uma contribuição da história da educação
LUCIANO MENDES DE FARIA FILHO
Professor da FaE-UFMG, Coordenador do GT História da Educação/ANPEd
O texto pretende contribuir com as discussões sobre a relação entre a escola e a família, analisando a forma como nas páginas
de um periódico mineiro, a Revista do Ensino, cujos responsáveis se auto-reconheciam como escolanovistas, um grupo bastante diversificado
de sujeitos (professores, técnicos de ensino, diretores de instrução...) concebia e colocava em circulação a temática das relações entre
essas duas instituições.
A relação entre a escola e a família é, sobretudo nos dias de hoje, uma das mais palpitantes questões discutidas por pesquisadores e/ou
gestores dos sistemas e unidades de ensino em quase todo o mundo. Este fato é evidenciado, por um lado, pelo expressivo número de pesquisas
e publicações especializadas sobre o assunto, e, por outro, pela preocupação manifestada nos mais diversos fóruns (de reuniões escolares a
fóruns nacionais e internacionais) pelos profissionais responsáveis por gerir simples unidades escolares ou complexos sistemas nacionais de
ensino.
No campo das pesquisas acadêmicas, talvez a área que mais tem se voltado para o estudo e entendimento das relações entre escola e família
seja, não por acaso, a Sociologia e, subalternamente, os estudos de políticas de educação. Discutindo seja temas clássicos, como o fracasso
escolar, seja questões recentemente incorporadas, como as trajetórias escolares, os sociólogos da educação têm continuamente chamado a
atenção para a implicação da instituição familiar com a escola. Como dizem Montandon e Perrenoud (1987:7), "de uma maneira ou de outra,
onipresente ou discreta, agradável ou ameaçadora, a escola faz parte da vida cotidiana de cada família".
Todos estes estudos e, mais ainda, a prática pedagógica dos professores e gestores da escola põem em evidência um fato: a forma e a
intensidade das relações entre escolas e famílias variam enormemente, estando relacionadas aos mais diversos fatores (estrutura e tradição
de escolarização das famílias, classe social, meio urbano ou rural, número de filhos, ocupação dos pais, etc.).
Constata-se, também, um outro elemento: seja devido a mudanças pelas quais nas últimas décadas têm passado a família, seja em face das
constantes e, às vezes, radicais alterações observadas na escola, bem como da conseqüente discussão (e incertezas) acerca do lugar dessas
instituições na formação das novas gerações, observa-se hoje uma exaltação da necessidade de se estabelecer um efetivo diálogo entre a
escola e a família.
Os professores e os gestores das unidades escolares alimentam, ainda, a ilusão de uma maior participação dos pais na escola, que seria
resultado de uma ação formativa da escola em relação à família. Centrados em uma visão escolarizada do problema, eles não põem em dúvida o
lugar construído para e pela escola, em relação às demais instituições sociais, dentre elas a família.
É no interior deste debate, antigo e muito mais complexo do que aqui apresentado, que se inscreve a preocupação dos historiadores da
educação com o tema. No Brasil, ao longo do século XIX, a instituição escolar vai lenta, mas inexoravelmente, se fortalecendo como o locus
fundamental e privilegiado de formação das novas gerações, estando diretamente relacionados a este fato a expansão da escolarização, o
processo de profissionalização do magistério primário, dentre outros fatores (Faria Filho, 1999). Neste processo, ela desloca, como já foi
observado por diversos autores (Alvares-Uria e Varela, 1991; Vicent, 1994), outras instituições (família, igreja, etc.) de seus lugares
tradicionais de socialização, considerando-as, na maioria das vezes, incapazes de bem educar diante de uma sociedade que se urbaniza e se
complexifica, que supõe novas dinâmicas e padrões de comportamento.
Por outro lado, estudos têm detectado também que, nas primeiras décadas do século XX, o afastamento da família da escola, resultante em boa
parte da ação dos defensores e instituidores da escolarização, é uma preocupação constante destes mesmos agentes (Faria Filho, 2000).
