Autismo e Funções Neuropsicológicas: Memória, Função Executiva e Atenção

Autismo e Funções Neuropsicológicas: Memória, Função Executiva e Atenção
PSICOLOGIA
AUTISMO E FUNÇÕES NEUROPSICOLÓGICAS
Autores:

Tatiana Barbosa Soares1
Fernanda Garcia Perez2

Resumo
O objetivo deste estudo é fazer um sintético apanhado teórico sobre o Autismo, abordando três funções neuropsicológicas: memória, função executiva e atenção. O tema foi aprofundado através do estudo de caso de M.C, Autista, do sexo feminino, 31 anos de idade. Utilizaram-se os seguintes instrumentos de avaliação: Figuras Complexas de Rey, Teste de Atenção Concentrada, Bateria Luria de Testes Neuropsicológicos e Torre de Hanói. A partir dos resultados obtidos, foi possível inferir que os conteúdos pesquisados mostram-se congruentes com a observação prática, destacando o comprometimento da área frontal em Autistas. Os resultados suscitaram a importância da continuidade da pesquisa com maior aprofundamento, principalmente no que diz respeito a amostra utilizada, proporcionando, assim, a possibilidade de tomada de conclusões.

Introdução

O primeiro estudioso a utilizar a palavra Autismo foi Eugen Bleuer, em 1911, para denominar características de esquizofrênicos. Em 1943, Léo Kanner, psiquiatra infantil austríaco, estudou o assunto e publicou uma pesquisa em que observou 11 crianças com demasiado isolamento, dificuldade de relacionamento interpessoal e apego à rotinas. A partir disso criou o conceito de "mãe geladeira", trazendo que Autistas possuíam mães com contato afetivo frio e automatizado.

Mesmo que, atualmente, se saiba que a teoria de Kanner estava equivocada, ainda é muito comum observamos a responsabilização das mães acerca do Transtorno Autista de seus filhos (SILVA, 2012).

A origem da palavra Autismo provém do grego "autos" que tem por significado "voltar-se para si mesmo". Tem por definição tratar-se de um Transtorno Global do Desenvolvimento. Apresenta prejuízos em três áreas principais: socialização, comunicação e comportamento. Sendo que as maiores dificuldades dos Autistas estão relacionadas com a interação social (SILVA, 2012). Mostra-se evidente que o Autismo não é um assunto inédito, porém o tema está repleto de dúvidas, estigmas, preconceitos e, principalmente, dificuldades diagnósticas e etiológicas.

Silva (2012) ainda traz que pessoas com Autismo são vistas como pertencentes a um mundo estranho e sem significados. O Autista precisa ser visto como alguém a ser desvendado, seu mundo possui significados e cabe aos profissionais o auxílio nas descobertas dos melhores caminhos de acesso as necessidades dos Autistas. Para tanto o estudo e a pesquisa sobre o assunto são ações importantes nesse objetivo.

Levando em conta estas necessidades, o presente trabalho tem por objetivo fazer um sintético apanhado teórico sobre o Autismo, focando o tema no estudo de três funções neuropsicológicas afetadas: memória, função executiva e atenção. A pesquisa destes temas será aprofundada através de um estudo de caso em que serão utilizadas técnicas psicométricas que avaliarão as funções referidas, inferindo possíveis áreas cerebrais atingidas.

1 AUTISMO
1.1 BREVE CONCEITUAÇÃO

O Autismo é caracterizado por dificuldades na interação social, na comunicação e no comportamento. Pela CID-10 é denominado Autismo Infantil e pelo DSM-IV Transtorno Autístico. Tem maior incidência em meninos e manifesta-se antes dos 3 anos de idade. Aproximadamente, metade dos portadores são mudos e mais de dois terços apresentam retardo mental (DUMAS, 2011). Apenas nos anos de 1943 é que Leo Kanner define as características do Autismo, descrevendo-a como uma forma de psicopatologia própria. Através de estudos de caso definiu características sociais, comportamentais e linguísticas do Autismo (DUMAS, 2011).

