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Artigos de Pedagogia


Formação de leitores


31 de outubro de 2008


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A estética da recepção e as práticas de leitura do bibliotecário-indexador

Fabrício José Nascimento da SilveiraI; Maria Aparecida MouraII

I Bibliotecário e mestrando em Ciência da Informação pela Escola de Ciência da Informação – ECI/UFMG
II Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP. Professora Adjunta da Escola de Ciência da Informação da UFMG

 

 

A ciência da informação tem nos estudos sobre as práticas de leitura do bibliotecário-indexador um de seus mais profícuos campos de investigação. Verifica-se que a leitura realizada por este profissional o posiciona como mediador entre as diversas materialidades textuais contidas nos acervos e seus potenciais usuários. Com o objetivo de alargar o quadro explicativo desse fenômeno no contexto da ciência da informação, esse artigo recorre ao quadro teórico concebido pela estética da recepção para analisar a leitura desenvolvida por bibliotecários em contextos de representação temática. Para tanto, dialoga-se com conceitos fundamentais da estética da recepção tais como: horizonte de expectativa, efeito, emancipação e leitor implícito.




INTRODUÇÃO

A história da leitura é análoga à história de outras práticas culturais humanas, posto que se constitui através das várias configurações históricas que cada sujeito lhes atribui. Sendo assim, toda prática de leitura se desenvolve e adquire sentido a partir de um determinado contexto histórico e espaço-temporal, conjugado com a subjetividade e os anseios específicos de cada leitor. Neste sentido, a leitura se apresenta como uma atividade interpretativa que possibilita a produção de múltiplos significados para um dado signo informacional, não se restringindo, pois, a apenas uma modalidade textual, ou seja, à decodificação de expressões rigidamente gravadas em um suporte material. Antes de sermos leitores de palavras, somos leitores do mundo, visto que desde o nascimento interagimos com os elos culturais que nos ligam a um dado tecido social. Somos leitores de estrelas, de sabores, sons e imagens que, ao adquirirem sentido, também outorgam sentido à vida daquele que com elas travam contato.

Isto posto, todo leitor deve ser compreendido como um sujeito autônomo que circula e se apossa livremente do texto, criando, a partir de seus anseios, habilidades intelectuais e lugar social, suas próprias interpretações para o signo que manipula.

Como outras práticas culturais, a leitura se tornou o foco central de inúmeros estudos que visam compreendê-la. Abordagens filosóficas, históricas ou literárias em diversos momentos tentaram lançar luzes sobre os muitos mecanismos envoltos em seu processo de efetivação.

Por acreditar que a leitura é uma prática que se constrói a partir do exercício interpretativo de sujeitos históricos que se localizam em um determinado contexto social e espaço-temporal, a estética da recepção se constitui como um dos esforços teóricos mais originais sobre a questão da leitura. Operando com conceitos como efeito, recepção, emancipação, horizonte de expectativa e leitor implícito, a estética da recepção tem por objetivo explicar sistematicamente o funcionamento deste fenômeno, e inseri-lo no contexto das práticas culturais de produção de sentido.

Tratando os signos textuais como obras inacabadas e abertas a inúmeros olhares interpretativos, cujo sentido se consolida a partir da mescla entre o horizonte de expectativas dos autores e as possíveis significações estabelecidas por seus leitores, a estética da recepção atribui à leitura um efeito emancipatório que libera o leitor da busca por uma interpretação única, perfeita. Característica que permite a cada leitor imprimir sua marca interpretativa no texto com o qual interage.

É a partir deste enfoque que a estética da recepção surge como possibilidade para se ampliar o campo teórico da ciência da informação que investiga as práticas de leitura do bibliotecário-indexador. Isto porque, ao trabalhar com materialidades textuais diversas, o bibliotecário assume, a partir da especificidade de sua prática de leitura, a posição de mediador entre os signos informacionais presentes nos vários acervos com que lida, e os inúmeros usuários que os acessam. Contudo, o fato de ser um leitor mediador não o torna um leitor modelo, visto que sua prática profissional não se desvincula do movimento de apropriação, do desejo e da emoção que tal prática enseja.

Sendo um sujeito localizado em um contexto social, histórico e espaço-temporal específico, o bibliotecário também cria suas próprias estratégias de leitura, tendo-se em vista produzir representações simbólicas para os signos que manipula. Ou seja, a especificidade da leitura que este profissional executa não busca alcançar a mensagem original atribuída à obra no momento de sua concepção, mas sim, identificar enunciados capazes de representá-la e propiciar sua efetiva recuperação. Por isso, sua atividade interpretativa possui o mesmo grau de liberdade criadora de leitores comuns.

