Cruzeiros Marítimos: uma abordagem nacional e internacional

Cruzeiros Marítimos: uma abordagem nacional e internacional
TURISMO-E-HOTELARIA
O segmento de cruzeiros marítimos desponta hoje como um dos que mais crescem no setor de turismo e, segundo dados e projeções mundiais, este crescimento será ainda maior nos próximos anos. Até alguns anos atrás, era predominante em regiões como o Caribe e o Mediterrâneo, locais estes que até hoje concentram a maioria dos roteiros e navios de cruzeiros. No entanto, com o aumento da demanda e a necessidade de novos produtos e roteiros, as companhias marítimas passaram a investir na construção e reestruturação dos seus navios, oferecendo opções de roteiros nos sete continentes e verticalizando a oferta no sentido de permitir o acesso a este tipo de viagens a um número cada vez maior de pessoas.

As viagens em cruzeiros marítimos, que no passado eram sinônimo de glamour e status de um público seleto que estava disposto a pagar pelo sonho de cruzar os sete mares, foi socializada e hoje esta acessível a grande maioria das pessoas. No Brasil, a partir da década de 90 este segmento vem obtendo um aumento considerável na demanda, o que justifica o crescente número de navios que realizam seus roteiros no litoral brasileiro, principalmente entre os meses de novembro a abril. Hoje, o segmento de cruzeiros marítimos ampliou seus horizontes e atrai um público cada vez mais diversificado e disposto a consumir este tipo de produto, o que justifica os altos investimentos das companhias e o aumento da oferta de produtos deste segmento. Esta tendência mundial de expansão do segmento de cruzeiros marítimos exige dos profissionais de turismo um conhecimento específico sobre o assunto e, nessa perspectiva, a questão principal deste artigo é: apresentar, conceituar e descrever algumas das principais características do segmento de acordo com estudos teóricos e a vivência prática na área.

A principal função deste artigo não é, portanto, responder às questões teórico-metodológicas, mas sim contribuir para que elas sejam discutidas e estudadas no campo aplicado do turismo. A ideia do turismo coincide com aquele da viagem e, as expedições de Marco Pólo no Oriente no século XII e de David Livingstone na África no século XIX podem ser consideradas exemplos históricos do turismo. Durante a Idade Média surgiram as viagens de peregrinação aos lugares santos e depois do nascimento das universidades, as viagens de estudos aos principais centros culturais. Um fenômeno turístico interessante se observou no decorrer dos séculos XVII e XIX na Grã-Bretanha, onde, entre as classes mais abastadas, difundiu-se a ideia de empreender longas viagens de interesse cultural e artístico nos países da Europa continental chamados de Grand Tour. No entanto, o inglês Thomas Cook é considerado o fundador das viagens organizadas, pois em 1841, pela primeira vez, fretou um trem para o transporte de turistas de Loughborough à Leicester para um congresso antialcoólico.

Até meados do século XX, o turismo na Europa era principalmente do tipo doméstico; isso porque o custo e a duração dos deslocamentos eram impostos por um sistema de meios de transporte ainda pouco desenvolvidos que desencorajavam os deslocamentos mais longos. No período do Renascimento, após a Segunda Guerra Mundial, uma combinação de circunstâncias favoreceu a difusão das viagens. Entre os fatores que contribuíram, além do melhoramento dos meios de transporte, destacam-se o crescimento do número de pessoas empregadas, o aumento do dinheiro e do tempo livre, a disposição e uma atitude diversa no confronto do tempo livre e o trabalho. Estes fatores combinaram-se entre si, estimulando a demanda de viagens e férias, favorecendo o nascimento das operadoras de turismo especializadas na organização de viagens all inclusive; com esta fórmula de viagem, não foram privilegiadas exclusivamente as classes mais abastadas, mas possibilitaram a oferta de um produto capaz de atender a uma economia de escala. Graças ao extraordinário desenvolvimento tecnológico nos últimos decênios, principalmente no setor dos transportes, os horizontes do turismo foram visivelmente ampliados. O transporte aéreo, que representa hoje o meio mais utilizado para os deslocamentos de média e longa distância, é cada vez mais veloz e o tempo de viagem sempre mais breve e relativamente econômico; atualmente um avião com 400 passageiros a bordo pode voar, sem escalas, de Londres na Inglaterra a Johanesburgo na África do Sul em onze horas, ou de Londres a Bangkok na Tailândia em quatorze horas.
A indústria turística pertence ao setor da economia que abrange as viagens, a estadia e as atividades do tempo livre das pessoas que se encontram fora de sua residência habitual. O turismo faz parte do setor terciário da economia, porém utiliza-se de numerosos processos da indústria primária e secundária, além de suas ramificações na indústria hoteleira, de restauração, dos transportes e das agências de viagens. Os cruzeiros marítimos na atualidade representam um dos maiores segmentos em crescimento, com um faturamento anual de mais de 500 bilhões de dólares. No entanto, ainda representa meros 2% dos números do turismo no mercado mundial e um alto patamar a ser alcançado devido ao seu grande potencial de crescimento.

