artigo

sexta-feira, 29 de maio de 2009 - 15:55

Tamanho do texto: A A

Compreendendo o esquecimento: teorias clássicas e seus fundamentos experimentais

por: Colunista Portal - Educação

Compreendendo o esquecimento: teorias clássicas e seus fundamentos experimentais

 

Understanding forgetting: classical theories and their experimental basis

 

Comprendre l'oubli : théories classiques et leurs fondements expérimentaux

 

 

Giovanni Kuckartz Pergher1; Lilian Milnitsky Stein2

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

 

 


RESUMO

Apresenta-se uma revisão das teorias pioneiras que buscaram explicar o fenômeno do esquecimento, que é aqui considerado como o fenômeno no qual há uma incapacidade de lembrar informações que estavam, anteriormente, disponíveis para serem recordadas. As teorias abordadas são: Deterioração, Interferência, Falha de Recuperação e Esquemas. Também são apresentados alguns efeitos experimentais clássicos que deram suporte empírico a estes modelos sobre o esquecimento.

Descritores: Esquecimento. Memória. Interferência.


ABSTRACT

This study reviews the pioneer theories which sought to explain forgetting. Forgetting is presented as the incapacity to recall information that had been previously available. Theories approached include: Decay, Interference, Retrieval Failure and Schema. Some classic experimental effects which provided empirical support for these models are also presented.

Index terms: Forgetting. Memory. Interference.


RÉSUMÉ

On présente une révision des théories pionnières qui ont cherché à expliquer le phénomène de l'oubli qui est ici considéré comme un phénomène dans laquelle il y a une incapacité à se souvenir d'informations qui étaient, antérieurement, disponibles pour être évoquées. Les théories abordées sont : détérioration, interférence, manque de récupération et de schémas. On présente également quelques effets expérimentaux classiques qui ont donné un support empirique à ces modèles sur l'oubli.

Mots-clés: Oubli. Mémoire. Interférence.


 

 

A maioria de nós só presta atenção na própria memória quando ela falha. Essa atenção é maior ainda quando os lapsos nos deixam em situações embaraçosas ou nos impedem de realizar tarefas importantes. É extremamente desagradável, por exemplo, ser apresentado a uma pessoa num dia e, alguns dias depois, ao encontrá-la novamente, não se lembrar do seu nome. Nesses momentos podemos até ter acessos de raiva, afirmando que nossa memória não funciona direito ou que estamos amnésicos.

Não faltam acúmulos na literatura científica acerca da falibilidade da memória (Schacter, 2001). Ao contrário do que pensavam muitos filósofos da Grécia antiga, a memória humana não tem a propriedade de ser uma representação fidedigna dos eventos experienciados. A metáfora de Platão, em que a memória humana era comparada com um aviário e as memórias específicas eram pássaros que eram posteriormente capturados (lembrados) é, hoje em dia, sabidamente inadequada. Embora muitos modelos de memória bem posteriores utilizem uma metáfora semelhante, o principal problema está em considerar que uma lembrança precisa e específica é a regra, e não a exceção. Nossa memória, portanto, não é como um video-tape. Ela apresenta inúmeras falhas (Stein & Pergher, 2001) e, dentre elas, o esquecimento.

Muitas pessoas acreditam que o esquecimento seja algo ruim, indesejado, e afirmam que gostariam de ter uma memória melhor. Isso é perfeitamente compreensível, se pensarmos nas diversas vezes em que ficamos frustrados por esquecermos de algumas coisas, como um conteúdo que caiu numa prova ou o telefone de uma pessoa que conhecemos.

