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Artigos de Pedagogia


Linguagem escrita e relações estéticas: algumas considerações


31 de outubro de 2008


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Silmara Carina Dornelas MunhozI; Andréa Vieira ZanellaII

I Mestre em Psicologia do Desenvolvimento. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC
II Doutora em Psicologia da Educação. Docente do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC



O processo de constituição do sujeito ocorre a partir de relações sociais, semioticamente mediadas. Assim, é via produção de sentidos que o ser humano produz cultura e, simultaneamente, constitui-se enquanto singularidade, o que caracteriza esse processo como criador. Ao reconhecer a linguagem como constitutiva do sujeito e entender o processo de criação como característico do ser humano, o presente trabalho apresenta reflexões, à luz da Psicologia Histórico-Cultural, sobre os processos de criação na/com a linguagem escrita. Situações de uma pesquisa anteriormente desenvolvida são apresentadas para ilustrar as dicotomias existentes no processo de produção escrita, mais especificamente no que se refere às relações forma/conteúdo e técnica/sentido. Para a superação dessas dicotomias, necessário se faz estabelecer relações estéticas com a realidade, por cujo intermédio a pessoa pode distanciar-se e aproximar-se da produção escrita, seja esta produto de sua objetivação ou não. É este movimento que possibilita a organização de novos sentidos para a produção própria ou alheia e, por conseguinte, novas escritas.

Sabe-se que o advento da linguagem é um marco na história da humanidade. Através desta atividade, tipicamente humana, o sujeito passa a ter uma nova relação com o passado, com o presente e com o futuro, pois por meio de narrativas orais tem acesso às memórias dos acontecimentos e modos de vida.

Com a invenção da linguagem escrita essas possibilidades, assim como os processos psicológicos necessários para sua produção, complexificam-se, porquanto aquele que escreve necessariamente precisa ter o " domínio consciente de todos os meios de expressão escrita" (Luria, 1987, p.169). Ademais, a linguagem escrita possibilita ao ser humano inscrever no tempo a sua própria história e reler, tantas vezes quantas se fizerem necessárias, o que escreveu para então (re)criá-la. Com esse movimento, a linguagem escrita permite ressignificar o passado e o presente, constituindo-se também como ferramenta importante para projetar o futuro. Afinal, a escrita permite ao ser humano descolar-se do tempo imediato e mergulhar num mundo imaginário, que, por sua vez, amplia sua experiência na medida em que lhe torna possível (re)criar o que não vê. Desta forma, a capacidade de conhecer o passado e planejar o futuro, no aqui-e-agora, refere-se a uma complexa atividade que envolve processos psicológicos superiores como imaginação, memória, percepção e pensamento abstrato, amalgamados pela emoção e pela própria linguagem.

Assim, a linguagem caracteriza-se não apenas como via de comunicação que transcende limites espaciais e temporais, mas também como constitutiva do sujeito, do seu modo de vida, do seu pensar, sentir e agir. Essas questões serão discutidas neste texto, em especial, a relação entre linguagem escrita1 e processo de criação.

 

LINGUAGEM ESCRITA E CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO

Gelb (1962) faz um detalhado estudo, ao longo da História, sobre o nascimento e desenvolvimento da escrita mais utilizada por nós na atualidade – a escrita alfabética, ou seja, a escrita que utiliza letras de um alfabeto. Kato (2002) assinala que por muito tempo a escrita foi compreendida como uma forma duvidosa de informação: " o próprio Platão toma o aspecto impessoal da escrita como um traço inferior, atribuindo a insuficiência dessa modalidade à falta de contato pessoal." (Kato, 2002, p. 34). Por volta do século II, Santo Irineu, considerado o maior escritor eclesiástico de sua época, refere-se à escrita como uma legitimação da oralidade. Neste contexto, a autoridade oral passa a ser questionada e os escritos bíblicos é que assumem lugar de verdade absoluta. A escrita passa, então, a ser " legalizada" , e nós, a fazermos parte de uma cultura grafocêntrica, na qual a escrita adquire indelével importância ante as diversas outras formas de linguagem que o ser humano pode desenvolver.

