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30 de setembro de 2008


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A manifestação da afetividade em sujeitos jovens e adultos com deficiência mental: perspectivas de Wallon e Bakhtin


Maria de Lourdes Perioto Guhur

Docente do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá-Pr.

 

 

Discute-se a objetivação das emoções na trama discursiva desenvolvida por jovens e adultos com deficiência mental participantes de um programa de atendimento pedagógico alternativo. Como recurso metodológico utiliza-se na construção dos dados a análise microgenética de episódios de curta duração, episódios recortados da dinâmica interativa da qual participavam os sujeitos. Os resultados obtidos evidenciam formas diferenciadas de inter-relações se concretizando, a exteriorização das emoções sendo mediada por linguagens simbólicas, tais como aparecem referenciadas em Wallon (como função adaptativa e comunicativa) e em Bakhtin (como função mediadora e ato de significação), autores fundamentados na matriz epistemológica do materialismo histórico dialético.


1 INTRODUÇÃO

Quando se trata de pontuar, num quadro geral de desenvolvimento, as características mais comumente atribuídas a pessoas com deficiência mental, as que mais se sobressaem são aquelas que explicitam aspectos da dimensão afetiva das condutas, sendo comum extrair tais características de estudos e análises a partir de modelos diversos1. Nestes estudos e análises o próprio déficit cognitivo é apontado como o fator que mais contribui para a ocorrência de fenômenos que podem se expressar de forma negativa nos relacionamentos interpessoais. Ele é visto como incidindo sobre a apreensão do sentido das experiências cotidianas e distinguidos não só como moduladores de uma forma especial de constituição e desenvolvimento da personalidade, como também pela maioria dos limites ou dificuldades que reverberam no âmbito dos relacionamentos interpessoais, em especial nas formas de exteriorização das emoções, componente fundamental das condutas afetivas.

Como conseqüência, estaria a pessoa com deficiência mental exposta a um número maior de situações emocionais conflituosas, o que a levaria a evidenciar, além de sentimentos de frustração e de inadequação pessoal, devido à ausência de habilidades assertivas alternativas, dificuldades em controlar reações impulsivas e lidar com fontes de tensão de origem diversa. Inconscientemente incorporadas a outros traços da personalidade, tais reações acabariam repercutindo, ao longo das várias idades, em desempenhos emocionais e sociais negativos, a maioria marcada pela inadequação dos relacionamentos e por um certo mimetismo afetivo nos comportamentos e condutas observadas.

Quando se pensa, entretanto, em adensar essa caracterização apenas delineada, faz-se necessário considerar, além das razões históricas dos próprios modelos teóricos que explicam dessa maneira as condutas afetivas de pessoas com deficiência mental, o fato que entre estas pessoas (tanto quanto entre as que apresentam outras necessidades especiais ou entre as pessoas normais) existem inúmeras diferenças de condutas e comportamentos. Tais diferenças podem ser derivadas quer da própria dimensão biológica individual, quer do contexto psicológico e social; mas sem dúvida, em suas diferentes manifestações, elas expressam marcas culturais, tenham sido constituídas como capacidades, dificuldades, possibilidades, limitações2.

Olhando, portanto, numa outra direção, constata-se que existem estudos e trabalhos que buscam orientar suas análises de um ponto de vista mais totalizante, os relacionamentos interpessoais de pessoas com deficiência mental sendo entendidos como historicamente construídos, da mesma forma que os das pessoas que apresentam desenvolvimento normal. Partem da idéia que as experiências de vida propiciadas a estas pessoas no decorrer da infância e adolescência, e socialmente mediadas, são mais definidoras de sua capacidade e/ou incapacidade de desenvolver relações pessoais afetivas, do que a própria condição da deficiência em si. E isto mesmo reconhecendo não estar retirada, na constituição da subjetividade destes sujeitos e em sua participação na trama das interações sociais, a influência do caráter funcional deficitário, mas não definitivo, de aspectos ligados ao desenvolvimento cognitivo na manifestação das condutas pessoais, o que significa acreditar que tal desenvolvimento pode ser alterado3.

Adentrando o escopo desta discussão, e no intuito de contribuir à reflexão, apresenta-se neste texto um estudo realizado com jovens e adultos com deficiência mental. Nele buscou-se apreender a forma como pessoas com esta condição de desenvolvimento objetivam suas emoções nas manifestações corporais expressivas e em tramas discursivas, a problemática se desdobrando nas seguintes questões:

    1. Em situação de grupo, como seriam os recursos e/ou instrumentos usados por pessoas com deficiência mental para expressar suas emoções, em termos de serem capazes de produzir sentidos?