Está incluído nos chamados Transtornos Invasivos do Desenvolvimento, que são sinalizados por severos atrasos e desvios no desenvolvimento de habilidades sociais, comportamentais e comunicativos dos portadores (KLIN, 2006). Esta condição constitui-se de um complexo distúrbio do desenvolvimento, com etiologias múltiplas e ramificações diversas que atingem o comportamento e o desenvolvimento do indivíduo. A partir dessa diversidade é que surge o panorama do chamado Transtornos do Espectro Autista. Esta visão traz que o Autismo se mostra como um conjunto de transtornos graves que se apresentam de forma bastante singular, não podendo ser generalizado. Porém algumas características são bastante representativas desse quadro (DUMAS, 2011).

Dentre estas características estão as alterações nas interações sociais, na comunicação e no comportamento. A interação social se mostra deficitária através de inadequadas respostas emocionais. Autistas, geralmente, não conseguem manter e gerar relações alicerçadas em trocas de afeto. Apresentam limitação no uso da linguagem não-verbal e da imitação. Desta forma, suas expressões sociais são rígidas, limitadas e causam estranhamento. Tais observações evidenciam que há, nestas pessoas, grande dificuldade em administrar as informações que são necessárias para o desenvolvimento de uma interação social adequada. Sendo assim, a percepção social está severamente prejudicada.

Há pouca habilidade em identificar expressões faciais e, sendo assim, de perceber o desejo ou intenção de terceiros. Somado a isso têm severa dificuldade em imitar gestos e ações. Esta característica pode originar o déficit no estabelecimento das relações, já que a imitação possibilita que a criança compreenda seu mundo, prestando a atenção no mesmo e aprendendo a lidar com as suas emoções e com a dos outros (DUMAS, 2011).

É importante ressaltar que crianças Autistas não optam por isolar-se. Não é uma escolha, mas sim uma falta de habilidade de interação que acaba criando uma visão ameaçadora do contato social (SILVA, 2012). A comunicação evidencia alterações importantes, têm dificuldade de expressão e compreensão e, muitos, não aprendem a falar. Para aqueles que desenvolvem a linguagem, apresentam, muitas vezes, expressão de estruturas sintáticas corretas, mas modo de falar concreto o que não possibilita uma troca adequada de informação. A fala se mostra pouco espontânea, com ritmos e entonação que causam estranheza.

Com frequência estabelecem um discurso com muitas perseverações. Falam repetidamente sobre o mesmo tema, ou alteram o assunto da conversa sem transição lógica. Há a evidente dificuldade em compreender temas abordados, regras ou instruções. Sendo assim, a resposta negativa a orientações não se dá por oposicionismo, mas por falta de compreensão do que foi solicitado (DUMAS, 2011).

A forma concreta com que o Autista percebe o mundo, não permite com que ele perceba as sutilezas de uma conversa, o que acaba causando confusão em relação ao que está sendo tratado, já que fazem uma avaliação sempre literal dos termos utilizados em um discurso (SILVA, 2012). Suas manifestações comportamentais também são limitadas e rígidas, com interesses restritos, repetitivos e sem objetivo notável. Estabelecem rituais e demonstram extrema insatisfação se são impedidos de realizá-los (DUMAS, 2011). Estes comportamentos são divididos em duas categorias.

A primeira delas é a de comportamentos motores estereotipados e repetitivos. São caracterizados por movimentos de balançar, pular, mexer com dedos e mãos, fazer caretas. Estas manifestações sempre ocorrem da mesma forma e de maneira repetitiva. A agitação presente no Autismo se dá de forma característica, já que os movimentos são feitos pelo prazer em fazê-los, ou seja, a satisfação está na agitação em si, não há uma função específica.

A segunda categoria é a de comportamentos disruptivos cognitivos. São caracterizados por rituais, compulsões, insistências, interesses baseados em regras específicas e necessidade em acumular objetos sem objetivo aparente, apenas para tê-los. Há um padrão anormal e restrito nos interesses. Autistas podem saber tudo sobre um tema específico a ponto de não conseguirem direcionar sua atenção a outros aprendizados, principalmente aos relacionados com a vida afetiva e cotidiana. Isso acaba por causar importantes prejuízos no que diz respeito a socialização (SILVA, 2012).

Gadia (2011) traz que os atuais critérios diagnósticos presentes no DSM-IV tem o objetivo de atender as necessidades científicas de pesquisa e facilitar a criação de frentes de apoio aos portadores de Autismo e transtornos relacionados. A partir de 2013 com publicação do DSM-V, provavelmente, o termo Transtornos Invasivos do Desenvolvimento não existirá, mas somente o diagnóstico de Transtornos Autistas, apresentando apenas dois grupos de sintomas, que serão os sociocomunicativos e os de interesses fixos e repetitivos.