Para numerosas nações, o turismo representa a principal fonte de entrada de divisas e o segmento de cruzeiros marítimos vem a cada ano contribuindo para aumentar estes números nos 6 continentes do mundo. A humanidade sempre teve um fascínio muito grande pelo mar e desde os primórdios das civilizações, as pessoas construíam navios que serviam para o comércio, defesa e exploração. Esta relação com os mares influenciou o desenvolvimento de cidades como Londres, Barcelona e Nova Iorque, que tiveram um grande crescimento devido à indústria naval e ao comércio marítimo. Somente após a década de 60 testemunhamos o início da indústria moderna dos cruzeiros marítimos, onde o mar tornou-se sinônimo de lazer e entretenimento. A partir de então, as companhias deixaram de transportar as pessoas para um destino em particular e passaram enfatizar a viagem como produto de consumo.

Para entendermos melhor a história das viagens em navios de cruzeiros, podemos dividi-la em duas fases distintas:

- A PRIMEIRA FASE chamada Vitoriana, inicia-se em 1837, ano em que a rainha Vitória subiu ao trono na Inglaterra. Neste período, mais precisamente em 1844, a Peninsular Steam Navigation Company (mais tarde renomeada P&O Cruises) foi a primeira companhia inglesa a organizar viagens em cruzeiros marítimos. Os navios da P&O realizavam roteiros pela Inglaterra, Espanha, Portugal, Malásia e China e mais tarde passaram a realizar viagens para a ilha de Malta, Constantinopla, Grécia e Egito. Antes disso, em 1818 nos Estados Unidos, a Black Ball Line, foi a primeira companhia de cruzeiros a oferecer serviços regulares entre os Estados Unidos e a Inglaterra, já com algumas características de conforto aos passageiros. Porém a mais famosa viagem originada na América foi provavelmente a de 1867, quando o navio a vapor Quaker City partiu de Nova Iorque com destino à Terra Santa, Egito e Grécia. A experiência da viagem a bordo do navio Quaker City foi relata por Mark Twain, um dos 150 selecionados que viajaram durante seis meses a bordo, originando o livro The Innocents Abroad, no qual Twain classifica a viagem como um piquenique em escala gigante. Nesta primeira fase, as companhias tinham mais interesse na carga que seus navios podiam transportar do que propriamente nos serviços oferecidos aos seus passageiros. Principalmente durante a primeira e segunda guerra mundial os navios foram utilizados para o transporte de tropas e as viagens transatlânticas interrompidas devido ao conflito. Nesta época, o governo americano subsidiou a construção de navios transatlânticos que, além das comodidades para atender aos passageiros, eram concebidos de acordo com especificações para possíveis conversões em navios para transporte de tropas. Em 1839, o canadense Samuel Cunard mudou-se para a Inglaterra e fundou a British and North American Royal Mail Steam Paket Company (mais tarde renomeada Cunard Line), e no dia 4 de julho de 1840 o primeiro navio da companhia chamado Britannia, deixou a cidade de Liverpool na Inglaterra com uma vaca a bordo para fornecer leite fresco aos passageiros durante os 14 dias da travessia transatlântica aos Estados Unidos. O primeiro navio de cruzeiros realmente destinado ao uso dos passageiros foi o navio Ceylon da companhia P&O, inaugurado em 1858. Este navio não era muito confortável, pois ainda oferecia poucos serviços de bordo para aqueles que se aventuravam a realizar o sonho das viagens marítimas. No entanto, em 1881 o Ceylon foi reformado e tornou-se o primeiro navio exclusivo para o transporte de passageiros. A partir de então, iniciou suas viagens para as Ilhas Canárias, os Fiordes e o Mediterrâneo e, no final do século XIX, os viajantes já podiam navegar pela Europa e até em mares mais distantes com um pouco mais de conforto.

