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Artigos de Pedagogia


Linguagem Oral - DA LINGUAGEM ORAL À LINGUAGEM DA HIPERMÍDIA


31 de outubro de 2008


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Linguagem Oral - DA LINGUAGEM ORAL À LINGUAGEM DA HIPERMÍDIA
reflexões sobre cultura e formação do educador




ROSELI FISCHMANN
Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de São Paulo e da Pós-Graduação da Universidade Mackenzie

 

 

Reflexões acerca de cultura e de linguagem, procurando direcioná-las à questão da formação de professores. Para isso, analisam-se resultados de duas pesquisas: uma conduzida por Betty Mindlin entre diversos grupos indígenas, publicada no livro Terra grávida; e outra, de cunho interdisciplinar, coordenada por Sérgio Bairon, publicada em linguagem de hipermídia, em CD-ROM, Hipermídia, psicanálise e história da cultura. Procura-se demonstrar como a temática das culturas se encontra subjacente à escolha do uso de diferentes linguagens para expressar diversas visões de mundo e diferentes problematizações sobre o destino humano, do oral ao para-além-da-escrita.

A adoção de conteúdos ligados às questões culturais na formação de educadores vem ganhando cada vez mais espaço nas propostas curriculares. Tal espaço e visibilidade são proporcionais ao avanço da construção do conhecimento no campo da educação, em suas relações com o campo da cultura.

É claro que não se pretende discutir, aqui, o percurso do conceito de cultura nas pesquisas educacionais, tarefa que extrapola o escopo deste trabalho. Contudo, é preciso lembrar, em particular, que a cada momento histórico corresponde certa abordagem do conceito de cultura, com repercussões no campo sociopolítico e, em decorrência, educacional. A produção do conhecimento acadêmico, por sua vez, ora distancia-se desse movimento dialógico, ora o repercute e, em momentos específicos, pode mesmo provocá-lo.

Um exemplo dessa teia intrincada de relações pode ser encontrado no artigo "Identidade cultural, identidade nacional no Brasil", de Maria Isaura Pereira de Queiroz (1989). Ali existem duas análises entrelaçadas: uma que se refere às relações entre o conceito de identidade cultural e identidade nacional; e outra que é atinente à posição de cientistas sociais brasileiros comparativamente à de europeus quanto aos mesmos conceitos. Tratada desde o século XIX pelas ciências sociais no Brasil, essa temática sofreu mudanças, vinculadas tanto ao estado do conhecimento em cada época, quanto à auto-imagem que os cientistas sociais faziam de si mesmos enquanto brasileiros e do país.

Assim define Queiroz (1989:45) o ponto aonde levaram as transformações que sofreram esses conceitos: "Atualmente, quando estudiosos brasileiros falam de identidade cultural ou de identidade nacional, referem-se, pois, a noções diferentes das utilizadas por seus colegas europeus. Nos dois casos, o que há em comum é somente o fato de que ambas noções são em geral utilizadas como instrumentos para diferenciar uma cultura ou uma coletividade do conjunto das demais. Estas noções podem se tornar também armas para lutar contra qualquer perigo que ameace com o desaparecimento ou a coletividade, ou a nação. O Brasil, cuja independência não teve de ser alcançada à força, não voltou sua arma ideológica contra outras sociedades; ela foi forjada principalmente para propósitos internos. Na Europa, ao contrário, onde as guerras constituíram uma realidade constante, compuseram elas um campo apropriado para que nascessem dois conceitos diversos: um voltado para combater os inimigos exteriores, o outro se dirigindo à diferenciação interna de coletividades na totalidade nacional."

Mais complexo ainda é o trabalho de rastrear como o avanço do conhecimento nas ciências humanas e sociais relaciona-se com o campo educacional, em particular nas formas como se reflete, ou não, nas propostas de formação de educadores.

Sem pretender adentrar esse desafio, também mais amplo que os objetivos deste trabalho, vale, ainda que brevemente, lembrar o caso do tema transversal Pluralidade Cultural, dos Parâmetros Curriculares Nacionais (Brasil, 1997 e 1998) do MEC, por seus vínculos com a questão das relações entre identidade cultural e identidade nacional.

