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sábado, 31 de janeiro de 2009 - 23:16

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EJA - Materiais didáticos para a educação de jovens e adultos

por: Colunista Portal - Educação




Osmar Fávero

Doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Após breve retrospecto de trabalho anterior sobre o tema e algumas informações sobre a produção dos materiais didáticos para educação de jovens e adultos elaborados nos anos de 1980, apresenta essa produção nos anos de 1990, a saber: o programa político-pedagógico da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o material didático por ela elaborado para os programas Integrar e Integração; a proposta pedagógica do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra e os materiais utilizados nos seus acampamentos e assentamentos: o conceito de totalidades do conhecimento dos livros Palavras de trabalhador, editados pelo Sistema de Educação de Jovens e Adultos (seja), da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, produtos da experiência educativa realizada com jovens e adultos trabalhadores. Conclui explorando os pontos comuns ao material didático apresentado.


Para iniciar

Desde os primeiros tempos do Movimento de Educação de Base (MEB), no qual comecei minha vida profissional no período 1961-1966, interesso-me por material didático, tendo sido inclusive responsável pela produção e edição do Conjunto Didático Viver é lutar. O livro-texto que denomina esse conjunto, preparado para os recém-alfabetizados, foi publicado no final de 1963 e teve pequena parte de sua edição apreendida pela polícia de Carlos Lacerda, então governador do estado da Guanabara (antigo Distrito Federal, hoje município do Rio de Janeiro), em fevereiro de 1964, às vésperas do golpe militar. Pelo meb ser ligado à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e pelo caráter explicitamente político-ideológico do livro, após sua apreensão ganhou enorme repercussão na imprensa e na televisão brasileiras, com acusações e críticas radicais. Por outro lado, teve reproduções em jornais e revistas, traduções em espanhol, francês e italiano e, posteriormente, uma versão radiofonizada em uma emissora católica do sul da Alemanha.

Para a produção desse conjunto, trabalhei com o material didático utilizado no Brasil nos anos de 1950, para a alfabetização e educação de base de adolescentes e adultos (na época não se usava a categoria jovem). Dispunha também da orientação de manuais da UNESCO e, claro, conhecia as críticas de Paulo Freire às cartilhas. No entanto, foi o pioneiro Livro de leitura para adultos, do Movimento de Cultura Popular do Recife (MCP), lançado em 1962, e Venceremos, a cartilha do movimento massivo de alfabetização de Cuba, iniciado logo após a revolução de 1959, que inspiraram uma nova linha de produção, principalmente de textos para os pós-alfabetizados. Por ocasião de minha tese de doutorado, no começo dos 1980, sistematizei o estudo desse material, inspirado nas análises feitas por Celso Beisiegel em seus dois livros: Estado e educação popular (São Paulo: Pioneira, 1974, recém-reeditado pela Líber Livros, de Brasília) e Política e educação popular (São Paulo: Ática, l983). Essa sistematização foi traduzida no texto "Referências sobre materiais didáticos para a educação popular", publicado no livro Perspectivas e dilemas da educação popular, coordenado por Vanilda Paiva (Rio de Janeiro: Graal, 1984).

Recentemente, todo esse material didático e outros foram organizados no acervo do Núcleo de Estudos e Documentação sobre Educação de Jovens e Adultos da Universidade Federal Fluminense (NEDEJA/UFF) e continuei reunindo materiais produzidos após os anos de 1970, especialmente pela Cruzada ABC e pelo MOBRAL, até os dias atuais. Guardo também materiais relativos à alfabetização funcional em projetos de assentamento do INCRA e de extensão rural na zona do agreste de Pernambuco, sob o patrocínio da UNESCO. Da mesma forma que o Conjunto Didático Benedito e Jovelina, feito pelo MEB/Goiás na segunda metade dos anos de 1960, esses materiais usados no meio rural foram influenciados pelo Sistema de Alfabetização de Paulo Freire, embora sem o conteúdo político explícito, essencial nas experiências do começo dos anos de 1960, mas inviáveis durante a ditadura militar.

Nos anos de 1980, foi retomada a produção de material didático para a educação de jovens e adultos comprometida com os movimentos sociais. Em 1982, a equipe de educação popular do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI) – precursor da Ação Educativa –, coordenada por Sérgio Haddad, por solicitação do Centro de Documentação e Pesquisa da Amazônia, elaborou o Conjunto Didático Poronga, para alfabetização de homens e mulheres que viviam e trabalhavam no seringal Nazaré, município de Xapuri, no Acre, ação inserida no bojo de um projeto de desenvolvimento econômico, social e de educação popular. O trabalho foi feito com o Sindicato dos Seringueiros de Xapuri, encabeçado por Chico Mendes, e seu título refere-se à lamparina que os seringueiros da Amazônia usam na cabeça quando saem, na madrugada, para fazer extração do látex. O conjunto é composto de três cadernos: Português, contendo uma cartilha e exercícios complementares, Matemática e Orientações para o monitor. Em 1983, por solicitação do MEB de Caruari, em cujo território a ocupação principal era extração da borracha, foi feita uma adaptação do Poronga para o município de Japuri: Poronga – Edição Juruá.

