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Tratado de Ateologia


14 de fevereiro de 2008


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Seu autor é Michel Onfray (São Paulo: Editora Martins Fontes, 2007).

Ele abre seu livro com esta citação de Nietzsche. Em seguida seu Prefácio.
"A noção de ‘Deus' foi inventada como antítese da vida - nela se resume, numa unidade aterradora, tudo o que é no­civo, venenoso, caluniador, todo o ódio da vida. A noção de ‘além', de ‘mundo verdadeiro' só foi inventada para depreciar o único mundo que há - a fim de não mais conservar para nossa realidade terrestre nenhum objetivo, nenhuma razão, nenhuma tarefa! A noção de ‘alma', de ‘espírito' e, no fim das contas, mesmo de ‘alma imortal', foi inventada para despre­zar o corpo, para torná-lo doente - ‘sagrado' -, para conferir a todas as coisas que merecem seriedade na vida - as questões de alimentação, de moradia, de regime intelectual, os cuida­dos aos doentes, a limpeza, o clima - a mais aterradora indife­rença! Em vez da saúde, ‘a salvação da alma' - isto é, uma loucura circular que vai das convulsões da penitência à histe­ria da redenção! A noção de ‘pecado' foi inventada, ao mesmo tempo, que o instrumento de tortura que a completa; a noção de "livre-arbítrio', para confundir os instintos, para fazer da desconfiança com relação aos instintos uma segunda natureza."

NIETZSCHE. Ecce homo, Por que sou um destino, § 8.

Prefácio

1. A memória do deserto

Depois de algumas horas trilhando pelas pistas do de­serto mauritano, a visão de um velho pastor com dois drome­dários, a jovem mulher e a sogra, a filha e os filhos montados em burros, o grupo carregado de tudo o que constitui o essen­cial da sobrevivência, portanto da vida, me dá a impressão de encontrar um contemporâneo de Maomé. Céu branco e abra­sador, árvores calcinadas e raras, moitas de espinhos roladas pelos ventos arenosos sobre extensões infinitas de areia ala­ranjada, o espetáculo instala-me no ambiente geográfico - ­portanto mental - do Corão, nas épocas intempestivas das ca­ravanas de camelos, dos acampamentos nômades, das tribos do deserto e de seus confrontos.

Penso nas terras de Israel e da Judéia-Samaria, em Jeru­salém e Belém, em Nazaré e no lago Tiberíade, lugares em que o sol queima os rostos, resseca
os corpos, assedenta as almas e gera desejos de oásis, vontades de paraísos em que a água cor­re, fresca, limpa, abundante, em que o ar é doce, perfumado, acariciante, em que abundam o alimento e as bebidas. Os além-mundos de repente me parecem contramundos inventa­dos por homens cansados, exaustos, ressecados por seus traje­tos reiterados nas dunas ou nas trilhas pedregosas em brasa. O monoteísmo sai da areia.






Na noite de Ouadane, a leste de Chinguetti, aonde eu fora ver as bibliotecas islâmicas enfurnadas na areia das du­nas que, paciente, mas infalivelmente, engolem os povoados inteiros, Abduramane - nosso motorista - estende seu tapete no chão, fora, no pátio da casa onde estamos. Estou num apo­sento pequeno, num colchão improvisado. A noite azul-acin­zentada reluz em sua pele negra, a lua cheia aplana as cores, sua tez parece roxa. Lentamente, como que inspirado pelos movimentos do mundo, animado pelos ritmos ancestrais do planeta, ele se agacha, ajoelha, baixa a cabeça até o chão, reza. A luz das estrelas mortas nos chega no calor noturno do deserto. Tenho a impressão de assistir a uma cena primitiva, como espectador de um gesto provavelmente contemporâneo da primeira emoção sagrada dos homens. No dia seguinte, durante o trajeto, interrogo Abduramane sobre o islã. Surpre­so por um branco ocidental interessar-se pelo assunto, recusa remeter-se ao texto quando se faz alguma referência a ele. Acabo de ler o Corão, com a caneta em punho, ainda guardo na cabeça alguns versículos, palavra por palavra. Sua crença não suporta que se apele a seu Livro sagrado para discutir a legitimidade de algumas teses islâmicas. Para ele, o islã é bom, tolerante, generoso, pacífico. A guerra santa? O jihad decreta­do contra os infiéis? As fatwas lançadas contra um escritor? O terrorismo hipermoderno? Ação de loucos, com certeza; de muçulmanos certamente não...

