Amal Hachet
Analista clínica do Espace Analytique. Doutora em psicologia clinica e psicopatologia na Universidade de Paris 5. ATER no Departamento de Psicologia da UFR de Ciências Humanas e Artes da Universidade de Poitiers.
INTRODUÇÃO
No prefácio que fez para a obra doutrinal de Maud Mannoni dedicada ao primeiro encontro dos pais de uma "criança com problemas" com o psicanalista, Françoise Dolto, para quem a adaptação escolar é um "importante sintoma da neurose", denuncia com a autora as exigências patogênicas da sociedade, e mesmo da escola, esse "mais além do familiar edipiano" que visa normalizar as crianças conforme um padrão socioeducativo à custa de sua subjetividade (MANNONI, 1965, p.43).
Os critérios de adaptação escolar para cada criança se baseiam não apenas no sucesso, mas também e principalmente na ausência de distúrbios de caráter que possam perturbar a tranqüilidade do ambiente.
Ante as pressões da sociedade e da escola, e a ansiedade dos pais - motivada pelos distúrbios escolares ou do caráter da criança - o psicanalista pode ver sua função pervertida e então, sendo terapeuta, pode ver que lhe é atribuída uma função de "agente da normalização" de quem se espera que garanta - graças a um "dispositivo de ajuda específica que preconiza medidas terapêuticas ou corretivas re-educativas" - a conformação dessa criança a um Ideal de Saúde mental e física: uma criança calma, sadia de corpo e de espírito, bonita, inteligente, que sabe falar, ler, escrever e contar perfeitamente, que se sai bem na escola e não apresenta nenhum problema àqueles que estão à sua volta. Em suma, uma criança-robô. Ou então, uma vez que o sintoma de uma criança tem um valor de mensagem, é preciso antes ouvi-la do que corrigi-la ou reeducá-la, correndo o risco de agravar o sofrimento do sujeito que é seu portador (idem, p.10). O papel do analista, então, consiste em "restituir ao sujeito sua verdade, como uma dádiva", talvez mesmo permitir que a palavra seja. O analista não está lá para trazer soluções, mas para permitir que uma situação seja posta em questão e para que a pergunta que subtende a demanda - aquela que os pais propõem através de seus filhos - possa ser apresentada. O que o analista dá é aquilo que é do outro, dizia Lacan, denunciando o caráter enganador, mentiroso e inadequado de sua demanda.
Em seu artigo "Éducation, oppression, normes", e baseando-se nos trabalhos de Maud Mannoni, Catherine Mathelin evoca a ausência de diferença entre uma educação tolerante e outra rígida. Ambas estão fundadas no constrangimento e na violência: a educação que depende de um ideal pedagógico se acha pervertida. A criança deve submeter-se a ela, sob pena de sofrer sanções (receber pancadas ou perder o amor de seus pais). Esta educação cria o impasse no que tange à verdade do desejo, tanto da criança quanto do adulto: essa verdade, no entanto, força seu retorno através do sintoma da criança (MATHELIN, 2004, p.16).
Um relatório recente do Inserm (Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale), datado de 22 de setembro de 2005 e realizado por um grupo de "especialistas" em distúrbios de comportamento em crianças e adolescentes, afirma que há uma nova patologia associada aos distúrbios de comportamento, denominada TOP: Troubles Oppositionnels avec Provocation (que vertido ao português seria DOP: Distúrbios de Oposição com Provocação). Tratar-se-ia de um conjunto de comportamentos hostis, indisciplinados, impulsivos ou provocadores que se exprimiriam ao longo da primeira infância e que seria precursor de distúrbios de conduta, talvez mesmo da delinqüência, no adolescente, bem como de distúrbios de personalidade no adulto. Dentre os fatores de risco, esses "especialistas" mencionam:
• Por um lado, os fatores genéticos e hereditários (dentre os quais a existência de antecedentes familiares de distúrbios de conduta, de criminalidade no seio da família, de personalidade "anti-social" dos pais, etc.). Em suma, de acordo com esse relatório os distúrbios de conduta e de agressividade da criança são geneticamente "herdáveis".
• Por outro lado, a presença de deficiências neurocognitivas na criança (tais como o déficit das habilidades verbais e das funções executivas).
Para enfrentar esse distúrbio, os "especialistas" preconizam a implementação de um programa de despistamento precoce dos sinais precursores e dos fatores de risco desde a vida intra-uterina (?), um programa de prevenção tanto quanto uma tomada do encargo "psicossocial" que seria uma forma de "psicoterapia" à qual caberia ensinar a criança a desenvolver "estratégias de resolução de problemas" e suas "competências sociais, cognitivas e emocionais". O conjunto dessas intervenções, reforçado pelo tratamento farmacológico específico que associaria antipsicóticos, psicoestimulantes e reguladores afetivos, deveria iniciar-se desde a gravidez e prosseguir até que a criança tenha 3 anos de idade (RELATÓRIO INSERM, 2005). Graças ao progresso da ciência, poderemos finalmente transformar nossos monstrinhos - ou nossas "bombas de efeito retardado", tomando emprestada a expressão de Winnicott - em seres dóceis, robotizados e idealmente em conformidade com as normas de funcionamento que estejam em vigor! Ao criar o impasse ante aquilo que compõe a identidade da criança como sujeito - a saber, seu desejo - a sociedade se obstina a não ouvir o verdadeiro sofrimento que se esconde por trás do sintoma ou de seu "distúrbio de conduta", o qual está longe de poder ser reduzido a fatores químicos, hereditários ou genéticos. Esse simplismo etiopatogênico lembra perigosamente as idéias de Lombroso acerca do "criminoso nato".
Mas o que terá sido feito do inconsciente? É possível normalizá-lo?