Todavia, um outro aspecto do esquecimento, aquele que diz respeito às vantagens de esquecer, é freqüentemente negligenciado. Imagine se você tivesse uma memória perfeita e se lembrasse de absolutamente tudo aquilo que já vivenciou. Embora imaginar tal fato seja um tanto quanto difícil, uma conclusão pode ser tirada: você não conseguiria ter idéias do genérico, não conseguiria trabalhar com o abstrato, você seria "escravo do particular" (Bruner, Goodnow, & Austin, 1956, citados por Pozo, 1994/1998).Sternberg (1996/2000) corrobora tal posição ao descrever os problemas enfrentados por S. F., um mnemonista (pessoa com uma capacidade de memória extraordinária), que tinha dificuldades para compreender conceitos abstratos, chegando até a considerar que sua memória era um estorvo.

Dessa maneira, tendo em mente que a nossa inteligência é fruto, em grande parte, da nossa capacidade de abstrair e de trabalhar com conhecimentos genéricos, fica evidente uma das principais vantagens do esquecimento: aquela de favorecer a elaboraçãoe, conseqüentemente, possibilitar o desenvolvimento da própria inteligência.

Uma vantagem do esquecimento diz respeito a sua função auto-protetora. Se lembrássemos de tudo o que já nos aconteceu, de tudo o que já ouvimos ou vimos, nossa memória seria um grande emaranhado de conhecimentos inúteis e dispensáveis, causando-nos grande dificuldade em acessar determinadas informações e atrapalhando em muito nossa atividade cognitiva. Assim sendo, o fato de esquecermos determinados eventos, em especial aqueles de menor relevância, proporciona uma grande economia cognitiva. Para Schacter (1999), o fato de o sistema de memória esquecer gradualmente as informações é adaptativo, na medida em que a pessoa irá reter apenas as informações mais relevantes para agir sobre o meio.

No presente artigo, serão discutidas algumas teorias clássicas que buscam explicar o esquecimento à luz de alguns achados experimentais que dão suporte a estes pontos de vista teóricos. O esquecimento será considerado, aqui, como o fenômeno pelo qual informações armazenadas na memória, deixaram de estar disponíveis para serem utilizadas. Esta definição mais ampla do esquecimento faz-se necessária tendo em vista que diferentes teorias têm diferentes explicações sobre o fenômeno. Assim, essas teorias podem ser arbitrariamente divididas em dois grandes agrupamentos: aquelas que afirmam haver uma perda definitiva na memória das informações anteriormente armazenadas, e aquelas que postulam que o fato de esquecermos se dá em função de uma dificuldade de acesso às informações. A principal representante daquelas teorias que postulam o desaparecimento dos traços de memória é a Teoria da Deterioração, que tem como seu precursor o pesquisador alemão Ebbinghaus. Dentre os modelos teóricos que entendem o esquecimento como uma dificuldade ou impossibilidade de acesso a informações já armazenadas, encontram-se a Teoria da Falha na Recuperação e a Teoria dos Esquemas, desenvolvida inicialmente por Bartlett.

Já a Teoria da Interferência pode ser enquadrada em ambos agrupamentos, dependendo do período de seu desenvolvimento. Tendo J. A. McGeoch como um dos principais expoentes em seus primórdios, a Teoria da Interferência receberá uma ênfase diferenciada em nosso trabalho, em função de ela estar na base das novas teorias que atualmente buscam explicar o esquecimento, bem como o funcionamento cognitivo de maneira geral.

Cabe ressaltar que o escopo de nossa discussão será em torno das causas cognitivas do fenômeno, ou seja, trabalharemos com o esquecimento comum, do dia-a-dia. Ele difere, por exemplo, tanto de uma amnésia provocada pela necrose do tecido nervoso, na qual a causa é orgânica, como de uma amnésia provocada por algum tipo de patologia psíquica.

CreativeCommons

Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.

Comentários


colunista

Colunista Portal - Educação

O Portal Educação possui uma equipe focada no trabalho de curadoria de conteúdo. Artigos em diversas áreas do conhecimento são produzidos e disponibilizados para profissionais, acadêmicos e interessados em adquirir conhecimento qualificado. O departamento de Conteúdo e Comunicação leva ao leitor informações de alto nível, recebidas e publicadas de colunistas externos e internos.

Psicologia