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30 de julho de 2008
Luiz Carlos Brant; Carlos Minayo Gomez
RESUMO
No presente estudo, buscamos definir o sofrimento a partir da perspectiva freudiana e circunscrever os seus destinos, quando manifestado no trabalho. Foram realizadas entrevistas abertas com trabalhadores, gestores e profissionais da saúde de uma empresa pública de grande porte, do setor de serviços, em processo de reestruturação, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, bem como com familiares dos trabalhadores. Para a análise dos relatos, recorremos ao método hermenêutico-dialético. Constatamos a existência, na gestão do trabalho, de um processo de transformação do sofrimento em adoecimento. A somatização, psiquiatrização, medicalização, licença médica, internação hospitalar e a aposentadoria por invalidez figuraram como alguns dos destinos do sofrimento nesse processo. Partindo do pressuposto de que o sofrimento é uma reação do sujeito diante da diversidade da vida, transformá-lo em adoecimento parece constituir, portanto, uma estratégia de quebra da resistência na gestão do trabalho.
Introdução
Com o avanço da técnica, cuja função é proporcionar maior conforto ao homem, o trabalho, na contemporaneidade, do ponto de vista físico, tornou-se mais leve, mas, em termos psicológicos, vem se configurando como algo árduo, pesado e, ainda, como fonte de competição. A busca pela sobrevivência vem fazendo de algumas empresas palco de disputas, onde o tamanho já não oferece garantia de permanência num mercado de trabalho fortemente competitivo. Logo, a reestruturação tecnológica e gerencial vem se apresentando como uma estratégia vital para várias empresas, na era pós-industrial. Grandes transformações organizacionais são vivenciadas como perigo para o conjunto dos trabalhadores, remetendo-os a freqüentes, múltiplos e inevitáveis sofrimentos, podendo levá-los ao enfrentamento ou à fuga. Para o indivíduo cujo trabalho é subitamente modificado, a revolução técnica manifesta-se como um outro ameaçador (Levy, 1997). Mas, como fugir quando a empresa é, simultaneamente, fonte de perigo e de sobrevivência? A ansiedade, tão comum diante das elevadas exigências por produtividade e qualidade, aponta para a possibilidade de uma desorganização que envolve tempo e espaço. Ameaçado em sua integridade, o sujeito pode experimentar desde um simples mal-estar até o pânico. Para muitos, trabalhar e viver tornou-se um perigo, o que vem fazendo dos locais de trabalho uma rede de intrigas particulares e coletivas. No entanto, para o sujeito contemporâneo, esses locais constituem, também, pontos de encontro consigo e com o outro, onde permanecerão indícios, rastros, recordações, marcas de uma falta, sentimento de nostalgia, de um passado, no passado (Valadares, 2000).
Pensar o sofrimento e suas vicissitudes como tema de investigação pareceu-nos, inicialmente, algo fora de moda, nesses tempos em que a tônica nas empresas gira em torno "da qualidade de vida". Ocorreu-nos substituir o termo sofrimento por mal-estar, mas isso remeteria à conotação de uma leve indisposição, o que difere do sentido que estamos atribuindo ao termo. Também seria inadequado falar em sofrimento psíquico, como tem sido feito em alguns estudos. Consideramos que o adjetivo "psíquico" permitiria supor a existência de outros tipos de sofrimento. Qualificar o sofrimento abriria possibilidades de fragmentá-lo em físico, moral, espiritual, entre outros, de acordo com a ideologia e com o limite do olhar de cada um. Psíquico, assim como mente, é algo misterioso, incapaz de ser descrito nos mesmos termos que nós descrevemos mesas, árvores e átomos (Rorty, 1999).
