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31 de agosto de 2008
Considerações teóricas e indicadores para avaliação da linguagem não-verbal de escolares do 1º. Ciclo do Ensino Fundamental
Iris Lima e Silva I;
Ana Cristina M. T. de Almeida I,II;
Elaine Romero III; Heron Beresford IV
I Mestranda em Ciência da Motricidade Humana - UCB/RJ
II Docente do curso de graduação em Fonoaudiologia - UNESA/ RJ
III Dra. em Psicologia Escolar, Profa. titular da UCB/RJ
IV Dr. em Filosofia, Professor titular da UCB/RJ, Prof. Adjunto da UERJ, Coordenador do LABFILC- Laboratório de Temas Filosóficos em conhecimento Aplicado - UCB/RJ
Essa visão reproduzida e perpetuada nos cursos de formação de professores levou-os a assimilar e colocar em prática essa dicotomia. Consequentemente nas escolas de hoje ainda predomina um modelo tradicional de classe, no qual o corpo é ignorado na sua linguagem gestual que, na maioria das vezes, traduz o que não é verbalizado pelo aluno: emoções, dificuldades e conflitos existenciais. Esta prática educativa é preocupação contemporânea da política educacional brasileira, que nos Parâmetros Curriculares Nacionais firma objetivos no sentido de humanizá-la e diversificá-la. Isso porque, hodiernamente, se reconhece que alunos na faixa etária correspondente ao 1º. Ciclo do Ensino Fundamental comunicam-se através de uma grande diversidade de canais e que, em geral, apresentam alguma dificuldade de se expressarem com proficiência somente através da linguagem verbal. No entanto, ao fazerem-no utilizando-se de outras formas de linguagem, podem não ser devidamente compreendidos por seus educadores que não possuem, em alguns casos, referências teóricas ou indicadores para avaliar as condutas e comportamentos motores expressos através da referida linguagem. Sendo assim, este estudo teve como objetivo apresentar algumas considerações teóricas acerca da problemática da linguagem não verbal, inserida no contexto da comunicação humana, bem como estabelecer alguns indicadores para avaliação da linguagem gestual e afetiva dos alunos do 1º. ciclo do Ensino Fundamental, que permitam uma melhor compreensão das dificuldades daqueles escolares. Tais considerações indicaram que a linguagem não-verbal, constituída pela aparência física, movimentos e/ou outras expressões corporais, desempenham um importante papel na comunicação humana, no relacionamento social e no processo cognitivo e que, algumas situações que se desenrolam em classe como o riso, os movimentos das mãos, o olhar, os gestos arcaicos, os comportamentos de combate e a descarga de adrenalina, podem servir de indicadores ou parâmetros para se interpretar a linguagem não-verbal ou corporal dos alunos, possibilitando à escola constituir-se como um lugar que leve em conta o corpo; um corpo-indivíduo que está ali a revelar sentimentos indizíveis, pulsões e contradições próprios do seu fazer-se, do seu inserir-se no mundo.
Introdução
As questões que envolvem o conhecimento acerca do Homem e/ou do seu corpo foram, ao longo da história e até os dias atuais, tratados a partir do quadro de referências das ciências naturais, cujas leis, segundo Santos (2001, p. 16) são "[...] um tipo de causa formal que privilegia o 'como funciona' das coisas em detrimento de 'qual o agente' ou 'qual o fim das coisas'", pressupondo que o mundo da matéria é uma máquina, um mundo estático e eterno a flutuar em um espaço vazio.
De acordo com Dartigues (1984, p.16), a Ciência que se firmou a partir do Séc. IX, fundamentou-se no positivismo " [...] para o qual o conhecimento objetivo parece estar definitivamente ao abrigo das construções subjetivas da metafísica."
Dessa forma, fundado no pensamento moderno, se estabeleceu um paradigma dominante para se interpretar desde o universo até o organismo humano através de "leis naturais", considerando que o corpo se limita a um conjunto de órgãos e sistemas interligados por leis biofísicas (mecânicas, fisiológicas, bioquímicas e etc), podendo dele se fazer previsões de causa e efeito. Com isto, fortaleceu-se a dicotomia corpo/ alma instaurada a partir das idéias de René Descartes, para quem o pensamento (res cogitan) e o mundo físico (res extensa) coexistem no Homem, porém como substâncias independentes e separadas: a alma identificada ao pensamento e ao cérebro e o corpo seccionado em partes didaticamente inteligíveis.
Guedes (1995, p. 5), ao se referir a essa idéia cartesiana comenta que sua teoria influenciou os estudos do corpo, enraizando a compreensão mecanicista da sua anátomo-fisiologia, concebendo-a como máquina similar a operações matemáticas, ou seja, onde a soma das partes resultaria no todo.
Segundo Beresford (1999, p. 16), essa dicotomia uma vez estabelecida " [...] atravessa incólume a era moderna com saúde suficiente para, ainda hoje, carrear influências de toda sorte".
