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Construção do Conhecimento - Por uma pesquisa imaginativa na formação do jovem


17 de outubro de 2008


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Por uma pesquisa imaginativa na formação do jovem pesquisador


Rafael Vicente de Moraes

Professor, Faculdade Reunida de Ilha Solteira, SP; Faculdade Aldete Maria Alves (FAMA), Iturama, MG

 

Discutem-se algumas questões concernentes à ciência e seus desdobramentos internos, sob o modo de produção capitalista, tendo como eixo central uma racionalidade orientada fundamentalmente por combinar a mundialização capitalista à monopolização dos conhecimentos técnicos e científicos. O homem, tornado objeto de si mesmo, é incapaz de refletir sobre si próprio e sobre sua prática, ainda que tenha desenvolvido mecanismos refinados para conhecer a realidade. O debate abre perspectivas para se pensar determinados aspectos da formação do jovem pesquisador, na área de ciências humanas, como a ausência de uma discussão acerca dos limites e alcances do exercício científico. Nesse sentido, sugere-se a idéia de pesquisa imaginativa, enquanto um modo de conhecimento, reflexão e clarificação teórica.



O racionalismo moderno creditou à ciência ocidental um papel libertador e emancipador. Não obstante, a ciência dita moderna tornou-se, sob o manto do modo de produção capitalista, a concretização de um grande projeto de racionalidade e dominação, que engendra a natureza, o universo social e concepções de mundo historicamente forjadas. Coube como desígnio maior à ciência, por meio de observações e experimentos (Pessanha, 1993), desenvolver técnicas de manipulação para desvelar as leis universais presentes no universo em todas as suas esferas, desde os movimentos planetários até as partículas subatômicas, e assim fundar o reinado da racionalidade.

A ciência moderna fez da busca de leis gerais sua meta prioritária. Nesse particular, a Física e a Matemática dispunham dos métodos de proceder e de se atingir o rigor e o objetivismo. A apreensão da realidade passou a estar subsumida pela mensuração.

A ciência tem uma história tardia e sinuosa (Paty, 1999). É um conceito complexo que implica uma gama de fundamentos epistêmicos. A ciência é um esforço coletivo (Durkheim, 1969) que não se constrói em um contexto intemporal, nem pelo simples fato de que seu objeto/sujeito exista, cabendo ao homem o emprego de suas faculdades para conhecê-lo. Tampouco é um compêndio de conhecimentos sistematicamente elaborados. Entretanto, parece desenhar seu locus no mundo atual calcado em uma utilidade imediata, restringindo-se, cada vez mais, ao âmbito da técnica.

No transcorrer dos últimos séculos, os avanços da ciência permitiram o desenvolvimento de incontáveis formas de tecnologia, por meio das quais alargaram o domínio do homem sobre a natureza e, por isso mesmo, requerem uma análise que sublinhe, não só, os aspectos positivos, mas também os negativos. Quer dizer, a experiência humana é enriquecida com possibilidades de melhorias na qualidade de vida, entretanto, sua apropriação é "dádiva" de poucos. Nesse quadro, as conseqüências do avanço científico para as diversas classes e camadas da população constituem um dos pilares da crítica à ciência. Para Omnès (1996, p.257), "[...] apesar dessa confiança quase cega, a fé que podemos ter na ciência está ligada, sobretudo, a essa grandeza de triunfar aceitando a total vulnerabilidade de um guerreiro nu na arena".

A ciência é generalizante e territorializa, não raras vezes, desconsiderando a história peculiar de cada grupo ou comunidade humana. Autores como Dussel (1993), Said (1990), Santos (1999) demonstram que esse processo está ancorado no iluminismo ocidental, notadamente o eixo Europa-Estados Unidos, por meio do qual se (re)produz a hegemonia desse modus cultural, invisibilizando, em seu discurso, toda materialização de práticas e conflitos entre grupos, para legitimar seu domínio sobre sistemas locais de cultura, seja desvalorizando-os, seja incorporando-os com vistas à pretensa idéia de "universalidade da ciência"1.