Não lhe agrada que um não-muçulmano leia o Corão e refira-se a esta ou aquela surata para dizer-lhe que ele tem ra­zão quando são selecionados os versículos que o confortam, mas que há textos nesse mesmo livro que dão razão ao com­batente armado cingido pela faixa verde dos seguidores da causa, ao terrorista do Hezbollah carregado de explosivos, ao aiatolá Khomeini que condena Salman Rushdie, aos camica­ses que lançam aviões civis contra as torres de Manhattan, aos êmulos de Bin Laden que decapitam reféns civis. Eu beiro o blasfemo... Volta ao silêncio nas paisagens devastadas pelo fogo do sol.


2. O chacal ontológico

Depois de algumas horas de silêncio, num mesmo cená­rio de deserto inalterado, volto ao Corão, dessa vez ao Paraí­so. Ele, Abduramane, acredita naquela geografia fantástica em seus detalhes, ou como num símbolo? Os rios de leite e vi­nho, as huris de olhos grandes, as camas de seda e brocados, as músicas celestiais, os jardins magníficos? Sim, ele explica: É assim... E o Inferno, então? Também é como está dito... Ele, que não vive longe da santidade - atencioso e delicado, compartilhador, preocupado com os outros, doce e calmo, em paz consigo mesmo, portanto com os outros e com o mundo -, um dia conhecerá então essas delícias? Sim, espero... Desejo-as para ele sinceramente - mantendo em meu foro íntimo a cer­teza de que está enganado, de que está sendo logrado e de que infelizmente nunca conhecerá nada daquilo...

Depois de um tempo de silêncio, ele esclarece que, antes de entrar no Paraíso, deverá, todavia prestar contas e que pro­vavelmente toda a sua existência de crente piedoso não será su­ficiente para expiar uma falta que bem lhe poderia custar a paz da vida eterna... Um crime? Um assassínio? Um pecado mor­tal, como dizem os cristãos? Sim, de certo modo: certo dia, um chacal esmagado sob as rodas de seu carro... Abdu estava cor­rendo demais, sem respeitar os limites de velocidade nas pistas do deserto - onde se vislumbra um feixe de farol a quilômetros de distância! -, não viu nada, o animal surgiu da penumbra, dois segundos depois agonizava debaixo do chassi do carro.

Se obedecesse à lei do código rodoviário, ele não teria cometido esse sacrilégio: matar um animal não havendo ne­cessidade de se nutrir dele. Além do mais, ao que me parece, o Corão não estipula nada semelhante..., afinal não podemos ser considerados responsáveis por tudo o que nos acontece! Abduramane acredita que sim: Alá se manifesta nos detalhes, essa história prova a necessidade de se submeter, às leis, às re­gras, à ordem, pois qualquer transgressão, mesmo que míni­ma, aproxima dos infernos, ou até leva a eles diretamente...

O chacal assombrou suas noites por muito tempo, mais de uma vez o impediu de dormir, ele o via freqüentemente, em sonhos, proibindo-lhe o acesso ao Paraíso. Quando ele falava nisso, a emoção voltava. Seu pai, velho sábio nonagenário, ex-soldado da guerra de 14-18, acrescentara: evidentemente ele desrespeitara a lei, portanto deveria explicar-se no dia de sua morte. Enquanto isso, no ínfimo pus de sua vida, Abdura­mane deveria tentar expiar o que fosse possível. Nas portas do Paraíso, o chacal espera. O que eu não daria para que ele fos­se embora e libertasse a alma daquele homem íntegro.

Pode parecer estranho aquele aspirante bem-aventurado compartilhar a mesma religião dos pilotos do 11 de Setembro! Um carrega o peso de um chacal desastradamente enviado para o cinosargo (local onde ficava a Escola dos Cínicos); os outros se alegram por ter aniquilado um máximo de inocentes. O primeiro pensa que o Paraíso lhe será de difícil acesso por ter transformado em carniça um carnicei­ro; os segundos imaginam que merecem de fato a beatitude por terem reduzido a pó a vida de milhares de indivíduos - in­clusive muçulmanos... O mesmo livro justifica, no entanto, esses dois homens que avançam nos antípodas da humanida­de: um pende para a santidade, os outros realizam a barbárie.


