Vãs querelas e verdadeiros objetivos do ensino da literatura na França
Jean Verrier
Discutem-se aqui as questões envolvidas na polêmica que agitou a França em 2000, quando professores, alunos, governo e sociedade em geral se juntaram em dois campos adversários sobre o ensino de literatura: ensino novo x cursus clássico. Neste ensaio, procura-se situar a questão de uma perspectiva histórica e identificar desafios que sejam fundamentais para a literatura e o ensino, tentando ver em que medida ambos os campos adversários contribuem para uma discussão que é hoje premente em todo o mundo ocidental.
A propalada crise do ensino de francês é discutida a partir da argumentação de que a crise está como sempre esteve e como ainda estará, uma vez que as mentalidades não evoluem no mesmo ritmo que as reformas institucionais, as leis, os programas, as instruções oficiais que pretendem regê-las. Para argumentar em prol dessa posição, investigam-se na história do ensino francês os momentos de crise, suas razões e suas soluções. Enfocando sempre a literatura, discutem-se por fim as mudanças do ensino nos anos 1970 do século findo, as quais deram origem às alterações propostas pelos novos documentos oficiais, alvo da polêmica que ainda hoje reverbera fortemente entre a intelectualidade. O texto termina propondo uma tomada de consciência das tensões existentes, visando a um entendimento e não ao apego a posições extremadas, as quais não são capazes de trazer solução para o problema.
É a literatura que se assassina na rue de Grenelle. Esse título, digno de um romance policial, ocupou uma página inteira do jornal Le Monde de 4 de março de 2000. É bom saber que o Ministério da Educação está situado na rua de Grenelle em Paris e que aquele era o momento da preparação dos novos programas de francês para os colégios e liceus da França. Ou seja, antes mesmo de seu aparecimento, esses programas mobilizaram mais de uma centena de universitários e de escritores... dos quais, uma minoria tinha lido os projetos incriminados. Dentre os signatários, muitos colegas e amigos meus confessaram não terem lido bem o texto da petição. No entanto, quando se é solicitado a assinar uma petição para a defesa da literatura – a qual, como todos sabem, é estreitamente ligada a seu ensino – que escritor, que professor de literatura hesitaria um só instante?
A partir dessa data, os jornais e as revistas se encheram de protestos ou aprovações. No dia 6 de maio de 2000, um colóquio reuniu centenas de pessoas no grande anfiteatro da Sorbonne, ocasião em que o presidente da comissão de programas do Ministério, ali presente, foi intensamente vaiado. A essa manifestação, responde, no outubro seguinte, no interior da mesma Sorbonne, um seminário organizado pelo Ministério. Dessas duas últimas manifestações, provêm dois livros: da primeira, Propositions pour les enseignements littéraires (PUF, 2000) [Proposições para os ensinamentos literários]; da segunda, Perspectives actuelles de l'enseignement du français (MNE, CRDP de Versailles, 2001) [Perspectivas atuais do ensino do francês].
Uma coisa é certa: quando se mexe com a literatura, a língua, a ortografia, muitos franceses se armam para a batalha – e não somente os especialistas como também os pais dos 10 ou 11 milhões de estudantes do país. Na mídia e junto ao grande público, o debate em geral se reduz a uma escolha binária: ensino light ou cursus clássico. E se, por um lado, podemos ter a satisfação de ver tanta gente se apaixonar pelas questões de língua e literatura (nesse ano de 2006, a polêmica é entre o método global e o método silábico para a aprendizagem da leitura), podemos, por outro lado, lamentar que a polêmica esconda os verdadeiros desafios e impeça o exame de proposições construtivas. Ensinar francês: vãs querelas e verdadeiros desafios é o título que escolhemos entre vários outros – este, escolhido por membros da Associação Francesa dos Professores de Francês – para responder, a partir de 9 de março, no Le Monde, à petição do 4 de março precedente.
Por achar que a petição de 4 de março de 2000 representa uma querela vã, não me deterei nela, buscando, sobretudo, situar essa crise numa perspectiva histórica e identificar o que me parece constituir alguns dos verdadeiros desafios do ensino da literatura na França e na Europa no século XXI.