No estágio atual do trabalho, o rápido come o pequeno. Não é o grande que come o pequeno. O depoimento desse gestor de uma empresa pública do setor de serviços, em processo de reestruturação - que implicava a passagem da condição de pública para a de economia mista -, situada na Região Metropolitana de Belo Horizonte, ajuda a ilustrar as condições dos trabalhadores nesse processo. Os imperativos de mudança organizacional dessa empresa exigiam constantes e abruptas substituições nos cargos de comando, provocando: estranhamento e falta de ação gerencial nos recém-empossados; perplexidade e sentimento de abandono nos substituídos; e desorientação nos trabalhadores quanto ao exercício de suas funções. Sem autoridade, mas com poderes de chefia, alguns desses gestores, diante da falta de experiência no manejo dos conflitos e das novas tecnologias, tinham dificuldades em tomar decisões administrativas e de oferecer orientação operacional a seus subordinados. Nesse cenário de grandes mudanças, muitos trabalhadores estavam submetidos a um ritmo de trabalho contínuo - sem pausas ou com pausas inadequadas - e viam-se expostos às más condições ergonômicas e ambientais. Os profissionais das unidades automatizadas foram avaliados de acordo com o perfil exigido para as novas funções e receberam treinamento adequado. Mas, para que se possa ter uma idéia da dimensão das mudanças implementadas na empresa, em março de 1999, quando teve início o processo de reestruturação operacional, em uma "filial", no Nordeste do país, o sistema automatizado processava 10.201 serviços. Em julho, já atingia a marca de 141.744. Muitos trabalhadores estavam sujeitos a uma sobrecarga de trabalho advinda da escalação para fazer horas extras ou mesmo para adiar suas férias como forma de cobrir as ausências de um colega, licenças médicas, aposentadorias e demissões. O encaminhamento dos não adaptados às mudanças para o setor de saúde era uma das estratégias encontradas para o enfrentamento das dificuldades (Brant, 2001).
Articulando dados de questionários socioeconômicos e do Self-Report Questionnaire-20 (SRQ-20), aplicados em 72 gestores dessa empresa, Brant e Dias (2004) constataram que ansiedade, tensão e preocupação constituíram as manifestações mais freqüentes do sofrimento (73,2%). Tristeza foi a segunda maior manifestação do sofrimento entre os gestores (43,7%). De forma semelhante, o "cansar-se com facilidade" (35,2%) e o "sentir-se cansado o tempo todo" (23,9%) foram associados à fadiga. A dificuldade de realizar, com satisfação, as atividades da vida diária (39,0%) e a perda de interesse pelas coisas (19,8%) expressaram uma situação de desprazer e mostraram o sofrimento ante o cotidiano marcado por atividades sem significação. O sofrimento, que aparece na forma de dores de cabeça (26,8%), do dormir mal (26,8%), de sensações desagradáveis no estômago (25,4%), má-digestão (19,8%), tremores nas mãos (9,9%) e falta de apetite (5,7%), foi identificado como somatização. Esses autores observaram, ainda, a existência de uma associação significativa (p < 0,05) entre gênero e sofrimento; e que a presença de trabalhadores do sexo feminino com sofrimento (53,3%) foi significativamente superior a dos trabalhadores do sexo masculino (16,1%), o que sugere que os trabalhadores do sexo feminino têm 6 vezes mais chance de apresentar sofrimento que os do sexo masculino.
Para este estudo, buscamos definir o sofrimento a partir da perspectiva freudiana e circunscrever os seus destinos, quando manifestado no âmbito da gestão do trabalho, numa organização em processo de reestruturação. Sob essa perspectiva, realizamos uma investigação na empresa, anteriormente citada, limitando-nos à regional de Belo Horizonte. Transformada em empresa pública em 1969, ela conta, na atualidade, com 81.995 trabalhadores diretos e outros 20 mil indiretos, no país. Em Minas Gerais, são 7.622 efetivos e, na Grande Belo Horizonte, 3.326. Seus trabalhadores são admitidos por meio de concurso público para cargos pré-determinados, no regime da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Para a pesquisa, recorremos a entrevistas abertas com 13 trabalhadores; 8 familiares de trabalhadores; 13 gestores e 8 profissionais da saúde, de ambos os sexos. Para a análise dos relatos obtidos, empregamos a metodologia hermenêutica-dialética (Minayo, 1996; Minayo e Deslandes, 2002).
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