Stella Narita
Universidade de São Paulo
Procura trazer contribuições à pesquisa qualitativa, enfocando especialmente a situação de entrevista e o tratamento dos dados. Utiliza o conceito de habitus de classe de Pierre Bourdieu para debater a relação indivíduo-grupo-sociedade, problema teórico-metodológico de fundo, e tema, fundamental para a Psicologia Social.
O presente artigo se propõe a problematizar alguns aspectos teóricos e metodológicos da pesquisa de campo em Psicologia Social. As considerações que se seguem têm como fonte uma pesquisa qualitativa, de caráter etnográfico, em Psicologia Social, e seus desdobramentos, sobre movimentos e grupos sociais, por nós realizada (Narita, 2000) ao longo da segunda metade da década de 1990.1 Trata-se, portanto, de reformulações teórico-metodológicas que buscam pensar algumas das dimensões psicossociais importantes na pesquisa de campo.
Começaremos considerando aspectos relevantes da escolha e definição do objeto de pesquisa em Psicologia Social, do locus e do tempo de duração de uma pesquisa de campo. Depois, teceremos considerações sobre a coleta, a análise e o tratamento dos dados da pesquisa de campo, detendo-nos um pouco mais sobre duas importantes questões relativas à qualidade dos dados coletados: a situação de entrevista e a relação sujeito-objeto.
Objeto, Locus e Tempo da Pesquisa de Campo
A escolha de um tema geral de pesquisa precede à escolha de um objeto determinado de estudo. Um tema sempre envolve domínios conexos, interfaces de diferentes disciplinas do conhecimento. É preciso recortá-lo para definir os parâmetros e os limites por onde a pesquisa deverá ser conduzida.
A aproximação do tema participação, por exemplo, pode-se dar através de estudos de temas próximos, tais como democracia, cidadania, direitos humanos, cultura política, exclusão social, valores, violência, entre outros; sabendo-se que tanto o tema geral, quanto o objeto específico devem ter relevância teórica, e a pesquisa deve trazer contribuições para o campo de estudo, ajudando no avanço do conhecimento.
Mas, após o primeiro momento, de abertura do tema para outros temas conexos, é preciso ir delimitando o campo de interesse para escolher um objeto determinado a ser mais profundamente investigado. A título de exemplificação, em nossa pesquisa de mestrado, tendo como tema geral a participação em movimentos sociais, optamos pelo estudo dos processos psicossociais motivadores da participação.
Assim, definido o objeto, o segundo problema a resolver é onde realizar a pesquisa quando se trata de pesquisa com grupos sociais determinados. A princípio, pode-se pensar em soluções práticas, ou seja, realizar a escolha em função da comodidade espacial, elegendo uma região mais próxima do local de moradia do pesquisador. Mas a relevância histórica do locus não deve ser desconsiderada. Para tanto, em Psicologia Social, são decisivos os processos históricos e o campo social onde ocorrem os conflitos.
Em relação ao tempo de permanência em campo, questão relevante para a qualidade da pesquisa, de modo geral, é possível afirmar que quanto menos tempo se fica em campo, a visão é tanto mais superficial, e, portanto, a realidade aparece de uma forma mais harmoniosa, menos conflituosa, revelando mais o mundo das representações, das aparências. Quanto mais tempo se permanece em campo, mais torna-se possível aprofundar o conhecimento da realidade estudada e dos conflitos presentes, das ambigüidades entre os discursos e as práticas.
Em uma situação estanque de entrevista, onde o acesso à realidade dá-se apenas pelo discurso, a realidade pode aparecer mais como objeto de desejo do pesquisador e/ou do entrevistado, enquanto que no cotidiano, vivenciando as práticas junto aos sujeitos, aparecem as dissonâncias e as diferenças entre o dizer e o fazer; aparecem as tensões vividas nas relações sociais.
Definidos o objeto e o locus de investigação, é possível "sair a campo". No entanto, como penetrar em mundos por vezes estranhos, onde os conflitos podem ser intensos, sendo a confiança elemento fundamental para o desenvolvimento da pesquisa?
O pesquisador deve procurar conhecer a realidade sócio-cultural, histórica e geográfica da região na qual pretende desenvolver sua pesquisa. Em campo, no entanto, novo problema se apresenta: a necessidade de delimitar melhor o campo de atuação, tanto espacial, quanto temporalmente.
Para a aproximação ao campo e aos sujeitos, é importante que se realize uma pesquisa exploratória, na qual temos a oportunidade de estabelecer relações com diferentes sujeitos.
Coleta, Análise e Tratamento dos Dados da Pesquisa de Campo
A observação do modus vivendi dos indivíduos pertencentes a determinado grupo social pode alcançar grande complexidade quando realizamos um estudo etno-gráfrico. Esse tipo de investigação implica investimento qualitativo-subjetivo por parte do pesquisador para estar presente e conviver com o grupo – objeto de estudo – por determinado período de tempo.
