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Linguagem falada

Artigo por Colunista Portal - Educação - sexta-feira, 31 de outubro de 2008

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Linguagem falada - A experiência surrealista da linguagem: Breton e a psicanálise




Lúcia Grossi dos Santos

Professora do Curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas do Centro Universitário/Fumec, de Belo Horizonte, e doutora pelo Laboratório de Psicopatologia Fundamental e Psicanálise da Universidade de Paris VII. Psicanalista

 

 
Alguns aspectos da experiência surrealista da linguagem nos anos 1920, mostrando que o automatismo surrealista se inspira no funcionamento do inconsciente proposto por Freud. Considerando a linguagem como fundamento da realidade humana, Breton antecipa as formulações de Lacan sobre o eu e a realidade. No entanto, a primeira concepção lacaniana da linguagem, circunscrita exclusivamente ao simbólico, separa Lacan do surrealismo. Apenas nos anos 1970, a teoria da linguagem em Lacan permitirá pensar a prática surrealista da linguagem.

O surrealismo foi considerado como a via literária de entrada do freudismo na França, mas a história dos mal-entendidos entre Freud e Breton adquiriu uma importância talvez desmesurada, levando os comentadores a estabelecerem, sobretudo, as diferenças entre os dois. Nossa perspectiva é, ao contrário, a de buscar as contribuições e as questões comuns ao campo da psicanálise e do surrealismo. Mas vamos inicialmente tentar definir o que foi o movimento surrealista. Tomemos a definição de Maurice Nadeau:

    "O surrealismo é concebido por seus fundadores não como uma nova escola artística, mas como um meio de conhecimento, em particular de continentes que até então não tinham sido sistematicamente explorados: o inconsciente, o maravilhoso, o sonho, a loucura, os estados alucinatórios, em resumo, o avesso do que se apresenta como cenário lógico." (NADEAU, 1958, p. 46)

É assim, como meio de conhecimento, que o surrealismo se manteve ao longo dos anos. O automatismo será o primeiro mecanismo eleito para explorar estes continentes evocados por Nadeau.

A história do movimento surrealista é bastante agitada e estará sempre ligada a acontecimentos políticos. Partiremos de uma distinção feita por Breton em 1934, por ocasião de uma conferência realizada na Bélgica, cujo título é "O que é o surrealismo?", entre uma primeira fase dita intuitiva (de 1919 a 1925) e uma segunda fase dita "raciocinante", na qual se coloca a questão do engajamento político (BRETON, 1934/1988). A tomada de posição dos surrealistas, em 1925, frente à guerra da França com o Marrocos (colocando-se a favor deste último), marca a mudança de fase. Assim, teremos um primeiro manifesto em 1924, que declara formalmente a existência do movimento no ato de nomeá-lo e define um certo programa. O segundo manifesto, de 1930, marca o momento de uma grave cisão interna no grupo surrealista, ligada à questão da filiação ao partido comunista, que se manterá até a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Há então uma particularidade desta primeira fase intuitiva, que é o fato de ela ser reconhecida a posteriori, pois recobre um período (de 1919 a 1924) em que, a rigor, o surrealismo ainda não existia. Nessa primeira fase, o movimento se definirá enquanto tal, distinto do dadaísmo, lançando-se em experiências de escrita automática, de narrações de sonhos e dos sonos hipnóticos. É justamente nesta fase que o automatismo se impõe como mecanismo essencial ao projeto surrealista de ultrapassar a oposição entre um mundo desejado e o mundo real, propondo uma nova relação do sujeito com a realidade: a de transformação. A surrealidade supõe um mundo no qual "sonhamos de olhos abertos".

Na sua retrospectiva histórica do surrealismo, Sarane Alexandrian afirma que o movimento começa com a fundação, em 1919, da revista Littérature. Ele insiste no fato de que a passagem desse grupo pelo dadaísmo, em decorrência da presença em Paris de Tristan Tzara (1922), não define uma relação de causalidade entre Dada e o surrealismo, pois a experiência fundadora deste último, que é a escrita automática, já teria acontecido antes, em 1919 (ALEXANDRIAN, 1974, p. 52). Trata-se da escrita automática realizada por Breton e Soupault, cujos textos foram publicados na referida revista. Os escritos produzidos pelos dois num estado provocado de automatismo psíquico, durante alguns dias na primavera de 1919, vão aparecer a partir de setembro daquele ano até fevereiro de 1920 nos números de Littérature. Em maio de 1920, publica-se Os campos magnéticos, livro que reúne todos os textos desta primeira experiência de escrita automática. Este livro marca uma espécie de origem do movimento surrealista mesmo que ele só seja nomeado como tal no Manifesto do Surrealismo, de 1924. Entre os dois títulos, houve o período de adesão às manifestações dadaístas em Paris.

