Arraias de Água Doce: Potamotrygon (Myliobatiformes: Potamotrygonidade)

Arraias de Água Doce: Potamotrygon (Myliobatiformes: Potamotrygonidade)
BIOLOGIA
Os peixes da ordem Rajiformes apresentam em geral o corpo fortemente achatado, em forma de disco. As nadadeiras peitorais são expandidas ao redor de todo o corpo unindo à da abertura das brânquias.

Apresentam esqueletos cartilaginosos, ainda é característico a ausência da nadadeira anal e nadadeira caudal longa e normalmente com espinhos. A boca e abertura branquial localizadas na porção ventral, enquanto os olhos e espiráculos na porção superior da cabeça (Santos et al., 2004).

Fecundação normalmente vivípara (Araújo et al., 2005). A ordem apresenta quatro subordens, 14 família, 62 gêneros e 456 espécies sendo grande maioria marinha. Um pequeno grupo de rajiformes de água doce sul Americano são representados pela subordem Myliobatiformes, nas quais se encontram famosas arraias de água doce todas pertencentes à família Potamotrygonidae (Santos et al., 2004).

A família Potamotrygonidae ocorre estritamente em águas continentais da América do Sul, na maioria dos sistemas de rios, com exceção daqueles que drenam para o Pacífico; na bacia do rio São Francisco; nos rios costeiros que drenam a partir da Mata Atlântica; na bacia do Paraná superior (colonizado após represamento das Sete Quedas) e rios ao sul do rio da Prata, Argentina (Rosa, 1985).

Os Potamotrygonideos apresentam cerca de 20 espécies distribuídas em três gêneros (Paratrygon, Plesiotrygon e Potamotrigon) e atingem maior diversidade na região Amazônica (Carvalho et al., 2003). Vivem comumente no fundo arenoso ou lamacento muitas vezes parcialmente encobertas, embora raro, podem ser vistas na superfície na época reprodutiva, são preferencialmente carnívoras (peixes e crustáceos).

As raias têm uma grande participação na pesca comercial, principalmente a baixo de Tucurui, na região sob influência das marés, onde alcançam cerca de 2,5% da produção pesqueira. O gênero Potamotrygon é representado por 16 espécies. No entanto algumas espécies com ampla distribuição geográfica podem ser subdivididas em novas espécies (Potamotrygon motoro e P. orbignyi).

O trabalho de taxonomia da família é ainda bastante incompleto, com ao menos cinco novas espécies descobertas aguardando descrição formal (Carvalho et al., 2003). Esse trabalho é dificultado, pois muitas espécies da família são pobremente descritas; além da grande variação intraespecífica de morfométricos e no padrão de coloração.Existem aproximadamente 1000 espécies de Condrycties descritos, somente 29 são adaptadas exclusivamente à água doce e 20 fazem parte de uma única família (Carvalho et al., 2003). A família Potamotrygonidae é um táxon extremamente específico dentro dos peixes cartilagionosos onde todas suas espécies são adaptadas exclusivamente à água doce, possuem especializações morfofisiológicas que os permitiram sobreviver na água doce (ambiente mais instável que a água marinha), tais como modificação na amola de Lorenzini e um conjunto de características biológicas herdadas de seu ancestral marinho.

Os Potamotrigonideos são mais suscetíveis aos impactos antrópicos primeiro por limitações da sua biologia como o lento crescimento, maturação sexual tardia e fecundidade baixa e as restrições naturais do ambiente de água doce. As principais ameaças a conservação deste grupo são: a pesca de subsistência, a pesca artesanal com finalidade ornamental, pesca esportiva e pesca de "caça" ou negativa com objetivo de eliminação e mutilação por conta do ferrão; A destruição de habitats por dragagem para garimpos) (Araújo et al., 2004).

As arraias de água doce possuem um ferrão venenoso e ferroam quando pisadas no dorso. Representam cerca de 9% dos acidentes com animais aquáticos de água doce. A ferida causada pela arraia é muito dolorosa e por isso são muito temidas pelos ribeirinhos, o fato é que o medo da comunidade ribeirinha e de pescadores amadores criou uma prática pouco louvável que é a morte ou decapitação da cauda desses animais (Charvet-Almeida et al., 2002).