Segundo Schmidt e Mahfoud (1993, p.294), "a Psicologia Social, entre outros objetivos, busca compreender os fenômenos sociais desde o ponto de vista da experiência do indivíduo em seu contexto sócio-cultural". E uma via de acesso privilegiada à experiência do indivíduo é o relato oral. Porque, conforme esses autores, no relato oral, os elementos diversos e heterogêneos que dão corpo à experiência encontram uma forma única, singular e integrada de expressão e comunicação.
Podemos utilizar diferentes técnicas para ter acesso aos relatos orais – Discurso Livre, História de vida, Depoimentos – coletados por meio de entrevistas abertas, semi-dirigidas ou mais estruturadas, mas é muito enriquecedor iniciar a entrevista pelo Discurso Livre. Pois, através do Discurso Livre podemos identificar o que os sujeitos expressam como sendo mais significativo no momento da entrevista. Segundo Rodrigues, a opção pelo discurso livre permite "dirigir o menos possível o material produzido e ao mesmo tempo analisar a mensagem de um ponto de vista estrutural e profundo" (Rodrigues, 1978, p.53). Sendo o primeiro momento da entrevista, é o entrevistado que coloca o tempo, o ritmo e os temas que o mobilizam.
Outro recurso de entrevista que permite acesso a conteúdos profundos do indivíduo é a História de vida. Por meio da história de vida do indivíduo, podemos conhecer a história do tempo e do espaço em que ele vive. As histórias política, econômica, social e cultural aparecem de alguma maneira nas histórias de vidas, em forma de perdas, angústias, conquistas, esperanças.
As particularidades de cada história compõem determinada história social e coletiva dos sujeitos em determinado momento e, mais especificamente, a história de um grupo social do qual o indivíduo faz parte. Mesmo sem ter consciência, o indivíduo pertence a determinado grupo social, embora muitas vezes não haja "pertença", sentimento de pertencimento, de participação.
Nesse sentido, para entender a história de vida individual e coletiva, não necessitamos confrontar os discursos, porque não se trata de obter uma verdade totalizadora, mas sim compreender a pluralidade que compõe o conjunto de histórias. Compreendendo-se por dentro a história de cada um, percebemos parâmetros (compartilhados pelo grupo) por onde o sujeito constrói sua realidade e sua identidade.
Percebemos, pois, que a história de vida tem como base a condição do grupo social; assim, as biografias individuais devem ser entendidas a partir da posição que o indivíduo ocupa no espaço social. Daí a importância de o pesquisador conhecer as diversas posições sociais para perceber o complexo campo das relações sociais, a partir de diferentes lugares e olhares. Porque, dependendo da posição que o indivíduo ocupa, é possível captar a realidade de determinada maneira; e vivenciar e pensar situações impensáveis para pessoas que ocupam outras posições sociais.
Mas, se tanto o discurso livre quanto a história de vida se apresentam como modalidades de entrevista que permitem acessar conteúdos profundos, também é importante, em determinado momento, apreender alguns dados para se efetuar uma comparação mais quantitativa. Nesse sentido, dados como condição de escolaridade, ocupação, renda familiar, religião, estado civil, constelação familiar, mudanças (econômicas, culturais, migrações), que porventura não tenham aparecido por meio das outras técnicas de entrevista (vocacionadas a apreender mais o campo do universo simbólico ou sócio-cultural – as "disposições subjetivas" que expressam valores, crenças, percepções) podem ser coletados através de um roteiro de apoio. Também se pode utilizar questionário para realizar essa tarefa, mas mais qualitativamente esses dados podem ser colhidos por dentro da entrevista, também na forma de "narrativa". Assim, essas informações podem ser obtidas com maior riqueza de dados. Ao invés de simplesmente se perguntar qual a religião do sujeito, e obter uma resposta formal e às vezes não verídica, podemos conhecer a história da religiosidade do indivíduo, as crenças, as mudanças de credo e suas repercussões em sua subjetividade. Da mesma forma, ao invés de simplesmente sabermos se o sujeito tem o ensino primário ou o ensino médio, podemos – através da narrativa – conhecer sua vida escolar, suas dificuldades passadas e seus anseios futuros. O mesmo vale para as informações sobre ocupações. Pela história de vida é possível entrar em contato com os diferentes tipos de trabalhos realizados e com suas repercussões na formação do indivíduo. A recuperação desses dados pela memória traz a riqueza dos nexos cognitivos e afetivos que uma resposta direta a um questionário não permite alcançar. É no encadeamento próprio das falas que aparecem os sentimentos e os pensamentos relacionados com determinado evento. Mas o pesquisador pode fazer uso de um roteiro para ajudá-lo a não perder de vista certas questões quando aparecem em determinado momento da narrativa.
Agora, quaisquer que sejam as técnicas utilizadas, é fundamental o cuidado com a situação de entrevista.