No primeiro manifesto, após fazer uma genealogia da palavra surrealismo, atribuindo-a tanto a Apollinaire quanto a Nerval (este teria falado de um "estado de sonho supernaturalista"), Breton a define categoricamente:

    "SURREALISMO, s.m. Automatismo psíquico em estado puro mediante o qual se propõe exprimir, verbalmente, por escrito, ou por qualquer outro meio, o funcionamento do pensamento. Ditado do pensamento, suspenso qualquer controle exercido pela razão, alheio a qualquer preocupação estética ou moral." (BRETON, 1924a/2001, p. 40)

Constatamos que a definição se pretende definitiva ("Defino-a de uma vez por todas", escreve Breton) e é por isto que ela toma a forma das definições do dicionário. Tal definição é seguida por outra, dirigida a uma Enciclopédia de Filosofia. Notamos que não é mais o sentido da palavra que importa, mas o que ela caracteriza em termos de pensamento:

    "ENCICL. FILOS. O Surrealismo repousa sobre a crença na realidade superior de certas formas de associação desprezadas antes dela, na onipotência do sonho, no desempenho desinteressado do pensamento. Tende a demolir definitivamente todos os outros mecanismos psíquicos e a se substituir a eles na resolução dos principais problemas da vida. Deram testemunho de SURREALISMO ABSOLUTO os srs. Aragon, Baron, Boiffard, Breton, Carrive, Delteil, Desnos, Éluard, Gerard, Limbour, Malkine, Morise, Naville, Noll, Péret, Picon, Soupault, Vitrac." (BRETON, 1924a/2001, p. 40)

Se o termo automatismo não aparece na segunda definição, temos, no entanto uma insistência no termo mecanismo psíquico. Na definição para a Enciclopédia, o surrealismo é, ao mesmo tempo, a realidade superior almejada e o mecanismo necessário à sua instalação.

O automatismo tem uma forte presença na história da psiquiatria francesa. Sabemos que Breton, quando estudava medicina, optou por cumprir seu serviço militar na guerra trabalhando num hospital psiquiátrico, experiência que teve conseqüências fundamentais para seu pensamento. Durante esta temporada no hospital, Breton se interessa apaixonadamente pelo discurso dos loucos e pelo da psiquiatria. É neste momento que ele descobre a obra de Freud através dos livros de Régis: Précis de Psychiatrie e La Psychanalyse, este último escrito com a colaboração de Hesnard. Encontramos traços deste entusiasmo numa carta de Breton a Fraenkel: "Demência precoce, paranóia, estados crepusculares, / Ó poesia alemã, Freud e Kraeplin!". (BONNET, 1988, p. 99)

Não se trata aqui de um simples fascínio pelo discurso científico, mas antes de um deslocamento desse discurso que passa a ser percebido como poético, provocando a ruptura de limites entre arte e ciência, antes evocada.

Voltando às motivações que levaram Breton a se internar no hospital (como médico), diríamos que se trata aí de um desejo de saber que encontra impasses quando endereçado ao registro literário: a obsessão poética evoca uma impossibilidade de avançar além dos limites dos seus mestres em poesia (Mallarmé, Rimbaud, Apollinaire). Breton parece buscar uma outra via e o hospital psiquiátrico surge como o espaço de um encontro essencial com a loucura. A escolha pela psiquiatria, que inicialmente resultou de um movimento de fuga ou renúncia à poesia, torna-se uma fonte de conhecimento. Breton encontra aí algo de fundamental para pensar a relação do homem à realidade.

O hospital lhe mostra o trauma da guerra, sob a forma emblemática de um louco cujo conteúdo do delírio era a simulação da guerra. Esta modalidade de delírio, que coloca em tensão a realidade mesma da guerra e o desejo de negá-la, marca-o profundamente. A experiência como médico da alma comporta um duplo movimento de autoconhecimento e conhecimento do mundo. Podemos dizer que em Breton, como em Freud, é o patológico que lança luz sobre o funcionamento "normal" do psiquismo. Freud parte do sintoma neurótico e chega ao sonho e à descrição do aparelho psíquico. Breton parte dessa aproximação paranóica da realidade para pensar que a relação do homem com a realidade se funda na enunciação. Neste percurso, que reúne loucura e poesia, uma noção se impõe ao pensamento de Breton: a de automatismo.