A forma heterogênea deste transtorno, provavelmente, deve-se a soma de fatores etiológicos, ambientais e genéticos. Sendo que a diversidade de patologias associadas ao Transtorno do Espectro Autista enfatizam a ideia de que o conjunto de sintomas podem ser secundários a importantes alterações funcionais do cérebro (GADIA, 2011).

1.2 FUNÇÕES NEUROPSICOLÓGICAS NO AUTISMO
1.2.1 Conceituação: Memória, Função Executiva e Atenção

A memória pode ser dividida em memória de curto prazo ou operacional e em memória de longo prazo. A primeira caracteriza-se pelo armazenamento de informações por segundos ou poucos minutos, assim como pela manutenção e manipulação de determinado dado para execução de alguma tarefa relacionada as funções cognitivas superiores como o planejamento de ações e cálculos matemáticos. Pode ser divida em subgrupos independentes: fonológico e visuoespacial.

Sendo independentes, o prejuízo de um não interfere, necessariamente, no desempenho do outro (MIOTTO, 2012). A memória de longo prazo poder ser dividida em memória implícita e explícita. A implícita está relacionada a capacidades motoras, cognitivas e perceptuais. É a habilidade de aprender determinada ação psicomotora através da repetição. É implícita, porque não envolve a consciência. A memória explícita está relacionada com a habilidade de armazenar e evocar acontecimentos de forma consciente.

Nesta classificação de memória está incluída a memória episódica, que diz respeito ao armazenamento de eventos vividos de forma pessoal em tempo e espaço específico, e a memória semântica que tem o papel de armazenar informações acerca do mundo. Acontecimentos, conceitos e denominações, independentemente do momento e do contexto em que foram armazenados (MIOTTO, 2012). Função executiva é a capacidade neurobiológica que objetiva o manejo adequado da atenção para tarefas que necessitam ser resolvidas (DUMAS, 2011).

Abrange as habilidades de planejar, raciocinar e organizar ações em busca de um objetivo. Sendo assim, estabelece o processo de resolução de problemas, organização de ações referentes a um contexto em particular, sugerindo flexibilidade cognitiva (MIOTTO, 2012). Esta função está diretamente relacionada às áreas frontais. A alteração nessas áreas pode causar diversas dificuldades cognitivas e comportamentais no que diz respeito ao planejamento e execução de tarefas. Surgem comportamentos rígidos e inflexíveis, alterações de raciocínio, pensamento concreto e dificuldades em tarefas cotidianas (BOSA, 2001).

Uma influente teoria acerca das funções executivas interliga os lobos frontais e suas conexões principais ao sistema atencional supervisor que atua sobre comportamentos já aprendidos, fazendo a modulação dos mesmos em situações novas que exigem planejamento (MIOTTO, 2012). O sistema atencional tem como funções principais a manutenção do estado de alerta do sistema cognitivo e a seleção de informações relevantes, a fim de não sobrecarregar o mesmo. Esta seleção é definida através dos eventos ambientais e coordenada pelos objetivos do sistema cognitivo (BENEDET, 2002).

Os processos da atenção interligados as funções executivas são classificados em três tipos. O primeiro deles é a atenção sustentada, que é responsável pela prontidão necessária para identificar e responder a estímulos ambientais por um período longo de tempo. O segundo tipo é atenção alternada, que diz respeito a capacidade de manter a atenção em duas ou mais fontes de estímulos de forma alternada. Por fim está a atenção seletiva que permite direcionar a atenção a uma única fonte de estímulo, ignorando demais incidentes ambientes menos importantes (MIOTTO, 2012).

A atenção como forma de orientação em relação aos estímulos do ambiente está estreitamente relacionada com o processo perceptivo. Primariamente a função seletiva da atenção orienta um conjunto de mecanismos independentes que processam, em paralelo, apenas uma característica física de um estímulo. A segunda etapa do processo perceptivo há uma integração dos processadores da informação, formando então uma única descrição estrutural do objeto observado (BENEDET, 2002).