Compreendendo a leitura como uma prática cultural que se desenvolve a partir da interação entre a subjetividade de cada leitor e seu lugar social pretendemos analisar as estratégias de leitura utilizadas pelos bibliotecários em seu fazer profissional, a partir das proposições teóricas da estética da recepção, como possibilidade para se ampliar o referencial explicativo da ciência da informação que investiga este campo teórico.

 

Leitura: prática cultural de produção de sentido

Embora seja vista como um elemento essencial para que o homem construa e efetive as relações que estabelece com o meio no qual se insere, a leitura não se configura como um ato natural, mas antes, como uma prática histórica, social e culturalmente demarcada. É a prática por meio da qual sujeitos comuns interpretam e atribuem significados múltiplos ao mundo que os cerca. É uma arte investigativa que "quase não deixa traços visíveis nem garantias contra a usura do tempo, mas ação produtora que em cada um dos seus encaminhamentos e de fazeres, ao mesmo tempo alteram e conferem existência ao texto". (CHARTIER; HÉBRARD, 1998, p. 32). É, enfim, apropriação, recriação, uma arte de fazer que não se restringe a um único conceito, mas sim, a um conjunto de práticas difusas e em permanente transformação.

Desta forma, pode ser classificada como um processo de tradução no qual se transpõe para a linguagem verbal os diversos signos que permeiam nossas relações de interação e comunicação com o mundo. Embora esteja intimamente relacionada com a escrita, efetuamos, mesmo que inconscientemente, diversos outros tipos de leitura. É o caso da leitura que o músico faz de uma partitura, traduzindo-a em sons e sentimentos; a leitura das estrelas feita pelos astrônomos; ou a leitura dos oráculos que prevêem o futuro a partir de movimentos naturais. Todos eles dividem com os leitores de palavras os segredos de atribuir sentido e viabilizar os processos de interação e comunicação.

Por ser uma prática interpretativa, a leitura não deve ser vista como uma recepção imposta de conteúdos objetivos ou como um ato passivo de sujeição ao texto. Todo leitor, como nos aponta Michel de Certeau (1994) caça em terras alheias, demarca com os olhos, com o dedo, com o franzir das sombrancelhas, com o sorriso, seus caminhos em busca do sentido. Sob a contingência, sem dúvida, e no espaço próprio do texto, ele elabora – como quer ou como pode – sua leitura do texto: um novo texto. (CHARTIER e HÉBRARD, 1998, p. 33). Toda leitura é, então, um processo voluntário da inteligência, por meio do qual produzimos e sobrecodificamos sentidos e significados.

No entanto, mesmo sendo uma prática que se liga à inteligência, a leitura não é apenas uma operação intelectual abstrata, ela é também o uso do corpo, uma inscrição dentro de um espaço histórico-temporal e uma relação dos leitores consigo mesmo e com os outros. A leitura de qualquer texto é, portanto, um processo de construção cultural e histórica que se efetiva a partir da mescla entre as condições materiais destinadas à sua produção e disponibilizarão, e a subjetividade e o lugar em que cada leitor se encontra no momento de executá-la. Nenhum leitor é confrontado com textos abstratos, ideais ou desligados de uma materialidade espaço-temporal, eles manipulam objetos, ouvem palavras cujas modalidades governam a leitura e a escrita. Fazendo isso, comandam a possível compreensão e apropriação do texto, posto que, "toda história das práticas de leitura é, portanto, necessariamente uma história dos objetos escritos e das palavras leitoras". (CAVALLO e CHARTIER; 2002, p. 6).

O leitor é, pois, um sujeito autônomo capaz de construir sentidos e imprimir sua marca interpretativa no texto que sobrecodifica. Leitor é aquele que se apossa do texto para dotá-lo de existência, visto que todo signo passível de leitura se abre a uma infindável possibilidade de significações.

Por sua vez, nenhum texto se apresenta como uma obra hermeticamente fechada à procura de um sujeito capaz de restabelecer o significado primeiro que possibilitou sua criação. É antes, um constructo que adquire sentido mediante a interação dos anseios e da capacidade subjetiva de seus leitores, com o contexto espaço-temporal onde se inserem, e com a especificidade das características que lhe foram atribuídas no momento de suas concepção.

É por este motivo que explicar as práticas de leitura requer compreendê-las como um constructo sócio-cultural que adquire sentido a partir da urdidura de inúmeras variáveis que em nenhum momento se isolam.

