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Aprendizagem Significativa - Educação em solos: princípios, teoria e métodos


31 de março de 2009


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Cristine Carole Muggler I; Fábio de Araújo Pinto Sobrinho II; Vinícius Azevedo Machado III

I Professora Adjunta, Departamento de Solos, Universidade Federal de Viçosa – UFV. CEP 36570-000 Viçosa (MG).
II Agrônomo, Estudante de Mestrado em Solos e Nutrição de Plantas, DPS/UFV.
III Pedagogo, UFV. Diretor Pedagógico da EFA Paulo Freire. Acaiaca (MG).



O solo é um componente essencial do meio ambiente, cuja importância é normalmente desconsiderada e pouco valorizada. Assim, é necessário que se desenvolva uma "consciência pedológica", a partir de um processo educativo que privilegie uma concepção de sustentabilidade na relação homem-natureza. Existem múltiplas formas, tempos e espaços de promover a educação para o meio ambiente a partir de uma abordagem pedológica; esse conjunto de conteúdos e métodos constituem a Educação em Solos, que é indissociável da Educação Ambiental. A Educação em Solos tem como principal objetivo trazer o significado da importância do solo à vida das pessoas e, portanto, da necessidade da sua conservação e do seu uso e ocupação sustentáveis. Assim como a Educação Ambiental, a Educação em Solos coloca-se como um processo de formação que, em si, precisa ser dinâmico, permanente e participativo. Nessa perspectiva, foi criado o Programa de Educação em Solos e Meio Ambiente (PES) junto ao Museu de Ciências da Terra do Departamento de Solos da UFV, que atua na educação formal e não-formal na região de Viçosa. A base teórico-metodológica da prática pedagógica do PES baseia-se no construtivismo e nas idéias de Paulo Freire, utilizando-se a abordagem holística, os métodos participativos e a prática da pedagogia de projetos. A perspectiva Construtivista-Freiriana promove uma abordagem dos temas pedológico-ambientais com base não apenas na simples transmissão do conhecimento, mas também da investigação, da experimentação e do resgate e valorização do conhecimento prévio das pessoas. A abordagem de aspectos que são familiares e conhecidos das pessoas, possibilitando uma aprendizagem significativa, embute em si um grande potencial para consolidar mudanças de valores e atitudes, ou seja, para efetivar uma consciência ambiental/planetária.



INTRODUÇÃO

A relação do homem com a natureza nas sociedades modernas ocorre a partir da concepção da natureza como dádiva: a natureza é provedora e encontra-se disponível para o usufruto da humanidade. Em uma perspectiva histórica, a relação com a natureza, baseada nessa concepção, promoveu a degradação dos recursos naturais em uma escala suportável, até o advento da Revolução Industrial, que introduz um modelo de produção baseado no uso intensivo de energia fóssil, na super-exploração dos recursos naturais e no uso do ar, água e solo como depósito de rejeitos. Desse momento em diante, o uso intensivo dos recursos naturais e a pressão do crescimento populacional expõem e ampliam o desequilíbrio inerente a esta concepção da relação homem-natureza.

Os primeiros grandes impactos da Revolução Industrial, decorrentes da poluição atmosférica de origem industrial, que se traduzem nos primeiros sintomas da crise ambiental, surgiram já na década de 50 do século XX. A partir dos anos 60 e 70 do século XX, fica claro que a degradação ambiental e os problemas e impactos daí decorrentes colocam em cheque a sobrevivência tanto do modelo de desenvolvimento, como do próprio homem sobre a Terra. O livro Silent Spring, de Rachel Carson, publicado em 1962, foi a primeira reação, a primeira crítica, mundialmente conhecida, aos efeitos ecológicos da utilização generalizada de insumos químicos e do despejo de rejeitos industriais no ambiente. Nesse contexto, resgatam-se e desenvolvem-se novas concepções no que concerne à relação homem-natureza, destacando-se o desenvolvimento da noção de sustentabilidade. O princípio da sustentabilidade busca, assim, orientar e dar outra dimensão à relação homem-natureza, permeando modelos de desenvolvimento, ações educativas, etc.

Nesse contexto, a degradação ambiental é atualmente uma questão de primordial importância para a humanidade, fruto de uma concepção e uma relação com a natureza que se contrapõe à sustentabilidade. Importante é reconhecer que a degradação ambiental está relacionada com a concepção que as pessoas, individual ou coletivamente, têm da sua relação com a natureza, com o meio ambiente. De forma geral, observa-se que a percepção e sensibilização relacionadas com os vários elementos que integram o meio ambiente são diferenciadas: alguns desses elementos são conhecidos e compreendidos e outros são pouco conhecidos ou até mesmo desvalorizados.

