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26 de dezembro de 2008
Este artigo apresenta o diagnóstico estrutural de personalidade como prática clínica fundamentada na Psicopatologia Psicanalítica Estrutural. As concepções de Bleger, Bergeret e Winnicott são articuladas visando oferecer subsídios teóricos para o estabelecimento de tal diagnóstico, cuja finalidade principal é orientar decisões clínicas quanto à escolha de técnicas e estratégias psicanalíticas adequadas ao tipo de psicopatologia envolvido em cada caso particular. Procedimentos Projetivos, utilizados transicionalmente nas entrevistas clínicas, são especialmente mencionados, uma vez que possibilitam o acesso, num contexto lúdico e criativo, aos determinantes lógico-emocionais subjacentes às condutas humanas.
Descritores: Psicopatologia. Psicanálise. Psicodiagnóstico. Desenvolvimento da personalidade. Técnicas projetivas.
"Tenho de tomar por certa a compreensão e a aceitação da análise da psiconeurose. Baseado nesta presunção, digo que, nos casos que estou examinando, a análise começa bem e progride com ímpeto; o que está acontecendo, contudo, é que o analista e o paciente estão se divertindo em conluio em uma análise psiconeurótica, quando, na realidade, a enfermidade é psicótica. (...) Na realidade, o avanço não foi um avanço, mas sim um novo exemplo de o analista jogar o jogo que o paciente faz de postergar a questão principal." (D. W. Winnicott. "O Medo do Colapso").
Observa-se, na prática psicológica corrente, direta ou indiretamente influenciada pelo pensamento psicanalítico, certa tendência a desvalorizar o diagnóstico da personalidade. Esta tendência tem importantes conseqüências, tanto do ponto de vista da eficácia clínica como da ética, na medida em que o desconhecimento das condições psicopatológicas pode resultar em intervenções terapêuticas ineficazes e até prejudiciais.
No entanto, desde os primórdios da psicanálise, Freud (1904/1948e) reconheceu a importância do estabelecimento de um diagnóstico provisório antes do início efetivo do tratamento. Esta preocupação manifesta-se explicitamente já em 1904, ocasião em que indica, baseado em sua experiência clínica e nos conceitos teóricos desenvolvidos até então, alguns critérios para a seleção de pacientes (p. 307). Em artigo posterior, Freud (1913/1948b) retorna a questão da necessidade de uma triagem preliminar e ratifica a necessidade de um período prévio de entrevistas para "...sondagem, e para decidir se ele é apropriado para a psicanálise," admitindo que "... existem também razões diagnósticas para começar o tratamento por um período de experiência deste tipo, a durar uma ou duas semanas" (p. 334). Naquele contexto, tratava-se sobretudo, de proceder à escolha de caso passível de ser beneficiado pela psicanálise, já que Freud excluía, nesta data (1913), a possibilidade da análise de pacientes não-neuróticos. Contudo, admitia e almejava que desenvolvimentos teórico-técnicos posteriores pudessem levar à proposição de uma psicoterapia psicanalítica das psicoses.
Pensamos que a atual desvalorização do diagnóstico da personalidade resulta de uma confusão entre os conceitos de método e técnica. Não havendo uma clara discriminação entre o método psicanalítico, que é, de fato, essencial e fundante da atividade humana denominada psicanálise, e a técnica de tratamento das neuroses, que é uma de suas aplicações, historicamente a mais antiga, muitos erros passam a ser cometidos. A desvalorização do psicodiagnóstico é um destes equívocos, cometido justamente por profissionais que pensam saber valorizar o conhecimento psicanalítico. Conseqüentemente, toda vez que se deparam com sintomatologia psicopatológica de significado emocional, deixam de proceder à realização do psicodiagnóstico para apenas indicar psicoterapia psicanalítica, como se o método psicanalítico só pudesse se concretizar através do modelo freudiano clássico de tratamento para neuróticos. Um olhar mais detido não pode deixar de perceber que, para tais profissionais, problemática psíquica de ordem emocional é sinônimo de neurose, de sorte que muito provavelmente nutrirão crenças acerca da organogênese dos distúrbios psicóticos. Uma variante, que não muda essencialmente este quadro, acontece quando pais buscam atendimento psicológico infantil. Nestas situações, o psicodiagnóstico é realizado, mas, surpreendentemente, pouco considerado pelo psicoterapeuta que vai se encarregar do caso. O objetivo deste estudo de caso parece se restringir a embasar uma "entrevista devolutiva" com os pais, cuja função principal é convencê-los a optar por uma ludoterapia. Pensamos que este procedimento é questionável tanto no âmbito epistemológico, por separar investigação e intervenção em dois momentos distintos, quanto clínico, por desconsiderar dados valiosos do ponto de vista psicopatológico que deveriam orientar uma intervenção terapêutica eficaz.
A questão do método psicanalítico tem sido pormenorizadamente desenvolvida, entre nós, por Herrmann (1979), que demonstra, de modo convincente, ser este o elemento invariante que unifica uma série de diferentes práticas as quais, rigorosamente, podem ser consideradas psicanalíticas. Concordamos com Herrmann, quando afirma que o método psicanalítico consiste essencialmente na busca dos determinantes lógico-emocionais que estruturam as condutas humanas. Desta feita, trata-se de método que pode ser utilizado em tentativas de inteligibilidade, desde a perspectiva psicológica de análise do fenômeno humano, de toda e qualquer conduta na acepção precisa com que este conceito é definido por Bleger (1977). Utilizando o conceito de conduta que se atualiza como fenômeno mental, corporal ou de atuação no mundo, Bleger adota posição epistemológica que supera o dualismo corpo-mente e estabelece uma relação dialética entre ambos. Simultaneamente, ao definir tais manifestações como essencialmente vinculares, torna inviável a desconsideração das condições concretas da existência humana, firmando, deste modo, uma visão do homem como ser essencialmente social. É interessante lembrar que o desenvolvimento destas idéias fundamentou-se na concepção de dramática desenvolvida por Politzer (1928/1929). Bleger vai, contudo, enfatizar que o drama humano é necessariamente forjado, desde tenra idade, na relação com outrem, de modo que seu significado íntimo só é susceptível de ser desvendado com base nas experiências vitais do sujeito em questão. Por outro lado, conforme ensina a psicanálise, este sentido pode permanecer inconsciente, o que requererá a aplicação do método psicanalítico ao estudo psicológico da conduta, a partir do que se pode chegar à apreensão/construção daquilo que Herrmann (1979) denomina inconsciente relativo.3
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