A construção de barragens na Bacia do rio Paraná permitiu o acesso de arraias pela bacia, através dos recursos criados para o deslocamento de outras espécies para colonizar a região do Alto Paraná, ou seja, aparentemente esses animais estão se beneficiando dos fins de algumas barreiras naturais e dos novos caminhos abertos pela Hidrovia Tietê-Paraná para se dispersarem.

Pesquisadores sugerem a realização de monitoramentos das arraias para acompanhar seus padrões de movimentação e rotas de dispersão na bacia (Garrone-Neto & Sazima, 2009). Nessa região houve aumentado significativo das populações de arraias trouxe conseqüentemente a elevação do número de acidentes pela maior exposição de pessoas a esses animais (Garrone-Neto & Hadadd-Jr, 2010).

O acompanhamento da dispersão desses animais está ocorrendo de maneira semelhante à introdução de abelha africana no Brasil nos anos de 1950, por meio dos registros de acidentes. Os ribeirinhos e os índios amazônicas tratam pessoas ferroadas por arraias e alguns bagres com o calor de resinas extraídas da floresta, com barro quente entre outras substâncias.Aparentemente o calor inibe a dor da ferroada e age como algum potencial antiinflamatório. É sabido que alguns índios utilizam-se do ferrão de arraia para prática da flebotomia (sangria como uso medicinal), nos dias de hoje alguns povos tradicionais da Amazônia ainda utilizam de alguma forma o ferrão desses animais para tratamento de reumatismo. Os ferrões são guardados em uma espécie de "coquetel" com álcool logo após a sua retirada do corpo do animal.

Referências Bibliográficas

SANTOS, G. M.; JURAS, A. A.; MERONA, B.; JEGU, M. 2004. Peixes do baixo rio Tocantins. 20 anos depois da Usina Hidrelétrica Tucuruí. Brasilia: Eletronorte. 215 p CARVALHO, M.R. et al. Family Potamotrygonidae (river stingrays). In: REIS, R.E. et al. (Ed.). Check list of the freshwater fishes of South and Central America. Porto Alegre: Edipucrs, 2003. p. 22-28
CHARVET-ALMEIDA, P., M. L. G. ARAÚJO, R. S. ROSA; G. RINCÓN. 2002. Neotropical freshwater stingrays: diversity and conservation status. Shark News, 14: 1-2. ROSA, R. S. 1985. A systematic revision of the South American freshwater stingrays (Chondrichthyes: Potamotrygonidae). Unpublished Ph.D. Dissertation, The College of William and Mary, Williamsburg,Virginia, 523p
GARRONE NETO, D.; HADDAD-JR, V. Arraias em rios da região Sudeste do Brasil: locais de ocorrência e impactos sobre a população. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (Impresso), v. 43, p. 82-88, 2010.
ARAÚJO, M. L. G. ALMEIDA, M.;CHARVET-ALMEIDA, P. PEREIRA, H. Freshwater Stingrays (Potamotygonidae): status, conservation and management challenges. Information document AC 20, v. 08, p. 16, 2004.
ARAÚJO, M. L. G.; ALMEIDA, M.; CHARVET-ALMEIDA, P. Reproductive Aspects of Freshwater Stingras (Chondrichthyes: Potamotrygonidae) in the Brazilian Amazon Basin. Journal of Northwest Atlantic Fishery Science, Nova Escócia, v. 35, p. 165-171, 2005.
GARRONE NETO, D.; Sazima, I. Stirring, charging, and picking: hunting tactics of potamotrygonid rays in the upper Paraná River. Neotropical Ichthyology, v. 7, p. 113-116, 2009.

Wagner Martins Santana Sampaio
Biólogo pela Universidade do Estado de Mato Grosso, Mestre em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa. Experiência em Genética, Zoologia e Ecologia de peixes. Experiência em estudos e relatórios de impactos ambientais. Experiência em levantamento e resgate de fauna. Atualmente é pesquisador colaborador do laboratório de Sistemática Molecular UFV e diretor da empresa IPEFAN.
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