1.2.2 A Teoria do Lobo Frontal, Neurônios-Espelho e Teoria da Mente
A hipótese de alteração no lobo frontal em pacientes Autistas provém do fato de que indivíduos que sofreram lesões nas áreas corticais pré-frontais apresentaram características muito semelhantes ao Autismo. Demonstraram alterações de personalidade, perda do juízo crítico, dificuldades de atenção e problemas na memória de trabalho e prospectiva (BOSA, 2001).

O lobo frontal ocupa cerca de 1/3 do encéfalo humano e tem como tarefa executar tarefas a partir de informações recebidas pelas porções posteriores do córtex, que são formadas por regiões responsáveis pelas informações sensoriais, sendo que a porção pré-frontal ou anterior prepara e organiza as informações ligadas a emoção, memória e atenção, que provém do sistema límbico ou do cerebelo (BOSA, 2001).

Muitas das características percebidas no Autismo estão relacionadas com funções do lobo frontal, principalmente ao que se refere as funções executivas. Uma das funções centrais desta porção cerebral está ligada a capacidade de planejamento para atingir metas, tarefa esta que necessita de flexibilidade cognitiva, característica encontrada como deficitária no Autismo. (BOSA, 2001). Apresentam problemas em organizar-se diante de tarefas novas, não conseguindo dispor de artifícios para resolução de problemas. Desta forma permanecem fazendo uso de uma mesma estratégia mesmo sem obter sucesso (SILVA, 2012).

Bosa (2001) ressalta que apesar do conceito de função executiva estar, primariamente, ligado a capacidade de planejamento e criação de estratégias, não se pode esquecer da evidente interligação desta função com a memória e a atenção. Ainda na teoria do lobo frontal é feita a relação entre função executiva e atenção compartilhada (BOSA, 2001). Atenção compartilhada é caracterizada por comportamentos infantis de compartilhar através de gestos e vocalizações seus interesses em objetos do meio. Através desta habilidade surgem os jogos sociais que possuem muita importância no processo de interação social (BOSA, 2002).
Pesquisadores levantaram importantes hipóteses a respeito da relação entre a atenção compartilhada e as funções executivas, em que habilidades de mudança de foco de atenção estariam interligadas a atenção compartilhada e seriam mediadas pelo lobo frontal (BOSA, 2001). De fato, Autistas demonstram demorar mais para alterar o foco de sua atenção. Quando olham para um objeto ou rosto se prendem em detalhes e não no todo. Como não desenvolvem adequadamente a atenção compartilhada, não conseguem compartilhar interesses e acabam por não receber modelagem ambiental correta, o que incentiva o desenvolvimento de comportamentos inadequados futuros e, consequentemente, dificuldades de interação social (SILVA, 2012).

Bosa (2001) traz estudos com Autistas que apontam para anormalidades no que diz respeito a divisão da atenção diante de estímulos, evidenciando uma dificuldade dos dois hemisférios cerebrais em trabalharem de forma independente. Isso demonstra uma dificuldade de pessoas com Autismo em lidar com as experiências sensoriais. Os comportamentos repetitivos e estereotipados, assim como o isolamento social seriam formas de lidar com esta incapacidade.

A disfunção atencional é solucionada com comportamentos obsessivos e inadequados que são repetidos de forma incessante. Em uma abordagem neurofisiológica percebe-se que a função da atenção em pessoas com Transtorno do Espectro Autista está suspensa o que promove o chamado vazio psíquico que é um tipo de desorganização de estados bastante primitivos. Este estado é comparado a epilepsia e sugere envolvimento de fatores neurofisiológicos. As estereotipias e as dispersões sensórias estariam relacionadas com tentativa de controlar, de forma repetitiva, seus objetivos (MEDEIROS, 2011).

Autistas podem passar um longo período de tempo envolvidos em alguma tarefa específica. Estudiosos descrevem a ideia de que, nesses momentos, é como se algo tivesse dominado a mente destes pacientes, deixando-os isolados de todo e qualquer estímulo, sendo incapazes de se comunicar com o mundo externo (AMÂNCIO, 2012). Autistas, em seu dia a dia, apresentam diversas flutuações no que diz respeito a sua atenção. Em tarefas que lhe são interessantes a capacidade atencional se mostra intransponível. Porém, em atividades direcionadas com fins terapêuticos e de reabilitação é perceptível a dificuldade em manter o foco da atenção, ou de dividi-lo em tarefas que exigem tal habilidade.

