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Artigos de Veterinária


Desmama


1 de janeiro de 2008


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Esse artigo me fez lembrar um daqueles exercícios de pontuação da frase que, passados pela professora de Português, nos deixava com a pulga atrás da orelha: “um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe do fazendeiro era também o pai do bezerro”. Dê-lhe ponto, vírgula, ponto-e-vírgula e maiúsculas, onde e quando for necessário. E não vale pular para o fim do artigo para ver a resposta.

Devo, desde já, avisar que o pai do bezerro não entra neste artigo... nem a mãe do fazendeiro. Quem tem de cuidar dos seus interesses é o próprio e, pensando assim, vaca vadia, digo vaca vazia, não entra nessa matéria, pois a essa altura do ano, encerrada a estação de monta em meados de janeiro, o diagnóstico de gestação feito em março – repito, a essa altura do ano vaca vazia já tomou o seu destino –, não vai passar mais um ano comendo de graça e competindo na seca pelo pouco pasto que sobra para os bezerros e as mães prenhas.

Mães prenhas, vacas naturalmente, lactando e com bezerro ao pé não combinam com a escassez de forragem do período seco. Por isso, a desmama é necessária já agora em abril: para garantir um bom terço final de gestação (mais da metade do novo bezerro só se forma agora), fêmeas paridas com boa condição corporal e, conseqüentemente, boa taxa de prenhez ao final da próxima estação de monta. Então, se para as vacas em geral a desmama é uma boa, para as primíparas, as vacas de primeiro parto, a desmama antes do período seco é fundamental para garantir seu pleno desenvolvimento corporal, pois ainda estão em fase de crescimento e vão enfrentar a escassez de alimentos.

Se é bom para as vacas e fundamental para as primíparas, é preciso tomar alguns cuidados para que não seja ruim para o bezerro e pior para o bolso do dono do bezerro. Além de estressante e traumático para a cria, a separação da mãe representa o fim da mordomia do leite. O fim de uma excelente fonte de energia, proteínas, vitaminas, minerais e até anticorpos e a passagem definitiva para a vida de herbívoro ruminante: o pasto e as agruras da pastagem na seca que vem aí.

A bem da verdade, desde o terceiro mês de amamentação o leite já vinha diminuído e o pasto aumentando sua participação na dieta do bezerro, mas, de qualquer forma, o animal sente assim mesmo, e é preciso compensar essa perda na alimentação, se o que se quer é um bezerro pesado, seja para venda, seja para recria. Os cuidados listados a seguir são recomendados para garantir o sucesso da desmama e um bom lucro para o fazendeiro:

1) O mais importante é ter um pasto baixo, denso e de alto valor nutritivo. Para quem tem solo fértil, ou se dispõe a adubar, pode ser um estrela africana, um tifton, um capim-massai ou até um tanzânia que, se manejado sob pressão de pastejo mais alta pode perfilhar mais e ficar mais gramado. Consorciados com estilosantes ou com o amendoim forrageiro vão bem em solos de média fertilidade os capins piatã, xaraés e marandu. Nos solos mais fracos, leguminosa com dictioneura, humidícola ou andropógon – de excelente valor nutritivo, mas só para quem se adapta ao manejo que ele exige. Embora tenha diminuído muito, a ocorrência da sapeca ou requeima dos bezerros (fotossensibilização hepatógena) a decumbens ainda deve ser vista com reservas para a desmama.

2) Bezerro estressado e nervoso perde o apetite e emagrece. Além disso, fica com o sistema imunológico deprimido e vira alvo fácil de vermes, diarréias e outras infecções. E a vaca perde o cio.

Na desmama, o bezerro já sofre com a separação e, se for levado para um pasto estranho, o estresse é ainda maior. O bom é ter perto da sede um pasto com cercas bem feitas. Pode ser aquele pasto maternidade. Um mês antes, vacas, bezerros e “madrinhas” são levados para este pasto e na desmama as vacas são retiradas e postas num pasto vizinho. Ela pode ver, ouvir e cheirar a cria e todos ficam mais calmos. As “madrinhas” são quatro ou cinco adultos para cada cem bezerros, incluídos no grupo para ajudar a tranqüilizar o lote.

Se as cercas não garantem o isolamento, o melhor é dobrar o número de madrinhas; deixar os bezerros três dias no currar com água, ração e capim; as mães e madrinhas, do lado de fora. Os bezerros e madrinhas voltam para o pasto onde estavam; as mães devem, então, ser levadas para um piquete fora do alcance do berro da cria.

3) Na primeira semana após o desmame é bom ficar de olho na bezerrada e tirar do lote, para por sob cuidados médicos e alimentação reforçada os que enfraquecerem de mais ou adoecerem.

Se a verminose não estiver sob controle na fazenda, vale a pena descontaminar o piquete dos bezerros desmamados esvaziando-o por quarenta dias e dar uma boa vermifugada no lote todo (mães, crias e madrinhas) antes da entrada no piquete descontaminado. O Dr. Pedro Paulo Pires, médico veterinário e pesquisador da Embrapa Gado de Corte, gosta muito da vermifugação com produtos à base de levamisole, porque é imunoestimulante e aumenta a resistência dos bezerros. E tem o zinco, que também é imunoproteror.

As pesquisas da colega, Dra. Sheila Moraes, comprovaram que é lucrativo aplicar uma dose oral de zinco no dia da desmama: cinco meses após a desmama os bezerros zincados ainda pesavam até 10 quilos a mais que os outros. E o zinco é muito barato: 132 gramas de sulfato de zinco heptaidratado, ou 75 gramas de sulfato de zinco anidro, diluídos em 1 litro de água mineral sem gás dá para 100 bezerros (a dose é de 10 ml).

Em suma, a receita para um bom desmame é tranqüilidade, sanidade e olho na bezerrada! E ficamos assim: “Um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe; do fazendeiro era também o pai do bezerro.” E uma boa desmama para todos.

Haroldo Pires de Queiroz é zootecnista e difusor de tecnologia da unidade Gado de Corte (CNPGC, de Campo Grande/MS) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
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