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Artigos de Pedagogia


Discente - Da condição docente: primeiras aproximações teóricas


30 de setembro de 2008


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Inês Assunção de Castro Teixeira

Doutora em Educação e professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).



Observando sua textura e procurando decifrar seu texto. Nele estão contidas algumas aproximações teóricas acerca da condição docente, procurando compreendê-la em sua fundação e realização nos dias atuais, em busca da matéria prima e historicidade que a constituem. Desenvolve-se o argumento de que a condição docente se instaura e se realiza a partir da relação entre docente e discente, presente nos territórios da escola e da sala de aula, em especial.




Nem tudo o que escrevo resulta numa realização, resulta
mais numa tentativa. O que também é um prazer. Pois
nem tudo eu quero pegar. Ás vezes, quero apenas tocar.
Depois, o que toca às vezes floresce e os outros podem pegar
com as duas mãos. (Clarice Lispector)

 

Nota introdutória

Este artigo é um esforço de tocar na docência. Seja tentando alcançá-la à procura da matéria de que é feita; seja observando-a com um olhar de estranhamento, como quem a vê pela primeira vez; seja tentando sentir sua textura e decifrar seu texto. Aqui estão questões e idéias trazidas como ponto de partida, mais do que de chegada. Como plataforma da qual possamos alçar, retocando olhares, (re)inaugurando perspectivas. Interrogando um pouco mais.

Não se trata aqui de explicar, mas de implicar-se. Quiçá não se trate de conhecimento, mas de discernimento. Talvez não seja este um trabalho completo e acabado, mas inacabamentos. Trata-se, aqui, de tocar, porque tocar é da ordem do que nos atinge, do que nos concerne. É algo que nos afeta. Como falar da docência deixando de lado as afeições, as afetações? E depois, retomando Lispector, "o que toca às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos".

 

Dos protagonistas e da questão

Os professores e professoras são muito falados. Personagens conhecidos de todos, estão sempre presentes nos espaços públicos e privados, ao longo dos anos, dos meses. Do dia: eles e elas amanhecem com as cidades, com as vilas, surgindo nas ruas dos bairros ou caminhando pelo campo em direção à escola, nas primeiras horas da manhã. Por vezes, recompondo esperanças de dias melhores, na vida que se renova a cada alvorecer, na paisagem que desperta, esplendorosa, em cada criança, adolescente e jovem. Da noite: nestes territórios das cidades, das vilas e povoados, os professores vão chegando e saindo em direção às escolas noturnas, no avançar das horas, quando irão encontrar os jovens e adultos que lá estão, uns e outros, docentes e discentes, depois de um dia de trabalho e atividades.

Nestes percursos, eles e elas se tornam tanto visíveis quanto expostos. Deles e delas, professores e professoras, sempre alguma coisa se comenta e algo se lembra. Do miúdo das conversas entre familiares, crianças e jovens aos discursos de políticos e ditas autoridades, internas ou externas às escolas. Na vida corriqueira e em grandes momentos, deles e delas se fala. São matérias de jornais; estão na mídia, quase diariamente. Também dessa gente se lembram as legislações, as reformas e os projetos educacionais e pedagógicos, ou ainda, os congressos, conferências, os eventos científicos de que são temas e protagonistas.

Na pesquisa também não poderiam faltar. Os docentes nela estão tematizados como sacerdotes, como uma segunda mãe, como trabalhadores, como profissionais, como proletários, ou um pouco de cada coisa. Há, também, quem os compreende a partir de suas responsabilidades sociais, de seus papéis e funções educativo-escolares, definidos na divisão social e sexual do trabalho. Ou, ainda, neles se fala e deles se fala em programas e projetos para a sua formação, inicial ou continuada, em serviço ou nos espaços acadêmico-formais, em moldes presenciais ou a distância, dentre outras tantas de suas modalidades. Existem, ainda, os estudos que tentam apreender os saberes, práticas e identidades docentes, além daqueles que se debruçam sobre as vidas, o cotidiano e a história presente e pretérita, mais remota ou mais recente, do magistério. Discute-se, igualmente, o trabalho docente em vários recortes e enfoques, dentre outras formas, questões, conteúdos e contextos em que os professores e professoras vão sendo ditos e desditos, benditos e malditos. Vão sendo escritos.