3. Cartões-postais místicos

Muitas vezes vi Deus em minha existência. Ali, naquele deserto mauritano, sob a lua que tingia a noite com cores ro­xas e azuis; em frescas mesquitas de Bangasi ou de Trípoli, na Líbia, por ocasião de meu périplo a Cirene, pátria de Aristipo; não longe de Port-Louis, na ilha Maurício, em um santuário consagrado a Ganesh, o deus colorido com tromba de elefan­te; na sinagoga do bairro do gueto, em Veneza, com um quipá na cabeça; no coro de igrejas ortodoxas em Moscou, um cai­xão aberto na entrada do mosteiro de Novodievitchi, enquanto no interior rezavam a família, os amigos e os popes de vozes magníficas, cobertos de ouro e nimbados de incenso; em Sevi­lha, diante da Macarena, na presença de mulheres em lágri­mas e de homens de fisionomias extáticas, ou em Nápoles, na igreja de são Januário, deus da cidade construída ao pé do vulcão, cujo sangue, segundo dizem, se liqüefaz em datas de­terminadas; em Palermo, no convento dos capuchinhos, desfi­lando diante dos oito mil esqueletos de cristãos vestidos com seus mais belos trajes; em Tbilissi, na Geórgia, onde se convi­da o passante para compartilhar a carne de carneiro sangui­nolenta cozida na água sob as árvores nas quais os fiéis pen­duraram lencinhos votivos; praça de São Pedro, num dia em que eu havia ignorado o calendário: ia para rever a Sixtina, era domingo de Páscoa, João Paulo II vocalizava suas glosso­Ialias num microfone e exibia num telão sua mitra arriada.

Vi Deus em outros lugares, também, e de outras manei­ras: nas águas geladas do Ártico, quando era içado um salmão pescado por um xamã, ferido pela rede, e ritualmente devolvido ao cosmo de onde o haviam tirado; nos fundos de uma cozi­nha de Havana, entre uma cutia crucificada e defumada, pe­dras-de-raio e conchas, com um oficiante da santeria; no Haiti, num templo vodu perdido no campo, entre bacias manchadas de líqüidos vermelhos, em odores acres de ervas e cocções, cercado de desenhos feitos no templo em nome dos loas; no Azerbaijão, perto de Baku, em Surakhany, em um templo zo­roastriano de adoradores do fogo; ou ainda em Quioto, nos jardins zen, excelentes exercícios para a teologia negativa.

Vi igualmente deuses mortos, deuses fósseis, deuses pas­sados do tempo: em Lascaux, siderado pelas pinturas da gru­ta, ventre do mundo dentro do qual a alma vacila sob cama­das imensas do tempo; em Lúxor, em câmaras reais, situadas a dezenas de metros debaixo da terra, homens com cabeça de cão, escaravelhos e gatos enigmáticos em vigília; em Roma, no templo de Mitra tauróctone, uma seita que poderia ter transformado o mundo se tivesse disposto de seu Constanti­no; em Atenas, escalando os degraus da Acrópole e dirigindo­-me para o Pártenon, com o espírito tomado pelo lugar em que, abaixo, Sócrates encontrara Platão...

Em nenhum lugar desprezei aquele que acreditava nos espíritos, na alma imortal, no sopro dos deuses, na presença dos anjos, nos efeitos da prece, na eficácia do ritual, na legiti­midade das encantações, no contato com os loas, nos milagres com hemoglobina, nas lágrimas da Virgem, na ressurreição de um homem crucificado, nas virtudes dos cauris, nas forças xa­mânicas, no valor do sacrifício animal, no efeito transcendental do nitro egípcio, nas moinhas de preces. No chacal ontológi­co. Em nenhum lugar. Mas em toda parte constatei quanto os homens fabulam para evitar olhar o real de frente. A criação de além-mundos não seria muito grave se seu preço não fosse tão alto: o esquecimento do real, portanto a condenável negli­gência do único mundo que existe. Enquanto a crença indis­põe com a imanência, portanto com o eu, o ateísmo reconcilia com a terra, outro nome da vida.
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