Alexandrian tenta fazer a gênese das teorias do automatismo psíquico, cujo início pode ser situado no século XVII com Puységur, discípulo de Mesmer, distinguindo duas correntes opostas: a corrente das práticas e doutrinas ocultistas do automatismo — das quais fazem parte o magnetismo, o espiritismo e os rosa-cruz; e uma outra, científica, representada por autores como Baillargar, Azam e Janet. Alexandrian defende a hipótese de que o surrealismo seria a resolução dialética da tese ocultista e da antítese científica no que concerne às idéias sobre o automatismo. Esta resolução dialética demonstra para ele a vocação libertária do surrealismo, que se exprime pelo comportamento livre dos constrangimentos religiosos e científicos. (ALEXANDRIAN, 1974, p. 71-102)

Examinemos um pouco mais a idéia da existência das duas correntes a partir do trabalho de Ellenberger. Segundo ele, a prática ocultista, que é também religiosa, abriu um campo de exploração do não-consciente para a psiquiatria. Esta experimentação, condição fundamental de toda ciência do século XIX, foi aberta pelo espiritismo para as novas ciências do psiquismo.

    "O surgimento do espiritismo desempenhou um papel capital na história da psiquiatria dinâmica, no sentido em que ela forneceu indiretamente aos psicólogos e psiquiatras, novos métodos para estudar o espírito humano. A escrita automática, um dos procedimentos introduzidos pelos espíritas, foi retomada pelos sábios como meio de exploração do inconsciente." (ELLENBERGER, 1994, p. 118)

Assim, um fenômeno como o hipnotismo chamou a atenção do meio científico, e seu estudo terá como conseqüência o aparecimento, na França, de duas escolas fundamentais para a constituição da psiquiatria dinâmica moderna: a escola de Nancy e a da Salpêtrière, onde Freud estudou.

O automatismo está muito presente no saber psiquiátrico francês, sobretudo no final do século XIX, quando Pierre Janet defende sua tese sobre "O automatismo psicológico". É certamente com a noção janetiana de automatismo que Breton se defronta enquanto estudante de psiquiatria. Seu contato com toda esta literatura ocultista à qual se refere Alexandrian é posterior à escrita de Os campos magnéticos.

Retomemos esta noção em Janet. Para ele, os fenômenos de automatismo respondem a uma dissociação mental, a uma atividade psíquica autônoma que não obedece ao controle da consciência. O automatismo é signo de fraqueza psíquica, podendo atingir vários níveis. A catalepsia, por exemplo, seria a forma mais elementar de automatismo total. A escrita automática se encontra entre as atividades que podem se desenvolver no quadro de um automatismo parcial num doente mental.

É claro que, se Breton retém a idéia de uma atividade automática efetuada fora da consciência, ele não a considera de forma alguma como signo de fraqueza psíquica; ao contrário, ela seria signo de uma liberação do espírito necessária à criação poética. O automatismo tem valor positivo como mecanismo que permite escapar ao controle da consciência, o que não está longe da noção de processo primário em Freud. O surrealismo se distingue tanto das teses ocultistas, recusando a crença numa vida após a morte, quanto das teses científicas, nas quais o automatismo é signo de demência. Assim, a tese de Alexandrian segundo a qual o automatismo praticado pelos surrealistas seria a síntese dialética do ocultismo e do cientificismo, não nos parece justa. Encontramos em Chénieux-Gendron uma análise mais fecunda do que foi a reviravolta operada pelo surrealismo a propósito do automatismo. Ela mostra que nas técnicas do automatismo (sejam escritas, faladas ou gráficas), trata-se de um "...questionamento do sujeito por ele mesmo e do sentido de toda palavra, de toda comunicação humana". Breton e seus amigos utilizam técnicas já conhecidas mas eles conferem uma outra qualidade ao que é produzido. "O que era percebido como produto da alienação (a loucura que se deve aprisionar) torna-se objeto valorizado de uma invenção maravilhosa". (CHÉNIEUX-GENDRON, 1984, p. 68)

O automatismo praticado pelos surrealistas não é uma solução dialética, pois a via artística não poderia ser considerada como a síntese da contradição entre a religião e a ciência. Mais uma vez, a originalidade do surrealismo está em questionar o limite entre estes campos, já fixados, de expressão do espírito.

