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Inclusão digital como invenção do quotidiano: um estudo de caso


8 de maio de 2009


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Considerações finais

Não pretendo afirmar que a abordagem teórico-metodológica aqui utilizada seja mais válida ou eficiente que qualquer outra, tampouco que dos resultados obtidos a partir dela se possa prescrever qualquer tipo de ação ou concepção de inclusão digital que se pretenda absoluta. Procurei apenas narrar um esforço inicial no sentido da construção de uma abordagem coerente com uma certa concepção estratégica de inclusão, que tem a particularidade de enfatizar a agentividade dos sujeitos ditos "excluídos", uma agentividade que não se rende necessariamente a demandas sociais e tecnológicas que lhe seriam supostamente impostas pela marcha inexorável do progresso.

Desse esforço inicial, porém, resultam certas perguntas, mais profundas e complexas do que as aqui abordadas, que talvez possam inspirar outros estudos nos e entre os diferentes contextos em que se faz - ou se supõe fazer - inclusão digital, sejam eles institucionais (telecentro, escola, casa, trabalho, igreja etc.) ou demográficos (adolescentes, donas de casa, operários, professores etc.). Por exemplo, pode-se investigar os resultados das migrações, avaliações e intervenções recíprocas (por vezes colaborativas, por outras conflituosas) entre telecentros e escolas, à medida que os letramentos praticados por sujeitos que transitam entre esses contextos se vão entrelaçando. Pode-se também tentar compreender como a apropriação criativa e crítica das TIC que produtores de projetos como a Casa Brasil desejam fomentar nas comunidades repercutirá (ou não) numa apropriação mais crítica e criativa da própria escolarização, de seus recursos e discursos. Em sentido oposto, há que se investigar maneiras pelas quais estratégias pedagógicas mais transformadoras, fundamentadas nos princípios da educação crítica e em abordagens colaborativas ou na pedagogia de projetos, poderiam ser levadas da escola para os telecentros que começam a florescer por todo o país. Mas, mais do que gerar perguntas, a utilidade da abordagem aqui sugerida reside na possibilidade de trazer os assim chamados "excluídos" para a posição de sujeitos (e não objetos) da sua própria "inclusão", pelo reconhecimento de que os usos das TIC são formas de sua produção (e não apenas de seu consumo).

Isso não significa, obviamente, que tal olhar teórico-metodológico dispense revisões e desenvolvimentos. Marcus (1993, p. 4-6), por exemplo, aponta que hoje a configuração particular de quotidiano que embasava a pesquisa de Michel de Certeau e seus colaboradores pode ser "mais uma fantasia nostálgica do que um referente mais ou menos acurado da realidade na qual a integridade desse cronotropo depende", isto é, está cada vez mais evidente a noção de um quotidiano pós-moderno no qual "ações localizadas, delimitadas no tempo-espaço, aqui-e-agora como sítios simbólicos ou essenciais do cotidiano - a casa, o local de trabalho, a rua etc. - são cada vez mais vistas como histórias muito parciais".

Assim, embora a idéia de que os grupos subalternos produzem seu quotidiano (e não apenas são produzidos por ele) permaneça válida, a delimitação dele não pode mais ser pensada em termos de um espaço geográfico absoluto (algo significativo, por exemplo, para compreendermos a centralidade do Orkut na vida dos freqüentadores da CBAV). A compressão do espaço-tempo, a dinâmica intercultural, a voracidade dos fluxos de informação, produtos, pessoas e formas simbólicas típicos da sociedade em rede (e da globalização) são fatores que os investigadores têm, cada vez mais, que considerar.

Nesse sentido, torna-se indispensável o desenvolvimento de procedimentos e instrumentos empíricos que respondam adequadamente à desterritorialização e à policontextualidade das práticas digitais, assim como de formas de representação (textual) dos resultados mais multidimensionais, multivocais e dialógicas do que as que tradicionalmente se produzem em estudos como o aqui resumido. Reside aí certamente uma oportunidade para pensarmos criticamente nossos próprios quotidianos de pesquisa/academia e maneiras de "reinventar" as TIC nesse sentido.



Referências bibliográficas

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