Neste trabalho, eles e elas estão presentes, novamente. Trazemos à cena estes sujeitos da educação e da escola, tentando interrogar as bases que os constituem sem, contudo, substancializar a discussão. Com este propósito, buscamos aproximar-nos teoricamente do que denominamos condição docente: a situação na qual um sujeito se torna professor. Procuramos algo que seja a origem, o que funda, o que principia, sem o que não se pode falar em mestre, nem em professor, nem em trabalhador da escola, nem em profissional da educação. Como também não poderíamos falar em proletário, nem em professor disto ou daquilo, no sentido dos campos disciplinares, nem em qualquer outro termo com os quais os mestres vem sendo denominados, (re)conhecidos ou estudados. Talvez possamos dizer que buscamos os fundamentos para se pensar os/as professores/as, suas vidas, seu trabalho, suas experiências, identidades e histórias, em seus particulares enredos no mundo, frente a outras condições e sujeitos sociais, frente a outros grupos de pertencimento. Sendo assim, aqui tentamos deslindá-los a partir da matéria de que são feitos – o que os instaura, institui e constitui: sua fundação.

Feito isso, para não substancializar a discussão e o entendimento desta problemática, tomando a condição docente como algo que tenha uma essência, como natural, imutável ou substantivado, discutiremos os conteúdos e formas de sua realização. Nesta direção, procuramos compreender, da condição docente, sua textura e seu texto no mundo contemporâneo, tentando discutir algumas das mediações e figurações pelas quais ela se apresenta.

 

Da condição docente: a fundação

Condição é um termo semanticamente rico. Do latim conditio, o vocábulo condição tem origem no condo – is, conditio, e corresponde, por um lado, ao grego kríois (fundação, criação) na acepção de ato e ação de criar. Por outro, se entende por conditio o estado, o status, a situação de um ser no conjunto de realidades ou de um homem na sociedade. Este sentido está presente ao falar-se de "condição social" e tem sido muito explorado na expressão "condição humana", entre outros de seus usos e significações.1

Neste trabalho, nos servimos deste vocábulo nestes dois sentidos: do que funda ou do que cria (aquilo que dá origem, que instaura) e, também, referindo-se a um estado, a um conjunto de realidades ou a uma situação de um homem na vida social.

Tentando compreender a condição docente em sua fundação e origem, como o que funda ou como a matéria de que são feitos a docência e o docente e, ainda, como o estado que constitui a docência em sua historicidade, em sua realização, encontramos uma relação. A docência se instaura na relação social entre docente e discente. Um não existe sem o outro. Docentes e discentes se constituem, se criam e recriam mutuamente, numa invenção de si que é também uma invenção do outro. Numa criação de si porque há o outro, a partir do outro.

O outro, a relação com o outro, é a matéria de que é feita a docência. Da sua existência é a condição. Estamos, pois, nos domínios da alteridade. O outro está ali, diante do professor, da professora, podendo sempre surpreendê-lo, instaurando o inédito em sua ação instituinte, tanto quanto repetir ou repor o conhecido, o instituído. O outro está ali, efetivamente ou virtualmente presente, na educação presencial ou na educação a distância, como se costuma chamar uma e outra.

Trata-se, ainda, de uma relação entre sujeitos sócio-culturais, imersos em distintos universos de historicidade e cultura, implicados em enredos individuais e coletivos. E trata-se, sobretudo, de sujeitos cuja condição de existência, cuja origem primeira está na corporeidade que se inscreve, por sua vez, nas temporalidades do transcurso da existência humana, em rítmicas da vida bio-psico-social e nos ciclos vitais. Desse modo, docentes e discentes localizam-se, geralmente, em diferentes gerações humanas.

Visto que se instaura em uma relação entre sujeitos sócio-culturais, constituindo-se na relação, a partir dela e nunca fora dela, a condição docente é, antes de tudo, da ordem do humano. Mesmo quando nela ocorrem atos de violência e de imposição de uma das partes, mesmo que porventura um dos pólos se desumanize, ela pertence aos territórios do humano. Seja quando se realiza em processos heterônomos – desumanizadores – ou quando se dá em processos de autonomia, seja como socialização, como subjetivação, como emancipação, a docência sempre diz respeito aos humanos, a seus encontros, desencontros, entendimentos e conflitos; às suas tensões e incompletudes. A seus devires.