 

A estética da recepção e a emancipação do leitor implícito

A história da leitura é marcada por inúmeras tentativas de explicar as dinâmicas envoltas em seu processo de efetivação. Estudos com viés filosófico, teológico, hermenêutico, histórico, sociológico ou literário lançaram luzes sobre as diversas possibilidades de interação entre leitores e signos textuais.

Inserindo-se neste panorama, a estética da recepção se apresenta como um dos esforços interpretativos acerca da leitura e das relações que se estabelecem entre texto, autor e leitor, mais originais e profícuos dos últimos séculos. Isto porque, tal corrente teórica entende as várias materialidades significativas como um complexo que adquire sentido a partir da relação dialética que se instaura entre o autor, a obra e seus possíveis leitores. Desta forma, defende que toda atividade interpretativa se constitui mediante o processo de interação entre a subjetividade do leitor e as condições sócio-históricas na qual determinado signo se originou.

A estética da recepção teve início em 1967 na Universidade de Constança na Alemanha. Naquela ocasião, Hans Robert Jauss proferiu a conferência intitulada. O que é, e com que fim se estuda história da literatura?, conferência que posteriormente se denominou: A história da literatura como provocação à ciência literária.

Influenciado pela análise hermenêutica da obra de arte efetuada por Gadamer, Jauss propõe, a partir deste texto, uma mudança metodológica a respeito das abordagens interpretativas de obras artísticas. Sugere que o foco central de toda interpretação textual deve recair sobre o leitor e seus processos de recepção e não exclusivamente sobre o autor e os mecanismos envoltos na concepção dos mesmos. Ao fazer isso, Jauss atribui à hermenêutica o papel de intérprete da história, reconhecendo nela as bases do conhecimento do texto, fato este que, segundo o autor, permite recuperar a imagem do leitor como um produtor de interpretações e significações válidas.

Jauss acredita que todo signo passível de leitura não se configura apenas como uma reprodução, um reflexo dos eventos sociais que possibilitaram sua concepção. São, antes, um constructo social e cultural que, a partir de sua historicidade, desempenha um papel ativo na produção das possíveis interpretações de cada leitor, na medida em que envolve e ativa as estruturas intelectuais, emotivas e sensoriais dos mesmos.

O leitor de Jauss é, então, uma figura histórica que respeita a história do signo que lê, mas que ao mesmo tempo promove uma ruptura com as leituras feitas até aquele momento, empreendendo sua própria interpretação, sua marca pessoal na obra que lhe é apresentada. Isto posto, torna-se possível inferirmos que a concepção de leitor de Jauss se baseia em duas categorias essenciais:

    A de horizonte de expectativa, misto dos códigos vigentes e da soma de experiências sociais acumuladas; e o conceito de emancipação, entendido como a finalidade e efeitos alcançados pela arte, que libera seus destinatários das percepções usuais e confere-lhes nova visão da realidade. (ZILBERMAN, 1989, p. 49-50).

Portanto, para o referido autor, todo ato de recepção, julgamento estético ou interpretação, por mais espontâneo que seja sua expressão, advém de uma câmara de ecos onde ressoam os pressupostos históricos, sociais ou técnicos que possibilitam sua efetivação.

Neste sentido, ao estabelecer que o signo lido provoca, a partir de sua historicidade, uma reação, um efeito em seus leitores, Jauss atribui à leitura uma natureza emancipatória, segundo a qual a experiência da leitura libera o leitor de adaptações, prejuízos e apertos de sua vida prática, atribuindo-lhe a possibilidade de se emancipar e empreender novas percepções, sentidos e interpretações para o mundo no qual habita.

Enquanto Jauss se preocupa em entender como se dão os processos de recepção das obras de arte, Wolfgang Iser, outro importante teórico da estética da recepção, se preocupa com o efeito que cada obra causa em seus receptores, vale dizer, leitores. Iser distingue, então, duas modalidades de interação entre a obra e o leitor: de um lado temos o efeito que toda obra provoca em seu leitor; e de outro, a recepção, processo histórico que se institui a partir das diferentes interpretações que cada leitor lhe impõe.

Acreditando que os signos passíveis de leitura estão abertos a múltiplas interpretações, visto não serem concebidos como um espelho da realidade, Iser chama o leitor a participar do processo de criação dos mesmos. Tal participação, por sua vez, não se limita ao mero preenchimento dos vazios que toda obra traz consigo, é antes, o processo de constituição da própria obra que, graças à atuação do leitor, passa de "mero artefato artístico a objeto estético, passível de contemplação, entendimento e interpretação". (ZILBERMAN, 2001, p.51.). Isto porque, tais vazios provocam estímulos que viabilizam a impressão, através da força imaginativa dos leitores, de vários sentidos interpretativos para a obra que manipula.

