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30 de julho de 2008
Considerações finais
O sofrimento, em sua ampla diversidade de sentidos e expressões, não pode equiparar-se, unicamente, ao sofrimento psíquico. Algumas de suas manifestações se assemelham, enquanto outras possuem aspectos específicos. A acepção ampla do sofrimento como um bem do sujeito tem sido negligenciada, na atualidade, dificultando impulsionar o sujeito a uma ação transformadora, bem como a atuação da saúde coletiva, inclusive em termos interdisciplinares. Na gestão do trabalho, a ausência de reconhecimento dessa peculiaridade do sofrimento gera agravos, dificilmente identificados, à saúde dos trabalhadores. Essa lacuna evidenciou-se, em nosso estudo, ao constatarmos os diversos destinos dados às manifestações de sofrimento no trabalho: a somatização, a psiquiatrização, a medicalização, a licença médica, a hospitalização, a reinserção profissional e a aposentadoria por invalidez. Esse movimento pode ser compreendido como uma das estratégias típicas da transição da sociedade disciplinar para a de controle, na perspectiva de Deleuze (1992). A flexibilidade com que o trabalhador transitava de um destino ao outro - e sem prazo definido - revela, porém, as constantes reinvenções do sistema disciplinar. Essa elasticidade, facilmente confundida com liberdade, dificulta a percepção desses destinos como estratégias de controle, remetendo o trabalhador a situações de maior ou menor sujeição. Se o tratamento medicamentoso domiciliar oferece, de início, novas liberdades, comparado com a internação hospitalar, torna-se, posteriormente, uma forma de confinamento.
Personalizando e direcionando cada um desses destinos, constatamos a influência marcante da figura feminina, a partir da posição de mãe ou de esposa, e de acordo com o seu desejo e a sua história. Na medicalização e na hospitalização, a intervenção tinha uma visibilidade maior, deixando transparecer um misto entre atos que reforçavam o "fracasso do marido" e cuidados extremos com ele. Já em relação ao retorno ao cargo, uma vez elaborados os medos acerca da demissão, a participação da esposa demonstrou ser um recurso para uma reinserção profissional bem-sucedida. Em todos os depoimentos das mulheres, a aposentadoria por invalidez apareceu como a melhor solução para a família, mas por curto período de tempo. Essas constatações sugerem a necessidade de um novo estudo, investigando a influência feminina no processo de transformação do sofrimento em adoecimento, na gestão do trabalho.
Em síntese, quebrar as lógicas e práticas que configuram uma dada compreensão do sofrimento que o transforma em adoecimento envolve a ampliação de um debate na busca de alternativas que possam propiciar enfoques diferenciados e espaços adequados para oferecer cuidados específicos às manifestações do sofrimento. Alternativas que não conduzam aos destinos detectados no presente estudo, mas a novos percursos, com diferentes itinerários. Acreditamos que o sofrimento manifestado no trabalho possa ser descortinado, escutado e acolhido na dimensão em que ele vem tentando resistir, particularmente diante das exigências decorrentes das mudanças atuais nos processos produtivos e na organização do trabalho.
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