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11 de fevereiro de 2009
Psicologia hospitalar: breves incursões temáticas para uma (melhor) prática profissional
Hospitable psychology: brief thematic incursions for one (better) professional practice
Fausto Eduardo Menon Pinto¹
RESUMO
Este material tem como proposta discutir algumas idéias provenientes a partir do término de uma experiência em psicologia hospitalar na Região Metropolitana de Campinas, São Paulo. Discute-se neste breve relato de experiência, entre os muitos aspectos, a importância de se produzir um roteiro padronizado de exame psicológico a fim de conhecer o dinâmico funcionamento psicológico do paciente hospitalizado, principalmente a partir de duas dimensões psicológicas básicas: cognição e afetividade.
Palavras-chave: Psicologia, Psicologia hospitalar, Cognição, Afetividade.
Introdução
Este material tem como intento apresentar, de forma muito despretensiosa, um pequeno caminho na práxis do psicólogo hospitalar, notadamente a partir da descrição de uma vivência em um Hospital Particular da Região Metropolitana de Campinas/São Paulo; experiência esta compreendida entre o ano de 2000 até meados do primeiro semestre de 2002.
Em vista disso, nas páginas seguintes, pretende-se iniciar uma breve discussão que aborda o funcionamento psicológico do paciente hospitalizado, em condições especiais de adoecimento. Neste sentido, inicia-se com a descrição de uma paciente e logo após sugere-se um modelo de preenchimento de relatório de exame psicológico em que sejam revistas três categorias psíquicas, sobre as quais citam-se: a cognição, a afetividade e os intra e inter-relacionamentos.
O universo psicológico no contexto hospitalar: o caso Mm
“Existem outros mundos, mas estão neste”
Paul Eluard
O relato de experiência, que se será descrito logo a seguir, corresponde ao término de um aprendizado em um Hospital Geral, pertencente a uma instituição particular prestadora de serviços de saúde, na Região Metropolitana de Campinas.
No que diz respeito aos inúmeros pacientes atendidos, a partir de agora se propõe pela descrição parcial de um deles, quer seja pela natureza complexa de seus conteúdos psicológicos. Desde o começo, vale deixar sublinhado, aos leitores, que ela será tratada de Mm, ao longo do texto, por questões de ética, prevalecendo então o sigilo de sua identidade.
A paciente reside na circunvizinhança da cidade de Campinas, havia concluído curso superior e, nos dias de hoje, trabalha em uma empresa, prestando acessoria administrativa na área de saúde. Quanto ao seu problema de saúde orgânica, inicialmente o corpo clínico do hospital constatou um quadro de cefaléia – ou seja, dores de cabeça de grande ardor na região frontal – dentre outros diagnósticos complementares realizados pelos profissionais da saúde. A equipe de enfermagem comenta que naquela ocasião a paciente “... está poliqueixosa e tem tratado muito agressivamente a gente” (verbalização de uma enfermeira).
Em um primeiro momento, encontra-se a paciente logo no corredor de uma das alas do hospital, apresenta-se como Psicólogo e é proposto um ambiente para se conversar melhor, se assim ela quisesse. Sem demonstrar qualquer hesitação aparente, ela aceita. Caminha-se até um jardim, a seu convite. Ao chegar neste local, curiosamente, decide sentar-se na grama e não em uma das cadeiras de metal que havia à sua frente.
Como uma primeira observação, a paciente mostrava um cansaço físico e psíquico, diz-se isso por sua musculatura facial contraída, sem grandes gesticulações e com verbalização monossilábica. Ainda assim, consegue se ater ao presente e com um fluxo de consciência também focalizado ao passado. Pode-se observar que a sua fala era bem acentuada e com pouco uso de adjetivos descritivos referidos à sua estada no hospital e experiências afins.
De maneira complementar, pode-se pressupor que Mm “refina” cognitivamente as suas percepções, subtraindo, nas verbalizações, prováveis experiências angustiantes e deixando aquelas que consiga “tolerar” ao vê-las frente a frente. Em uma primeira interpretação destes dados, pode-se supor que diante dos eventos angustiantes que experienciou na vida, Mm usa de um humor inigualável, uma vez que ao perceber-se que está em um mundo de angústia, ri compulsivamente. Segue, depois deste riso, um choro de dúvida, autodepreciação e com muita auto-agressividade, em razão da qualidade de seus conteúdos psicológicos.
Considerando todos esses aspectos, em um dos muitos conteúdos psicológicos, destaca-se uma rememoração de Mm ao refletir sobre a sua mãe. De acordo com Mm, é muito difícil compreender as atitudes de sua mãe, que para ela é moralista e afetivamente distante, e ao mesmo tempo de seu pai, sempre ausente. Neste ínterim, começou a relembrar alguns períodos de sua vida em que “quando garota me oferecia sexualmente alguns garotos do meu bairro, sem o consentimento de minha mãe...”(sic). Na seqüência da verbalização, segundo informações da própria paciente, soma-se o fato de que há muito tempo vinha se sentindo angustiada com o seu casamento, quer por não conseguir relacionar afetiva e sexualmente com o seu marido.
Do ponto de vista psicológico, é fundamental realçar que todas as informações, elencadas pela própria verbalização da paciente hão de ser muito significativas, durante o preenchimento de um relatório de atendimento, ao declararem um modelo singular de estruturação, organização e funcionamentos psíquicos. No entanto, na hora de preencher o relatório de atendimento, que ficava em anexo ao prontuário do paciente, o modelo principal de raciocínio estava em reestruturar um texto em que devia conter, resumidamente, parte do discurso da paciente, acrescidos de algumas observações do atendimento; decompondo-o assim em matizes cada vez mais individuais, sem procurar assinalar conjuntamente qualquer relação, e possível co-relação, entre afetividade e cognição.
É bem provável que, na elaboração de um relatório psicológico hospitalar, os conteúdos psicológicos, seja ele afetivo, seja ele cognitivo, ficavam separados entre si. Acredita-se portanto que o relatório reportava a uma linguagem compromissada tão-só pela objetividade e padronização do discurso da paciente, o que deixava de mencionar toda a riqueza psicológica encontrada no descrição subjetivo-vivencial da paciente, ou seja as suas experiências e suas respectivas características particulares.
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