Presente no humano e na vida em comum, estamos nos domínios do social, da cultura, da polis. Estamos no domínio do político. Uma vez originada em interações sociais presentes no cenário da vida em comum, a condição docente é, também, da ordem do político.

Tendo em vista a existência de outros tipos de relações sociais no conjunto do tecido social, interações igualmente marcadas pela alteridade, pela ordem do humano e do político, o que particulariza a relação docente/discente diante de outras relações sociais? Qual a sua particular textura? Qual o visco, os tons e a trama dos fios que a tecem?

Na matéria de que é feita a docência, uma das particularidades a se considerar é a das temporalidades nela implicadas. Há uma vida que amanhece na infância, que vai crescendo no jovem e se completando no adulto, que ali se colocam no lugar dos discentes. A criança, o jovem, o adulto discente, este outro é uma vida outra, uma corporeidade singular e indivisível. É um outro sujeito sócio-cultural, corporal, psíquico, ético, estético, político, que habita tempos e espaços. Um outro que é natividade na infância e nas novas gerações que aportam na vida social. E que não pode ser deixado à deriva, lembrando Arendt (1979).

Quanto aos docentes, em seu tempo/lugar de gerações adultas, estes têm uma responsabilidade específica nesta relação. Estão encarregados de acolher, apresentar e interrogar o mundo junto a estes novos chegantes. Responsabilizando-se pelo trabalho com a cultura, com a memória cultural, devem construir bases para que as novas gerações, apropriando-se do passado, possam reinventar a vida em comum, realizando o novo de que são portadores, livrando-se do risco de repetir o já feito; afastando o esquecimento, para que o passado não se repita, conforme Arendt (1979) e Adorno (1995), respectivamente.

Nessas lidas com os novos, na trama das temporalidades que as constituem, a relação docente/discente diz respeito à vida, à natividade, ainda segundo Arendt. Trata-se, aqui, do cuidado com os novos chegantes e do zelo com a memória. Nesse sentido, na docência estão presentes o passado, o presente e o futuro, na esperança que aporta no devir da vida em sua floração na infância, no adolescente, no jovem, para o qual o conhecimento, trazido ao ato pedagógico, é relevante. Na textura da relação docente estão, pois, imbricados o velho e o novo, o projeto e a memória, o havido e o devenir, o atrás e o adiante. Por isso, a relação docente/discente contém sempre a esperança.

Inserida na cultura, esta relação é mediada pelo conhecimento. Mais do que isso, pela memória cultural a ser transmitida e interrogada, algo muito maior do que os conteúdos dos campos científico-disciplinares.

Por ser assim, estamos, também, em uma relação cujo sentido e dinâmicas nos remetem aos processos de formação humana que se compõem, entre outras de suas vigas, das possibilidades do aprender e do ensinar, do transmitir e do apropriar-se dos conhecimentos e saberes existentes, sejam eles dos campos disciplinares ou outros tipos de conhecimentos e saberes socialmente produzidos, selecionados e distribuídos. Conhecimentos e saberes a serem apresentados e interrogados, não como algo acabado e natural, mas dinâmico. Historicamente construídos pelo trabalho e agenciamentos de longas cadeias de grupos e gerações humanas no jogo das forças, dos conflitos e tensões sociais. Saberes e conhecimentos vindos das escolhas e contingências em que foram sendo criados, mediante os quais o mundo foi sendo reinventado em pensamentos, idéias e palavras, foi sendo simbolizado e sistematizado, foi sendo grafado, nos tempos e espaços da vida cotidiana, tanto quanto nos largos e longos espaços e temporalidades das durações históricas.

