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Desenvolvimento Cognitivo

Artigo por Colunista Portal - Educação - domingo, 31 de agosto de 2008

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Conceitos de Vigotski no Brasil: produção divulgada nos Cadernos de Pesquisa

 

Flávia Gonçalves da Silva I; Claudia Davis II

I Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Educação da PUC-SP
II Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Educação da PUC-SP

O objetivo desse artigo é identificar como os conceitos de Vigotski foram apropriados por autores vinculados à área da Psicologia da Educação que divulgaram seus trabalhos no Brasil, bem como suas metas e o momento em que tais idéias foram aqui utilizadas. Serviram de base para a pesquisa os artigos publicados nos Cadernos de Pesquisa - revista da Fundação Carlos Chagas -, que citavam, nas referências bibliográficas, alguma obra de Vigotski. Foram encontrados 37 artigos, entre 1971 e 2000. A produção foi organizada por década e analisada por meio de categorias construídas a posteriori. Os resultados mostram que os trabalhos que fizeram uso dos conceitos de Vigotski não avançaram suficientemente do ponto de vista teórico, ficando restritos aos processos de desenvolvimento e aprendizagem, bem como à relação entre pensamento e linguagem.

 


 

Esse artigo pretende identificar quais e como os pressupostos teórico-metodológicos de Vigotski1 têm sido utilizados por autores brasileiros e por aqueles que publicam seus trabalhos no Brasil, na área da Psicologia da Educação, assim como os objetivos dos trabalhos que utilizaram, de alguma forma, os conceitos vigotskianos e o momento histórico em que foram produzidos.

A importância de trabalhos dessa natureza está em permitir avaliar o impacto das noções de uma teoria em determinados campos de estudo: em que direções caminham as pesquisas já desenvolvidas, em quais questões as idéias têm sido mais utilizadas e em quais aspectos maiores investigações são necessárias tanto para o avanço do conhecimento científico como para o avanço prático da área. Vale mencionar que Vigotski passou a ser difundido no Brasil a partir de 1984, a primeira publicação de sua obra na língua portuguesa, A formação social da mente.

Sistematizar as idéias de Vigotski no Brasil não é um trabalho inédito. Na literatura pesquisada foram encontrados quatro autores brasileiros - Oliveira (1992), Freitas (1994), Tuleski (2001) e Duarte (2000) - que buscaram, com objetivos distintos, organizar as apropriações das idéias de Vigotski. Nenhum deles, no entanto, o fez da forma aqui proposta.

Esta pesquisa, que foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq - em nenhum momento pretendeu caracterizar-se como "estado da arte" sobre as publicações que utilizaram as idéias de Vigotski, sobretudo por uma limitação de tempo. Daí o fato de sua abrangência ter sido reduzida: investigaram-se apenas os artigos encontrados nos Cadernos de Pesquisa, que publica estudos referentes a diferentes disciplinas, como: Educação, Psicologia, Psicologia da Educação, Sociologia da Educação, Filosofia da Educação, entre outras.

 

MÉTODO

Para o desenvolvimento da pesquisa foram utilizados os números dos Cadernos de Pesquisa publicados entre 1971 e 2000. Embora a revista exista desde 1971, verificou-se que na década de 70 não existem artigos que mencionem alguma obra de Vigotski. Dessa forma, o estudo centrou-se nas décadas de 1980 e 1990, tendo em vista que, em 2001, não foram encontrados artigos que se enquadrassem no critério estabelecido. Incluiu-se todo artigo que mencionasse, nas referências bibliográficas, obras de Vigotski, totalizando 37 artigos. A seleção dos Cadernos de Pesquisa deveu-se ao fato de ser uma publicação que apresenta regularidade, tem circulação em âmbito nacional e internacional, divulga temas e abordagens de diferentes áreas do conhecimento e possui reconhecida qualidade. De acordo com a avaliação feita pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação - ANPEd (2001), o periódico foi colocado na categoria Internacional A.

Entre os artigos que se enquadraram no critério estabelecido, foram considerados os seguintes aspectos: autor, região e instituição a que o autor pertence, ano em que foi publicado, as modalidades de textos (pesquisa, ensaio ou relato de experiência), o objetivo do trabalho, a(s) obra(s) utilizada(s) de Vigotski, os conceitos de Vigotski selecionados, a forma de utilizá-los (mencionados de passagem, complementares às propostas de outros autores, comparados aos conceitos de outros autores, como fundamento da pesquisa), os autores principais que fundamentam teoricamente os artigos, o nome dado à psicologia soviética com base na proposta de Vigotski e as obras de autores da psicologia soviética que, utilizando pressupostos vigotskianos, auxiliaram a divulgar sua obra. Algumas dessas categorias foram combinadas entre si.

