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Setting Terapêutico - Artigo


24 de setembro de 2008


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A mudança do setting terapêutico como modelo facilitador para promover a estabilidade do vínculo frente às modificações do contexto familiar



Cristiane Reberte de Marque1; Isabel Cristina GomesI, 2

I Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo



Winnicott utili indicar todos os tipos de cuidados, físicos e psíquicos, que são essenciais ao desenvolvimento inicial do ser humano e o serão por toda a vida. Esses cuidados envolvem um estado de devoção da mãe e convergem para a composição do ambiente de holding ou de facilitação, que jamais perde sua importância. Ele deixa clara sua opinião de que, no setting analítico, a atenção dispensada pelo analista em conjunto com a atividade interpretativa criam um ambiente de holding que norteia as necessidades psicológicas e físicas do paciente, a partir do qual um espaço potencial pode ser concebido (ABRAM, 2000).

O referido autor considera ainda o manuseio do setting um recurso importante para a efetividade do processo analítico, pois objetiva alcançar o clima de aconchego do cuidado materno e constitui-se um poderoso instrumento, que inclui desde a habilidade do analista para se relacionar com o paciente até o espaço físico compartilhado por ambos (HISADA, 2002).

Este autor introduziu modificações na estrutura do setting terapêutico para o tratamento de pacientes que, em função de terem sofrido falhas precoces no desenvolvimento, apresentavam necessidades especiais. Entre esses pacientes, incluíam-se os muito regredidos, esquizóides, borderlines e psicóticos (HISADA, 2002).

O presente estudo mostra que outras necessidades especiais existem e exigem alterações no setting terapêutico, como algumas perturbações originárias do ambiente externo. Populações compostas por crianças abrigadas e crianças que convivem em configurações familiares diferentes do modelo tradicional de família nuclear são exemplos de clientelas que podem não se enquadrar no setting clássico.

Mesmo possuindo riqueza de recursos pessoais, que justificaria o uso do setting padrão, outras especificidades se impõem sobre as necessidades intrapsíquicas dos pacientes que convivem com alterações ambientais importantes. Dessa forma, chama-se atenção para as necessidades do ambiente, e não apenas para as emocionais, na utilização de um setting diferenciado. Bem como a necessidade de se discutir a importância da permanência do vínculo terapêutico em oposição a mudanças ambientais.

Utilizamos a metodologia qualitativa que, segundo Demo (2001) e Gonzales-Rey (2000), parte da definição de pesquisa como um processo de produção de conhecimento, por sua vez compreendido como a organização que o pesquisador faz de suas idéias. Sob essa perspectiva, principalmente ao considerarmos as contribuições da psicanálise com relação à influência do inconsciente sobre a compreensão intelectual, apostamos apenas em consensos provisórios sobre uma determinada informação, que estarão sujeitos a reconstruções, na medida em que uma análise pode qualificar, mas não desfazer os mistérios da comunicação e da consciência humanos.

Como trabalhamos com o referencial psicanalítico, consideramos também o material inconsciente como objeto de estudo (LINO DA SILVA, 1993). Neste referencial, a clássica divisão positivista entre sujeito e objeto é substituída pelo diálogo íntimo entre dois sujeitos &– o pesquisador e seu sujeito, em interação e criação mútua. A emergência do inconsciente, dos significados submersos à relação intersubjetiva, é considerada e investigada em paralelo aos fatos mais superficiais. O pesquisador é visto como parte de sua pesquisa e como sujeito que integra, reconstrói e apresenta em construções interpretativas diversos indicadores, conferindo significado a um mundo composto também por aspectos afetivos e inconscientes. Significado este não evidente em si, mas assim assimilado pela interpretação prévia do pesquisador dentre outros sentidos possíveis.

Neste trabalho optamos pelo uso do estudo de caso que, segundo Gonzales-Rey (2000), se configura como uma fonte privilegiada por permitir, como nenhuma outra, entrar em contato, ao mesmo tempo, com a subjetividade individual e com a subjetivação da realidade social que o indivíduo viveu, expressando a tensão permanente entre o individual e o social.

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