Esta particularidade exige que os docentes elejam concepções e prioridades que irão se traduzir em propostas curriculares das escolas, por exemplo. Nesse sentido, a docência está implicada com os processos de formação humana, nos quais os conhecimentos científicos têm importância, sem que a esgotem, visto sua insuficiência diante das potencialidades e dimensões da vida humana a serem desenvolvidas. Desse modo, sempre mediada pelos processos de construção do conhecimento, de transmissão, questionamento e renovação da memória cultural, a docência, o que a instaura e constitui, sem o que não é possível a sua existência, não é o campo disciplinar, não é o que se ensina, onde ou como se ensina. Não se trata de saber se estamos no campo ou na cidade, se em um barco ou se em uma sala de aula, se o que se ensina é português, física, matemática ou história, trabalhando-se com este ou aquele método ou projeto. O que interessa, primeiramente, sem o que nada mais tem sentido, é a relação que se estabelece entre os sujeitos sócio-culturais docentes e discentes, onde seja, como seja, e não seus conteúdos e métodos. Pode haver ou não este ou aquele livro, um quadro de giz ou um data-show, o docente pode estar em uma universidade ou numa escola infantil, em uma cidade, um bairro, um ou outro país. Desde que haja esta relação, a docência se estabelece. O que mais importa é que ali existam, que ali estejam, na relação, os sujeitos sócio-culturais que nela se constituem como docentes e discentes, numa interação intencionalmente mediada pelos processos de transmissão e de reinvenção da cultura e do conhecimento.

    Vista esta característica, pertinente à natividade e à inserção dos sujeitos na cultura e na história, o exercício da docência envolve escolhas e projetos de homem e de sociedade, reafirmando sua natureza política. Ademais, tais processos são dinâmicas de constituições identitárias, são processos de identificação. Tratam-se de movimentos de subjetivação que poderão ir em uma direção ou outra, dependendo de seus conteúdos e formas. Na relação que instaura a docência estão postas questões pertinentes às identidades sociais, à possibilidade de se construírem experiências e subjetividades democráticas, como muito desejamos. Trata-se, assim, de uma relação com forte compromisso e envolvimento com os destinos e enredos humanos, individuais e coletivos. E, por tudo isso, com a amorosidade, no sentido do gosto, do compromisso, da afeição pelas questões dos homens e mulheres de cada tempo, de cada lugar. Nesse sentido, a amorosidade e o político se encontram nos tempos, espaços e processos da docência, como Paulo Freire nos ensinou. Ou, ainda nos termos de Freire, há, nos processos de formação humana implicados no exercício da docência, acabamentos e inacabamentos éticos e estéticos, da ordem da boniteza, na expressão do autor.

Passando a outro dos atributos que singularizam a relação docente/discente frente às demais relações sociais, tem-se a dimensão do cuidar. Do cuidado de si e do outro. Do zelo com os processos educativos, com os percursos e dinâmicas da formação humana, com as dinâmicas, conteúdos e formas de construção do conhecimento e inserção na cultura, traçados em que a dimensão política se reitera na docência. O cuidado de si e do outro é político. O pessoal é político, como já foi dito.

Os fios e trançados da relação docente/discente contêm, portanto, uma forma particular de arranjo entre a ética e a estética, uma das dimensões de que se constitui. Visto que nesta relação estão postas escolhas, vidas e projetos de mundo, de homem, de sociedade e de história, sendo ela um colocar-se com o outro nos terrenos da alteridade, a ética e a estética nela se põem, se repõem e compõem. O respeito à vida, ao outro, às suas possibilidades e limites, aos seus desejos e sonhos, a tudo o que lhe diz respeito, deve ser levado em consideração. Nesta relação há histórias principiando, identidades e subjetividades desabrochando, caminhos sendo escolhidos, horizontes que se abrem ou se fecham, nas vidas infantes e juvenis que se inauguram, podendo ser mais ou menos formosas, conforme sejam trabalhadas, lapidadas na relação pedagógica. A relação docente/discente poderá favorecer ou desfavorecer, impedir ou realizar experiências emancipatórias e humanizadoras, ou o seu inverso nos (in)acabamentos éticos e estéticos nela implicados. Por ser assim, talvez se possa dizer que a docência é algo da ordem da delicadeza, tanto quanto é ela da ordem do humano, do político e do cuidar. A docência diz respeito ao delicado envolvimento, ao delicado comprometimento, a uma delicada preocupação e zelo com os destinos e temporalidades humanos: uma delicadeza para com a vida humana, de todos e todas as mulheres e homens – para com o bem comum. E uma delicadeza para com cada vida, presente em cada um e cada uma, individualmente.

 
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