Ao introduzir como proposta de âmbito nacional a temática da valorização da diversidade, da superação da discriminação étno-culturo-racial e da crítica à desigualdade excludente, esse documento apontou a importância dos conhecimentos originários de diversos campos para sua composição e compreensão. Deixou, portanto, subentendido o caráter indispensável de uma formação substancial e diversa para os professores, o que posteriormente refletiu-se no documento Referenciais para Formação de Professores (Brasil, 1999). Ao mesmo tempo, destacou o caráter vivencial da formação específica na temática, envolvendo a convivência intencional e interessada com diversos grupos humanos. Contudo, a complexidade da presença do campo cultural na formação de professores apenas começa a se fazer presente, exigindo ainda muitos estudos por parte dos pesquisadores no campo educacional.

Assim, este artigo busca oferecer algumas reflexões que cooperem nesse sentido, tendo como proposta apresentar a contribuição de dois pesquisadores de diferentes áreas, que trabalham o conceito de cultura de formas distintas, porém com resultado semelhante em termos de sua valorização. Estes autores foram escolhidos por trazerem aportes diferenciados e complementares, oferecendo com isso material de conteúdo altamente heurístico para o campo da educação.

Os autores escolhidos e suas obras são: Betty Mindlin em sua pesquisa junto a narradores indígenas, com destaque para seu trabalho mais recente, Terra grávida; e Sergio Bairon, com a pesquisa Hipermídia, psicanálise e história da cultura, publicada em linguagem de hipermídia. Será traçada, posteriormente, uma comparação aproximativa entre ambos, apresentando, ao final, algumas reflexões voltadas para a formação do educador. Busca-se, assim, dar uma contribuição a esse campo tão complexo, cada vez mais relevante e indispensável nos estudos de educação, em geral, e da formação do educador, em particular.

 

PERMANÊNCIA E TRANSFORMAÇÃO

A antropóloga Betty Mindlin desenvolve há tempos um trabalho de extrema relevância. Trata-se da coleta de histórias, diretamente na fonte que são os narradores indígenas de diversas etnias, notadamente do norte do Brasil, fazendo, a seguir, a transposição da narrativa em linguagem oral, na maior parte das vezes nas línguas de origem, para a escrita, em Português.

Trabalho árduo, que somente tem sido possível em razão da experiência, competência acadêmica, dedicação e compromisso da pesquisadora com os indígenas. Trabalhando com diferentes grupos, vivendo o dia-a-dia das aldeias, colaborando na organização de sua defesa quando em contato com as novas levas de conquistadores da Amazônia, Betty Mindlin desenvolveu pesquisas, tanto a partir do Iamá ¾ Instituto de Antropologia e Meio Ambiente, contando com a cooperação de outros antropólogos, como Carmen Junqueira e Mauro Leonel, quanto junto ao Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Além disso, a antropóloga mantém processo de interlocução permanente com pesquisadores de outros países, marcando sua atuação por vivência e abordagem cosmopolita, assim como por valorização plena da diversidade cultural (Mindlin, 1998), em suas múltiplas, complexas e desafiantes faces.

Formada originalmente em Economia, curso no qual lecionou por algum tempo na USP e na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Betty Mindlin soube tirar proveito dessa origem em sua ida para a Antropologia. De fato, o olhar acurado para a temática da exploração e a visão crítica das singularidades do processo de desenvolvimento do Brasil1 foram aspectos que colaboraram em muito para que a pesquisadora tivesse certo tipo de posicionamento em relação à temática indígena.

A marca notável desse posicionamento é o respeito pelo ser de cada indígena, pelo ser de cada grupo, ao mesmo tempo em que convivem, evidentemente justapostas em seus trabalhos, a afirmação da capacidade indígena para a autodeterminação e a certeza de que todo o apoio à identidade cultural de cada grupo é indispensável nos duros processos que o contato com a sociedade não-indígena impõe (Mindlin, 1997b). É por isso que sua presença em prol da causa indígena tem se feito, sobretudo, com os resultados de seu trabalho.