Postados no interior de um campo que ganhava cada vez mais especificidade e legitimidade, os professores e outros agentes da educação
passam a reclamar do desinteresse dos pais, principalmente das camadas populares, para com a educação dos filhos. A partir de diagnósticos
os mais variados, baseados na premissa de que, embora seja fundamental a participação das famílias na educação dos filhos, estas
demonstravam, naquele momento, um profundo desinteresse e despreparo para lidar com o assunto, buscava-se projetar e desenvolver ações que
visavam reaproximar a família da escola. No seu conjunto, em suas mais diversas elaborações, estas ações mostram uma intenção colonizadora
da escola em relação à família, entendida esta tarefa como um momento fundamental da ação reformista da escola em face da realidade social
mais ampla.
Este trabalho trata de um período em que ocorre uma intensificação das discussões na área, procurando verificar como os escolanovistas
mineiros enfocavam a questão da relação entre escola e família. O interesse por desenvolvê-lo deve-se, mais especificamente, ao fato de que
em Minas Gerais, ao longo do primeiro quartel do século XX, ao fazerem referências à escola nova, alguns professores e intelectuais dão
maior relevo a experiências que exaltam a importância da instituição familiar na educação moral, intelectual e física das crianças.1
Para tanto, optou-se não por analisar toda a vasta produção do que aqui está sendo chamado, de forma demasiadamente elástica e imprecisa,
de "movimento escolanovista mineiro", mas tão-somente por enfocar o assunto a partir do que foi posto em circulação no principal periódico
mineiro à época, a Revista do Ensino, órgão oficial da Diretoria de Instrução Pública do Estado de Minas Gerais, e principal divulgador das
idéias escolanovistas no Estado, abrangendo o período que vai desde sua criação (1925) até o momento em que o principal mentor da reforma
de ensino que ocorre em Minas Gerais, em 1927, Francisco Campos, deixa o cargo de secretário do Interior (1930). O período começa,
portanto, antes de uma grande reforma de educação, tida pelos escolanovistas brasileiros como uma das principais do período, e termina
quando as referências da reforma estão plenamente postas em circulação através da revista.
A escolha por se trabalhar este periódico, no entanto, não se deve somente a estas razões. Por um lado, está se assumindo aqui a posição,
de forma exemplar explicitada e trabalhada por Marta Carvalho (1994), quanto à importância de se estudar os impressos pedagógicos para o
entendimento das diversas dimensões do fazer pedagógico e da atuação dos agentes no campo educativo. Por outro lado, no projeto pesquisa
está sendo desenvolvido na Universidade Federal de Minas Gerais,2 duas pesquisadoras estão trabalhando com esta revista: Maurilane Biccas
(1999), que trata do lugar ocupado pela revista na "formação de professores e na conformação do campo pedagógico em Minas Gerais",
compreendendo o período de 1925 a 1940; e Rita de Cássia de Souza (1999), que está estudando as representações e as práticas a respeito da
disciplina escolar dos alunos, postas em circulação e legitimadas pelo periódico. De forma direta, este trabalho beneficia-se de ambos,
assim como das produções recentes sobre a escola nova no Brasil e na América Latina (Carvalho, 1998; Nunes, 1993; Gvirts, s.d.),
principalmente nas discussões sobre as propostas e estratégias de reforma social postas em ação pelos movimentos escolanovistas.
ESCOLA E FAMÍLIA NA REVISTA DO ENSINO
Em trabalho recente, Marcus Vinicius da Cunha (1996:318) "analisa o discurso educacional renovador veiculado no Brasil, entre 1944 e 1960,
com vistas a discutir os referenciais utilizados para compreender as relações entre escola e família", tomando como base de sua pesquisa os
artigos veiculados pela Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, no período em questão. Cunha observa que há uma predominância do enfoque
de cunho histórico-sociológico no início do período analisado, o qual dá lugar a um claro psicologismo ao final.
Entretanto, em outra pesquisa (Faria Filho, 1999), que trata de um período anterior ao analisado por Cunha, não se observou tal movimento,
nem a presença de refinadas discussões como aquelas encontradas por ele nos artigos analisados.3 Percebeu-se, inicialmente, que para os
autores, dentre eles professores, dos textos publicados pela Revista do Ensino ¾ e, portanto, para os próprios responsáveis pela mesma ¾,
há uma clara consciência da importância da família na educação, que aparece das mais diversas formas e no interior de textos que tratam de
assuntos variados. Há, no entanto, uma constante: a relação entre escola e família é, sempre, relacionada às mudanças sociais em curso, à
vida na cidade e à necessidade do concurso de ambas para a formação do cidadão-trabalhador, higiênico e ordeiro.
