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Neurociências e psicanálise: há possibilidade de articulação?


3 de dezembro de 2008


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Bianca Maria Sanches Faveret

Professora Adjunta da Universidade Federal de Juiz de Fora

 



RESUMO

Existe uma proposta contemporânea de promover o trabalho interdisciplinar entre os campos da psicanálise e das neurociências, visando favorecer a integração entre ambas. Neste artigo, examino criticamente a questão de haver ou não uma possibilidade mínima de articulação entre esses domínios de conhecimento, a partir dos pressupostos epistemológicos que servem de base a cada um deles. Tal reflexão envolve tanto a minha perspectiva de psicanalista quanto o instrumental teórico que nos é oferecido por uma visão pragmática da ciência, a qual tem se desdobrado numa ampla literatura de filosofia/sociologia das ciências naturais nas últimas décadas.

Palavras-chave: psicanálise, neurociências, ciência, objetivismo, paradigmas


"Não existem algoritmos neutros para a escolha de uma teoria".
Thomas S. Kuhn (1962/1990: 246)

A International Neuro-Psychoanalysis Society foi fundada em Londres, em julho de 2000, para promover o trabalho interdisciplinar entre os campos da psicanálise e da neurociência. Publica Neuro-psychoanalysis, revistaque procura favorecer a integração entre a psicanálise e a neurociência. Os editores entendem que, apesar de a psicanálise e a neurociência terem abordado a tarefa de compreender os fenômenos/transtornos mentais a partir de perspectivas radicalmente diferentes, teria se tornado muito evidente, nos últimos anos, a unidade dos propósitos subjacentes a ambos os campos, pois, quando os neurocientistas começaram a investigar as perturbações do funcionamento mental — o que, tradicionalmente, era tarefa própria aos psicanalistas —, teria acontecido uma explosão de novos insights sobre problemas que seriam de interesse vital para a psicanálise, insights que, entretanto, ainda não teriam sido conciliados com as teorias e modelos psicanalíticos existentes. Por outro lado, alegam que os neurocientistas, pela primeira vez lidando com os problemas complexos da subjetividade humana, teriam muito a aprender com mais de um século de pesquisa psicanalítica.

O corpo editorial desta revista traz nomes internacionalmente conhecidos: neurocientistas — como Eric Kandel (prêmio Nobel de fisiologia e medicina em 2000), Joseph LeDoux, Antonio Damásio, Oliver Sacks, Karl Pribam, dentre outros — e psicanalistas — como, por exemplo, André Green, Daniel Widlocher e Otto Kernberg. Eles têm realizado conferências e congressos, inclusive houve um congresso realizado no Rio de Janeiro, em julho de 2005.

Como psicanalista, e afinada com a contribuição de Lacan, tal proposta de aproximação/integração entre a psicanálise e a neurociência suscitou-me certas considerações. Em primeiro lugar, a proposta deve ser a de se pensar, primeiramente, se há ou não possibilidade de articulação entre esses campos, dadas as diferentes perspectivas epistemológicas adotadas em cada um deles, e neste sentido tenho desenvolvido algumas reflexões (Faveret, 1996a; 1996b; 1997a; 1997b; 1997c; 2000; 2002; 2003).

A maioria dos que defendem a integração entre os campos entende que a neurociência poderia ser muito útil à psicanálise para lhe proporcionar a validação objetiva de seus construtos, da qual a psicanálise seria carente. Argumenta-se que este tipo de validação facilitaria à psicanálise sair de seus círculos tautológicos, tornaria os psicanalistas mais neutros e imparciais, permitindo-lhes fugir dos argumentos baseados na força da autoridade e impedindo-os de resvalar para o lamaçal das meras crenças e opiniões infundadas (no qual, até então, eles se moveriam).

Tal proposta já revela a perspectiva de que partem, pois demonstram possuir uma concepção objetivista de ciência, compreendendo a atividade científica como orientada por um ideal de aproximação da verdade, envolvendo uma noção de verdade que se vincula à própria realidade: haveria verdade quando as teorias estabelecessem uma relação de correspondência com os "dados" da realidade. Mas não existe, nos dias de hoje, apenas esta concepção do que seja o conhecimento científico.


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Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.

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