Em suas pesquisas, sempre respeitando e fortalecendo as identidades culturais dos diversos grupos indígenas com os quais trabalha, Betty Mindlin tem desenvolvido um vasto levantamento das histórias de cada um desses povos, agrupando-as, posteriormente, por temas. Ressalta-se que esses agrupamentos são apenas uma forma de sistematização, que outros critérios poderiam ser adotados para classificá-los, tal sua riqueza e diversidade. Com isso, a pesquisadora vem compondo um material precioso que permite aos indígenas, a um só tempo, o registro da memória e a possibilidade de compartilhar, cada qual, sua cosmologia com os demais, indígenas e não-indígenas. Como lembra Marcos Terena (1998:892): "O desenvolvimento, reivindicado em nome dos direitos humanos, tornar-se-á capenga, cremos, caso não esteja acompanhado do desenvolvimento cultural, da auto-estima e de uma identidade étnica, compreensível inclusive ao mundo que nos cerca, como um código oral, legado pelos velhos aos mais jovens."

Na seqüência de um trabalho que já inclui Vozes da origem, Tuparis e tarupás, Moqueca de maridos, vem se juntar o magnífico Terra grávida, que será tratado aqui de maneira particular.

Seguindo, primordialmente, a tradição de Lévi-Strauss e Franz Caspar,2 as narrativas míticas recolhidas são parte da história desta Terra que há 500 anos é chamada Brasil, e que graças a essa pesquisa podem ser afinal conhecidas em português, em linguagem atraente mesmo para o leitor menos acostumado às leituras antropológicas.

Preocupada em analisar o rico material coletado, a autora de Terra grávida oferece uma introdução elucidativa para aqueles que já tenham familiaridade com esse tipo de produção. Aqui se insere, por exemplo, a análise que Mindlin faz do mito do Gavião, retomando e complementando a análise feita por Lévi-Strauss em O cru e o cozido (Mindlin, 1999:27-30).

Da mesma forma, esse ensaio introdutório terá, sem dúvida, função motivadora para aqueles que pouco tenham se dedicado a essa verdadeira aventura, de mergulhar em mundos de mitos e personagens tão pouco conhecidos como presentes na construção de referências da diversidade constituinte do Brasil.

É possível avaliar a complexidade do trabalho realizado por Betty Mindlin, ao serem observados os distintos procedimentos metológicos desenvolvidos em cada um dos trabalhos citados. Em Vozes da origem, as narrativas dos Suruí foram gravadas, transcritas na língua original, mediante uma escrita fonética própria da língua Suruí desenvolvida pela pesquisadora, para serem então traduzidas para o português, com o auxílio de intérpretes complementando os próprios conhecimentos de Mindlin. Lembra a autora: "É claro que o estilo reflete minha própria maneira de escrever e com freqüência há uma espécie de tradução cultural, necessária para familiarizar o leitor com aspectos da vida indígena" (Mindlin, 1999:261).

Já o livro Tuparis e tarupás foi marcado por uma peculiaridade: os narradores Tupari falavam bem o português, sendo o trabalho da pesquisadora mais o de respeitar seu estilo e sabor, conforme suas próprias palavras.

Descrevendo o processo de pesquisa que resultou em Moqueca de maridos e Terra grávida, o qual envolveu os Suruí, Kampé, Gavião, Kanoé, Zoró, Arara, Macurap, Jabuti, Aruá, Arikapu, Ajuru e Tupari, Betty Mindlin assim registra o trabalho realizado: "Gravei, talvez, duas centenas de horas, quase sempre em língua indígena. As traduções foram feitas, não palavra por palavra, seguindo transcrições na língua, como no caso Suruí, mas por intérpretes que ouviam as narrativas ao mesmo tempo que eu (também por outros, uma segunda ou terceira vez, ao ouvirem as fitas), em geral pessoas com dons expressivos e criativos. Ao escrever as histórias, levei em conta o seu português e seu estilo e a minha própria imaginação, para transmitir o clima dos mitos. Algumas histórias, assim, têm uma certa recriação, na forma de escrever, fiel, porém, ao conteúdo, sem invenções novas" (Mindlin, 1999:262).

O livro Terra grávida, para o qual este artigo volta o olhar mais detidamente, a partir do recorte temático escolhido, reúne narrativas de sete grupos indígenas de Rondônia: Macurap, Jabuti, Aruá, Arikapu, Ajuru, Kanoé e Tupari. Como já mencionado, o ensaio introdutório não só facilita a leitura, como também possibilita perseguir, de maneira mais organizada, pistas para a compreensão da abordagem desses povos sobre temas universais, como a vida e a morte, a origem do universo, do mundo, dos seres humanos, o que é permitido, o que é proibido, o bem e o mal.