Essa colaboração deu origem a outro conjunto para o Solimões, intitulado O ribeirinho, também coordenado pela equipe de educação popular do CEDI e em colaboração com o MEB. Tem a mesma estrutura do Poronga: um volume para Alfabetização, outro para Matemática, ambos complementados pelos respectivos Cadernos do Monitor. Embora todos esses materiais se confessem tributários de Paulo Freire, a rigor, baseiam-se apenas no levantamento vocabular previsto no sistema de alfabetização e nos temas geradores. No entanto, apresentam estrutura programática próxima do interessante Programa Didático Mutirão, preparado pelo MEB em 1965 e usado nas escolas radiofônicas. Observo, no entanto, que essas afirmações são provisórias, pois esses conjuntos didáticos ainda não estão convenientemente analisados. No acervo da Ação Educativa, encontra-se ainda uma coleção bastante diversificada de cartilhas e livros de leitura, produzidos no início dos anos de 1980 por centros educativos diversos, paróquias que mantinham grupos de educação popular, entre outros – material também que merece ser estudado.

Considero menos interessante voltar, nesse momento, à análise de materiais didáticos produzidos em décadas anteriores. Pretendo apresentar neste trabalho alguns materiais didáticos utilizados atualmente para a educação de jovens e adultos, produzidos por dois movimentos que se destacam no panorama nacional: Central Única dos Trabalhadores (CUT), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e pelo Serviço de Educação de Jovens e Adultos, este último por ter conseguido implantar essa modalidade educativa no interior da Secretaria de Educação de Porto Alegre, fora dos moldes escolares tradicionais.

Esta opção justifica-se porque os respectivos materiais didáticos estão referidos a propostas político-pedagógicas inovadoras, que redefinem radicalmente a educação de jovens e adultos. Vale alertar, no entanto, que este trabalho não está completo: faltam dados sobre a abrangência dos programas e projetos em que foram ou estão sendo utilizados os materiais estudados, faltam avaliações sobre sua utilização, e algumas afirmações sobre os mesmos precisam ser comprovadas. Alerto, sobretudo, que não se pretendeu em momento algum avaliar os programas e seus respectivos materiais didáticos. Por outro lado, esta opção omite-se na apresentação e exame de outros materiais também interessantes, como os produzidos pelo Sapé – Serviços de Apoio à Pesquisa em Educação (Almanaque do Aluá n. 0 e 1); Vereda – Centro de Estudos em Educação (Material para alfabetização, com base em Paulo Freire, composto por cinco quadros, um bloco para o alfabetizador, cópia dos quadros para os alfabetizandos e lâminas dos mesmos para projeção; Almanaque Popular de Sabedoria n. 1 e 2 – Alfabetização: permanência e mudança, com texto de Vera Barreto e desenhos de Claudius Ceccon; Confabulando, seleção de fábulas por Vera Barreto e diagramação de Sebastião Xavier e Vera Barreto; Poetizando (Livro do educador), que ensina como trabalhar com poesia na alfabetização, com textos e comentários de Vera Barreto e Marisa Lajolo (quadrilha e cantiga); Historiando (Livro do educador), com textos de orientação, seleção e organização de histórias por Vera Barreto. Não considero também o novo material didático do MEB – Saber, viver e lutar, que apresenta reedições adaptadas e contextualizadas para os dias atuais do Conjunto Didático Viver e lutar, para uso no norte de Minas Gerais e em estados da região Nordeste. E existem outras experiências, com propostas político-pedagógicas específicas e materiais delas decorrentes, que ainda desconheço.

 

CUT – Projeto político-pedagógico

O projeto político-pedagógico da CUT para a educação de jovens e adultos trabalhadores é resultado da sistematização das reflexões feitas, no final dos anos de 1990, sobre educação profissional, com base nas experiências de educação integral dos trabalhadores.