Neste artigo serão apresentados a origem dos textos, os seus objetivos, suas modalidades e os conceitos de Vigotski que serviram de fundamento à pesquisa. Outras categorias abordadas serão: a forma de utilização dos conceitos, as obras de Vigotski empregadas e o nome atribuído à psicologia desenvolvida pelo autor.

 

APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Em quase vinte anos de divulgação das idéias de Vigotski no Brasil, a produção de qualquer modalidade de estudos com base em suas idéias foi restrita, considerando o número de textos que preencheram os critérios estabelecidos neste trabalho. A década de 1980 foi responsável por 37,8% da produção encontrada e a de 1990 por 62,2%, observando-se, de uma década para outra, a diferença de 24,4%. É importante considerar que foi a partir do início da década de 1990 que as obras de Vigotski passaram a ser mais acessíveis. Daí a razão pela qual pouco se produziu e se divulgou, do que decorre, tanto em um caso como em outro, a dificuldade de avançar teoricamente na proposta vigotskiana.

 

SOBRE A ORIGEM DOS TEXTOS

Dos textos, 73,4% foram produzidos na região Sudeste, principalmente no Estado de São Paulo e, particularmente, na Universidade de São Paulo - USP - (26,5% incluindo os campi de São Paulo e Ribeirão Preto). A segunda região mais representada foi a Nordeste, especificamente a Universidade Federal de Pernanbuco - UFPE - com 7,6%. Uma hipótese para justificar a representatividade acentuada do Sudeste na produção dos textos refere-se à maior concentração de cursos de pós-graduação nessa região. De acordo com dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Capes - (Brasil, 2002), dos 1.590 cursos de mestrado no país e dos 920 cursos de doutorado, respectivamente 57% e 68,5% estão na região Sudeste.

 

SOBRE OS OBJETIVOS DOS TEXTOS

Com relação aos objetivos dos textos, 21,6% deles eram "estudos teóricos"; 29,8% relacionavam-se ao processo "ensino-aprendizagem"; 18,9% referiam-se à "educação infantil"; 24,3% à "formação e prática docente", e 2,7% eram relacionados à "consciência" (na década de 1990) e "discussão sobre contexto experimental" (na década de 1980).

Sobre os "estudos teóricos", 18,9% dos textos fizeram comparações teóricas entre autores (8,1% na década de 1980 e 10,8% na década de 1990, tendo aumento de 5,1% de uma década para a outra) e apenas 2,7% (na década de 1990) fizeram críticas teóricas à apropriação dos conceitos de Vigotski por parte de alguns pesquisadores brasileiros. Em relação aos estudos comparativos, o autor mais comparado a Vigotski, representando 13,5% dos textos analisados, foi Piaget. Esta comparação recorrente pode estar relacionada aos próprios estudos de Vigotski, que utilizou, entre outros autores, muitos dos trabalhos do autor suíço. A forma com a qual Vigotski utilizou os estudos de Piaget foi crítica, interpretando de maneira diferente as conclusões dos estudos deste último. O segundo capítulo da obra Pensamento e linguagem, por exemplo, refere-se às críticas que Vigotski fez a Piaget em seus estudos sobre o desenvolvimento do pensamento e da linguagem. Talvez venha daí a insistência de alguns em discutir as possíveis semelhanças e diferenças dos dois autores contemporâneos.

Assim, as idéias de Vigotski contrapõem-se, no Brasil, ao construtivismo inspirado em Piaget, que se converteu, na década de 1980, na pedagogia hegemônica do país. Por outro lado, justamente pelo fato de o construtivismo ser a pedagogia predominante e as propostas teóricas de Vigotski terem sido divulgadas mais recentemente no Brasil e serem desconhecidas por muitos, produzir textos comparando as idéias destes autores pode ter constituído uma forma, principalmente na década de 80 e início da de 90, de conhecer melhor o autor russo, bem como de divulgar seus estudos.

Não é de estranhar, portanto, que o processo "ensino-aprendizagem" tenha sido bastante abordado. Dentro desta categoria (ensino-aprendizagem), a "compreensão/desenvolvimento da escrita" foi o objetivo mais recorrente nesse tema, representando 13,5% dos textos, principalmente na década de 1980 (10,8%), em que a preocupação centrava-se nas séries iniciais do ensino fundamental devido ao grande número de alunos que aí ficavam retidos.