Quando a ciência e seus projetos se compartimentalizam, a atividade humana intelectiva e as idéias são instrumentalizadas, isso torna o homem objeto de si mesmo. As idéias são circunscritas em esquemas de ação. Segundo Buber (1962, p.63, tradução nossa): "O problema do homem se reduziu à pergunta sobre a natureza do homem, que ganhou novo significado, sobretudo, prático". A ciência e o exercício científico degeneram-se em ofício de cariz utilitário. Nessa direção, aponta Castro (1978, p.7): "O pesquisador opera como se não tivesse outro objetivo que não decifrar a realidade. Mas seu sucesso, em última análise, será dado pela utilidade prática que algum dia possa ter essa maneira peculiar de decifrar o mundo real".

Hoje, tem-se a sensação de que a produção técnico-científica atinge escalas elevadas, excedendo a própria capacidade humana para compreendê-la em suas reais dimensões e significados. Observemos as pesquisas na medicina, biologia molecular, genética2. Refletir acerca do lugar da ciência no modo de produção capitalista implica considerar que a ciência, no século XX, não se aplica/materializa somente por meio de técnicas, mas é capaz de forjar as próprias coisas como ações que nelas incidem. A realidade social e natural é, a um só tempo, dominada e produzida, tendo como pano de fundo uma racionalidade orientada fundamentalmente por combinar a mundialização capitalista com a monopolização de conhecimentos técnicos e científicos.

Nesse sentido: "O pensamento científico é, ainda, incapaz de se pensar, de pensar sua própria ambivalência e sua própria aventura" (Morin, 2001, p.11). O homem é incapaz de pensar a si próprio, ainda que tenha desenvolvido os mais refinados mecanismos para desvelar o mundo. Falta à sociedade e, mesmo, ao quadro institucional acadêmico, uma compreensão mais abrangente do "que é ciência", como está estruturada, seu enraizamento sociocultural, os valores axiológicos nela imiscuídos, ou seja, problematizar acerca de suas várias esferas, tendo, no horizonte analítico, as transformações do homem e as transformações do mundo, que, em tempos de globalização, ocorrem em um ritmo vertiginoso. Tais questões deveriam estar no horizonte da formação do jovem pesquisador, abrindo, assim, caminhos para novas aquisições intelectuais.

 

A atividade de pesquisa: contornos e nuanças

Desde o final da Idade Média3, em decorrência da expansão da ciência, a questão do método começou a adquirir importantes contornos, sobretudo, com o racionalismo cartesiano, calcado em princípios gerais relativos às ciências naturais e às ciências matemáticas enquanto único caminho para se chegar à verdade4. No ocidente, o referencial cartesiano introduziu, na existência humana, a dicotomização5. Morin (2000, p.26) denomina esse processo de 'dissociação': alma/corpo; finalidade/causalidade; indivíduo/coletivo; sujeito/objeto, e, em si, todas são excludentes.

Esse dualismo pernicioso entre a esfera social e a individual encontra seus representantes entre sociólogos e psicólogos, respectivamente. No mundo social, tem-se o peso do grupo enquanto matriz explicativa das estruturas, do poder e das negociações, anulando as singularidades do indivíduo por meio do consenso. No outro, o da especificidade individual, os comportamentos e valores são tidos como resultados de processos subjetivos, que envolvem motivações, interesses e necessidades de cada sujeito. Tanto num quanto noutro ocorre uma redução drástica dos fenômenos e das experiências psicossociais, ou melhor, entre o coletivo e o individual, entre socialização e individualização. Na verdade, é negado o eixo conflitivo das referidas dimensões, produzindo uma idéia engessada e distorcida da sociedade e do indivíduo.