A necessidade que teve Breton de teorizar sobre a noção de automatismo conduziu-o à leitura de autores como Myers e Flournoy. De certo modo, Breton refaz a cadeia histórica passando do científico ao religioso. Também a prática espiritista esteve presente no que se tornou conhecido como as sessões de sono hipnótico, quando alguns surrealistas se comportavam como verdadeiros médiuns. A vida em grupo dos surrealistas funcionava como um verdadeiro laboratório de experiências sobre o desconhecido. Os poetas e artistas plásticos se davam ao luxo da loucura e do desregramento, tendo como único limite e garantia o produto da experiência que deveria ser exposto à sociedade.

Segundo Jean Starobinski, o pensamento de Breton se acomoda muito mais ao de Myers que ao de Freud no que diz respeito ao automatismo. Mesmo recusando o dogmatismo transcendental e espírita, Breton estaria mais próximo da noção de eu subliminar de Myers do que do inconsciente freudiano. Starobinski mostra uma incompatibilidade fundamental entre Breton e Freud na medida que o primeiro confunde "o movimento do desejo com o movimento do saber" e "a liberação do desejo com a interpretação" (STAROBINSKI, 1970, p. 154). Apesar da pertinência das afirmações de Starobinski sobre a distinção entre freudismo e surrealismo, acreditamos que a posição de Breton pode ser ainda esclarecida. Podemos dizer que em Breton há uma busca do saber sobre o desejo, mesmo que as formas de acesso a esse saber sejam completamente inabituais. Marcado pelo pensamento de Hegel, o ideal bretoniano é o de um saber absoluto. Sua posição pode ser criticável, mas não confundida com uma adesão ingênua a um pensamento do tipo parapsicológico.

No seu esforço de teorização, Breton não se conforma à doutrina freudiana, nem à de Myers, pois seu projeto não poderia se circunscrever nem na perspectiva científica nem na terapêutica. Ele ultrapassa até mesmo a perspectiva de engajamento político que, como sabemos, foi uma diretriz do movimento surrealista. No conjunto das proposições surrealistas, podemos perceber o que Walter Benjamin chamou de "busca de uma iluminação profana" (BENJAMIN, 1929/1971, p. 311). Inspirado pelo materialismo dialético, o surrealismo procura esta expansão do espírito fora do êxtase religioso ou daquele provocado pela droga. O termo "iluminação profana" descreve bem a posição assumida por Breton a partir da escrita automática, onde a poesia aparece não como um gênero literário entre outros, mas como instrumento de investigação do espírito e da vida. De certa forma, Breton se alinha a uma tradição literária (Nerval, Baudelaire, Mallarmé e Rimbaud) na qual reencontramos o mesmo caráter sagrado da poesia da Antiguidade clássica. No entanto, é preciso distingui-lo de seus predecessores, pois não encontramos em Breton uma posição privilegiada do poeta nem a mistificação da atividade poética. Ao contrário, a poesia está em cada indivíduo mascarada pela sua atividade racional. É preciso apenas encontrar o mecanismo capaz de liberar a atividade poética. Com o automatismo, acessível a qualquer indivíduo, a poesia se democratiza, sofrendo uma espécie de desmistificação.

 

AUTOMATISMO E ASSOCIAÇÃO LIVRE

O método da associação livre proposto por Freud como meio de driblar a censura interessa enormemente a Breton. A escrita automática se inspira na associação livre na medida que ela visa recuperar o que foi afastado (recalcado) do discurso consciente pela censura. No entanto, a escrita enquanto ato não é inconsciente. Vejamos o que diz Breton no primeiro Manifesto a propósito desse projeto de escrita:

    "Como, naquela época, eu ainda andava muito interessado em Freud e familiarizado com os seus métodos de exame, que tivera oportunidade de empregar em alguns pacientes durante a guerra, decidi obter de mim mesmo o que se tenta obter deles, vale dizer, um monólogo enunciado o mais depressa possível, sobre o qual o espírito crítico de quem o faz se abstém de emitir qualquer juízo, que não se atrapalha com nenhuma inibição e corresponde, tanto quanto possível, ao pensamento falado." (BRETON, 1924a/2001, p. 37)