Saber ler e escrever torna-se símbolo de distinção social, pois permite ao sujeito assumir uma condição diferenciada neste novo contexto, uma vez que a realidade passa, nesse caso, a ser lida com outros olhos e este olhar conta com a mediação semiótica da palavra escrita. Essas atividades, a de ler e a de escrever, não se restringem ao ato de compreender que os rabiscos numa folha branca são símbolos que representam sons da fala ou de discriminar as formas das letras. Elas consistem em ter uma percepção auditiva aguçada, entender o conceito de palavras e sentenças e ser capaz de organizar textos no papel (Lemle, 2000). Além destes aspectos, saberes considerados básicos para que uma pessoa possa aprender a ler e a escrever, considera-se que estas atividades humanas e complexas permitem a produção e apropriação de diversos sentidos à razão de alguns lugares sociais e dos modos de participação dos sujeitos que empreendem essas atividades e, por seu intermédio, estabelecem interlocuções com outras pessoas, de diferentes tempos e espaços. Via processo de significação, ou seja, de produção de sentidos, as ações humanas tornam-se práticas significativas e permitem que o sujeito se aproprie de sua cultura e constitua-se como ser cultural, ao mesmo tempo em que produz cultura (Pino, 1993; Sirgado, 2000; Zanella, 2004b).

A linguagem não é compreendida, assim, apenas como uma ferramenta técnica que medeia as relações humanas, mas também e, sempre, como uma ferramenta semiótica constitutiva do sujeito, pois via signos constituem-se processos psicológicos caracteristicamente humanos. O sujeito, portanto, " (...) só pode ser compreendido [numa visão vygotskiana] na sua relação com o signo e, mais especificamente, com a linguagem" (Smolka, 1997, p. 36), pois suas relações com o mundo são sempre semioticamente mediadas, e nunca diretas. Vygotski (1987, p. 48) assinala este aspecto constitutivo da linguagem ao afirmar que " (...) a interação social pressupõe a generalização e o desenvolvimento do significado verbal; a generalização torna-se possível somente com o desenvolvimento da interação social." As palavras do autor evidenciam que o sujeito não é apenas constituído pela linguagem e nem mesmo apenas produz linguagem, mas constitui-se num movimento dialético que transcende explicações extremas e dissociadas, isto é, este ser constitui-se como humano num movimento em que produz linguagem e, simultaneamente, se produz (transforma) na e pela linguagem.

Destarte, ler e escrever são atividades culturais complexas: culturais, pois veiculam sentidos culturalmente construídos e compartilhados e, ao mesmo tempo possibilitam, em razão de seu caráter polissêmico, a produção de novos sentidos; complexas, pois se relacionam desde o princípio com a consciência e a intencionalidade. A esse respeito, Luria (1987, p. 170) esclarece que, quando aprende a escrever, a criança opera, no início, não com idéias, mas sim com os instrumentos de sua expressão exterior, com os meios de representação dos sons, etc. Somente mais tarde o objeto das ações conscientes da criança é a expressão da idéia. Desta forma, a linguagem escrita - diferentemente da oral, a qual se constitui no processo de comunicação viva - é, desde o início, um ato voluntário consciente, no qual os instrumentos de expressão se configuram como o principal objeto da atividade.

Desse modo, a linguagem escrita exige sempre reflexão, pois para expressar um mesmo pensamento por escrito utiliza-se um número maior de palavras do que na comunicação oral, por não ser possível contar com outros recursos metacomunicativos, como entonação de voz, gestos, postura corporal. Nas palavras de Vygotski (1992, p. 328), " a linguagem escrita ajuda que a linguagem se desenvolva numa forma de atividade complexa (...) a reflexão prévia é muito importante na linguagem escrita: com muita freqüência dizemos primeiro para nós mesmos o que depois escrevemos."

Kramer (2000, p. 114) aponta, por sua vez, para a necessidade de se considerar a escrita além de seu aspecto instrumental, pois esta precisa ser refletida enquanto experiência. Para a autora, " o que faz da escrita uma experiência é o fato de que tanto quem escreve quanto quem lê enraízam-se numa corrente, constituindo-se com ela, aprendendo com o ato mesmo de escrever ou com a escrita do outro, formando-se."