Os cânones da "ciência clássica" pautavam-se na idéia de que a complexidade do mundo dos fenômenos devia ser compreendida com base em leis gerais. Pensava-se a questão de "procurar o verdadeiro método para chegar ao conhecimento de todas as coisas" (Descartes, 1983, p.36-7). Esse problema continua a ser discutido pelas teorias do conhecimento, pois é fundamental o papel do método no processo de construção do conhecimento, como um instrumento empregado pelo sujeito para apreender a realidade. A moderna racionalidade científica tem uma referência explícita na obra de Descartes (1983, p.63):6

    [...] conhecendo a força e as ações do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus e de todos os outros corpos que nos cercam, tão distintamente como conhecemos os diversos misteres de nossos artífices, poderíamos empregá-los da mesma maneira em todos os usos para as quais são próprios, e assim nos tornar como que senhores e possuidores da natureza.

O método das ciências naturais, a que se refere Descartes, não deve nos orientar para uma simples averiguação naturalística de grandes sistemas, pois sinaliza, mesmo sem desconsiderar os pressupostos já elaborados, para uma postura transformadora capaz de articular o domínio da natureza pelo homem com a nova ciência. Doravante, o método cartesiano, ao radicalizar o objeto na ciência, é um gesto inaugural na criação de um discurso rigoroso e, do ponto de vista científico, universalmente válido. A experiência humana, captada por meio dos sentidos, funda-se no esforço de ser completada pela passagem da percepção sensível para o refletido. O ato de conhecimento se inscreve na ação do sujeito, nas experiências concretas, nas inúmeras intenções que procuram as mais diversas realizações, por isso mesmo, remete a esse mundo, significando um modo de interpretá-lo. Como toda intencionalidade, tal empreendimento entre o pretender e o concretizar abriga grande carga de tensão, mesmo quando objetivado.

A constituição do pensamento repousa não só nas relações objetivas - princípios, leis, normas, ordens - universalmente válidas, mas também em estruturas de cada sujeito, nas quais o homem cria a si mesmo, não quando se parte apenas do sujeito isolado, porém de sua pluralidade. O homem, em sua ação efetiva, dá forma à natureza e a si mesmo, diferentemente do animal que se encontra envolto na estrutura fixa de leis naturais, sendo determinado por elas; o homem transpõe essa determinação, porque possui um leque de possibilidades no qual pode desenvolver suas atividades. Não apenas age, como os outros animais, porém interpreta sua ação que, na verdade, é resultado de uma interpretação.

As construções teóricas derivam de um quadro de hipóteses, idéias e sistematizações prévias forjadas histórica e coletivamente. Tal sistematização é o alicerce para a ampliação do conhecimento sob novas configurações. O caminho para isso chama-se método. Segundo Chauí (1994, p.354): "Methodos significa uma investigação que segue o modo ou uma maneira planejada e determinada para conhecer alguma coisa; procedimento racional para o conhecimento seguindo um percurso fixado". Essa idéia é completada por Morin (2001, p.335-6) "[...] método é a praxis fenomenal, subjetiva, concreta, que precisa de geratividade paradigmática/teórica". As coisas e as relações entre elas nem sempre estão presentes e manifestas. Porque, se assim o fosse, o entendimento humano seria reflexo preciso da realidade imediata, e os fatos, redutíveis a dados empíricos, como prega a atitude positivista, deixando escapar a dimensão histórico-social da ação humana. As falas, os fenômenos, os dados não falam por si mesmos. Ao serem identificados, necessitam ser analisados, pois o real se deixa transparecer apenas em grau epidérmico, sendo imprescindível ir além da imediaticidade para abarcar as conexões internas, os vínculos entre a parte e o todo, e vice-versa. A realidade e seus processos intrínsecos só são conhecidos quando (re)criados no pensamento, adquirindo inúmeros sentidos. A faculdade de conhecer não prescinde do trabalho e da engenhosidade intelectual com os quais há uma apropriação do mundo pelo pensamento, muito embora não seja suficiente para transformá-lo.

   
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