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Desafios metodológicos da pesquisa em Psicologia Organizacional e do Trabalho


4 de outubro de 2008


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O presente número especial é um dos produtos do Grupo de Trabalho (GT), que funcionou em 2000 no âmbito do VIII Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP), denominado "Desafios Metodológicos da Pesquisa em Psicologia Organizacional e do Trabalho". O GT, herdeiro de outros que funcionaram nos referidos Simpósios, em anos anteriores, vem se preocupando com as questões relativas às atividades da Psicologia nas organizações e no trabalho há mais de dez anos. Uma breve recuperação da trajetória do GT na ANPEPP pode ser lida na síntese histórica elaborada por Jairo E. Borges-Andrade, no trabalho apresentado logo após este Editorial.

Foram muitas as razões para eleger, como tema central dos seus debates, os dilemas metodológicos que marcam a produção científica na mencionada subárea. Primeiro, o fato de que dilemas metodológicos marcam profundamente todo o campo da Psicologia e das ciências humanas e sociais. Tensões sobre pressupostos ontológicos, epistemológicos e metodológicos expressam-se, em maior ou menor intensidade, nos diversos domínios de pesquisa e, com freqüência, demarcam abordagens conflitantes sobre um mesmo fenômeno. Tais tensões têm sido enfrentadas e discutidas em várias áreas, inclusive na Psicologia. Contudo, a subárea brasileira de "organizações e trabalho" encontrava-se um tanto ausente dessas discussões, deixando de se beneficiar dos avanços que emergem da compreensão das raízes de tais divergências e da apropriação de novas estratégias metodológicas. Ao mesmo tempo, o aumento de sua produção científica, nesses últimos dez anos, indicava que não era mais possível continuar à margem dessas discussões.

Esse debate, atual e importante, tinha se tornado imprescindível face ao crescente peso de uma perspectiva relativista que apontava (e aponta) para a necessária convivência de diversas formas ou estratégias para produção de conhecimento científico. Uma visão que tem levado pesquisadores a explorarem diferentes metodologias, no âmbito de um mesmo problema de investigação, com significativos ganhos na compreensão do problema em si, bem como do processo de produção do conhecimento.

Uma segunda razão prendia-se à necessidade de se lidar adequadamente com a dispersão de pesquisas que se observava (e observa) entre os pesquisadores agrupados no domínio da Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT), não apenas quanto às temáticas mas também quanto às soluções metodológicas empregadas nos seus estudos. O intercâmbio de experiências – agora centradas no eixo das decisões metodológicas – podia ser um importante fator de aprimoramento da qualidade da produção científica nacional na área de POT. Podia se constituir em uma relevante oportunidade de aprendizado coletivo, cujos reflexos dar-se-iam tanto no nível de futuros intercâmbios e trabalhos conjuntos como na revisão e renovação das estratégias que usualmente cada um dos participantes vinha empregando.

Em terceiro lugar, havia na literatura brasileira uma ausência quase que absoluta de textos discutindo os desafios e as bases para tomada de decisões, quando se construía um estudo no domínio de investigação em "organizações e trabalho". Os pouco capítulos de livros traduzidos que discutiam aspectos metodológicos, faziam-no em uma perspectiva limitada e restrita a uma única estratégia. Essa lacuna estaria acarretando dificuldades para o processo de treinamento de novos pesquisadores na pós-graduação e muito especialmente no nível de graduação. A expectativa era de que os resultados do Grupo pudessem ser transformados em uma publicação que cumprisse a função de disseminar diferentes caminhos – clássicos ou inovadores – para lidar com os problemas que surgem das relações entre os indivíduos, suas organizações, trabalhos e práticas de gestão.

Finalmente, as mutações em curso no mundo do trabalho, no final do século XX, vieram também agregar em complexidade as abordagens metodológicas no âmbito da área de interesse do GT. Se o método científico se assenta justamente na tentativa de redução da complexidade e da incerteza, como tratar cientificamente problemas colocados pelo terreno da investigação em "organizações e trabalho", que se caracteriza justamente por níveis crescentes de complexidade? Se por um lado o olhar interdisciplinar se impõe como uma perspectiva para melhor compreender o que ocorre "in loco" nos campos dessa investigação, este olhar é guiado também pela necessidade de se descobrir categorias de inteligibilidade globais, superando assim as falsas dicotomias impostas por um único modelo de ciência. Por outro lado, interrogando as direções e os cortes epistemológicos acerca do objeto de estudo, aumentam os impasses metodológicos que se apresentam neste contexto. Dito de outra forma, como afinal conciliar abordagens metodológicas diferenciadas e diversas dentro de um mesmo campo epistemológico comum?

Se existia um consenso, poderia ser o da constatação do fim de um ciclo de hegemonia de uma ordem científica única e, com ela, de uma direção metodológica singular. Tornava-se necessária e urgente a reflexão aprofundada sobre os limites do rigor científico, que apontava para a possibilidade de perda da confiança epistemológica, colocando desta forma o próprio método em questão. Que caminho seguir, para fazer a aproximação com o mundo "real" das "organizações e trabalho"? Era para tentar modestamente colaborar no sentido de responder questões dessa natureza que se justificava a proposta do GT: "Desafios Metodológicos da Pesquisa em Psicologia Organizacional e do Trabalho".

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