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11 de fevereiro de 2009
Psicologia organizacional e globalização: os desafios da reestruturação produtiva
Alexandre Dittrich
Descrevendo as relações entre globalização e processos políticos, ideológicos e econômicos - com especial atenção às relações de produção - este trabalho visa apontar possibilidades e limites na atuação do psicólogo organizacional brasileiro, diante da atual conjuntura. Neste contexto, a questão ética também é discutida, tendo como princípio o resgate da dignidade do trabalhador e a proteção de seus direitos. Uma vez assumido este compromisso, conclui-se que a atuação do psicólogo deve ocorrer não apenas nas organizações, mas em um contexto social e político mais amplo.
Introdução: A Ética da Filha Prostituída
Gostaríamos de iniciar este trabalho apontando um fato facilmente perceptível pelo analista mais atento - e já confirmado alhures (Codo, 1994a): os círculos acadêmicos da psicologia brasileira, ao que parece, nutrem um forte preconceito em relação à psicologia organizacional. Tal situação deve-se, em grande parte, às deficiências na formação do psicólogo brasileiro, provenientes de uma concepção errônea da própria Psicologia e de seus objetivos. Visto como uma espécie de "médico" ou meramente como um "profissional da saúde", o psicólogo é aquele que deve privilegiar a racionalidade clínica no exercício de sua profissão. Além de confirmar representações sociais que muitos imaginam exclusivas do senso comum, tal ponto de vista denuncia graves equívocos na concepção sobre o que venha a ser o domínio psicológico do ser humano, bem como sobre a constituição do mesmo. "Trabalho?" - alguém poderia indagar-se - "Afinal, o que isso tem a ver com Psicologia?" Tudo, desde que reconheçamos que o domínio psicológico de cada sujeito é um reflexo direto das condições materiais de sua vida - solo sobre o qual o subjetivo encontra sua gênese e torna a objetivar-se. Neste sentido, Codo (1994b) chega a posicionar as relações de trabalho como o ponto de partida privilegiado através do qual estudar o comportamento humano. De fato, o trabalho - relação humana reconhecidamente basal para o surgimento da própria civilização - nos cerca de tal forma que qualquer análise psicológica que ignore as condições de produção material da vida humana será ingênua - ou, ao menos, incompleta. O trabalho é a práxis humana por excelência. "É o trabalho, portanto, que provê identidade para o homem e o habilita a sentir-se eleito e participante da sociedade. (...) O status na organização passa a ser o referencial que qualifica a inteligência, a capacidade e a competência do indivíduo, muito mais que sua saúde mental, a qualidade de seu relacionamento familiar ou o grau em que se sente feliz" (Silva, 1992, p. 72 e 76).
Mesmo ciente de tais fatos, o autor confessa que também integrou, por considerável período de tempo, a "ala de resistência" dos acadêmicos de Psicologia em relação à área organizacional. Inicialmente, em função de dúvidas epistemológicas - afinal, se a Psicologia, por si só, encontra sérias dificuldades em estabelecer métodos seguros para a obtenção de seus "fatos", o que dizer da psicologia organizacional, que estuda uma comunhão tremendamente complexa de "subjetividades"? Em seguida, surgiram questionamentos éticos relativos à própria prática do psicólogo organizacional. Neste campo, as conclusões imediatas são as mais óbvias: trabalhando no interior do sistema capitalista, o psicólogo deve concorrer para seus objetivos. Portanto, discursos humanistas em psicologia organizacional servem, por regra, como escudo para técnicas que visam apenas a otimização da produção e o apaziguamento das intempéries surgidas na relação entre patrões e empregados. Além disso, mesmo que obtenhamos, efetivamente, benefícios para o trabalhador, o que nos garante que não estaremos apenas ocultando a este as contradições da sociedade em que vive? Em suma: não será o psicólogo organizacional apenas um reles instrumento de adaptação do trabalhador em prol da reprodução cega de uma realidade social injusta?
O autor manteve-se inabalado em seu "heroísmo", até fazer a espantosa descoberta de que não estava sozinho: o estudante que ignora a área organizacional por motivos éticos é a regra, e não a exceção:
(...) quanto mais cresce a importância da indústria na sociedade contemporânea, mais crescem as críticas que a Psicologia, principalmente no âmbito acadêmico, faz à atuação do psicólogo na indústria. Embora seja muito difícil operacionalizar estas formulações, sente-se claramente que os professores e alunos de Psicologia referem-se a esta especialidade como uma espécie de irmã menor da Psicologia, um misto de asco e comiseração comum à mãe (prendada) que se refere a uma filha que se prostituiu. (...) Sobre a crítica da função teórica do psicólogo industrial, já se transformou em lugar comum as afirmações de que estas atividades (...) são intrinsecamente reacionárias. (...) a crítica que produz a não intervenção é uma crítica caolha, covarde, que lava as mãos e se recusa em inverter o papel da ciência, que não se submete a correr os riscos do poder para tentar subvertê-lo. (Codo, 1994a)
De súbito, o tal "heroísmo" já não parecia mais tão confortável...Seria possível uma prática transformadora, um nova forma de se fazer psicologia organizacional? É viável penetrar nas entranhas do dragão para então feri-lo? O ponto de partida para responder a estas questões passa pela compreensão das relações de trabalho - objeto da psicologia organizacional. Estas vêm sendo drasticamente transformadas por uma gama de acontecimentos que, gradualmente, tornam-se "lugar comum". A este conjunto de transformações, coube uma denominação emblemática.
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