    2. Nos processos dialógicos, em que a emoção se evidencia e se exterioriza simbolizada como manifestação corporal ou como palavra, que papel desempenha o Outro nas interações, no jogo enunciativo?

Visando, senão responder a tais indagações, ao menos examiná-las com um olhar cuidadoso e atento, delineou-se um cenário teórico alternativo àquele apresentado inicialmente. Dele participam Wallon e Bakhtin4, autores cujas propostas, se bem que não tenham sido elaboradas para explicitar fenômenos relacionados à categoria da deficiência mental, não obstante permitem realizar uma aproximação com a problemática antes exposta e observar, via análise, como suas vozes se misturam num fundo em que outras vozes ressoam, marcadas por outros contextos e indagações. Supõe-se que à luz de suas idéias seja possível identificar formas extremamente ricas e diferenciadas de inter-relações sociais concretizando-se, as manifestações afetivas sendo mediadas por linguagens simbólicas, como as que aparecem como função adaptativa e comunicativa no primeiro autor; e no outro, como função mediadora e ato de significação, que se efetiva na produção de sentidos.

Os dados que compõem o estudo foram construídos no âmbito de um programa educativo que oferecia atividades pedagógicas alternativas a pessoas com deficiência mental, oriundas de instituições e escolas especiais da comunidade. Em tal contexto realizou-se uma análise microgenética de episódios interativos de curta duração, no intuito de (1) caracterizar a forma como sujeitos participantes do programa exteriorizavam suas emoções nos relacionamentos interpessoais; e (2) identificar a natureza dos recursos e/ou instrumentos simbólicos por eles utilizados. Todo ao longo do processo buscou-se colocar em prática a orientação de Smolka e Góes (1995, p. 11), quando se referem à análise microgenética: examinar "passo a passo, o transcorrer de uma atividade e procurando-se captar mudanças de qualidade das ações dos sujeitos em função do jogo de mediações presentes e das condições de produção".

 

1.1 AS EMOÇÕES COMO FUNÇÃO PLÁSTICA E ATO DE SIGNIFICAÇÃO: WALLON E BAKHTIN

No campo da psicogenética5 de Wallon (1963a, 1971; 1978; 1982, 1990), as emoções são vistas como exercendo importante papel na adaptação do indivíduo ao meio, pois que, no contexto das relações interpessoais, articulam a função tônico-postural às disposições afetivas e imprimem às manifestações fisiológicas, a função de expressão. Situam-se elas nos primórdios da sociabilidade da criança e se constituem numa das formas de exteriorização da afetividade, a primeira; as demais sendo o sentimento e a paixão. Por outro lado, elas também abarcam conjuntos de atitudes e movimentos que se correspondem mutuamente e expressam indivisibilidade entre as disposições psíquicas e as circunstâncias do meio, as quais, em certos momentos, podem desencadear a própria emoção.

Entende-se, assim, ser a emoção a forma biológica sob a qual se objetiva a afetividade, a sua manifestação sendo exercida como instrumento de adaptação a um meio que pode ser transformado em benefício próprio mediante a realização de uma atividade proprioplástica, quer dizer, uma atividade de natureza "essencialmente plástica e de expressão" (WALLON, 1971, p. 150). E isto já se manifesta desde o início da vida, quando, ainda de forma indiferenciada e numa espécie de mimetismo, a emoção emerge subjacente à consciência da criança, na troca de signos, gestos, olhares, caretas, risos, elementos que expressam sentimentos de aceitação ou de recusa do Outro: "são simples atitudes, às vezes muito sutis, modificando a expressão do rosto, das mãos ou do corpo no seu conjunto" (WALLON, 1963a, p. 63).

Perspectivando desta maneira a manifestação das emoções nas condutas afetivas de pessoas com deficiência mental, presume-se que a mesma ocorra, como aliás para todas as demais pessoas, mediante a participação de elementos que pertencem às diferentes sensibilidades, elementos que interligados pelas variáveis circunstâncias do meio (ideológicas, sociais, valorativas, culturais), manifestam-se de forma seletiva com o concurso da maturação funcional. Em quaisquer que sejam os casos, a discriminação e transferência de estímulos são sempre possibilitadas pela atuação do córtex cerebral que analisa, combina e diferencia as impressões fornecidas pelo meio, compõe e modifica as estruturas funcionais, num jogo em que se alterna um movimento de diferenciação e de fusão com pessoas, objetos e situações. Trata-se de movimento que se espraia para além da evolução afetiva da pessoa; ele se estende também ao aspecto intelectual. É o que pretende Wallon (1978, p. 149-150):

    [...] As influências afetivas que rodeiam a criança desde o berço não podem deixar de exercer uma ação determinante na sua evolução mental. Não porque originem completamente as suas atitudes e as suas maneiras de sentir, mas, pelo contrário, precisamente porque se dirigem, à medida que eles vão despertando, aos automatismos que o desenvolvimento espontâneo das estruturas nervosas mantêm em potência e, por seu intermédio, às reações intimas e fundamentais. Assim se mistura o social com o orgânico.