Estes pacientes distraem-se facilmente tomados por suas estereotipias, falas desconexas, ecolalias e comportamentos típicos do transtorno, sendo necessário constante apoio e incentivo na manutenção da atenção. Todos estes fatores tornam o mundo do Autismo fragmentado, impedindo a coerência e organização de ideias para compreender situações ou realizar julgamentos. Neste entorno segmentado e sem lógica surgem ilhas de aptidões que podem ser definidas como capacidades intelectuais intactas e um dos principais exemplos é a boa memória. Sendo assim as habilidades intelectuais dos Autistas podem estar estreitamente relacionadas com o uso de uma espécie de memorização automática (MEDEIROS, 2011).

Na prática com Autistas adultos, esta habilidade na memorização de ações, tarefas e combinações fica bastante explícita. Muitas vezes, tal aptidão surge como pano de fundo para perseverações de comportamentos ou, até mesmo, de momentos de desorganização. Dificilmente consegue-se interromper uma atividade sem que o paciente não recorde que não a finalizou, dependendo de seu estado mental do momento, este fato poder gerar bastante desconforto. Assim ocorre com tarefas simples de atividade de reabilitação.

O paciente Autista armazena com facilidade a ordem com que aprendeu a realizar o trabalho e demonstra severa insatisfação de alterar essa ordem, com clara ansiedade de perder o controle da situação. A competência da memória é grande aliada em combinações e tratos. O Autista responde de forma bastante satisfatória a acertos que tem um objetivo final que lhe interesse. Costuma atender de forma positiva a este tipo de intervenção e quando interpelado a respeito de suas responsabilidades no contrato apresenta destreza em relatar suas obrigações, assim como suas recompensas.

Ainda como tentativa de responder aos porquês dos comportamentos dos Autistas, estão os neurônios-espelho. Estes neurônios foram descobertos de forma inusitada. Pesquisadores perceberam que alguns neurônios do córtex motor de macacos entravam em movimento quando eles praticavam uma ação e que estes mesmos neurônios entravam em ação quando estes animais observavam os outros realizando alguma ação. Sendo assim, neurônios-espelho é o nome que se dá as células que respondem a ações e a observação das mesmas.
Nos seres humanos ocorre o que se chama de processo de espelhamento, em que quando a atividade cerebral de uma pessoa que abana é muito semelhante a de alguém que apenas observa o movimento (SILVA, 2012). Sendo assim, estas células possibilitam com que façamos uma imitação. Observou-se que a quantidade destas estruturas está diminuída no córtex-motor de Autistas.

Para alguns cientistas, pode estar aí a dificuldade de empatia que estes pacientes apresentam. Esta teoria pode orientar a compreensão de porquê Autistas têm tanta dificuldade em compreender metáforas ou figuras de linguagem. A dificuldade de empatia, não possibilita a formação de um conceito do que se passa na mente do outro (RAMACHANDRAN, 2012).

Levando em consideração a redução de ativação de neurônios-espelho em Autistas, chega-se a suposição de que quando eles exercem uma ação, os neurônios ativam-se normalmente, porém quando observam alguém praticando alguma ação a resposta não é a mesma. Desta forma, supõe-se que as atitudes alheias são percebidas com menos intensidade por Autistas (SILVA, 2011). Dá-se o nome de teoria da mente para a capacidade de elaborar hipóteses a respeito dos pensamentos alheios. Esta é uma hipótese psicológica para o Autismo (RAMACHANDRAN, 2012).

É natural da espécie humana a capacidade de perceber e decodificar intenções de terceiros, através do tom de voz, expressões faciais e demais demonstrações captadas em uma conversa ou simples observação. Esta habilidade nos ajuda na tomada de decisões e na avaliação de situações e contextos sociais. Autistas possuem extrema dificuldade nestas áreas. A pouca capacidade em avaliar as intencionalidades alheias impede ou torna equivocada sua avaliação acerca de determinada situação. Desta forma, compreendem com mais dificuldade o objetivo de certas atitudes, demorando a interagir.

O fato de Autistas não possuírem habilidade para mentir está relacionado com a teoria da mente. Eles não conseguem perceber que seu interlocutor possui conceitos e pensamentos diferentes dos seus, então não percebem a necessidade de mentir, mesmo em situações sociais simples. Muitas vezes, sua espontaneidade é confundida com falta de educação ou desrespeito, porém são apenas resultado da sua dificuldade em decifrar códigos sociais (SILVA, 2011).