Em geral, as pessoas não percebem que o meio ambiente é resultado do funcionamento integrado de seus vários componentes e, portanto, a intervenção sobre qualquer um deles estará afetando o todo. Um desses elementos é o solo, componente essencial do meio ambiente, cuja importância é normalmente desconsiderada e pouco valorizada (Bridges & Van Baren, 1997). O solo não é compreendido à luz das interações ecológicas, como deveria (Bridges & Catizzone, 1996), e menos ainda como um produto dinâmico das interações entre os grandes sistemas terrestres (Pipkin & Trent, 1997), refletindo, assim, as modificações que afetam o equilíbrio natural do planeta. Assim, o solo não é reconhecido pelo papel que desempenha na vida humana e na conservação da biodiversidade (Aparin & Suhacheva, 2002). De modo geral, as pessoas têm uma atitude de pouca consciência e sensibilidade em relação ao solo, o que contribui para a sua degradação, seja pelo seu mau uso, seja pela sua ocupação desordenada. A problemática em torno da conservação do solo tem sido, na maioria dos casos, negligenciada pelas pessoas. A conseqüência dessa negligência é o crescimento contínuo dos problemas ambientais ligados à degradação do solo, tais como: erosão, poluição, deslizamentos, assoreamento de cursos de água, etc.

É necessário, portanto, desenvolver e fomentar a sensibilização das pessoas, individual e coletivamente, em relação ao solo, no âmbito de uma concepção que considere o princípio da sustentabilidade, na qual valores e atitudes de desvalorização do solo possam ser revistos e (re)construídos: a promoção de uma espécie de "consciência pedológica". Esta consciência pode nascer de um processo educativo que privilegie a noção de sustentabilidade na relação homem-natureza. A educação pode contribuir efetivamente para esse processo, uma vez que ela oferece instrumentos objetivos para elaborar e re-elaborar valores, condutas e atitudes. Destaca-se, em especial a vertente da Educação, reconhecida como Educação Ambiental, que é processualmente assumida como o conjunto de experiências e observações que contribuem para que toda pessoa perceba sua relação com o meio ambiente e sua responsabilidade para com ele (Sato, 2003).

Existem múltiplas formas, tempos e espaços de promover a educação para o meio ambiente a partir de uma abordagem pedológica. No âmbito formal e informal, a abordagem pedológica é uma maneira de promover a conscientização ambiental das pessoas, de forma que elas tenham um conjunto de valores que as instrumentalize para perceber, analisar e avaliar os impactos das ações públicas e privadas, assim como o impacto de suas próprias ações sobre o solo e, portanto, sobre o meio ambiente (Van Baren et al., 1998). Os conteúdos pedológicos são extremamente adequados a isso, uma vez que o solo é um componente do ambiente natural e humano, presente no cotidiano das pessoas, que é familiar a todos. Esses conteúdos possibilitam, inclusive, que as questões ambientais globais sejam trabalhadas de forma mais concreta, ao lidar com aspectos locais e familiares.

A abordagem pedológica, como instrumento de trabalho da Educação Ambiental, é recente, e ainda pouco utilizada. Iniciativas neste sentido surgiram na década de 90 do século XX em alguns países europeus, na Rússia, na Austrália, na Índia e no Brasil (Abbot et al., 2002; Badrinath et al., 2002). Em 1996, estabelece-se na França a "Campanha do Solo"; no âmbito da Aliança para um Mundo Plural, Responsável e Unificado (Rabah et al., 2002).

A Campanha do Solo considera que o uso sustentável do solo e a sua conservação requerem uma profunda e consistente mudança na atitude das pessoas em relação a esse recurso. Para atingir tal mudança, há pelo menos três condições necessárias e inseparáveis: (a) reabilitação do solo na cultura popular com base na educação convencional e popular; (b) legislação a partir da consideração de que o solo é um recurso natural essencial para a vida, de renovação muito lenta, cuja necessidade de preservação é inquestionável; (c) inclusão do solo ao patrimônio natural e cultural da humanidade, cuja preservação exige a solidariedade humana. Essa campanha identifica e articula iniciativas de educação e sensibilização em relação ao solo, em todo o mundo. Ela deu origem ao movimento internacional que se institucionalizou, em 1998, com o estabelecimento de uma comissão intitulada Soil Education and Public Awareness, no seio da Sociedade Internacional de Ciência do Solo (IUSS). A missão dessa Comissão é contribuir na construção do elo, atualmente inexistente ou muito tênue, entre a Ciência do Solo e a Sociedade, por meio do desenvolvimento, em cada cidadão, da consciência da importância do solo para a vida (IUSS, 2003). Dentre os objetivos dessa Comissão, destacam-se: (a) a manutenção e ampliação do ensino da Ciência do Solo e (b) a conscientização sobre a responsabilidade inequívoca da humanidade em relação ao recurso solo.