Além disso, ao ser influenciado por Ingarden, Iser concebe o conceito de estrutura de apelo do texto que determina que o mundo imaginário, ao ser representado em uma obra, mostra-se esquematizado, por isso incompleto. Apresentando, pois, vários pontos de indeterminação, vazios, lacunas que dependem da interferência dos leitores para adquirirem sentido. Sentido este que, segundo o referido autor, não é uma mensagem universal a ser extraída do texto por um leitor competente, um leitor implícito capaz de atingir a completude significativa da obra lida, é antes, uma interpretação mutável em virtude da historicidade própria da obra e das várias leituras que a mesma sofre. Isto porque:

Quando lemos, nossa expectativa é função do que já lemos – não somente ao texto que lemos, mas em outros textos –, e os acontecimentos imprevistos que encontramos no decorrer de nossa leitura obriga-nos a reformular nossas expectativas e a reinterpretar o que já lemos, tudo o que já lemos até aqui neste texto e em outros. A leitura procede, pois, em duas direções ao mesmo tempo, para frente e para trás, sendo que um critério de coerência existe no princípio da pesquisa do sentido e das revisões contínuas pelas quais a leitura garante uma significação totalizante à nossa experiência. (COMPAGNON, 2003, p. 149).

Toda prática de leitura é, então, um grande percurso em busca de se atribuir sentido ao texto. Por isso, nenhum signo textual pode ser apreendido todo de uma só vez. O leitor é um viajante que desvenda, ao longo do processo de leitura, os sentidos, os significados, as múltiplas possibilidades interpretativas que a obra lhe oferece. Neste caso, nenhuma obra se apresenta por completo, mas se evidencia durante a travessia, durante as intervenções de seus leitores. Eis aqui, o grande paradoxo da leitura:

    Admite-se comumente que ler é decodificar: letras, palavras, sentidos e estruturas, e isso é incontestável; mas acumulando as decodificações, já que a leitura é, de direito infinita, tirando a trava do sentido, pondo a leitura em roda livre (o que é sua vocação estrutural), o leitor é tomado por uma intervenção dialética: finalmente ele não decodifica, ele sobrecodifica; não decifra, produz, amontoa linguagens, deixa-se infinita e incansavelmente atravessar por elas: ele é essa travessia. (BARTHES, 1988, p. 51).

Se toda obra só se efetiva a partir das intervenções de seus leitores, a noção de um leitor ideal é, para Iser, uma falácia, uma impossibilidade estrutural. Isto porque, um leitor ideal é aquele que possui o mesmo código que o autor; é aquele que tem as mesmas intenções que se manifestam no processo criativo. Desta forma, para o referido autor, "o leitor ideal é, à diferença de outros tipos de leitores, uma ficção". (ISER, 1996, v.1, p. 66).

Em contraponto à idéia de leitor ideal, Iser propõe o conceito de leitor implícito. Conceito percebido, simultaneamente, como uma estrutura textual e como um ato estruturado. O leitor implícito de Iser não tem uma existência real, nem se funda em um substrato empírico, mas sim, na própria estrutura do texto. Isso significa que as condições necessárias à existência e atualização do texto se inscrevem em sua própria construção. Sendo assim, o conceito de leitor implícito enfatiza as estruturas de efeito do texto, cujos atos de apreensão relacionam o receptor a ele.

Portanto, o conceito de leitor implícito de Iser postula que o efeito condicionado pela obra, apesar de oferecer uma orientação prévia quanto às formas de lê-las e quanto ao significado a ser apreendido, não reduz o leitor a um sujeito passivo à caça de uma mensagem original, mas propicia a este o direito de estabelecer inúmeras interpretações e imprimir na obra lida, sua marca criativa. Sendo assim, para este autor:

A recepção, no sentido estrito da palavra, diz respeito à assimilação documentada de textos e é, por conseguinte, extremamente dependente de testemunhos, nos quais atitudes e noções se manifestam enquanto fatores que condicionam a apreensão do texto. Ao mesmo tempo, porém, o próprio texto é a prefiguração da recepção, tendo com isso um potencial de efeitos cujas estruturas põem a assimilação em certo curso e a controlam até certo ponto. (ISER, 1996, v. 1, p. 7).

É, portanto, a partir desse aporte teórico que podemos caracterizar a leitura como uma prática cultural que encerra em si modos, ritmos, intensidades e desejos que variam de texto para texto e de leitor para leitor, cujos sentidos e valores são determinados pelas múltiplas possibilidades de interação entre a obra e seus vários interlocutores.

 
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