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26 de janeiro de 2009
Inteligência Emoional - Bem-estar psicológico e inteligência emocional entre homens e mulheres na meia-idade e na velhice
Investigamos relações entre bem-estar psicológico e inteligência emocional, em amostra de conveniência com 120 indivíduos, homens e mulheres, 60 de 45 a 55 e 60 de 60 a 69 anos. Instrumentos: duas escalas multidimensionais, Escala de Desenvolvimento Pessoal e Medida de Inteligência Emocional. Resultados: em automotivação e autoconsciência (MIE) os 2 grupos de idade masculinos pontuaram mais alto do que os femininos. Ocorreram correlações significantes entre automotivação (MIE) e auto-aceitação, propósito, crescimento pessoal, domínio e geratividade - manter e oferecer (EDEP). Análise fatorial da EDEP resultou em 5 fatores que separaram as competências relacionadas ao autodesenvolvimento e às relações interpessoais. Bem-estar psicológico e inteligência emocional não se comportaram como construtos independentes e nem foram consistentemente afetados por gênero e idade.
A tradição de estudar o ajustamento da personalidade do adulto em termos de auto-percepção de competência pessoal e de atendimento às normas sociais remonta a uma preocupação da comunidade científica (Allport, 1961; Bühler; 1935; Erikson, 1950; Jung,1933; Maslow; 1968; Rogers, 1961, citados em Ryff, 1989b), mas é recente o renascimento do interesse pelo assunto, dentro de uma perspectiva reconhecida como psicologia positiva (Neri, 2002; Seligman & Csikzentmihalyi, 2000). Nesta perspectiva, a literatura especializada assume que o ajustamento pessoal tem como indicadores o bem-estar subjetivo e o bem-estar psicológico. Para Diener (1984), que usa indiscriminadamente os adjetivos subjetivo e psicológico, o bem-estar subjetivo é indicado por satisfação com a vida, por afetos positivos e negativos e por senso de felicidade.
Ryff (1989a, 1989b, 1995) discrimina entre bem-estar subjetivo e bem-estar psicológico, definindo este último em termos de competências do self, relacionadas porem diferentes de satisfação e afetos. A autora propôs um modelo teórico fundamentado no conceito aristotélico de eudaimonia, que significa busca de excelência pessoal, e não busca de prazer, como motivação central da existência. Com base nesse pressuposto e em estudos baseados em auto-relato e em análise fatorial, ela delineou um modelo composto por seis dimensões: autonomia (ter um self determinado e independente, capaz de realizar auto-avaliações com base em critérios pessoais e capaz de seguir as próprias opiniões); propósito de vida (ter objetivos na vida e senso de direção, administrando o passado e o presente, com metas significativas à vida); domínio do ambiente (ser capaz de administrar atividades complexas da vida, nos âmbitos profissional, familiar e pessoal); crescimento pessoal (ser capaz de manter continuamente o próprio processo de desenvolvimento, estar aberto às novas experiências, tendência à auto-realização, ao aperfeiçoamento e à realização das próprias potencialidades); auto-aceitação (ser capaz de aceitação de si e dos outros, com uma atitude positiva em relação a si mesmo e aos acontecimentos anteriores) e relações positivas com outros (manter relações de satisfação, de confiança e de afetividade com outras pessoas). O senso de bem-estar psicológico é determinado pela interação entre as oportunidades e as condições de vida, a maneira como as pessoas como organizam o conhecimento sobre si e sobre os outros e as formas como respondem às demandas pessoais e sociais. A consciência sobre a existência de um processo de constante deslocamento de metas em relação a objetivos mais elevados favorece o ajustamento e a maturidade individual (Keyes, Shmotkin & Ryff, 2002). Keyes e colaboradores realizaram estudo investigando os construtos de bem-estar subjetivo e bem-estar psicológico. Os autores acreditavam que os construtos são conceitualmente relacionados, mas empiricamente separados e que as combinações desses relatos de bem-estar subjetivo e bem-estar psicológico diferem conforme aspectos sociodemográficos e de personalidade. A amostra foi composta por 3032 participantes americanos, sendo 48,5% homens e 51,5% mulheres. A mostra era composta por três grupos de idade: 33,2% adultos (25-39 anos), 46% de meia idade (40-59 anos) e 20,8% idosos (60-74anos). No tratamento estatístico realizaram uma análise multivariada dos construtos bem-estar subjetivo e bem-estar psicológico por idade, nível de escolaridade, gênero, etnia e estado civil. Os resultados mostraram uma correlação estatisticamente significativa apenas para idade e nível de escolaridade. Adultos com baixo bem-estar subjetivo e elevado bem-estar psicológico tendem a ter maior grau de escolaridade do que adultos com a combinação de baixo bem-estar subjetivo e baixo bem-estar psicológico. Em contraste, adultos e idosos com elevado bem-estar subjetivo e baixo bem-estar psicológico tendem moderadamente a um menor grau de escolaridade do que adultos com a combinação de baixo bem-estar subjetivo e baixo bem-estar psicológico. Adultos e idosos com elevado bem-estar subjetivo e elevado bem-estar psicológico tendem a ter um nível mais alto de escolaridade do que adultos com a combinação de baixo bem-estar subjetivo e baixo bem estar psicológico. Os autores concluíram que as variáveis idade e nível de escolaridade exercem influência nas combinações de bem-estar, no qual se torna nítido que a idade que o indivíduo possui e o nível de escolaridade estão relacionados de acordo com valores de cada grupo social. Neste estudo, um elevado bem-estar é claramente vinculado à escolaridade e à idade: pessoas de meia idade e idosos que possuem alto nível de escolaridade são provavelmente mais prósperas na vida e têm melhor percepção da qualidade de sua vida.