Entre os marcos da história dos cruzeiros marítimos nesta época, destacam-se as aventuras marítimas relatadas em 1840 por William Makepeace Thackeray e Charles Dickens na viagem que fizeram com a P&O entre Londres e o Mar Negro. Além destas aventuras, por volta de 1880 o jornal de medicina britânico British Medical Journal, publicou reportagens incentivando as viagens em navios com propósitos curativos, encorajando o público a realizar cruzeiros de lazer ao invés de transatlânticos. Também nesta época as companhias começaram a transportar imigrantes aos Estados Unidos em classes "turísticas" nas quais os passageiros eram responsáveis em providenciar a própria comida e deviam dormir nos espaços disponíveis no navio.

- A SEGUNDA FASE do segmento de cruzeiros marítimos compreende a década de 1930, chamada de nova era, pois a partir daí os navios passaram a ser maiores, mais velozes e, além disso, as companhias começaram a praticar tarifas mais econômicas e oferecer opções de primeira e segunda classe para atender um público mais exigente. As viagens em cruzeiros marítimos entre as décadas de 1910 e 1930 tornaram-se extremamente populares e as companhias competiam acirradamente na produção de navios cada vez maiores e mais rápidos. Neste período, as viagens em navios tornaram-se sinônimo de glamour e status para aqueles que podiam realizar este sonho. A Cunard Lines lançou nesta fase um sistema inovador de turbinas a vapor nos seus navios Mauritânia e Lusitânia, ambos com 30.000 toneladas, os quais foram os precursores na tradição do traje para o jantar e das suas propagandas voltadas para as viagens românticas.

A White Star Line, companhia da financeira J.P. Morgan, foi uma das pioneiras no quesito inovação e introduziu no mercado três novos navios, de 40.000 toneladas cada um, o Olympic, mais luxuoso navio de cruzeiros com piscinas e quadra de tênis, o Britannic e o Titanic. Foi nesta fase que a velocidade, que até então era um fator decisivo para o design dos navios, deu lugar ao espaço para os passageiros, resultando na construção de navios maiores e mais estáveis. No entanto a viagem do Titanic, iniciada no dia 10 de abril de 1912 com 2228 passageiros e tripulação, acabou em tragédia quando o navio chocou-se contra um iceberg no Atlântico norte e afundou no dia 15 de abril. Este incidente arruinou os negócios da White Star Line que foi vendida para a Cunard Line em 1934, e passou a chamar-se Cunard White Star. Em 1930 a Cunard Line remodelou sua frota, trocando seus antigos navios pelos dois novos e ilustríssimos Queen Mary e Queen Elizabeth, cada um com aproximadamente 80 toneladas, velocidade de 30 nós e capacidade para cerca de 2.000 passageiros. Depois deste feito, a viagem semanal entre Southhampton (Inglaterra) e Nova Iorque (Estados Unidos) tornou-se famosa e alcançou um nível de excelência e luxuosidade tão grande que transformou a companhia Cunard Line em um potente símbolo do mercado das viagens de cruzeiros. Durante as décadas de 1950 e 1960 houve uma espetacular mudança na qualidade das viagens dos cruzeiros marítimos. Os navios passaram a transportar somente passageiros e algumas comodidades como a instalação de luz elétrica, o aumento dos espaços e o entretenimento foram implantados nos navios, proporcionando aos passageiros uma nova forma de viagem. Outra mudança sensível no segmento dos cruzeiros marítimos ocorreu em 1958, quando o primeiro avião comercial cruzou o Atlântico. Até então havia mais de 100 companhias de cruzeiros que transportavam passageiros e, devido a este fato, tiveram que buscar novos mercados, uma vez que a viagem aérea passou a ser muito mais econômica e rápida. Este episódio foi decisivo para algumas companhias que simplesmente tiveram que sair do mercado enquanto outras passaram a oferecer cruzeiros alternativos ao Caribe, Alasca e México, incluindo a passagem aérea até os portos de partida de seus navios. Inicia-se neste período o fly-cruise (cruzeiro e aéreo conjugado) que até hoje é uma das opções oferecidas aos passageiros que precisam deslocar-se para embarcar em portos mais distantes.