Nessa reconstituição histórica das condições de surgimento da escrita automática, é à teoria freudiana que ele se refere. Mas percebemos por esta passagem que a "familiarização" era um tanto imprecisa. A associação livre não é propriamente um método de exame, mas um instrumento da terapêutica e podemos mesmo nos perguntar se é possível, para a psicanálise, separar exame e terapêutica. Efetivamente, Breton não havia praticado a psicanálise. Breton usava como podia o que ele conhecia do pensamento de Freud pelo intermédio do livro de Régis. Freud ainda não era traduzido para o francês. Examinemos uma passagem da correspondência para Fraenkel (carta de setembro de 1916), onde Breton copia um trecho do Précis de Psychiatrie:

    "Inicialmente ele (Freud) empregou na descoberta do processo psicológico primário, o estudo interpretativo dos sonhos e o método da hipnose. Mas como esta última não era aplicável a todos os casos, ele começou, com Jung, a utilizar aquele da auto-análise e das associações mentais. No primeiro, o sujeito deve anotar ele mesmo, com a neutralidade absoluta de um testemunho estrangeiro, indiferente ou, se se quer, de um simples aparelho de registro, todos os pensamentos, quais sejam eles, que atravessam seu espírito. Em seguida o observador deve distinguir, na sucessão das manifestações ideativas, quais delas podem colocá-lo na via do complexo patogênico inicial. No método das associações mentais, o complexo se revela pelas respostas associativas ou palavras-reações do doente às questões variadas que lhe são postas e pelo atraso de algumas dentre elas, medidas cronologicamente." (BONNET, 1988, p. 126)

Esta passagem ilustra bem a extensão da deformação, tanto histórica quanto conceitual, do método freudiano. Primeiramente, a interpretação dos sonhos aparece quando a associação livre se impõe, ou seja, quando o método da hipnose é abandonado. Em segundo lugar, o método da associação utilizado por Jung em Zurique a partir de 1904, "inspirado" na leitura de A interpretação dos sonhos, baseava-se em testes de associação verbal que procuravam demonstrar experimentalmente a presença de material reprimido. A associação livre utilizada por Freud deixava ao paciente a responsabilidade das associações. Mas parece que o que reteve Breton foi a possibilidade de, através da associação, colocar o pensamento em relação ao acidental, ou seja, ao que vem ao espírito sem preocupação de ordem moral ou racional. Lembremos que no momento da escrita do Manifesto de 1924, no qual essa idéia fica mais clara para Breton, a Psicopatologia da vida cotidiana já estava traduzida para o francês. Este é um livro que acentua o determinismo inconsciente naquilo que aparece como acidental na ação do sujeito.

 

A FRASE DE SEMI-SONO

A primeira vez que Breton expõe as condições da escolha pela experiência de escrita automática é no texto "Entrée des médiums" (Entrada dos médiuns), de 1922. Constatamos que, depois do contato com a psiquiatria e pouco tempo antes da prática da escrita automática, entra em cena a experiência da frase do semi-sono. Ali, Breton a representa da seguinte maneira:

    "Em 1919, minha atenção se fixou nas frases mais ou menos parciais que, em plena solidão, na aproximação do sono, tornam-se perceptíveis para o espírito sem que seja possível descobrir para elas uma determinação anterior (...) Só mais tarde, Soupault e eu pensamos em reproduzir voluntariamente em nós o estado onde elas se formavam." (BRETON, 1922a/1988, p. 274).

Aragon lembra que esta relação entre a frase de semi-sono e a escrita automática só será feita por Breton em 1922, três anos depois de vivida a experiência:

    "(...) é preciso saber que nos primeiros tempos das experiências de escrita automática, isto é, em 1919, e mesmo durante três anos, três anos e meio, esta fonte não tinha sido evocada, é apenas depois que ele estava habituado ao mecanismo de abolição da censura pela velocidade da escrita que André Breton começou a dizer que o ditado para ele partia de uma frase escutada." (ARAGON, 1969, p. 69)

Mais tarde, em 1924, Breton conta o que se passou antes que ele tomasse a decisão de praticar a escrita automática e, neste momento, ele evoca a frase de semi-sono acompanhada de representação visual, que chama sua atenção como material de construção poética. Esta frase "que se chocava contra a vidraça" era: "Há um homem cortado em dois pela janela". A insistência inicial da frase dá lugar a uma sucessão de frases, todas bastante surpreendentes. Observemos que o estado de semi-sono é anterior ao adormecimento, num "quase abandono" da consciência. Breton estabelece uma relação entre esta experiência e aquela da associação livre psicanalítica. Ele reconhece assim, um certo contexto, um possível efeito de sugestão que condiciona sua experiência. É no après-coup que Breton vislumbra a relação de causalidade entre a frase escutada e a escrita automática. A frase de semi-sono corresponde a uma abertura do sujeito ao pensamento inconsciente do tipo involuntária, enquanto a escrita automática é um exercício voluntário.