Parte dessa influência pode ser observada nas escolas nas quais, de acordo com Girard e Chalvin (2001, p. 14), predomina ainda um modelo tradicional de classe no qual prevalece a linguagem do silêncio e da imobilidade, ignorando o corpo como significante daquilo que não é verbalizado, mas que traduz as emoções, dificuldades e conflitos do aluno. Para os autores:
Na linguagem comum, o corpo é entidade orgânica, visível. Trata-se do corpo físico: volume no espaço, estrutura móvel capaz de se dobrar, de se estender, de se fechar, de se abrir. É a parte material, o aspecto exterior, considerado sobretudo a partir de seu funcionamento interior.
Girard e Chalvin (2001, p. 41) advertem ainda que a dificuldade de se levar em conta a linguagem do corpo deve-se ainda ao fato de o ser humano poder também se expressar de maneira mais elaborada graças à linguagem verbal. Os autores esclarecem que:
Este Dom particular leva-o a esquecer a linguagem do corpo e a perder as preciosas informações continuamente fornecidas por ele. [...] O professor fala muito (talvez demais?) para transmitir sua mensagem pedagógica e às vezes é surpreendido por algumas atitudes que o deixam sem ação e o envolvem em conflitos inesperados. Desconhecendo a linguagem do corpo, o professor não se dá conta do que acontece de maneira não-verbal na classe, entre as mensagens do seu corpo e as dos seus alunos.
Numa tendência contemporânea, no entanto, o corpo é visto como um sistema que integra tanto aspectos biofísicos e biopsicossociais, que coexistem de forma influente. Estes aspectos interatuam e interagem simultaneamente designando a cada modificação em um deles, uma mudança correspondente no outro (WEIL ; TOMPAKOW, 2002, p. 27).
O corpo, é assim, uma unidade orgânica, que expressa toda a experiência existencial humana. Nesse sentido Tenenbaum (1993, p. 2) afirma que o corpo é "[...] muitas vezes instrumento de expressão da vida emocional de seu/sua dono/dona".
Todas as possibilidades de manifestação da mente, do espírito e do corpo, são expressas através do ato motor. O pensamento e a expressão constituem-se simultaneamente; a aquisição simbólica deriva, em grande parte, dos atos através dos quais a criança opera. Inicialmente o gesto e o movimento resumem a ação para posteriormente mediarem e permitirem o surgimento da expressão. Segundo Wallon (1989, p. 218), "assim, mesmo a descrição puramente gestual, ao mesmo tempo em que substitui a fórmula verbal ou conceitual ainda utilizável e é-lhe, de algum modo, contrária, pode também tornar-se um instrumento de seu aparecimento".
Desde os primeiros momentos de vida, o ser humano denuncia suas necessidades e futuras intenções por meio de movimentos espontâneos, naturais e instintivos, que envolvem a percepção dos sentidos (visual, tátil, auditivo, gustativo e olfativo) e a organização perceptiva das estruturas psicomotoras de base (manipulação, locomoção e tono postural). Para Barros (1998, p. 37) "[...] o movimento e o pensamento são integrados ao trabalho global do corpo, atuando como meio de relação e comunicação através de gestos e movimentos em total integração do indivíduo com o meio", existindo uma natureza corpórea na criança, a qual deve ser respeitada.
As formas de comunicação assumem, em geral, duas funções: a função verbal e a função não-verbal, que interatuam e se inter-relacionam conduzidas pelo pensamento. Segundo Rector e Trinta (1999, p. 21), "é possível dizer que falamos pela atividade voluntária de nosso aparelho fonador; porém, ao participar de uma interação social, nós o fazemos com todo o nosso corpo."
As formas de linguagem, verbal e não-verbal, representam um código próprio de cada cultura ou meio social e são representadas, respectivamente, pelas palavras e pelos gestos, poses, olhares, posturas e expressões faciais (RECTOR; TRINTA, 1999).
De acordo com Bee (2003), as crianças usam ainda a linguagem para ajudar a controlar ou monitorar o próprio comportamento, o que é característica da faixa etária delimitada em nosso estudo, a qual ainda encontra-se em aquisição dos padrões lingüísticos estabelecidos pelo meio em que se insere e, portanto, adapta a forma de sua linguagem para comunicar-se melhor.
A linguagem não-verbal configura-se, portanto, como um significativo meio de comunicação. É a forma de comunicação mais enraizada no nosso passado biológico, sendo também a mais primária o que, muitas vezes, faz com que ela contradiga o que está sendo dito por palavras. É a representação natural das atitudes e ações do Homem, revelando os sentimentos e percepções que o indivíduo experimenta num momento (DAVIS, 1979). Por sua espontaneidade e difícil controle, é vista como verdadeira, exprimindo intenções que na maioria das vezes não se deseja ou se pode exprimir.
Representa a denúncia das nossas vontades, dos desejos contidos, muito embora, diante da expectativa de condutas sociais de um grupo, possa se desenvolver um comportamento no qual se tenta esconder essas verdadeiras intenções. Trava-se aqui uma batalha entre aquilo que representa os "desejos do corpo" e a espera da "boa conduta".
