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Artigos de Pedagogia


Temas Transversais


30 de setembro de 2008


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Os novos parâmetros curriculares das escolas brasileiras e educação sexual:uma proposta de intervenção em ciências



Suzinara Tonatto; Clary Milnitsky Sapiro

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Este estudo tem por objetivo investigar inovações nas práticas de ensino-aprendizagem, que atentem para a questão da Orientação Sexual. Para isso, procuramos oferecer à instituição escolar formas significativamente contextualizadas e interdisciplinares de se trabalhar as questões acerca da sexualidade. Este estudo apresenta duas etapas investigativas: uma qualitativa e uma experimental. Participaram da pesquisa 25 alunos de 7a série (ambos os sexos), de uma escola privada de Porto Alegre, RS, Brasil. Os resultados sugerem que através de uma abordagem adequada, a escola torna-se um ambiente imprescindível para a construção de valores pertinentes a uma educação sexual que possibilite aos jovens escolhas conscientes no que se refere à atividade sexual e à prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.



INTRODUÇÃO

O objetivo mais amplo deste estudo é descrever e justificar a importância de inovações na prática do ensino-aprendizagem, que atentem para a questão da orientação sexual, desde que, estas sejam fundamentadas na realidade e em um constante processo de reflexão e reestruturação da prática pedagógica.

Com o intuito de buscar essas inovações a partir do ensino de Ciências, optamos por oferecer à instituição escolar formas significativamente contextualizadas de se trabalhar as questões acerca da sexualidade. Possibilitamos, desta forma, através de oficinas, a abertura de espaços diferenciados (workshops) para a reflexão e discussão com adolescentes sobre temas emergentes relativos à sexualidade. Essas oficinas convocaram e motivaram a participação dos jovens e o desenvolvimento de habilidades críticas.

Cabe ressaltar que a realização deste trabalho visa multiplicar a produção e difusão de conhecimentos interdisciplinares entre os profissionais da educação, no sentido de viabilizar a reestruturação das formas tradicionais de ensino nas escolas, no que se refere à questão da orientação sexual, assim como de outros temas não contemplados neste estudo.

Ao propormos inovações nas práticas de ensino-aprendizagem pertinentes ao ensino da sexualidade na instituição formal, é importante salientar que a "instituição formal" aqui estudada está delimitada por características específicas: é uma escola privada, de orientação religiosa, freqüentada por alunos de classes média e alta, situada em uma zona nobre de Porto Alegre (RS). Assim sendo, as conclusões são pertinentes a este contexto.

Com relação à elaboração desta pesquisa, buscamos referenciais teóricos interdisciplinares, dadas a complexidade e o caráter multifacetado das questões abordadas.

 

METODOLOGIA

Este estudo seguiu um delineamento com uma etapa qualitativa de caráter descritivo (1a etapa), sucedida por um experimento (2a etapa - oficinas sobre sexualidade) e fundamenta-se na percepção de que seus resultados são generalizáveis a grupos culturais com características semelhantes.

Na primeira etapa, foi realizada a descrição etnográfica. Em função do nosso objetivo de trabalhar com os alunos de forma a privilegiar seus interesses e necessidades no que se refere ao tema da sexualidade, utilizamos a descrição etnográfica como forma de imergirmos na realidade dos alunos e, dessa forma, conseguir obter os subsídios necessários para a elaboração das oficinas (intervenção) fundamentadas no contexto de vida dos jovens (contextualização).

Já na segunda etapa de investigação, a partir dos dados coletados nas entrevistas, observações e consultas a documentos, utilizamos o delineamento do Estudo de Casos através das oficinas sobre sexualidade.

A pesquisa foi realizada em uma escola particular, de 1o e 2o graus, de orientação religiosa, com clientela de classes média e alta, no período de setembro a novembro do ano de 2000. Participaram 25 alunos de ambos os sexos, de idade entre 12 e 14 anos, de uma turma de 7a série do 1o grau.

O critério de seleção dos participantes foi a voluntariedade. Além disso, no início do trabalho, foi mandada uma carta de participação aos pais dos alunos, com relação à realização do trabalho, solicitando o seu consentimento1

No decorrer das oficinas, procuramos utilizar recursos e dinâmicas interativas tais como jogos, filmes, dilemas com situações da vida cotidiana dos jovens, entre outras coisas para motivar as reflexões e para envolver os alunos neste trabalho.

