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Artigos de Pedagogia


Multidisciplinaridade


31 de março de 2009


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Multidisciplinaridade - Desenvolvimento humano: desafios para a compreensão das trajetórias probabilísticas
 



Thirza Reis Sifuentes; Maria Auxiliadora Dessen; Maria Cláudia Santos Lopes de Oliveira

Universidade de Brasília

 


A abordagem teórica do desenvolvimento humano exige uma perspectiva interdisciplinar, a qual contemple a interface de diferentes saberes. Seguindo uma trilha antes delineada pela abordagem sistêmica do desenvolvimento e pela abordagem bioecológica, a "Ciência do Desenvolvimento", surge ao final do século XX, imprimindo uma marca importante na compreensão das principais questões relativas ao campo do desenvolvimento. Neste trabalho, apresentamos e discutimos alguns tópicos centrais desta ciência. A ênfase no desenvolvimento como processo versus produto das interações; o significado das mudanças e continuidades no tempo; e, o papel do próprio sujeito, assim como o da cultura e dos contextos ecológicos, entre os fatores constitutivos das redes relacionais em que se circunscreve o desenvolvimento, ao longo do curso de vida, são aspectos que se destacam na discussão.

O desenvolvimento humano é um processo de construção contínua que se estende ao longo da vida dos indivíduos, sendo fruto de uma organização complexa e hierarquizada que envolve desde os componentes intra-orgânicos até as relações sociais e a agência humana. Até meados do século XX, embora diferentes áreas do saber estabelecessem parâmetros e critérios para estudar o desenvolvimento humano, não havia articulação entre estes saberes, resultando em pesquisas antagônicas e contraditórias (van Geert, 2003). Se, por um lado, as abordagens do desenvolvimento, protagonizadas pela filosofia, afirmavam ser o desenvolvimento uma ilusão; por outro, os processos de mudança na linha do tempo eram objeto de estudo das ciências naturais, que os viam como algo real e natural, decorrentes dos processos evolutivos da espécie.

Devido à sua abrangência e complexidade, o desenvolvimento no curso de vida tem sido abordado, atualmente, a partir de uma noção epigenética e probabilística (Gotlieb, 1996). Isto significa que cada indivíduo tem seu desenvolvimento delineado por inúmeras possibilidades vinculadas ao tempo, ao contexto e ao processo (Elder, 1996; Hinde, 1992), exercendo a função primordial de agente de mudança e de transformação da sua própria história (Branco, 2003; Elder, 1996; Magnusson & Cairns, 1996).

A participação do indivíduo na construção do mundo social possibilita a emergência de diferentes significações (e de novidade), que podem transformar o curso de seu desenvolvimento, assim como afetar a dinâmica da comunidade em que se encontra inserido. Por outro lado, as práticas sociais afetam as significações e construções simbólicas da pessoa, em uma relação de bidirecionalidade (Gotlieb, 1996; Valsiner, 2003). De acordo com este princípio, todos os membros de uma determinada cultura participam ativamente da sua construção, influenciando e sendo influenciados, em uma dinâmica de afecção mútua, o que possibilita a emergência do novo (van Geert, 2003).

Dada a complexidade do desenvolvimento e a centralidade do indivíduo em seu processo de transformação, este artigo aborda os recentes avanços da Ciência do Desenvolvimento, buscando refletir sobre a relação entre os fatores que atuam no processo de desenvolvimento humano. Ressaltamos, ainda, as contribuições da perspectiva sistêmica e do modelo bioecológico de Bronfenbrenner para a construção desta ciência. Ao final, tecemos algumas considerações a respeito da importância de os pesquisadores do desenvolvimento humano envidarem esforços para a compreensão da plasticidade do individuo quanto às possíveis trajetórias de desenvolvimento.

 

A Compreensão Contemporânea do Desenvolvimento Humano

O indivíduo vivencia mudanças e continuidades ao longo de todo o seu processo de desenvolvimento. Tais mudanças são interdependentes não apenas em relação a um dado momento de vida, mas também às mudanças que ocorrem na sociedade da qual ele é participante (Elder, 1996; Valsiner, 1989). As interações sociais levam a pessoa ao constante organizar-se e reorganizar-se, de modo a reestruturar suas relações com o mundo, o que abre novas possibilidades para o curso do seu desenvolvimento (Hinde, 1992). Cada etapa gera a possibilidade da próxima, em uma relação probabilística (Gotlieb, 1996; van Geert, 2003), cabendo à pessoa, no exercício da sua vontade, e considerando o ambiente sócio-histórico, a escolha de que direção tomar (Branco & Valsiner, 1997).

