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Conhecimento - Subjetividade e verdade no último Foucault


30 de setembro de 2008


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Cesar Candiotto


A constituição do sujeito na investigação do último Foucault geralmente é conhecida pela perspectiva de sua estética da existência. Tal abordagem deve-se sobremaneira à leitura dos dois últimos volumes de Histoire de la sexualité (1984). No entanto, o presente artigo aponta que nos cursos no Collège de France intitulados Subjectivité et verité (1981) e L'herméneutique du sujet (1982) outra leitura pode ser elaborada. A relação entre subjetividade e verdade evidencia-se como central em seu pensamento e seus desdobramentos são apresentados a partir das diferenças estabelecidas entre filosofia e espiritualidade, das articulações entre cuidado de si e conhecimento de si, conhecimentos úteis e inúteis, cuidado de si e conversão a si, ascese e verdade.


Introdução

O pensamento do último Foucault tem sido freqüentemente caracterizado pelo seu viés estético, precisamente, como estética da existência. A constituição do sujeito ético é pensada como efeito das técnicas de si que objetivam a condução de uma vida bela. Essa identificação entre o bom e o belo, entre o ético e o estético deriva naturalmente dos gregos. Pensadores como Platão, Xenofonte e Epicuro afirmam ser a ética condição da estética, o belo sendo alcançado como conseqüência da busca pelo bem. Ocorre que no imaginário individual e coletivo dos modernos inexiste a dependência entre ética e estética. Esta última é pensada como realidade autônoma, descomprometida em relação ao bem e ao mal. Daí a dificuldade, apontada por Pierre Hadot, de tratar da constituição do sujeito ético a partir do critério da estética da existência, como quer Foucault. Para Hadot (2002a, p.308), em lugar de apontar a constituição antiga do sujeito pela clave da cultura de si na qual a estética é relevada, melhor seria abordá-la em termos de transformação, transfiguração, "ultrapassagem de si".

No presente ensaio, sustenta-se que Foucault não ignora ser a transformação da maneira de viver algo fundamental para a constituição antiga (e um desafio também para os modernos). Além disso, a observação de Hadot a respeito de Foucault seria totalmente desnecessária se ele acentuasse na última etapa do pensamento de Foucault a problematização da subjetividade e sua relação com a verdade. Subjetividade que aqui se refere não à identificação com o sujeito como categoria ontologicamente invariável, mas a modos de agir, a processos de subjetivação modificáveis e plurais. Nesse sentido é que também Foucault entende a constituição do sujeito antigo como ultrapassagem de si.

Além de diversas manifestações nos Dits et Écrits, volume IV, a relação entre subjetividade e verdade é problematizada no curso Subjectivité et verité (1981) e L'herméneutique du sujet (1982) e difere da maneira como tem sido tradicionalmente tratada pela filosofia.

Na perspectiva filosófica tradicional, de Platão a Kant, passando por Descartes, a articulação entre subjetividade e verdade parte das seguintes questões: como e em que condições é possível conhecer a verdade? Como é alcançável o conhecimento legítimo a partir da experiência do sujeito cognoscente? De que modo quem realiza tal experiência reconhece que se trata de conhecimento verdadeiro? Em suma, o problema filosófico da articulação entre subjetividade e verdade postula ser inaceitável a existência de verdade sem que a preceda o sujeito puro a partir do qual ela é considerada verdadeira.

Michel Foucault procura tomar distância de tais questões, abordando a articulação entre subjetividade e verdade pelo viés histórico. Nesse caso, as perguntas passam a ser outras. Para começar, que relação o sujeito estabelece consigo a partir de verdades que culturalmente lhe são atribuídas? Tal interrogante parte do fato de que em qualquer cultura há enunciações sobre o sujeito que, independentemente de seus valores de verdade, funcionam, são admitidas e circulam como se fossem verdadeiras. Daí outra questão: considerando o que são tais discursos em seu conteúdo e em sua forma, levando em conta os laços entre obrigações de verdade e a constituição de subjetividades, que experiência os seres humanos fazem de si próprios? Decorre que em vez de examinar as condições e possibilidades da verdade para um sujeito em geral, Michel Foucault procura saber quais são os efeitos de subjetivação a partir da própria existência de discursos que pretendem dizer uma verdade para o sujeito.

Um sobrevôo pela articulação entre subjetividade e verdade na investigação anterior de Foucault possibilita estabelecer diferenças significativas em relação à perspectiva filosófica, tal como ele a entende. Quando aborda jogos teóricos e científicos, ele trata das práticas discursivas cujas regularidades implicam na produção de saberes positivos sobre o homem vivente, falante e trabalhador. Em Les mots et les choses (1966), o arqueólogo toma distância da relação do homem com sua verdade para privilegiar o jogo de regras qualificado como verdadeiro que permitiu no final do século XVIII a constituição ambígua do homem na condição de objeto de saber e sujeito de conhecimentos. Quando trata dos jogos de poder em torno da loucura e do crime, respectivamente nos livros Histoire de la folie à l'âge classique (1972) e Surveiller et punir (1975), busca saber como são constituídas determinadas práticas cujos efeitos implicam a produção de discursos verdadeiros sobre a razão alienada e sobre o caráter criminoso. A constituição do indivíduo louco e do indivíduo criminoso encontra-se atrelada às práticas sociais de aprisionamento e de encarceramento que, por sua vez, acarretam a produção de sujeições.

No presente estudo, busca-se destacar a articulação entre subjetividade e jogos de verdade estabelecida pelo pensador quando redireciona sua investigação para a cultura antiga greco-romana. Na primeira metade dos anos 1980 (Foucault falece em 1984), a articulação entre subjetividade e verdade adquire novos contornos e maior clareza no seu pensamento. Ao estudar as práticas ascéticas nas escolas filosóficas greco-romanas, Foucault observa nelas uma constituição do sujeito singular. Ele deixa de ser constituído somente na imanência de práticas que o sujeitam; ao mesmo tempo, torna-se sujeito e objeto para si próprio, denotando uma subjetivação ética irredutível aos mecanismos disciplinares e às regulações do biopoder das modernas sociedades ocidentais.

A articulação entre verdade e subjetividade configura a chave de releitura utilizada por Foucault em 1984, pouco antes de sua morte.

    Através de quais jogos de verdade o homem se dá seu ser próprio a pensar quando se percebe como louco, quando se olha como doente, quando reflete sobre si como ser vivo, ser falante e ser trabalhador, quando ele se julga e se pune enquanto criminoso? Através de quais jogos de verdade o ser humano se reconheceu como homem de desejo? [Grifos nossos] (Foucault, 1984, p.13-4)

Essa retrospectiva inscreve-se no projeto amplo foucaultiano de uma história da verdade. A relação entre subjetividade e verdade evidencia-se ainda mais em sua investigação quando no curso L'herméneutique du sujet (2001) é desdobrada na diferença entre filosofia e espiritualidade, nas articulações entre cuidado de si e conhecimento de si, conhecimentos úteis e inúteis, cuidado de si e conversão a si, ascese e verdade.

 
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