Ao adotar-se aqui uma orientação teórico-metodológica fundamentada no enfoque histórico-cultural em Psicologia, a qual se alicerça no materialismo histórico e na dialética, propõe-se uma discussão rumo a um novo olhar sobre as dicotomias técnica x sentido e forma x conteúdo, que compõem as atividades de ler e escrever. Vygotski baseia-se na noção de movimento dialético em sua compreensão sobre o desenvolvimento do psiquismo humano, na qual procura transcender a velha oposição que marca a psicologia - o dualismo entre natureza e cultura. Neste sentido, Pino (2000, p. 10) afirma que " o homem é um ser que emergindo da matéria e transpondo seus limites no campo do imaginário e do simbólico, torna-se construtor do mundo e de si mesmo." Distante do idealismo e do materialismo mecanicista, encontra-se um movimento no qual o sujeito se constitui nas e pelas relações que mantém com sua cultura, ao mesmo tempo em que também produz cultura, considerando a dimensão histórica da realidade. Isto é, " o homem objetiva-se e concomitantemente se subjetiva, ou seja, constitui-se enquanto sujeito." (Zanella, 2001, p. 74).

É o pensamento dialético que oferece subsídios para suprimir as relações de caráter dicotômico como externo/interno, objeto/sujeito, natureza/cultura, coletivo/singular, técnica/sentido, e abarcá-las como " (...) instâncias de um mesmo e único processo histórico (...)." (Zanella, 2004b, p. 128). Via tal modo de pensar pode-se compreender que o sujeito constitui-se num processo no qual ele é sujeitado a e sujeito de e, desta forma, busca-se " apreendê-lo" em sua totalidade e complexidade, objetivadas nas atividades que empreende em contextos culturais específicos.

Toda atividade humana é mediada por signos em sua significação, ou seja, naquilo que o signo significa por sua relação, e objetiva-se na produção de material simbólico, movimento este que possibilita a constituição dos processos psicológicos superiores, tipicamente humanos. Assim, é via produção de sentidos2 que o ser humano produz e apropria-se da cultura e constitui-se enquanto sujeito singular. Este processo ocorre no campo da intersubjetividade, o qual é compreendido como " lugar do encontro, confronto e da negociação dos mundos de significação privados (ou seja, de cada interlocutor) à procura de um espaço comum de entendimento e produção de sentidos, mundo público de significação" . (Pino, 1993, p. 22) E são esses novos sentidos (singulares), que consistem numa (re)significação dos sentidos já apropriados e de outros sentidos (compartilhados), que serão desenvolvidos.

Assim, a linguagem escrita revela-se como possibilidade de criação, a partir da síntese entre aspectos que traz consigo, em relação ao que já foi, ao que é mas deixa e não deixa de ser, ao ser apropriado pelo outro, e ao que virá a ser, a partir desse novo olhar. Referindo-se à obra de arte também como uma forma de linguagem, Da Ros (2007) ajuda a entender esse movimento de deixar e não deixar de ser quando assinala que

    (...) as sínteses mais recentes em termos de conhecimento guardam todo o processo e o movimento da produção do saber contida em formas anteriores e que se foram trans-formando, provocando e sendo provocadas pelos diferentes movimentos desta sua produção contendo, também, aquilo que é considerado novo (Da Ros, 2007, p. 3).

É este movimento que liberta as amarras entre a dicotomia forma x conteúdo, ou ainda, na linguagem escrita, técnica x sentidos. Por exemplo, o sujeito, ao ler um texto, enquanto leitor entra em contato com o autor da obra e, ao mesmo tempo, produz sentidos sobre o que foi lido, ou seja, transforma-se em co-autor do texto. Pode-se dizer que o que o mobiliza ao ler um texto revela não apenas sua singularidade, mas uma singularidade que é construída nas suas relações com os outros, as quais trazem marcas de uma coletividade que compartilha sentidos. São os sentidos de um conteúdo específico, que assumem diferentes formas de expressão. (Da Ros, no prelo)

Entende-se, desta forma, que a noção instrumental da linguagem não é suficiente para abranger sua própria complexidade, uma vez que este aspecto não se define como tipicamente humano. É preciso considerar também o movimento dialético de produção de sentidos, por cujo intermédio se busca transcender e compreender a produção de material simbólico e significativo. Vygotski (1992) aborda a " palavra significativa" como uma unidade de análise que abrange os aspectos forma e conteúdo e permite superar antagonismos, compreendendo a dimensão constitutiva destes aspectos.

 
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