Doenças sexualmente transmissíveis na terceira idade

Doenças sexualmente transmissíveis na terceira idade
PSICOLOGIA
As doenças sexualmente transmissíveis na terceira idade passaram a ser um problema de saúde pública no Brasil. Com a melhoria da qualidade de vida e sexual na velhice, cada vez mais este grupo torna-se vulneráveis a estas doenças. A falta de uma equipe de saúde mais humanizada e voltada para esta realidade vivenciada na velhice, também contribui para que este grupo não procure orientação ou apoio por vergonha do julgamento devido à idade.

Para Cezar, Aires e Paz (2012, p. 746), o aumento progressivo de números de casos de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) em especial pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) entre pessoas com idade de 50 a 70 anos, está relacionado com a falha do pensar e agir dos profissionais de saúde quando o assunto é sexualidade das pessoas idosas. Segundo esses autores, a sexualidade na terceira há muitos anos foi negada e/ou anulada, devido aos valores e às normas socioculturais.

Oliveira e Dias (2009, p. 13) relatam que em outra época não era comum o uso da camisinha ou da camisa de Vênus, como chamavam o preservativo. A utilização era restrita e limitada aos frequentadores de cabarés e “casas de conveniência”. As pessoas tinham vergonha de ir à farmácia adquirir o preservativo, a distribuição gratuita em posto de saúde inexistia e as doenças sexualmente transmissíveis mais comuns daquela época eram outras e tinham cura.

Os costumes sociais também têm contribuído para manter uma compreensão restrita, tanto em relação à sexualidade quanto à velhice, considerando esta fase como assexuada. A expectativa que a sociedade tem em relação aos idosos é que assumam os papéis de avós e deixem de lado a sua própria expectativa e interesse pessoal, tornando-se chefes do acolhimento da família (JUNQUEIRA, 2012, p. 98).

Segundo Leite, Moura e Berlezi (2007, p. 2), no Brasil verifica-se que há progressiva elevação no número de casos notificados de Aids, havendo um aumento significativo nos últimos anos entre a população que se encontra na faixa etária superior a 60 anos de idade quando comparada à classe jovem.

Para Leite, Moura e Berlezi (2007, p. 2), a participação dos idosos em grupos de terceira idade, principalmente em bailes, favorece a maior ocorrência de encontros afetivos, aumentando a possibilidade de o idoso continuar exercendo sua sexualidade. Essa situação pode ser favorável, mas pode também possibilitar contato mais íntimo que podem ocasionar a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis.

As medidas de precaução em relação ao sexo em geral, como o uso de preservativos, principalmente nas mulheres, estão voltadas intencionalmente para evitar uma gravidez indesejada. Neste caso, como a gravidez/concepção na terceira idade deixa de ocorrer, a atividade sexual passa a acontecer sem nenhuma precaução/prevenção (LEITE; MOURA; BERLEZI, 2007, p. 2).

Moreira et al. (2012, p. 804) explicam que o aumento de novos casos de DSTs em idosos, inclusive do vírus HIV/Aids, pode ser também devido ao fato de que em outras épocas a população idosa não tenha adquirido o hábito de lidar com métodos de prevenção e não se sentem vulneráveis às doenças sexualmente transmissíveis. Além disso, este aumento também pode ser explicado pela falta de campanhas de prevenção para este grupo, pois ainda se tem a visão de que a sexualidade já não faz parte desta fase da vida.

A terceira idade tornou-se um grupo vulnerável ao HIV/Aids. O “não se sentir ameaçado” pelo vírus demonstra quase sempre maior resistência ao uso de preservativos principalmente nos idosos que foram ou são usuários de drogas injetáveis. Este grupo possui a convicção de ser mais resistente ao HIV/Aids, por isso a descoberta da doenças nestes indivíduos sempre é tardia, e o nível de disseminação para outros indivíduos é desastroso (REZENDE; LIMA; REZENDE, 2009, p. 237).

Em relação ao conhecimento de pessoas idosas sobre as ações preventivas para as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), o estudo de Cezar, Aires e Paz (2012), envolvendo 94 pessoas com idade igual ou superior aos 60 anos, demonstrou que a maioria sabia como evitar as doenças, mas não tinham recebido as orientações sobre a sexualidade e a prevenção dessas doenças. Neste caso, os autores também constataram que a maioria dos idosos entrevistados não possuía informação detalhada sobre as DSTs, tendo conhecimento apenas do uso dos preservativos (Tabela 10 e 11).