As escolhas do indivíduo são feitas dentro de certos padrões e limites, condicionadas pelos processos de construção sócio-históricos. Em se tratando do curso de vida, a infância, a adolescência e todos os demais estágios constituem exemplos de padrões desenvolvidos pelo indivíduo em suas interações e reconstruções com o ambiente. Neste sentido, os estágios são vistos como representações e como fatos sociais e psicológicos, cujas características dependem do contexto ao qual se referem (Ozella, 2003). São partes de um sistema de significados, na cultura e na linguagem, que permeiam as relações e interações sociais. Por se tratarem de processos de significações construídos pelo homem, não são vistos como "universais" ou "naturais" (Bruner, 1997). Diferentes culturas podem vivenciá-los e significá-los de inúmeras formas e, ao fazê-lo, geram novas significações para as diferentes esferas do desenvolvimento humano.

Compreender os processos de aquisição cumulativa de competências cada vez mais complexas, que buscam atender às necessidades do organismo e às exigências do ambiente (Gariépy, 1996; Gauy & Costa Junior, 2005) é tarefa desafiadora para as ciências contemporâneas. A complexidade do fenômeno de desenvolvimento humano requer a integração de diferentes campos de saberes. Uma das tentativas recentes nessa direção é feita pela "Ciência do Desenvolvimento" (Dessen & Costa Junior, 2005), que se caracteriza por um conjunto de estudos interdisciplinares que se dedicam a entender os fenômenos complexos relacionados ao desenvolvimento humano no curso de vida (Magnusson & Cairns, 1996). O objetivo desta ciência do desenvolvimento é a análise de sistemas complexos e integrados em diferentes níveis: genético, neural, comportamental e ambiental (físico, social e cultural), que interagem ao longo do tempo, traçando trajetórias probabilísticas de desenvolvimento (Gotlieb, 1996).

 

Caos e Ordem: Construindo a Trajetória Probabilística do Desenvolvimento Humano

Os organismos, em diferentes níveis hierárquicos, obedecem a leis bastante semelhantes em seus processos de desenvolvimento e evolução, funcionando como sistemas. De acordo com a perspectiva sistêmica do desenvolvimento, a pessoa encontra-se integrada e em relação, a partir de sistemas organizados. Os diferentes níveis do sistema, desde o embrionário até os de maior complexidade social, se interconectam visando o equilíbrio dinâmico. Tal "equilíbrio dinâmico é um estado que decorre quando as forças envolvidas conseguem manter, umas às outras, em um nível fixo e estável" (van Geert, 2003, p. 644). Tais forças são denominadas de forças de coação e se referem, portanto, às tensões criadas nos níveis estruturais e funcionais do organismo, quando este se depara com circunstâncias novas ou adversas à manutenção de seu equilíbrio (Gottlieb, 1996). Para que haja equilíbrio, as forças precisam atuar em complementaridade, visando à manutenção e a harmonia no sistema.

Para Magnusson e Cairns (1996), são os sistemas, em seus diferentes níveis e em uma organização hierárquica, aquilo que se desenvolve, caracterizando-se a evolução por um processo contínuo e dinâmico. Neste processo, há três condições essenciais dos sistemas dinâmicos, segundo o modelo de Lorenz (citado por van Geert, 2003), que precisam ser destacadas. A primeira refere-se ao fato de que mesmo os sistemas mais simples podem espontaneamente mudar seu padrão dinâmico, criando uma nova regularidade. A segunda é que essas modificações, às vezes, acontecem sem razões aparentes, apenas mobilizadas pela dinâmica interna dos próprios sistemas. A terceira é que alguns desses processos são "caóticos", não por serem desordenados e irregulares, mas por se caracterizarem como "processos determinísticos complexos, com grande irregularidade aparente, mas com alto padrão de regularidade interna" (van Geert, 2003, p. 644).

O desenvolvimento humano pode ser compreendido, analogicamente, a partir das condições que caracterizam os sistemas dinâmicos. É possível que o indivíduo, ao longo do seu curso de vida, e sem uma razão aparente, apresente comportamentos diferentes do padrão esperado, condicionando a emergência de novidade (ou, de saltos qualitativos), tal como destacado por Branco e Valsiner (1997) e van Geert (2003). Além disso, a idéia de caos em muito se aproxima às "crises normativas", que podem ser caracterizadas como momentos complexos de transição entre estágios do desenvolvimento, em que se busca nova estabilidade dinâmica. Neste sentido, o desenvolvimento individual decorre das relações que cada um estabelece com os contextos ambientais, e a partir de suas pré-disposições genéticas. A conduta humana torna-se a interface entre as atividades intra e extra-organismo, ocupando o lugar de mediador do processo de desenvolvimento.
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