É importante ressaltar que encontrar áreas específicas que expliquem o comportamento de pessoas com o Transtorno do Espectro Autista é tarefa inatingível. A diversidade sintomas não permite tal localização (SILVA, 2011). Para tanto as teorias propostas são auxiliares no desvendamento das possíveis origens dos sintomas, auxiliando no processo de diagnóstico e tratamento.
2 ESTUDO DE CASO
2.1 BREVE RELATO

M. C. tem 31 anos, é do sexo feminino e teve diagnóstico de Autismo por volta dos 4 anos de idade. Nasceu de parto normal e obteve nota dez no teste de Apgar. A mãe relata que M. C. chorava muito, apresentando diversos episódios de cólicas. Seu desenvolvimento nos primeiros anos de vida ocorreu dentro dos parâmetros da normalidade, com exceção do surgimento da linguagem. A mãe traz que reconheceu uma fala melhor estruturada por parte da menina, apenas, por volta dos nove anos de idade.

O que motivou os pais a procurarem auxílio profissional foram os comportamentos caracterizados como diferentes das meninas de sua idade. Ela não falava e tinha atitudes que levavam a crer que poderia não ouvir. Além disso, demonstrava instabilidade emocional evidenciada com inúmeros episódios de choro.

O início das intervenções tanto individuais, quanto em clínicas especializadas foram encaradas de forma tranquila pela menina, que, segundo a mãe, sempre se demonstrou satisfeita em frequentar estes ambientes. M. C. é bastante alegre e vaidosa. Demonstra interesse específico em acessórios como brincos e pulseiras, fazendo uso excessivo dos mesmos. Apresenta intenso apego a rotinas, estabelecendo rituais para o desempenho de atividades. A não realização dos mesmos, geralmente, lhe causa ansiedade, necessitando de manejo adequado para evitar episódios de desorganização, que são marcados por crises de choro e autoagressão.

Além dos hábitos ritualizados já estabelecidos, é comum que M. C. crie outras rotinas ou estereotipias em novas atividades. É alfabetizada e possui ótimo potencial cognitivo, sendo, muitas vezes, prejudicado por sua desatenção ligada a falas e comportamentos estereotipados. Seu discurso é ritmado, mas possui linguagem bastante preservada. Compreende com clareza o que lhe é falado, reconhece com habilidade os acontecimentos ao seu redor, apresentando respostas adequadas às intervenções dialogadas. Conversa com colegas e terapeutas, mas possui pouca iniciativa para dar início a algum diálogo, a menos que objetive algum ganho com o mesmo.

M. C. apresenta excelente aproveitamento de momentos que exigem mudança de ambiente com algum objetivo lúdico ou comemorativo, como passeios ou datas especiais. Em determinados momentos, necessita de orientação, principalmente quando é distraída por alguns de seus interesses restritos. Apesar disso, participa e demonstra intensa satisfação em passeios e atividades de comemoração. Tem clara consciência de como deve vestir-se e comportar-se, não fazendo uso exagerado de acessórios, em momentos como esses. Passou por diversas intervenções terapêuticas e mudanças medicamentosas. Tem histórico de internação devido a crises de desorganização acompanhadas de reações extremas de autoagressão. Atualmente, encontra-se bastante estável. Frequenta clínica especializada três vezes por semana e tem excelente aproveitamento das rotinas terapêuticas, conseguindo obter melhor desempenho diante de mudanças na rotina. Aceita o manejo terapêutico frente a momentos que lhe causam ansiedade, respondendo com atitudes assertivas.
2.1.1 Técnicas Utilizadas
A partir das funções neuropsicológicas que serão avaliadas neste estudo de caso, foram selecionados os seguintes instrumentos: Figuras Complexas de Rey, Teste de Atenção Concentrada, Bateria Luria de Testes Neuropsicológicos e Torre de Hanói.

O Teste de Figuras Complexas de Rey é utilizado na avaliação de aspectos relacionados com a memória não verbal, algumas funções executivas e habilidades visoespaciais. Compõe-se de uma figura complexa com formas geométricas de caráter abstrato. O teste é realizado em dois momentos.