O uso do preservativo para pessoas acima de 50 anos é seis vezes menor do que na população mais jovem. Esta predominância pode ser explicada pelo fato de a mulher idosa na pós-menopausa já não sentir ameaçada com o risco de uma gravidez indesejada, pelo fato do preconceito quanto ao uso de preservativo pelos homens mais velhos, e/ou também pela visão dos próprios idosos que pensam que em razão da idade estariam num grupo de “baixo risco” (REZENDE; LIMA; REZENDE, 2009, p. 246).

Os preservativos, feminino e masculino, são métodos contraceptivos do tipo barreira e servem para impedir a transmissão do HIV/AIDS e diminuir o risco de contaminação de diversas DSTs. Deve ser utilizado durante todo o ato sexual, inclusive nas preliminares, para evitar que gotículas do esperma possam entrar em contato com o(a) parceiro(a), na genitália, ou no caso de sexo oral, com a mucosa da boca. Reforça-se a necessidade do preservativo ser colocado antes de iniciar a penetração e retirado depois da ejaculação, antes que o pênis perca a ereção devido à possibilidade de derramar no parceiro(a) o líquido existente na camisinha. Na mulher, o preservativo só deve ser retirado após o fim da relação sexual, devido à necessidade de barreira contra as DSTs (JUNQUEIRA et al., 2012, p. 98).

Um alerta importante no estudo de Carret et al. (2004, p. 83) em relação à transmissão de DSTs em casais é que “viver com companheiro fixo não é um fator protetor dessas doenças”. Segundo estes autores, vários estudos têm questionado o fato de os casais/cônjuges não serem considerados de risco, pela ideia que trazem da relação sexual nesta situação acontecer somente com o parceiro “fixo”. Pessoas que têm companheiro em geral não são consideradas de risco pelos serviços de saúde, fazendo com que este grupo não se previna e fique mais vulnerável às DSTs.

A modificação do perfil do idoso da atualidade devido à contribuição das inovações terapêuticas como o Viagra e as terapias hormonais tem promovido uma melhor qualidade de vida sexual para este grupo Luzia (2008 apud OLIVEIRA e DIAS, 2009, p. 5). Outras contribuições que tem mudado o perfil da terceira idade é a migração deste grupo para centros urbanos, acesso ao serviço de saúde, atividade de esporte/lazer e maior convívio em grupos.

Um dos desafios da prevenção segundo Moreira et al. (2012, p. 804), é fazer com que a pessoa idosa perceba sua vulnerabilidade. A necessidade de inserir o idoso nas discussões vinculadas a DSTs e a falta de políticas públicas e de ações assistenciais e educativas pelos profissionais de saúde é uma questão que precisa ser trabalhada.

As campanhas brasileiras de prevenção falham por não ocorrerem o ano inteiro, elas são pontuais, pois são realizadas durante o carnaval, perto das comemorações do dia mundial da luta contra a AIDS (1º de dezembro), e no dia dos namorados. E é difícil elaborar uma campanha com uma linguagem universal, que consiga transmitir maciçamente uma mensagem direta a maior diversidade da população: homossexuais, usuários de drogas injetáveis, prostitutas, donas de casa, adolescentes, pessoas com problemas mentais, moradores de rua, idosos, entre outras. Essas campanhas massivas de épocas não são suficientes para mudar comportamentos. Elas simplesmente chamam atenção sobre determinada questão ou problema e, quase sempre, funcionam durante um período determinado não sendo consistente no tempo. São necessárias outras ações de nossa sociedade que se configurem como desafios a serem pensados e realizados (RAXACH, 2008 apud OLIVEIRA e DIAS, 2009, p.7).

Uma educação mais abrangente sobre a sexualidade com programas e políticas que promovam o sexo seguro com igualdade de gênero, idade, raça, etnia é fundamental para que a prevenção da DSTs aconteça. Dessa forma as políticas, programas e também os profissionais deixariam de ver a doença como o principal foco da saúde, passando a ter uma visão de que o processo de prevenção igual para todos é uma importante ferramenta no controle e disseminação da infecção (OLIVEIRA; DIAS, 2009, p. 12).

Colunista Portal - Saúde
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