    As estratégias formativas da Central partem do desenvolvimento do homem como um ser integral, que se constitui mediante relações sociais advindas do trabalho, assim como na relação com a natureza; relações que devem ser objeto de reflexão crítica, visando à libertação das condições de opressão e exclusão social, em particular proveniente de valores e atitudes de cunho discriminatório quanto às questões raciais, sexuais, religiosas, de gênero, dentre outras, concebendo a educação e a formação como direito do trabalhador. (CUT, 2001, p. 4)

Para concretizar essa proposta de formação, a CUT:

    a) "toma como eixo fundamental o trabalho, compreendido como processo histórico de transformação da natureza e dos próprios homens, os quais, em sociedade, criam, por múltiplas formas de sociabilidade, os diferentes modos de produção e compreensão da existência". Em segundo lugar, parte da "compreensão de que o conhecimento não pode ser concebido como algo externo e distante dos sujeitos, apartado das relações sociais que o constituem" (Rummert, 2004, p. 46; Bárbara, Miyashiro & Garcia, 2004, p. 39);

    b) considera a formação profissional como parte da educação integral, entendida como processo de autoformação continuada, que ocorre em todos os espaços sociais. Trata-se de criar um "processo de educação vinculado ao momento histórico, com a intenção de transformar o mundo e tornar o conhecimento constitutivo da própria vida" (CUT, Programa Integrar, módulo 12, Apresentação).

Os dois maiores programas por ela desenvolvidos, com base nas definições propostas, foram o Programa Integrar e o Programa Integração, que apresentarei a seguir, historiando-os e analisando os respectivos materiais didáticos.

Programa Integrar

Desenvolvido pela Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT, a partir de 1995, com financiamento do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), do Ministério do Trabalho e Emprego, o Programa Integrar tinha por objetivo associar a formação para o trabalho com a formação geral e com a geração de alternativas de trabalho e renda.

Com base em sondagens feitas em São Paulo com trabalhadores desempregados ou em via de desemprego, que se ressentiam da falta de escolaridade, o Programa Integrar foi definido em parceria com a PUC/SP, assumindo uma concepção de educação que visava contribuir para a formação de um cidadão criativo, crítico, autônomo e com capacidade de intervir na sociedade. Sua proposta é bem fundamentada, como pode ser visto na sistematização constante da edição feita no Rio Grande do Sul:

    O homem é concebido como um ser que se autoconstrói nas relações estabelecidas consigo mesmo, com a natureza e com suas semelhantes, nas condições concretas do momento histórico vivido.

    O aluno trabalhador é concebido com um ser social que traz experiências de vida e conhecimento acumulados. Um sujeito fazedor de história que intervém na realidade e que se constrói nas ações coletivas. Um ser integral, cujas dimensões cognitivas, físicas, emocionais, econômicas, políticas, sociais, culturais, éticas e estéticas e espirituais interagem no processo de construção do conhecimento.

    O conhecimento é concebido como fruto de um processo construtivo em que a aprendizagem dos sujeitos não está dada a priori e nem mesmo resulta do acúmulo de informações vindas do meio exterior. Para aprender, o sujeito coloca em jogo suas hipóteses sobre a realidade, interage com o real e com os outros, reconstruindo estas hipóteses e avançando na compreensão desta realidade. Desta maneira, realiza-se um processo dialético de elaboração e reelaboração do conhecimento.

    A educação é concebida como um processo internalizado pelo sujeito. Um processo que se constitui na relação direta com a dinâmica da sociedade, em que grupos e classes sociais agem e interagem dinamicamente em torno de interesses contraditórios. (Citolin, 1999, p. 24-25)

A revista Forma & Conteúdo: a formação de Norte a Sul, publicada pela Secretaria de Formação da CUT em agosto de 2000, informava que o Programa Integrar estava sendo desenvolvido em 17 estados e 45 municípios, atingindo 250.000 mil trabalhadores, desdobrado em quatro subprogramas:

    - Programa Integrar para Trabalhadores Desempregados (PID)

    - Programa Integrar para Trabalhadores Empregados (PIE)

    - Programa Integrar para Formação de Dirigentes (PIEF)

    - Laboratório de Desenvolvimento Sustentável e Solidário (LDSS)

Para concretizar a proposta político-pedagógica da CUT, o Programa Integrar apresenta um currículo que, rompendo com a lógica disciplinar, objetiva propiciar aos educandos um processo formativo centrado "nas relações e inter-relações com a vida dos trabalhadores jovens e adultos, partindo e dialogando com os conhecimentos trazidos por esses sujeitos para a reflexão sobre a realidade na qual estão inseridos" (Rummert, 2004, p. 145; Bárbara, Miyashiro & Garcia, 2004, p. 35). Esse currículo desdobra-se em quatro módulos:

    Trabalho e Tecnologia
    Questão desencadeadora: Trabalho e relações sociais

    Matemática
    Questão desencadeadora: Os sujeitos se constroem e transformam a natureza

    Leitura e interpretação do desenho
    Questão desencadeadora: A cidade como espaço de intervenção do cidadão

    Gestão e planejamento
    Questão desencadeadora: Ação no mundo do trabalho e na sociedade
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Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.

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