A experiência com a frase de semi-sono é a segunda, na cadeia de experiências do desconhecido. A primeira, lembremos, foi a escuta do discurso delirante, quando Breton estava na posição de observador. Ele se desloca assim, para uma outra posição, aquela do sujeito que experimenta em si mesmo a força "automática" da linguagem. A escrita automática vem se juntar a esta série, trazendo um elemento de controle do lado do sujeito da experiência, na medida que ele a provoca e recolhe o produto. A frase de semi-sono tem esse aspecto de representação em imagem que a aproxima do sonho, mas o que conta para o escritor é sua qualidade verbo-auditiva, isto é, o poder que tem a imagem de produzir um equívoco no nível da significação. Lembremos o comentário que segue a apresentação da frase de semi-sono no primeiro Manifesto:

    "(...) e não pode haver dúvida quanto a isto, uma vez que a acompanhava uma débil representação visual de um homem que andava, mas que fora truncado a meia altura por uma janela perpendicular ao eixo do seu corpo. Tratava-se, sem sombra de dúvida, do simples reerguimento no espaço de um homem debruçado à janela. Mas, visto que a janela havia acompanhado o reerguimento do homem, vi que estava lidando com uma imagem de tipo bastante raro e logo pensei em incorporá-la ao meu material de construção poética." (BRETON, 1924a/2001, p. 36-7)

Este comentário não é outra coisa senão uma interpretação a partir da qual se tenta encontrar uma resposta ao enigma produzido pela conjunção da imagem com a frase: "há um homem cortado em dois pela janela". Seguindo o reerguimento corporal do homem, a janela não é mais o que faz apenas o enquadramento do mundo exterior. Ela se incorpora ao homem, produzindo o duplo efeito: ser incorporada pelo sujeito e marcar ao mesmo tempo sua divisão. O elemento-chave da frase é a janela, ou mais precisamente a subversão da função ordinária de uma janela, aquela de fazer limite entre interior e exterior. A janela é o espaço da ação de um corte que se realiza no corpo do homem.

É verdade que esta frase tem uma estrutura muito próxima da frase fantasmática desenvolvida por Freud no texto "Bate-se em uma criança", escrito em 1919. E ela se acomoda de forma surpreendente à definição lacaniana do sujeito dividido pelo significante. É o que sublinha Fabienne Hulak: "As atividades de escrita automática serão constantemente a prática deste `ser cortado em dois'". (HULAK, 1992, p. 85)

Não possuindo um "olhar psicanalítico", Breton se interessa a princípio pela qualidade poética da frase, seu aspecto absurdo. Em seguida, ele se impressiona com a percepção de que a frase lhe vinha de fora ("que se chocava contra a vidraça"). Este aspecto de exterioridade não é estranho ao procedimento técnico da psicanálise. Da associação livre é esperado o aparecimento de um pensamento que incide sem motivo. Freud utiliza o termo Einfall para nomear esta idéia incidente que cai, como nos sugere o verbo alemão einfallen. Segundo a regra da associação livre, o sujeito deveria estar pronto a falar destes pensamentos, mesmo se eles estiverem totalmente fora do contexto. As idéias incidentes se distinguem das associações comuns justamente pelo seu caráter desconectado. A mais característica dessas idéias é examinada no texto sobre a Verneinung em que o signo negativo permite a entrada no discurso de um conteúdo recalcado. (FREUD, 1925/1976)

Um outro aspecto essencial da frase de semi-sono é o estado psíquico no qual ela faz emergência. O sujeito se encontra na transição entre sono e vigília, num estado em que a atividade motora é abandonada, inclusive a escrita. Elas demonstram para Breton um funcionamento automático da linguagem que ultrapassa a vontade do sujeito da consciência. Esta frase revela para ele não apenas a onipotência da linguagem, mas a possibilidade do surgimento de um sujeito mais autêntico na sua enunciação.

 
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