Confrontando o árduo trabalho de pesquisa, com seu resultado, Betty Mindlin declara sua respeitosa forma de recriação ou, talvez mais apropriadamente, de transcriação:3 "Procurei usar todos meus conhecimentos, em vez de ficar ao pé de uma letra que ainda não há. Isso não quer dizer que eu não tenha sido fiel tanto aos conteúdos quanto às formas ¾ não inventei, segui um clima" (Mindlin, 1999:262).

Colocando o direito de voz como princípio e o reconhecimento dos direitos dos narradores,4 reafirma a autora: "Trata-se de um trabalho conjunto, feito por muitos contadores" (Mindlin, 1999:263). Por isso, a pesquisadora tem um cuidado notável ao traçar os perfis dos narradores indígenas, exalando carinho e afeto pela história de cada um, em uma junção preciosa de atitude científica com o mais indispensável humanismo que a construção do conhecimento está a requerer.

Do ponto de vista de contribuição à formação de educadores, torna-se subsídio singular conhecer esses narradores-pessoas, indígenas cujos nomes e sagas passam a ser conhecidos ¾ e então as narrativas ganham vida própria, porque se sabe de onde vêm.

Sem dúvida, verá despertar em si sentimentos de respeito e solidariedade aquele que ler os perfis dos narradores, como Galib Pororoca Gurib Ajuru, Awüru Odete Aruá, Armando Moero Jabuti, Pacoré Marina Jabuti, Akükã Francisco Kanoé (o último de seu povo), Amamoeküb Aningui Basílio Macurap, Amonãi Manuel Tupari. Dentre todos, devido aos limites deste artigo, foi selecionado um dos perfis, que haverá de falar sobre o caráter vívido dos perfis traçados por Mindlin (1999:250): "Aratori Teresa Macurap ¾ É a viúva inconsolável de Dorodoim, mãe de Sawerô Basílio Macurap e madastra de Menkaiká Juraci Macurap. Vive na Baía das Onças, na A. I. Guaporé. Chorando de saudade, contou histórias em Macurap, traduzidas por Sawerô."

Constituem-se, ainda, em informações relevantes os dados que a autora traz sobre os povos de onde provêm as histórias e suas línguas, assim como o glossário que oferece, material riquíssimo a ser explorado tanto na formação de professores para Pluralidade Cultural, quanto na aplicação em sala de aula, nos diferentes níveis de ensino.

Observe-se que esse trabalho de Betty Mindlin, como os anteriores, complementa trabalhos de outros autores, já antes dirigidos especificamente a educadores, como os elaborados a partir do Mari/USP, que já se tornaram clássicos (Silva, 1987; Silva e Grupioni, 1995), alguns em cooperação com o MEC, além de pesquisas de mestrado e doutorado que têm trazido contribuição específica para a compreensão da temática de professores indígenas (por exemplo, Silva, 1997).

Enquanto esses trabalhos trazem informações indispensáveis para a formação dos professores que atuam no sistema de ensino brasileiro, a complementação propiciada pelas obras de Betty Mindlin tem a ver com a possibilidade de imersão dos professores, assim como de qualquer pessoa interessada, em mundos ricos e desconhecidos, que o preconceito e os interesses econômicos têm feito calar.

Para finalizar esta parte da reflexão, ressaltando ainda mais a relevância e o caráter indispensável da leitura de Terra grávida por professores e educadores em geral, é com grande honra que é aqui apresentada a carta dirigida por Lévi-Strauss a Betty Mindlin:

    "Paris, 10 de março de 2000

    Cara Senhora,

    Terra grávida, que a senhora houve por bem me enviar, é um complemento muito precioso de suas obras precedentes. Nessa, como nas outras, a senhora reuniu uma rica mitologia proveniente de povos sobre os quais não se possui quase nada. O conjunto forma um corpus impressionante que guarda relação com as grandes coletâneas clássicas da mitologia ameríndia. Foi muito proveitoso para mim.
    Com meus agradecimentos, solicito, cara Senhora, que aceite a expressão de minha respeitosa homenagem.

    Claude Lévi-Strauss
    Professor Emérito
    Collège de France"

    
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Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.

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