Num artigo sobre o "Calendário Escolar", o professor Firmino Costa, diretor técnico do Curso de Aplicação, afirma:
"A vida social completa está na cidade. A família e a escola são suas partes mais importantes. A cidade há de interessar-se por elas,
cooperando em seu desenvolvimento, pois que de outra forma não podem progredir. Onde não houver famílias bem constituídas, onde não existir
escolas bem organizadas, aí não se encontrará a civilização. (...)
A família, a escola e a cidade hão de ver no menino uma esperança da pátria, donde deve brotar um cidadão digno e prestante. Elas têm de
oferecer para esse fim um ambiente favorável, cuja formação compete aos professores e a todos aqueles que forem modelos da vida social"
(Ano IV, 35, 1929, p.57-58).
No número posterior da revista, a publicação de uma tradução de um capítulo do livro Vers l'école de demain, de Angelo Patri, é ocasião
para se retomar a questão da cidade, da rua, da violência nos processos de socialização. Na parte traduzida, referente ao capítulo III do
livro de Patri, e publicada sob o título de "Fora da Escola", traz uma reflexão do autor sobre as dificuldades enfrentadas no trato com a
violência do "em torno" à sua escola. Dizia, finalmente, desanimado:
"Então, pensava ¾ será que minha escola é de fato diferente das outras? Não, por certo, continua a ser sempre a velha escola. Professores e
meninos, ruas e desordens, têm aqui outros nomes, mas sãos os mesmos em toda parte. A família fecha-se em casa e ao mesmo tempo se separa
do mundo. A escola fecha-se sobre si mesma, e não se incomoda pelo que vai fora. Mas a rua continua a agitar a multidão estrepitosa de sua
vida, arrastando nossos filhos diante de nossas portas fechadas" (Ano IV, 36, 1929, p.19).
Também o tradutor, o assistente técnico de ensino Levindo Furquim Lambert, aproveita essa oportunidade para, ao comentar o texto traduzido,
externar seu ponto de vista sobre o assunto:
"O lar forma, no estreito âmbito da casa, um mundo à parte, independente, regido talvez por leis reacionárias e dispersivas. E é bem por
isso que a rua impressiona Angelo Patri. A escola deve completar a tarefa do lar, o aperfeiçoamento do caráter, encaminhando as tendências
individuais para a harmonia e a estabilidade sociais" (Ano IV, 36, 1929, p.22).
A ação da família é, no entanto, uma ação complementar à da escola e a ela subordinada, porque se desconfia da competência da família para
bem educar; na verdade, no mais das vezes, afirma-se que a família não consegue mais educar os seus filhos. A esse respeito, o grande
problema, detectado nas páginas da revista, é que os pais não se interessam em participar da escola, pois dela estão afastados.
Como fazer, então, para interessar ou envolver a família na escola? Várias ações são propostas, as quais estão articuladas pela idéia de
que cabe à escola um papel preponderante na reforma social visada. Essa perspectiva aparece em artigos como o intitulado "A missão da
escola é criar valores socialmente utilizáveis ¾ Vigorosos traços de ensino moderno ¾ 'Método de problemas e métodos de projeto'"(grifos no
original), em que se afirma que "à escola moderna cabe a obra de assistência social, no ponto de vista econômico, higiênico, cívico, moral"
(Ano II, n.15, 1926, p.238-239), em que se alude ao comentário do prof. José Escobar referente ao inquérito sobre instrução realizado em
São Paulo.
Porém, é sobretudo quando se trata da "reforma" das camadas mais pobres da sociedade, particularmente no que se refere à higiene e à
alimentação, que a dimensão reformadora da escola adquire maior consistência. No artigo "Escola Nova ¾ problemas a resolver", o assistente
técnico do Ensino, Oscar Arthur Guimarães, depois de discorrer longamente sobre a importância de a escola contribuir para a garantia de um
corpo saudável para seus alunos, dizendo ser este o grande problema a ser resolvido pela escola nova, conclui afirmando:
"A escola não poderá ir diretamente auxiliar as classes pobres, facilitando-lhes meios de vida e provendo-as de alimentos. Mas poderá
suavizar o mal, fornecendo regras de economia e de rendimento maior no trabalho" (Ano IV, 35, 1929, p.45).