Desde os seus primeiros escritos, nos anos 1950, Erikson demonstrou preocupação com o ajustamento psicossocial do indivíduo e os reflexos dessa condição sobre a sociedade. A introdução do conceito de geratividade em seu modelo de oito estágios do desenvolvimento foi uma contribuição precursora à compreensão do que hoje autores como Ryff (1989a, 1989b, 1995; Ryff & Essex, 1991) designam como bem-estar psicológico. Para Erikson (1950, 1986, 1998), a geratividade manifesta-se de maneira mais intensa na meia-idade, como uma reação à estagnação no desenvolvimento da personalidade. O conceito inclui procriatividade, produtividade e criatividade, que se manifestam na geração de novos seres, de novos produtos e de novas idéias, e também num processo de autodesenvolvimento que se reflete na elaboração da identidade de adulto maduro. Para o autor, a geratividade é um indicador de ajustamento na meia-idade e na velhice e está relacionada ao cumprimento de tarefas evolutivas interna e culturalmente determinadas. McAdams e St. Aubin (1992) e McAdams, Hart e Maruna (1998) ampliaram o conceito de geratividade estabelecido por Erikson. Desenvolveram um modelo de geratividade que tem como base dois elementos: o primeiro é interno e corresponde à tendência ontogenética de garantir simbolicamente a própria imortalidade. O segundo é cultural e traduz as expectativas dos grupos humanos quanto à transmissão e à continuidade cultural. A partir desses dois elementos surgem sentimentos referenciados às preocupações pelo bem-estar atual e futuro da próxima geração, à crença no futuro da humanidade e ao compromisso com o bem-estar da humanidade. As ações gerativas são descritas pelos mesmos autores em termos de três dimensões conceituais: criação ou geração de indivíduos, coisas, ações e idéias que sirvam para perpetuar a espécie humana, no sentido biológico e sociocultural; manutenção, que se reflete em cuidar, amar, responsabilizar-se, cultivar, preservar, proteger, apoiar, ajudar, socorrer, promover e restaurar e se aplica a indivíduos, grupos, instituições, produtos culturais e à natureza e oferta, que se expressa na transmissão do que foi criado por meio do ensino, do aconselhamento, da orientação e da modelação e no deixar um legado pessoal, permitindo que os beneficiários dele desfrutem segundo seus próprios desígnios.
Ao longo dos últimos 100 anos, a comunidade científica vem construindo caminhos para melhor definir a inteligência e para estabelecer a natureza de suas interfaces com aspectos orgânicos, sociais, educacionais, psicológicos e culturais. Seus esforços refletem-se em três grandes tendências, a psicométrica, a desenvolvimentalista e a cognitivista. A primeira prioriza as diferenças individuais quanto à capacidade de o indivíduo chegar a respostas precisas e corretas em situações de solução de problemas. A segunda enfatiza a maneira como os processos cognitivos se organizam, se estruturam ou mudam durante o desenvolvimento do ser humano. No enfoque do processamento da informação tenta-se compreender a inteligência humana em termos de processos mentais que colaboram para o desempenho de tarefas cognitivas, de modo especial a seleção, a codificação, o armazenamento e a evocação da informação (Almeida, Roazzi & Spinillo, 1989).