No Brasil, dentre várias iniciativas, pode-se destacar o Projeto Solo na Escola, desenvolvido na UFPR, junto às escolas de ensino fundamental e médio, cujo objetivo é apoiar o desenvolvimento do tema solos por meio da elaboração de materiais didáticos, da criação de mecanismos que permitam a visitação de escolas à Universidade e a capacitação de professores (Lima, 2002). Outra iniciativa é o Programa de Educação em Solos e Meio Ambiente (PES), que vem sendo desenvolvido junto ao Departamento de Solos, na Universidade Federal de Viçosa. O PES é um programa de caráter interdisciplinar que articula estudantes, professores e técnicos de diferentes áreas do conhecimento da UFV, com o objetivo comum de trabalhar temas de Solos e Meio Ambiente no contexto da educação formal e informal, na práxis identificada como Educação em Solos (Muggler et al., 2002; 2005). O programa desenvolve um conjunto de ações integradas que garantem uma atuação efetiva e consistente no processo de desenvolvimento da educação científica e ambiental em Viçosa e seu entorno. No seu trabalho junto às comunidades escolares, o PES adota três linhas de atuação principais: (a) capacitação de professores; (b) desenvolvimento de projetos interdisciplinares nas escolas e (c) elaboração de materiais didáticos. Além das atividades com as comunidades escolares de ensino fundamental e médio, o PES ministra oficinas e minicursos para estudantes de várias áreas do conhecimento, em eventos de diversas naturezas. Além da educação formal, o PES tem desenvolvido atividades de educação informal, como cursos para agricultores e oficinas para os movimentos sociais.

 

OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO EM SOLOS

A Educação em Solos busca conscientizar as pessoas da importância do solo em sua vida. Nesse processo educativo, o solo é entendido como componente essencial do meio ambiente, essencial à vida, que deve ser conservado e protegido da degradação. A Educação em Solos tem como objetivo geral criar, desenvolver e consolidar a sensibilização de todos em relação ao solo e promover o interesse para sua conservação, uso e ocupação sustentáveis. Com a Educação em Solos, busca-se construir uma consciência pedológica que, por sua vez, possa resultar na ampliação da percepção e da consciência ambiental. Nessa perspectiva, a abordagem pedológica apresenta os seguintes objetivos específicos:

    - ampliar a compreensão do solo como componente essencial do meio ambiente;

    - sensibilizar as pessoas, individual e coletivamente, para a degradação do solo, considerando suas várias formas;

    - desenvolver a conscientização acerca da importância da conservação do solo;

    - popularizar o conhecimento científico acerca do solo.

Esses objetivos aplicam-se tanto à educação formal quanto à educação não-formal. A primeira abrange espaços, tempos e comunidades escolares, nos quais se podem detalhar as seguintes metas (Muggler et al., 2002; Muggler & Teixeira, 2002):

    - identificar temas geradores relacionados com solos a partir das percepções e vivências dos alunos e professores, motivando-os a problematizar a sua realidade;

    - trabalhar com, e a partir das escolas, a concepção de que o solo é um sistema dinâmico onde ocorrem importantes interações entre seres vivos, que têm importância fundamental na manutenção da vida;

    - instrumentalizar e motivar professores para uma abordagem mais participativa e significativa da temática pedológico-ambiental em sua transversalidade;

    - sensibilizar a comunidade por intermédio das crianças e dos professores, para a gravidade da degradação do solo, que tem em suas bases a falta de percepção do ambiente como sistema integrado;

    - elaborar e avaliar materiais didáticos que apóiem e subsidiem professores e alunos no desenvolvimento de conteúdos pedológico-ambientais.

A educação não-formal envolve segmentos da sociedade que atuam fora dos espaços e tempos escolares formalizados, tais como: grupos de mulheres, grupos de jovens, trabalhadores e trabalhadoras rurais, empresários, associações de moradores, profissionais liberais, dentre muitos outros. Uma vez que há aí grande diversidade de interesses, os objetivos específicos e metas são definidos conforme as demandas de cada grupo, assim como o método de trabalho, que, na maioria das vezes, segue os métodos participativos incorporados pelos movimentos sociais.

 
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