No primeiro o sujeito é instruído a copiar a figura apresentada, levando em conta todos os detalhes. Após 3 minutos desta etapa solicita-se novamente a cópia, mas sem o apoio da figura, orientando o sujeito a fazer uso da memória em relação a figura anteriormente apresentada (OLIVEIRA, 2004).

Desta forma, as Figuras de Rey tem como meta avaliar a percepção, memória e a forma de apreensão dos estímulos perceptivos, através da cópia e evocação do que foi conservado através dos processos mnemônicos (COSTA, 2004).

O Teste de Atenção Concentrada tem como símbolo único um triângulo estilizado. São apresentados então ao testando três exemplos de triângulos que servem de base para a realização do teste. O indivíduo deverá assinalar, dentre 21 linhas com 21 símbolos, aqueles iguais aos exemplos. Para esta tarefa serão dispensados cinco minutos (CAMBRAIA, 1967).

A Bateria Luria de Testes Neuropsicológicos é composta por testes que proporcionam um zoneamento qualitativo das áreas encefálicas, relacionando-as através de um exame detalhado de competências cognitivas, motoras e perceptuais (ROMANELLI, 1999).

Por fim, será utilizado a Torre de Hanói. Este jogo tem sido considerado como um interessante procedimento na avaliação das funções executivas, assim como da memória de trabalho (WOOD, 2001). Consiste de uma estrutura com três pinos, em um pino inicial encontram-se discos empilhados em ordem crescente. Cabe ao jogador transportar esta torre do pino inicial qualquer outro pino, usando um deles como auxiliar. Os discos devem ser movidos um de cada vez e os maiores numa poderão ficar sobre os menores (RESENDE, 2004).
2.1.2 Apresentação e Discussão dos Resultados
M.C. demonstrou bastante disposição e entusiasmo na realização das atividades, compreendendo de forma satisfatória as orientações do que deveria ser feito. Apresentou dificuldade específica nas avaliações que exigiram sua atenção concentrada e funções executivas, necessitando maior cuidado na orientação destas tarefas.

No Teste das Figuras de Rey M.C apresentou uma classificação inferior a média, tanto na cópia da figura, quando na reprodução da memória. Tais resultados sugerem prejuízos significativos na capacidade de percepção visual e memória imediata, acompanhados de tendência a realização de distorções de forma, localização e omissões de elementos (OLIVEIRA, 2010).

Tendo em vista que o Teste das Figuras de Rey avalia não só a memória, mas também a percepção do indivíduo é possível inferir que o desempenho de M. C. vai ao encontro do que foi exposto a respeito do Autismo, indicando que este transtorno tem íntima relação com dificuldades de perceber os estímulos do ambiente e decodificá-los. A dificuldade do Autista em dividir sua atenção frente a estímulos faz com que ele perceba o mundo como uma sobrecarga de informações, gerando possíveis comportamentos inadequados (BOSA, 2001).

Ainda relacionado a este aspecto está o resultado do Teste de Atenção Concentrada. Em que o desempenho de M. C não atingiu a média. Teve excelente compreensão da atividade, e apesar de ter sido eficiente nas marcações que o teste exigia, realizou pouco da tarefa no tempo estipulado para a mesma. Cabe destacar que, ficou clara a dificuldade em dividir sua atenção nos três símbolos que servem de base para a realização do teste. No treino, concentrava-se apenas em um dos símbolos, sendo necessária a retomada do objetivo do trabalho.

O jogo Torre de Hanói foi um grande desafio para M.C. A orientação para a tarefa foi dada, assim como o exemplo de como poderia proceder. Todas as regras foram retomadas até o total entendimento. M.C. demonstrou muita facilidade na compreensão do que era ou não permitido no jogo, assim como o seu objetivo. Porém não conseguiu realizá-lo. Esteve atenta, mas a dificuldade encontrada em resolver o problema apresentado a deixava ansiosa, fazendo com que burlasse as regras. Quando questionada acerca do acontecido conseguia, com clareza, demonstrar o que havia feito de errado. Este jogo tem por objetivo testar as funções executivas, que são a capacidade de planejar e organizar uma ação. (MIOTTO, 2012).