Nas etapas e/ou estágios desta psicogênese, ocorre uma sucessiva alternância de reações, os determinantes das condições de sua realização e integração (ações, situações e atividades) se colocando influenciados por duas dimensões essenciais ao desenvolvimento do psiquismo humano: a afetividade (motricidade tônico-postural), orientada ao mundo social, à construção do eu, e responsável pelas atitudes, as posturas, as mímicas; e a inteligência (motricidade tônico-cinética), orientada ao mundo físico e aos objetos, e responsável pela mudança da posição do corpo no espaço. Dado que nenhuma destas dimensões se manifesta isoladamente ou sem a mediação social nas diferentes etapas/estágios, condições particulares se fazem necessárias à elaboração dos esquemas funcionais e à orientação de atos e condutas que permitem ao indivíduo realizar a adaptação e atuar no mundo de modo significativo. Tem-se, como exemplo, as formas culturais de atividade, as quais introduzem nas condutas do indivíduo os motivos de consciência, deles derivando as manifestações expressivas. São estes motivos que, conectados às demais sensibilidades, retiram das atitudes o que cada emoção tem de específico.

Em função deste fato, acredita-se que o comportamento emocional pode ser diretamente observado, desde que as disposições internas ou os fenômenos orgânicos que nele intervêm (suscitados pelo tônus muscular que recebe das sensibilidades exteroceptivas, interoceptivas e proprioceptivas os estímulos que nascem no organismo e que a ele retornam), sejam apreendidos quando de sua exteriorização nos meios de expressão (gestos, movimentos, posturas, mímicas faciais, elementos vocais como o riso, o choro, a tonalidade). Entende-se, ainda, que, ao relacionar a vida afetiva com a intelectual, o autor reafirma que os instrumentos (imitação, representação, simbolização, linguagem) necessários à objetivação destas duas dimensões, são comuns e constituídos no meio humano; da mesma forma, ao situar a emoção na origem da linguagem e da atividade representativa, ele a torna a condição primeira das relações interindividuais, o elo vital que liga o sujeito à vida social. De tais proposições decorre, que:

    1. sendo as emoções, e suas flutuações, acompanhadas pela função tônica (WALLON, 1982) desde o início e no decorrer da vida, função que modula as manifestações expressivas, elas circunscrevem fenômenos individuais orgânicos e outros estados internos. Quer dizer, elas provocam na pessoa uma espécie de revolução orgânica que pode se manifestar de forma intempestiva (com alterações viscerais, metabólicas, respiratórias), subjetiva, direta e efêmera, e inclusive podem causar regressão em termos do funcionamento cognitivo;

    2. sendo as emoções reconhecidas como atividade proprioplástica (WALLON, 1971, 1982), isto é, como tendo capacidade de modelar o corpo, de fazê-lo revelar as sensibilidades determinantes da fluidez ou rigidez dos gestos e ações, elas se tornam não só visíveis, como contagiosas de indivíduo a individuo, propagando-se no meio humano de uma maneira instantânea e provocando entre as pessoas coesão e comunhão de sensibilidades, pela identidade de comportamentos e ações.

    3. sendo que as fontes de expressão das emoções se diferenciam e evoluem, tornando-se mais complexas com o amadurecimento do sistema nervoso e a contínua mediação do meio sócio-cultural, ocorre de as estimulações orgânicas cederem lugar às imagens, aos signos, às representações e impressões subjetivas, transformando as manifestações emocionais em nuances mais intelectivas.

Ainda na tarefa de delinear a forma de manifestação da afetividade nos processos interativos, pleiteia-se que esta pode ser também apreciada num outro nível simbólico, quer dizer, pode ser evidenciada sob uma outra forma de expressão que a corporal, no caso, na palavra. Aqui adentramos a concepção enunciativo-discursiva de Bakhtin (1997a; 1997b), segundo a qual a interação verbal ocupa lugar de destaque. Enquanto fenômeno social, ela permite que pessoas expressem a sua subjetividade nos relacionamentos interpessoais (idéias, significados, sentidos, percepções, expectativas, necessidades, sentimentos, emoções). Na interação verbal encontra-se implícito o conteúdo da consciência humana, que se torna real e se concretiza num elo contínuo e ininterrupto, em que palavras surgem e vozes ganham sentido, à medida que pessoas entram em contato, em interação.