Vários autores argumentam que esses modelos clássicos não dão conta da complexidade do funcionamento humano, que não se expressaria apenas na solução de problemas acadêmicos e do domínio do trabalho, mas também nos âmbitos social, emocional e do autoconhecimento. Entre eles citam-se Gardner (1994), Goleman (1995), Bar-On (1997, citado em Bar-on, 2002) e Salovey, Caruso e Mayer (2002). Gardner definiu competência intelectual como um conjunto de habilidades que capacitam o indivíduo a resolver problemas ou dificuldades, a criar produtos eficazes e a gerar novos problemas. Segundo o autor, a inteligência não é uma competência simples, mas complexa e multideterminada, que pode ser descrita em termos de pelo menos, sete dimensões, que ele denomina de inteligências múltiplas: lingüística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal - cinestésica e pessoal. A inteligência pessoal divide-se em dois subtipos, a interpessoal e a intrapessoal. A primeira baseia-se na capacidade de perceber distinções nos outros, particularmente diferenças em estados de ânimo, motivações, intenções e temperamentos. Já a inteligência intrapessoal seria a capacidade de conhecimento de si mesmo, uma habilidade de discriminar emoções e sentimentos, utilizando esse conhecimento para orientar o próprio comportamento.
O conceito de inteligência emocional adquiriu popularidade com a publicação do livro de Goleman em 1995. Nesse campo, Hedlund e Sternberg (2002) afirmam que existem duas posições opostas. A primeira postula uma noção mais restrita, segundo a qual inteligência emocional é a capacidade de perceber e entender as informações emocionais. A inteligência emocional seria uma capacidade cognitiva ou aptidão (processamento adaptativo de informações emocionais) distinta de variáveis de personalidade. Aptidão é vista como a capacidade de reconhecer significados e de utilizar conhecimentos para raciocinar e resolver problemas (Mayer, Caruso & Salovey 2002). Os adeptos da segunda posição assumem que a inteligência emocional inclui quase tudo que está associado com o êxito, em especial habilidades não cognitivas, tais como a assertividade e o controle de impulsos, que são em parte sobrepostas a traços de personalidade. A esse respeito, além do modelo de Goleman (1995), há o modelo misto de Bar-On (1997, citado em Hedlund & Sternberg, 2002), que admite a existência de aptidões mentais, como por exemplo a solução de problemas, e de aptidões de personalidade, como por exemplo o otimismo. O próprio Goleman (1995) primeiro enfatizou na inteligência emocional as relações e as experiências cotidianas e a influência delas sobre o sucesso na solução dos problemas da vida diária. Depois, em 1999, definiu-a como capacidade de reconhecer os próprios sentimentos e os dos outros, de automotivar-se e de administrar as emoções nos âmbitos individual e interpessoal.
No Brasil, Siqueira, Barbosa e Alves (1999) construíram e validaram uma escala de inteligência emocional com 59 itens que avaliam cinco habilidades da inteligência emocional, conforme foram descritas nos modelos de Salovey e Mayer (1990) e de Goleman (1995, 1999). O conceito inclui um conjunto de cinco capacidades: autoconsciência, automotivação, autocontrole, empatia e sociabilidade. Empatia é definida pelos autores brasileiros como a facilidade em identificar os sentimentos, desejos, intenções, problemas, motivos e interesses dos outros, por intermédio da leitura e da compreensão de comportamentos não verbais de comunicação, tais como expressões faciais, tom de voz e postura corporal. Sociabilidade é a facilidade de iniciar e preservar as amizades, ser aceito pelas pessoas, valorizar as relações sociais, adaptar-se a situações novas, liderar, coordenar e orientar as ações das outras pessoas. Automotivação consiste na facilidade de elaborar planos para a própria vida, de modo a criar, acreditar, planejar, persistir e manter situações propícias para a concretização das metas futuras, com esperança e otimismo. Autocontrole é a facilidade de administrar os próprios sentimentos, impulsos, pensamentos e comportamentos e Autoconsciência relaciona-se à facilidade de lidar com os próprios sentimentos no que se refere à identificação, à nomeação, à avaliação, ao reconhecimento e à atenção a esses sentimentos. As três primeiras dizem respeito a reações do eu e a o que o indivíduo faz com seus sentimentos. São as bases psicológicas responsáveis pelo fortalecimento das estruturas internas do indivíduo. As duas últimas voltam-se para fora, em direção aos sentimentos dos outros e às interações sociais. Constituem os componentes psicossociais que asseguram a sua competência no mundo social.
O construto inteligência emocional tem merecido relativamente pouca atenção na literatura em parte porque não se originou na pesquisa básica, em parte porque aparentemente os seus termos se sobrepõem a outros correntes na pesquisa e na teorização sobre ajustamento e bem-estar psicológico. O presente estudo foi planejado com base no pressuposto de que há relações entre os dois conceitos e que investigá-las contribui para a teoria que embasará a formulação de estratégias de intervenção que favoreçam o desenvolvimento e o envelhecimento bem-sucedidos, tanto no âmbito individual, quanto no âmbito sociocultural.
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