A partir da teoria do lobo frontal, tal competência está prejudicada em Autistas, gerando pensamentos e atitudes inflexíveis e concretas (BOSA, 2001). M.C compreendia onde deveria chegar, mas não achou meios para tanto. No cotidiano tem uma excelente organização de sua rotina, porém cabe lembrar que esta rotina já foi internalizada pela menina. Ela aprendeu como proceder em seu dia a dia. Mudanças bruscas de percurso, se não bem manejadas, podem causar momentos de desorganização interna, gerando comportamentos inadequados.
Por fim, na Bateria Luria de Testes Neuropsicológicos M. C. obteve excelente desempenho. Nas intervenções de memória de curto e longo prazo obteve ótimos resultados. Tal dado difere do apresentado nas Figuras de Rey, o que, provavelmente, está relacionado ao tipo de estímulo de cada instrumento. Identificou com facilidade o nome de objetos e partes do corpo. Escreveu frases de forma clara e sem dificuldades. A conversação durante o teste se deu com curso normal e adequado. As tarefas da Bateria Luria estão, sem dúvida, mais próximas do cotidiano de trabalho terapêutico e das habilidades de M. C. provavelmente, tal aspecto facilitou o desempenho da menina.

Fazem parte das habilidades específicas de M.C. tarefas que exigem sua memória auditiva e também atividades ligadas ao aprendizado pedagógico, como soletrar palavras, escrever frases. Tais atividades, por fazerem parte da rotina e das competências da paciente, possivelmente, tornaram este instrumento mais acessível a ela.

3 CONCLUSÃO
A partir da pesquisa realizada foi possível observar que são muitos os desdobramentos no que diz respeito ao Autismo. As áreas cerebrais estudadas são norteadas pelos comportamentos característicos do transtorno, já que ainda não é possível identificar uma origem etiológica específica. É fato que os estudos atuais são categóricos em orientar que o Autismo é, provavelmente, um transtorno de origem orgânica, com alterações funcionais do cérebro.

Muitas são as possibilidades e esta investigação abordou apenas algumas delas, porém torna-se evidente que o estudo e a pesquisa destas questões são importantes na busca de um diagnóstico adequado e melhores orientações de tratamento. Este estudo foi delineado a partir de três funções neuropsicológicas, frequentemente, alteradas em pessoas com o Transtorno do Espectro Autista: memória, função executiva e atenção.

Para tanto foram contempladas pesquisas que sugerem áreas cerebrais envolvidas nestas funções, tendo destaque para a porção frontal do encéfalo e sua responsabilidade em funções executivas, assim como a ligação com aptidões de memória e atenção. Além disso, foi observada a hipótese dos neurônios espelho, que atuam no estabelecimento da capacidade de imitar e a partir disso, estabelecer relações interpessoais, tornando possível a elaboração de hipóteses a respeito dos pensamentos alheios, o que se denomina teoria da mente.

É importante enfatizar que o estudo de caso apresentado teve como objetivo auxiliar na exemplificação das alterações neuropsicológicas pesquisadas. Seus resultados permitem inferir que o conteúdo estudado vai ao encontro da observação prática do Autismo. O conhecimento acerca do funcionamento cerebral faz com que a observação clínica de possíveis Autistas seja feita com mais qualidade e eficiência, assim como o delineamento de intervenções.

Este trabalho foi um recorte do que ainda se pode aprofundar sobre funções neuropsicológicas no Autismo, assim como das possibilidades de instrumentos de avaliação das mesmas. O aprofundamento, assim como o estabelecimento de uma amostra significativa, no que diz respeito a publicação de conclusões, é o próximo passo para a ampliação deste conhecimento. A realidade do Autismo coloca os profissionais de frente com uma questão grave, pouco conhecida, estigmatizada e, o que torna a situação mais preocupante, tardiamente diagnosticada e com orientações terapêuticas inadequadas.

Tanto o diagnóstico, quanto o tratamento dependem da qualidade do trabalho e do conhecimento do profissional responsável. Sendo assim, é de suma importância o investimento na pesquisa em prol da qualidade de vida dos pacientes Autistas e de suas famílias.
4 REFERÊNCIAS
AMÂNCIO, E. Pensadores Visuais. Revista Mente e Cérebro - Doenças do Cérebro: Autismo. V. 6. 2 ed. (10- 19). São Paulo: Duetto, 2012.
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Tatiana Barbosa Soares
Psicóloga pela PUC-RS. Neuropsicopedagoga. Cursando Licenciatura em Psicologia na UFRGS. Atua como psicóloga clínica e realiza atendimentos terapêuticos em turno integral com pacientes autistas em Clínica Especializada.
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