Ainda dentro dessa categoria, 2,7% dos textos tiveram como objetivo discutir o "significado do aprender e da freqüência escolar" e a "assimilação de conceitos" (apenas na década de 1990), além de fazerem "análises ou propostas de programas de alfabetização" (2,7% na década de 1980 e 8,1% na década de 1990, totalizando 10,8%).

Sobre o tema educação infantil, 2,7% dos textos tiveram como objetivo o "resgate da importância da atividade física no desenvolvimento infantil" (apenas na década de 1990) 10,8% discutiram a "relação com e sobre crianças em creche" (2,7% na década de 1980 e 8,1% na década de 1990), e 5,4% se referiram "à construção, à importância do brincar e às concepções de infância" (apenas na década de 1990).

Outro tema abordado nos textos, a formação e prática docente, refere-se à "produção do fracasso escolar" (2,7% na década de 1980), "formação docente" (2,7% na década de 1980 e 8,1% na década de 1990), "identidade do professor" (2,7% na década de 1980), "prática docente com relação à saúde" (abordado apenas na década de 1990 representando 2,7%) e "relações interpessoais no cotidiano escolar" (2,7% em cada uma das décadas estudadas).

Objetivos como "análise ou proposta de um programa de alfabetização", "relações com e sobre crianças em creche" e "formação e prática docente" foram os que mais se destacaram na década de 1990. Todos eles estão relacionados à situação educacional brasileira no período, que buscou deslocar o foco dos problemas da figura do aluno para outros aspectos, como o papel do professor e a relação didático-pedagógica.

A "análise ou proposta de um programa de alfabetização" cresceu em meio a tentativas do setor educacional de encontrar melhores maneiras de alfabetizar os alunos, já que as propostas da pedagogia tradicional não atendiam mais às necessidades nem do aluno nem do professor.

Os textos que trataram da "educação infantil", especificamente das "relações com e sobre crianças em creche", corresponderam às discussões culminadas com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases - LDB - em 1996. Nela, a educação infantil é concebida como etapa integrante da educação básica, fazendo-se necessário esclarecer qual a importância dessa primeira etapa da educação formal e como esta poderia auxiliar e/ou intervir no desenvolvimento do processo educacional.

Na década de 1980, também começaram as discussões sobre a relevância, para o desenvolvimento infantil, de crianças pequenas relacionarem-se com outras de mesma idade, não restringindo nem privilegiando as relações dessas crianças com adultos, notadamente com os pais. Tais discussões buscam mostrar que a creche pode ser um local educativo e não cumprir apenas a função de guarda, cuidando das crianças durante o período de trabalho dos pais.

Algumas teorias, entre elas a do apego de Bolwby, enfatizavam a importância materna nos primeiros anos da infância, postulando que esse tipo de relacionamento era necessário, inclusive na creche, para não causar "danos" ao desenvolvimento infantil. Com o crescente número de crianças matriculadas em creches e as conseqüentes preocupações de pais e educadores sobre o papel dessas instituições na educação dos filhos, pesquisas começaram a ser feitas para mostrar o valor da interação entre crianças pequenas para o seu desenvolvimento.

Vale ainda destacar que, na década de 1990, com a oficialização do construtivismo e as discussões para a elaboração da LDB, que seguiram as orientações do relatório Delors (2001) para a Organização das Nações Unidas - Unesco - , a interação com outros indivíduos passa a ser preocupação não só da educação infantil, mas da educação em geral. Basta analisarmos um dos pilares da educação, contido no referido relatório, que é "aprender a viver com os outros". Mas a concepção de viver com o outro, presente no relatório para a Unesco, é no sentido de o indivíduo aprender a resolver conflitos, aceitar diferenças, desenvolver sentimentos de solidariedade e realizar projetos em grupo.

A interação com outros indivíduos têm, para Vigotski, um outro caráter que não cumpre apenas a função de desenvolver a tolerância ou a solidariedade. Ela é uma necessidade ontológica, ou seja, é por meio da relação do homem com outros, com a natureza e com a história dessas relações, que este se humaniza.

A "formação e prática docente" foi outro assunto abordado com recorrência nos textos, mantendo relação entre a produção acadêmica e a demanda da realidade. Efetivamente, conforme apontou André (1997, 2002), cresceu o número de trabalhos sobre os processos de formação docente, como decorrência da constatação da fragilidade teórica e instrumental desse profissional.

 

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