Nessa cruzada reformista dos costumes e das pessoas, a mulher é identificada como a grande responsável por garantir a boa ordem no lar e,
sobretudo, por possibilitar que a família passe a incorporar, cada vez mais, referências escolares/escolarizadas de gerir o mundo doméstico
e a educação dos filhos. Para isso, também, e principalmente, as mulheres precisam ser reeducadas, pois, para bem educar, não basta amar, é
preciso conhecer e compreender as necessidades infantis.
Assim, ao comentar uma conferência realizada na Alemanha, com o objetivo de interessar os pais pela educação dos filhos (no lar e junto aos
professores), a revista, pondo em circulação o artigo "A cooperação das famílias na educação", ao mesmo tempo em que reafirma que, para
orientar e conduzir a criança, é preciso ter-lhe amor e saber compreendê-la, explicita o grande problema detectado nas relações com os
pais:
"É impossível educar nas escolas quando os pais de nossas alunas são eles próprios mal educados; por conseguinte, qualquer tentativa nossa
para educar estas crianças as poriam em atrito com os pais e parente, e, por meio destes, conosco educadores" (Ano II, n.15, 1926, p.207).
Visando superar o problema, os legisladores e a própria revista serão pródigos na proposição de instituições escolares que incentivem e
permitam as famílias aproximarem ou participarem da escola, as quais possibilitariam a educação dos pais (principalmente, das mulheres).
Previstas já no Regulamento do Ensino Primário, de 1925, às Associação de Mães e organizações congêneres será dada grande atenção. Nas
matérias que versam sobre o assunto, será reafirmado, sempre, o lugar sagrado da mulher/mãe na educação da criança. Sobre isso, seria
interessante citar uma conclamação do próprio presidente do Estado, Melo Viana, às mães mineiras, publicada no número 02 da revista. Dizia
ele:
"O governo ouvirá, sempre, sobre a eficiência e moralidade da família (...) para promover ou inspecionar o ensino, enfatizando a 'missão
educador' e o importante papel desempenhado pelas mães, nas 'democracias', 'de formadoras do caráter dos cidadãos', ressaltando que o
manancial mais puro das energias cívicas e das virtudes morais ¾ é hoje verdade universal proclamada ¾ brota da educação do lar pela
palavra materna. (...) é na obediência à doce autoridade das mães e nos conselhos constantemente derramados do seu coração que os homens
aprofundam o culto da lei, para respeitar e obedecer aos seus verdadeiros representantes"(apud Borges, 1993:62-3).
Com este espírito, no ano seguinte, por ocasião da preparação e realização do Congresso de Instrução Primária, a revista publica as teses
discutidas, sendo que uma delas levanta a seguinte questão: "10a) Haverá vantagem em que nos grupos escolares se organize conferências de
vulgarização pedagógica, a fim de esclarecer os pais sobre os problemas da psicologia infantil, o papel da escola e a colaboração
necessárias entre a família e o mestre?" (Ano II, 22, 1927:480).
A resposta foi, evidentemente, afirmativa, reforçando-se a perspectiva da educação dos pais pela escola. No entanto, no decorrer da
propaganda da reforma, que teve na revista e no órgão oficial do Estado, o jornal Minas Gerais, seus principais meios, alguns professores
observam a necessidade de explicá-la às próprias famílias, e não apenas aos professores. É com este intuito que na seção "Daqui e dali", do
número 35 da revista (1929), aparece um artigo com o significativo título de "A reforma do ensino primário revelada aos leigos", que tem
como epígrafe o seguinte enunciado, debitado a Camões: "Quem não conhece a arte, não n'a estima." No texto, fruto de uma Conferência
realizada pelo professor Waldemar de Almeira Barbosa, da escola Normal de Dores do Indaiá, o autor principia por dizer que não tem "a
pretensão de trazer luzes ao professorado primário", pois este já estava sendo alvo de outras ações, e continua:
"Mas os senhores pais de família, que não estão na obrigação de a examinar a fundo, mas que se não furtam a julgamentos muitas vezes falsos
e errôneos sobre ela, merecem que se lhes dêem algumas explicações, que se lhes esclareçam as dúvidas.