No final do século XX o conceito de supertransatlânticos foi desenvolvido e a Alemanha liderou o mercado com a construção de uma massiva e ornamentada frota de hotéis flutuantes. Estes transatlânticos eram desenvolvidos com as mais modernas tecnologias da época para minimizar o desconforto da viagem em alto mar, mascarando o fato da navegação em condições extremas através do conforto e elegância das acomodações e das atividades de bordo. Em 1960, a primeira companhia moderna de cruzeiros foi fundada pelo empresário americano Ted Arison, a qual oferecia cruzeiros de Miami ao Caribe com os navios Sunward e Starward sob o nome de Norwegian Caribbean Lines (NCL). O conceito destas viagens tornou-se um sucesso de mercado e começou a crescer em um ritmo acelerado até que, em 1967 um grupo de investidores americanos e noruegueses iniciou o futuro de uma nova gigante chamada Royal Caribbean Cruise Lines, que lançou modernas frotas de navios destinados a navegar durante o ano todo nos roteiros do Caribe.

Em 1970 as companhias Carnival e Crystal Cruises juntam-se ao mercado de cruzeiros e a indústria obtém um crescimento fenomenal passando de meros meio milhões de passageiros transportados em 1970 para mais de 5 milhões em 1995. Além disso, desde o final dos anos 70 a nova imagem das viagens marítimas vem sendo consolidada, principalmente com a popularidade de séries televisivas como The Love Boat e o grande esforço das operadoras de turismo. As companhias de cruzeiros, que na Europa e nos Estados Unidos têm oferecido viagens em cruzeiros marítimos nos seis continentes com navios novos e cada vez maiores, oferecem uma série de vantagens e serviços exclusivos aos clientes que buscam este tipo de produto.

Hoje, um navio de cruzeiros vai além de um simples meio de transporte de passageiros, oferecendo uma gama de entretenimento e lazer, onde a viagem em si e as comodidades são considerados partes essenciais da experiência de viagem. As maiores companhias de cruzeiros, com base nas estimativas de crescimento do segmento no mercado mundial, investirão nos próximos anos bilhões de dólares na construção de navios cada vez maiores e mais modernos. Estes navios com capacidade para mais de 3 mil passageiros, podem ser considerados "cidades flutuantes", onde os produtos e serviços oferecidos são dignos de grandes centros comerciais, com a comodidade de não precisar enfrentar o trânsito e, além de tudo, poder visitar diversos lugares sem ter de fazer e desfazer malas e enfrentar esperas em aeroportos. Estas características fazem da indústria dos cruzeiros marítimos uma das mais emergentes no mercado atual do turismo, até porque em um mundo em que as máquinas vêm substituindo gradativamente o trabalho humano, esta indústria ainda é baseada em grandes contingentes de recursos humanos onde a qualidade dos serviços oferecidos e os relacionamentos interpessoais representam muitas vezes os principais diferenciais entre as diversas companhias. Todos estes fatores fazem do segmento de cruzeiros marítimos um dos mais promissores e de maior interesse, tanto pelos passageiros que estão descobrindo uma nova forma de viajar, quanto das nações que buscam neste segmento uma fonte de divisas.

REFERÊNCIAS

AMARAL, Ricardo. Cruzeiros Marítimos. Manole: São Paulo, 2002.

MONTEJANO, J. et al. Estrutura do Mercado Turístico. 2a edição. Rocco: São Paulo, 2001. Eyewitness Travel Guides. Cruise Guide to Europe & Mediterranean. DK Editora, London, 2004. www.dk.com Dickinson, Bob and Andy Vladimir. Selling the Sea: an inside look at the cruise industry. New York: John Wiley & Sons, Inc., 1997.

REVISTA VIAJE MAIS. Especial Cruzeiros. Editora Europa, São Paulo, 2007. Zorovich & Maranhão. Curso Especial de Familiarização em Segurança Marítima. Santos, 2002.

Claudia Cristina Sanzovo
Bacharel em turismo pela Unioeste e especialista em Marketing e Negócios pela Facinter. Com mais de 10 anos de experiência no setor de viagens e turismo internacional em agências e operadoras de turismo, atualmente trabalha como assistente diretora de cruzeiros a bordo de cruzeiros marítimos e publica seus artigos de viagens em sua página Cantinho da Viagem.
Sucesso! Recebemos Seu Cadastro.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER