceito que também distingue estas ações: (...) Quem é o Intérprete: Pessoa que transmite o que foi dito de uma língua (língua fonte) para outra (língua alvo). Quem é o Tradutor: Pessoa que traduz de uma língua para outra. Refere-se ao processo envolvendo pelo menos uma língua escrita. “Assim, tradutor é aquele que traduz um texto escrito de uma língua para a outra (seja ela escrita ou oral).” (...). FADERS, 2012. Desse modo, a interpretação é o termo mais adequado quando se refere às línguas de sinais, salvo quando estes estiverem escritos. Esta ação é executada pelo intérprete de língua de sinais, que no caso do Brasil podemos denominá-la de LSB ou LIBRAS. Este será responsável por interpretar a mensagem de uma dada língua para a língua de sinais e vice-versa, sem perder o seu sentido original. Ressaltando que a interpretação entre duas línguas é bidirecional, como uma via de mão dupla, segundo concepções da FADERS (2012) e envolve atos cognitivo-linguísticos, sócio educacional e cultural, como atenção, percepção, memória, raciocínio, juízo, imaginação, pensamento e linguagem. Intenções comunicativas específicas/línguas diferentes. É extremamente importante que o interprete esteja envolvido nas interações comunicativas do grupo a ser interpretado, tanto no âmbito sociocultural, como sócio educacional e de entretenimento. Ainda como característica funcional deverá processar informações dadas na língua fonte e fará escolhas semânticas e sintáticas, a todo o momento, para que seus interesses atinjam a língua alvo. Mas, sobretudo, atentar e reconhecer que a modalidade e/ou canal de comunicação entre a língua de sinais e a língua oral são muito diferentes - Oral-Auditivo versus Sinal-Visual. Em síntese, o intérprete de língua de sinais deverá conhecer e cumprir as exigências do Código de Ética, onde os itens a seguir são os mais importantes: confiabilidade (sigilo), imparcialidade (neutro), discrição (limites na atuação), fidelidade (fiel as informações). (Quadros, 2004, p. 31 - 41). Metodologias e Classificações. As práticas de tradução e de interpretação são as mais variadas e cabe ao profissional desta área eleger a que mais condiz ao bom desenvolvimento do seu trabalho, reconhecendo suas habilidades e capacidades intrínsecas.

Entre as metodologias podemos citar: - Tradução Científica, cujo objetivo é validar legalmente um documento oficial atribuindo-lhe uma certificação junto a órgãos representativos; - Tradução Técnica que requer conhecimentos especializados numa determinada área do conhecimento humano; - Tradução Simultânea é a mais frequentemente utilizada e apresenta, em dados momentos uma interpretação não precisa, uma vez que esta é desenvolvida palavra por palavra e, muitas vezes corre-se o risco de comprometer o contexto real de determinada expressão interpretada pela perda e/ou omissão de sinais definitivos; - Tradução Consecutiva é praticada após a compreensão do texto e do contexto pelo intérprete. No primeiro momento ele entende o que esta sendo posto e só posteriormente traduz todo o discurso. Nesta técnica são usados sistemas de escrita da informação como mecanismo de fidelidade, confiabilidade e transparência; - Interpretação Sussurrada também chamada de chuchotage é realizada ao próximo ao ouvido e, quando surdo/cego que apresenta resíduos auditivos ou usa tadoma como sistema preferencial de acesso a informação e/ou aquele que compreende a comunicação através da vibração das cordas vocálicas do guia-interprete; - Interpretação de Liaison conhecida também por Community Interpreting (AP | PORTUGAL, 2012) ou Acompanhantes ou de Trâmites (Pereira, 2008) é aquela realizada indiretamente pelo interprete que acompanha uma comitiva estrangeira a outras comunidades para fechamentos de acordos, tratados e/ou outros que necessite de interpretação.

Atuação nesta área requer do intérprete conhecimentos profundos sobre a língua oficial daquele grupo social, bem como seus hábitos, costumes e suas culturas; - Interpretação de Relay "(...) é outra designação para interpretação indireta, por exemplo, ao invés de efetuar a tradução diretamente da língua de partida para a língua de chegada, o intérprete pode trabalhar a partir da tradução simultânea de outro colega. A utilização da interpretação relay pode-se justificar em conferências onde muitas línguas sejam faladas e nas quais alguns intérpretes não dominem todas essas línguas, e ainda em casos onde esteja presente um interlocutor que fale uma língua mais exótica ou rara." (AP | PORTUGAL, 2012) Pode-se afirmar que as metodologias são aplicadas a interpretação de língua de sinais, cabendo relembrar apenas que esta é caracterizada pela condição visual-espacial.

Vale ressaltar que, segundo, o mapeamento apresentado por Williams & Chesterman (2002) "o 'território da tradução' tem 12 (doze) áreas, que contemplam a área 'Interpretação' - Área 9 - estabelecida e consolidada no campo disciplinar Estudos da Tradução." Observa-se ainda que "interpretação", enquanto ramo consolidado dos Estudos da Tradução, é citada em 07 (sete) das 27 (vinte e sete) subáreas: (4) Interpretação para a Comunidade/ Interpretação de Diálogo/ Interpretação para Serviço Público; (5)Interpretação Simultânea e de Conferência; (8) Interpretação Legal e Jurídica; (10) História da Tradução e Interpretação; (12) Estudos de Interpretação; (18) Interpretação de Línguas Sinalizadas; e (27) Formação de Tradutor e Intérprete. (Idem, 2002). O Intérprete, o Reconhecimento Profissional e seu Locus de Atuação. A profissão de tradutor e intérprete da Língua Brasileira de Sinais foi regulamentada pela Lei nº 12319, de 01 de setembro de 2010, sendo classificada sob o código 2614 - Filólogos, tradutores, intérpretes e afins da CBO - Classificação Brasileira de Ocupações de 2006. Isto favoreceu a atuação deste profissional. Entretanto, não supre particularidades de determinadas áreas sociais que sofrem pela ausência de intérpretes especializados como no caso da saúde, do judiciário, da militar e da própria educação. Tratando-se desde último, em especial, há organismos que criaram a figura do professor-intérprete.

Ora, ou ele é professor ou é intérprete. Todavia, esta personagem também não resolve a dificuldade do aluno surdo e da sua família no âmbito da educação. Nesse sentido, o intérprete educacional existirá e será co-parceiro do professor no desenvolvimento psicossocial, cognitivo e linguístico da criança surda que, na perspectiva da educação inclusiva, estará em sala de aula juntamente com alunos ouvintes ou numa escola bilíngue, onde possam propiciar trocas linguísticas em língua de sinais e língua portuguesa concomitantemente. Isto caberá ao sistema organizar, de modo que favoreça a Comunidade Surda, incluindo aqui todos os que estão envolvidos no processo de inclusão sócio educacional da pessoa surda e não somente pais, poucos professores e alguns curiosos, mas aqueles que militam historicamente na causa da surdez. Conclusão Não resta dúvida que a real função do Intérprete de LIBRAS gerará inúmeras indagações, pois a história deste profissional tem marco inicial neste século e é uma História que se sente orgulho em construir, uma vez que pesquisas contemporâneas nesse sentido alterarão todo o cenário futuro do seu real papel profissional. Este artigo trouxe uma reflexão inicial sobre o tema dada a insuficiência de obras clássicas no Brasil que o abordem e dada à singularidade das discussões. Portanto, caberá a coletividade, em especial a Comunidade Surda e aos profissional intérpretes oriundos dos cursos técnicos e superiores ora existentes no Brasil distingui o que melhor lhe convém. O perfil profissional do intérprete que melhor supra a necessidade comunicacional e propicie a sua acessibilidade linguística nos mais diversos campos sociais.


REFERÊNCIAS
BRASIL. RS. Secretaria da Justiça e dos Direitos Humanos. Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas Portadoras de Deficiência e de Altas Habilidades no Rio Grande do Sul - FADERS. Tradução e Interpretação em Libras. Disponível em: http://www.faders.rs.gov.br/portal/index.php?id=servico&cat=21&cod=28. Acesso em 09.06.2012. BRASIL.MEC. Instituições de Educação Superior e Cursos Cadastrados. Disponível em http://emec.mec.gov.br/. Acesso em 09.mai.2012. ____________ . Cadastro Nacional de Cursos Técnicos de Nível Médio. Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (SETEC) - Brasília: SETEC, 2012. BRASIL.SITEC. Guia Pronatec de Cursos FIC. Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (SETEC) - Brasília: SETEC, 2011. FELIPE, Tanya A. O que é o ProLibras?. disponível em http://www.feneis.org.br/page/prolibras.asp. Acesso em 12.jun.2012. PEREIRA, Maria Cristina Pires. Interpretação interlíngüe: as especificidades da interpretação de língua de sinais. Disponível em: http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/viewFile/8231/7587. Acesso em 09.jun.2012. QUADROS, Ronice Müller de. O tradutor e intérprete de língua brasileira de sinais e língua portuguesa / Secretaria de Educação Especial; Programa Nacional de Apoio à Educação de Surdos - Brasília: MEC; SEESP, 2004. www.niee.ufrgs.br/pubicações/artigos/da_ribie. Acesso em 20/05/2012. WILLIAMS, Jenny & CHESTERMAN, Andrew. The Map - A Beginner´s Guide to Doing Research in Translation Studies, 2002. Autores: JOSÉ FLÁVIO DA PAZ Doutorando em Educação-WIU/USA; Hab. em Língua Portuguesa-Unifap; Bal em Letras/Libras-UFSC; Especialista em Arte, Educação e Tecnologias Contemporâneas; Especialista em Psicopedagogia Institucional; Especialista em Educação Inclusiva-Unicid; Especialista em Educação Inclusiva, Especial e Políticas de Inclusão-UCAM/PROMINAS. Professor e Coordenador do curso de Especialização em Libras da Faculdade Estácio do Rio Grande do Norte. Pesquisador do GT: Crítica Textual e Edição de Textos UERJ/CNPq. http://lattes.cnpq.br/5717227670514288. NÉSTOR RAÚL GONZÁLEZ GUTIÉRREZ Doutorando em Educação-WIU/USA; Licenciado em Educação com ênfase em Educação Especial-UPN/Colômbia; Especialista em Libras - Faculdade Estácio do Rio Grande do Norte; Cursando Especialização em Neurociências - Faculdade Estácio do Rio Grande do Norte. Intérprete de Sinais Colombianos. Pesquisador de Língua de Sinais, inclusão, diversidade, linguística aplicada, tradução/ interpretação e educação carcerária. http://lattes.cnpq.br/9094524647914374.

José Flávio da Paz
Professor de Português e Filosofia; Bacharel em Letras/Libras e Licenciando em Física; Especialista em Arte, Ed. e Tecnologias Contemporâneas; em Ed. Inclusiva, Especial e Políticas de Inclusão e em Psicopedagogia. Doutorando em Educação. Coord. de Cursos de Pós graduação e Dir. Geral do CEFOP/FAPAZ.
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