Para a melhor interação entre os alunos e com a facilitadora (primeira autora), sugerimos que os alunos se organizassem em círculo na sala de aula, para o desenvolvimento das atividades.

Durante as oficinas, procuramos discutir muitos dos temas de interesse dos jovens e proporcionar momentos de reflexão sobre outros assuntos importantes relacionados a sua atual fase de vida.

Os temas privilegiados pelos alunos nas oficinas estão indicados na tabela 1. Com base nesses temas, sugerimos diversas atividades (discussões, jogos, filmes, teatro, etc) a serem desenvolvidas e as organizamos nas 10 oficinas a serem realizadas.

 
No que diz respeito aos resultados do trabalho procedemos a uma análise de conteúdos dos temas que emergiram durante as oficinas. Esta análise não permite descrever toda a riqueza de elementos das atividades realizadas durante o trabalho, mas, sim, pretende explicitar, a partir da realidade dos alunos, e fundamentada no viés bio-psico-social da pesquisa, fragmentos de narrativas dos alunos que exemplificam os achados da pesquisa.

 

O DISCURSO ADOLESCENTE EM ANÁLISE

A análise das categorias que emergiram das narrativas dos adolescentes mostra que eles se apropriam de certos discursos protagonizados pelo social e esses discursos, por sua vez, acabam por surtir efeitos de "verdade" sobre esses jovens. Muitos dos discursos dos alunos referentes à sexualidade correspondem a visões hegemônicas com relação ao corpo, relações de gênero e identidade sexual.

A análise está organizada em três momentos diferentes, cada um deles conduzido por uma categoria emergente a partir dos temas sugeridos relacionados, que servem para subsidiar a análise teórica. As categorias analisadas foram:

 

AS REPRESENTAÇÕES DOS ALUNOS SOBRE SEXUALIDADE

Durante as oficinas, percebemos que as representações de alunos e professores sobre sexualidade estão limitadas quase sempre a relação sexual entre um homem e uma mulher. Isso pode ser percebido na fala de Gabriel2:

    Sexualidade pra mim? (...) Acho que é manter relações sexuais com uma outra pessoa do sexo oposto... com quem tu é chegado, com quem tu te entende legal... acho que é isso.

Também no discurso da professora Laura, percebe-se que, apesar de se poder falar mais "abertamente" sobre sexualidade em sala de aula, o enfoque que é dado continua sendo o biológico, principalmente voltado para o estabelecimento de uma "normalidade" da conduta sexual e para o tratamento das questões vinculadas à saúde e à doença, o que, por sua vez, contribui para a manutenção desse tipo de representação:

    ...Agora eles perguntam... eles perguntam sobre o tamanho do pênis em sala de aula(...) Assim, quando tem laboratórios, oficinas, eles perguntam se isso é normal, se isso não é normal... eles perguntam sobre a AIDS, como é que a AIDS pega, como é que a AIDS não pega(...) o que acontece, o que não acontece....

Os professores, portanto, apesar de perceberem a necessidade de adotar uma maior abertura para o tratamento das questões relativas à sexualidade na escola, continuam sem subsídios adequados para trabalhar essas questões. Sendo assim, geralmente, acabam por relegá-la a um enfoque totalmente biologizante, que tem a função de preservar o educador frente aos alunos, com relação aos seu próprios questionamentos, receios e ansiedades. Segundo Louro (1998),

    ...a sexualidade que é geralmente apresentada na escola está em estreita articulação com a família e a reprodução. O casamento constitui a moldura social adequada para seu 'pleno exercício' e os filhos, a conseqüência ou a benção desse ato. Dentro desse quadro, as práticas sexuais não reprodutivas ou não são consideradas, deixando de ser observadas, ou são cercadas de receios e medos. A associação da sexualidade ao prazer e ao desejo é deslocada em favor da prevenção dos perigos e das doenças. Nesse contexto que centraliza a reprodução, os/as homossexuais ficam fora da discussão [...] A homossexualidade é virtualmente negada, mas é, ao mesmo tempo, profundamente vigiada (p. 41).

Desse modo, ao vincular a sexualidade a um enfoque simplesmente biológico, a escola acaba negando o fato de que fatores psicológicos, sociais, históricos e culturais apresentam forte influência sobre ela e, também, sobre as formas como os sujeitos dela se apropriam.
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Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.

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