Fala-se aqui da dialogia, de enunciações entre sujeitos que confrontam e assumem, uns, as palavras e expressões de outros; de vozes em contato na vivência da alteridade, na aceitação da diversidade, na posição de acordo e/ou estranhamento, no reconhecimento do outro, de seus dizeres, condutas, sentimentos, emoções. No processo dialógico, às falas e às interlocuções se "amarram" as mais variadas formas de expressão (música, artes, dança, teatro), sempre associadas às atitudes, gestos, movimentos, posturas corporais, mímicas faciais, elementos vocais (como o riso, o choro, a tonalidade de voz), enfim, a toda uma massa de reações "com valor semiótico" (BAKHTIN, 1997a, p. 52). Estes diferentes meios/instrumentos, constituídos em concomitância com os conteúdos do psiquismo, podem ser reveladores de estados subjetivos, pois que, significam as disposições afetivas que marcam as condições da vida do indivíduo.

Neste movimento de estruturação do enunciado, entende-se que a significação dada à palavra usada para singularizar o objeto do enunciado pode ser oralmente interpretada com diferentes matizes (tom caloroso, deferente, irônico, frio, alegre, prazeroso, tristonho), de forma tal que revele a relação emotivo-valorativa do interlocutor com o referido objeto. Conforme Bakhtin (1997a, p. 134), "quando exprimimos os nossos sentimentos, damos muitas vezes a uma palavra que veio à mente, por acaso, uma entoação expressiva profunda", o que nos permite apreender o não dito de um enunciado, isto é, o sentido, a subjetividade, a emotividade.

Como se vê, o enunciado é construído intencionalmente a cada vez e de forma tal a marcar não só o significado de um dado momento, como o engajamento dos interlocutores em expressar no diálogo suas necessidades, desejos, impulsos, frustrações, aspirações, afetos, emoções. Por isso, diz-se que a compreensão da enunciação é determinada não só pela relação existente entre pessoas que se falam, como pelo modo como esta relação reflete os acentos da entoação e se expressa nas condutas afetivas juntamente com outras marcas sociais, como os gestos, os olhares, as mímicas, os sorrisos, os movimentos corporais.

À medida, portanto, que a atividade mental se concretiza, aprofundada e alargada com o auxílio dos signos, ocorre a passagem qualitativa da atividade mental interior (cognição) para a sua expressão exterior (afetividade), com o retorno modificado do conteúdo ao pensamento, a este modelando e dirigindo a orientação. Como conseqüência, constituem-se os enunciados como elos que refletem uns aos outros mutuamente: refratam lembranças, respondem a necessidades, expressam sentimentos e emoções, enfim, incorporam, refutam e polemizam ecos de outros enunciados. É o que diz Bakhtin (1997a, p. 113):

    Toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige para alguém (...) Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra se apóia sobre o meu interlocutor. (destaques do autor).

Retoma-se a idéia do autor de que a palavra não traz em si mesma expressividade alguma ou dimensão qualitativa; nem comporta sentidos, significados, emotividade ou avaliação. Estas características são geradas em concomitância ao uso ativo das palavras no contexto concreto de um enunciado que nelas inocula a sua expressividade, ao mesmo tempo em que singulariza a individualidade dos locutores no conjunto dos valores sociais que os circundam. As palavras não têm autor, não pertencem a ninguém; elas "designam especificamente a emoção, o juízo de valor: 'alegria, 'aflição', 'belo', 'alegre', 'triste'(...)" (BAKHTIN, 1997b, p. 311).

Enriquecidas, entretanto, por um conjunto de gestos com valor de signo, as palavras traduzem o discurso interior, a expressividade emotivo-valorativa do locutor num dado contexto. Podem despertar, no outro, uma atitude responsiva ativa (raiva, ressentimento, negação, alegria, simpatia, tristeza), mediante o estabelecimento de relações entre o que foi dito, o que foi percebido e o próprio objeto do sentido, quando se dá a apreensão concomitante do sentido do enunciado, de seu significado contextualizado. Todos esses aspectos, enfatiza-se, envolvem propriedades que caracterizam a elaboração da linguagem, singularizando aquilo que existe de humano no indivíduo, tenha ele a condição de deficiência mental, ou não.

 
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