Vãs querelas
De início, não vejo proposição no texto de 4 de março nem, portanto, no livro intitulado Proposições para os ensinamentos literários, além da manutenção do status quo anterior, ou seja, a manutenção ou o retorno ao que os contestadores conheceram "na sua época", quando "os professores tinham ainda a liberdade de despertar o amor pelos grandes textos que eles próprios tinham aprendido a amar", escreviam eles. A melhor forma de integração que esses professores propunham aos jovens imigrantes (cuja maioria é de origem árabe-muçulmana) é "ensinar-lhes latim e grego a fim de que abram os olhos para a unidade dessa cultura mediterrânea que é ao mesmo tempo a deles e a nossa", quer dizer voltar à época em que professores de francês dedicavam um terço de seu tempo ao latim, um terço ao grego e um terço somente ao francês, ou seja, em que eles ensinavam francês a partir do grego e do latim. A descrição que eles dão da situação atual é caricatural, francamente inexata como, por exemplo, quando escrevem que "não existe mais literatura no colégio", que se diz às "crianças mais pobres: Chega de literatura para vocês" ou quando sugerem a existência de um complô: "é toda uma ala de nossa cultura que se destrói, metodicamente [...] é a crônica de uma morte anunciada, premeditada" etc.
O ensino do francês está em crise, tudo bem, mas está como sempre esteve e como ainda estará. O ritmo simplesmente se acelerou. E as mentalidades não evoluem no mesmo ritmo que as reformas institucionais, as leis, os programas, as instruções oficiais que pretendem regê-las.
Uma rápida retrospectiva histórica do ensino da língua e da literatura na França se faz necessária para dar um melhor contorno às questões atuais.
O ensino literário nos liceus franceses após 1880
"É bem verdade que jamais se escreveu tão mal o francês quanto hoje", afirma o grande crítico Émile Faguet em 1910, logo após a reforma de 1902. Essa reforma era o resultado de mudanças ocorridas no fim do século XIX, particularmente por volta dos anos 1880 quando se introduziu pela primeira vez no bacharelado um exercício em francês: a composição francesa que substituía exercícios em latim. Vai-se agora ensinar o francês, não mais a partir da tradução de textos literários gregos ou latinos, mas a partir do próprio francês, o que provoca novas Instruções em 1925, sem grande sucesso. Já nessa época, aqueles que aproveitam esse ensino das línguas clássicas, uma pequena elite, têm o sentimento de que se assassina a Literatura (com maiúscula).
A passagem de um patrimônio literário fundado sobre a cultura antiga a um patrimônio literário nacional, fundado sobre a literatura francesa é pois vivido por aqueles que se opõem como uma perda de identidade. (Houdart-Merot , 2007)
Como a questão da literatura, a questão da língua é estreitamente ligada à de seu ensino: que francês ensinar e como? Que literatura ensinar e como? Ambos os ensinos são estreitamente ligados um ao outro já que os textos gregos ou latinos utilizados para o ensino do francês eram textos que se pode qualificar de literários: discursos políticos, cartas de pessoas importantes, ensaios filosóficos tanto quanto poemas ou textos dramáticos. Daí a idéia de que o ensino da língua só pode ocorrer a partir dos grandes textos, exclusivamente a partir deles. Tanto que Martine Jey conclui seu livro, La littérature au lycée: invention d'une discipline (1880-1925) [A literatura no liceu: invenção de uma disciplina], com a seguinte observação, que ajuda a situar melhor o debate atual:
A diferença é grande entre um ensino de francês, cujo objeto seria a aprendizagem da língua e que englobaria o estudo dos textos literários (entre outros), e um ensino exclusivamente literário, que é um ensino de especialistas, concebido, à imitação do Ensino Superior, para professores de Letras.
É preciso lembrar que existe na França até o fim da Segunda Guerra Mundial (o colégio único data de 1963) uma ruptura entre um ensino dito secundário, destinado à formação da elite, e um ensino primário (mesmo se este engloba um primário superior no qual são formados os professores do ensino primário) destinado à formação dos educadores. O ensino da língua e da literatura francesas foi, portanto, inicialmente concebido no ensino secundário para a formação de notáveis. Compreende-se então que uma cultura da retórica fundada sobre a imitação tenha deixado seus traços quando progressivamente aparece aquilo que Michel Charles (1985) chama de uma cultura do comentário. Em 1880, 2% somente de alunos de idade correspondente freqüentam o ensino secundário; 28% em 1959, cerca de 80% hoje. A abertura a um novo público, mais numeroso e mais diversificado, só muito lentamente se deixa acompanhar de uma abertura a novas concepções da língua, da literatura e do ensino.