Sucumbir aos "desejos do corpo" pode gerar conflitos, mas, conter-se, se possível, pode significar o domínio dos nossos corpos pelos padrões estabelecidos na sociedade, ou ainda, frustrações por carências e necessidades não reveladas, por desejos calados.
Para Bloch (2002, p. 42) a criança é um ensaio que se move, tendo como carência a necessidade de ser ouvida, percebida e principalmente aprovada. "É o ouvinte que nos faz melhor; é ele que, mesmo silenciosamente, alimenta a nossa necessidade e qualidade de comunicação."
Neste âmbito, se a criança é impedida de falar, o corpo apresenta-se como um grito silencioso, lançado diante de todas as barreiras, todos os obstáculos que a ele se opõem, sendo esta resposta corporal a maior busca do relaxamento (GIRARD; CHALVIN, 2001). Ressaltamos então que as crianças aprendem o mundo por meio do corpo; dando grande importância a suas sensações e emoções sendo necessário para elas, o movimento.
Nessa faixa etária, as crianças não possuem ainda tônus postural suficiente para permanecer sentados de maneira voluntária e obrigatória, o que dificulta a correspondência exigida pelo professor.
Segundo Girard e Chalvin (2001) as aprendizagens mais abstratas e intelectuais da criança ocorrem graças ao movimento, à orientação e à espacialização. Neste sentido, Bloch (2002) reforça que lógico seria impulsionar as condições de tempo, espaço, postura, equilíbrio e potencialidade corporal, pois a criança só consegue aprender melhor quando seu corpo conquista seu lugar no espaço.
Para Papalia e Olds (2000, p. 252), este período encontra-se inserido na terceira infância, sendo caracterizado pelo aperfeiçoamento das habilidades motoras. Adquirindo domínio sobre seu corpo, "as crianças tornam-se mais fortes, mais rápidas e mais bem coordenadas e obtêm grande prazer testando seus corpos e aprendendo novas habilidades."
Todavia, pode-se perguntar: Como o corpo, através de sua linguagem não-verbal expressa suas carências, suas necessidades ou seu estado de plenitude? Como são consideradas e reconhecidas as demandas não-verbais das crianças em nossas escolas? Será que na tentativa de garantir seu sucesso, mestres e professores, não os condicionam à aparente "calma" da imobilidade? Será que levam em conta as inúmeras mensagens que o corpo cansado e fatigado de seu aluno está a lhe dizer? Como compreender essas mensagens?
Existe na atualidade, uma preocupação da política pública nacional em assegurar à criança brasileira um ensino comprometido com seus aspectos humanos e existenciais. Esta preocupação com uma pedagogia mais humana transparece nos Parâmetros Curriculares Nacionais (1997b, p.13), quando estes evidenciam como um dos objetivos gerais do Ensino Fundamental proporcionar aos alunos: utilizar as diferentes linguagens - verbal, matemática, gráfica, plástica e corporal - como meio para produzir, expressar e comunicar suas idéias, interpretar e usufruir das produções culturais em contextos públicos e privados, atendendo a diferentes intenções e situações de comunicação.
Também a proposta de Ética dos PCNs, especificamente no conteúdo do diálogo, reafirma a importância da comunicação entre os homens ser praticada em várias dimensões, que vão desde a cultura como um todo, até a conversa amena entre duas pessoas.
Não há dúvida de que um dos objetivos fundamentais da educação é fazer com que o aluno consiga participar do universo da comunicação humana, apreendendo por meio da escuta, da leitura, do olhar, as diversas mensagens (artísticas, científicas, políticas e outras) emitidas de diversas fontes; e fazer com que seja capaz de, por meio da fala, da escrita, da imagem, emitir suas próprias mensagens (PARÂMETROS..., 1997a, p. 109).
Dessa forma, fomentando a reflexão sobre o corpo que interage socialmente por suas expressões, evidenciando-se a práxis-comunicativa no processo ensino-aprendizagem, neste trabalho são apresentados alguns indicadores para se avaliar a linguagem corporal de escolares do 1º ciclo do Ensino Fundamental, com o propósito de fornecer pistas para melhor compreensão das dificuldades próprias da comunicação não-verbal entre professor e aluno.
Uma melhor compreensão das mensagens corporais dos escolares em questão poderá possibilitar à escola constituir-se, não como um lugar de instrução, mas como um lugar de formação que leve em conta o corpo. Um corpo-indivíduo, considerado tanto em suas dimensões biofísicas, como afetivas, cognitivas e socioculturais, que está ali a revelar sentimentos indizíveis, pulsões e contradições, inerentes a um projeto de corporeidade dos entes alunos e professores como Seres em um mundo não humanizado, visto que a questão existencial de ser ou não ser humano, também pode ser objeto de estudo ou de interesse da prática pedagógica de uma escola contemporânea.
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