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31 de agosto de 2008
Leandro de Lajonquière
Departamento de Filosofia e Ciências da Educação
Faculdade de Educação - USP
Constata-se que boa parte dos comentadores da obra de Piaget afirma que a inteligência é originariamente de natureza individual e que, portanto, a socialização seria o efeito de um processo de evolução cognitiva. Essa interpretação substancializa a inteligência, recorre a explicações reducionistas e considera o processo de construção epistêmica como uma simples atualização de possíveis cognitivos pré-formados. Uma série de investigações tem sugerido a existência de uma interdependência causal entre as dinâmicas sociais e o desenvolvimento cognitivo, que nos alerta da necessidade de rediscutir o estatuto da interação.
Mas o que é a criança em si mesma?
Existem crianças sem relação a certos meios
coletivos bem determinados?
(Jean Piaget, Études Sociologiques).2
Parece-nos que no âmbito da psicologia da inteligência, as teses piagetianas são objeto de duas interpretações que têm se tornado hegemônicas.
Por um lado, encontramos aquela leitura que fez de Piaget o representante de uma psicologia monádica. Ou seja, aquela que, realizando uma interpretação, tanto naturalista quanto pré-formista do processo psicogenético, conclui que a inteligência é uma espécie de mônada leibniziana que evolui conforme um desígnio vitalista. Como sabemos, o próprio Piaget reagiu surpreso a essas interpretações maturacionistas.
Por outro, encontramos uma outra forma de ler os textos piagetianos que, ao contrário, acaba fazendo de nosso autor o representante de uma psicologia diádica. Assim, nesta perspectiva, a inteligência é pensada como uma mônada biológica que possui portas e janelas e acaba evoluindo na proporção da ação solicitante do meio físico e/ou social (sic). Ao nosso ver, esta interpretação, em primeiro lugar, reifica a inteligência, pois a considera uma substância interna ao organismo; em segundo, incorre num reducionismo biológico nada piagetiano, uma vez que confunde as estruturas cognitivas com as orgânicas; em terceiro, naturaliza o" coletivo", visto que degrada a dita interação com o outro em uma estimulação comportamental e, por último, reduz o processo de construção epistêmica a uma simples atualização de possíveis cognitivos pré-formados, desconhecendo, assim, a natureza constitutiva da interação. Essa leitura define, no campo da psicologia da inteligência, uma postura kantista evolutiva, uma vez que sustenta o caráter genético de uma inteligência detentora de anterioridade não só lógica quanto, principalmente, cronológica e de nível a respeito da experiência epistêmica do sujeito (Cf. Piaget, 1972b, p.82). Por sinal, na tentativa de justificar a pertinência dessa interpretação, lembra-se que o próprio Piaget (1960) declarou-se, em certa oportunidade, partidário de um kantismo evolutivo. Entretanto, mais uma vez as aparências enganam, pois, embora Piaget tenha usado essa expressão para marcar sua oposição a um empirismo à moda de Le Dantec (Cf. Piaget, 1960, p.58), suas teses psicogenéticas definem, ao contrário, uma espécie de kantismo construtivo.3 Ao nosso ver, esse kantismo evolutivo não deixa de ser mais uma versão do clássico pré-formismo psicológico que Piaget tanto criticou.
Para Piaget, o esquema mínimo de todo raciocínio pré-formista é o seguinte: há uma coisa mais ou menos já dada que se atualiza, isto é, que evolui graças ao simples contato gratificante ou frustrante com uma realidade pensada como seu exterior (Cf. Piaget, 1970b, p.20). Em outras palavras, é inerente a todo evolucionismo vitalista estabelecer um começo a partir do "conjunto de todos os possíveis" factível de concreção e rebaixar o processo construtivo a ser apenas o "conjunto das condições de ascensão." (Cf. Piaget, 1970a, p.110 e ss.).
Não há dúvidas que esse modo de raciocinar acaba se endereçando pelos caminhos que, como Piaget dizia, "não há que seguir". Em Biologie et Connaissance encontramos desmascaradas as duas "tendências naturais ao espírito ... capazes de falsear toda análise": projetar o superior no inferior e reduzir o superior ao inferior (Piaget, 1967, p.64-5). Por um lado, todos os vitalismos pré-formistas respondem, em princípio, à primeira forma de análise, inadmissível sob todos os pontos de vista, pois acarretam necessariamente a idéia de um finalismo não-cibernético e a substancialização da inteligência. Por outro, o reducionismo resulta indefensável, já que ao considerar que o superior não passa de um epifenômeno, perde de vista que "a neurologia, por exemplo, nunca explicará porque 2 e 2 fazem 4" (Piaget, 1967, p.78). Justamente, o dito kantismo evolutivo professa essas duas tendências no momento em que a reificação dos processos epistêmicos adquire a forma de um neurônio. Assim sendo, não devemos nos surpreender que alguns se imolem no moderno altar das neurociências apesar de o simpático patron ter dito que, para além dos isomorfismos, matéria de seus desvelos, "os neurônios não raciocinam" (Piaget, 1967, p.312).
Chegados a este ponto detenhamo-nos, para maior clareza, primeiro, na suposta substancialidade orgânica da inteligência e rediscutamos, depois, o estatuto da interação.
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Piaget nunca confundiu as estruturas intelectuais com as orgânicas, em particular, as neuronais. Sempre assinalou que se tratava de analogias qualitativas, isomorfismos parciais, bem como de comparações sistemáticas entre as coordenações cognitivas e a problemática da relação genoma-meio. Mais ainda, referiu-se aos esquemas cognitivos como "formas da organização vital, ou seja, formas funcionais de estrutura dinâmica e não material." (Piaget, 1967, p.58). Neste sentido, não devemos nos confundir: uma coisa é a remissão à temática da adaptação vital, enquanto estratégia argumentativa ou pré-texto para Piaget poder escrever seus textos epistemológicos a fim de concluir que o real é, em última instância, racional; outra, muito diferente, é a pergunta acerca da natureza qualitativa da inteligência.
Cabe acrescentar que para Piaget, como para nós também, embora as funções cognitivas pressuponham a materialidade neuronal, essa última não determina o funcionamento auto-regulado das primeiras. A respeito da problemática da pressuposição, podemos ler em Biologie et Connaissance que "o sistema nervoso" é" o instrumento da inteligência" (Piaget, 1967, p.49). Nesse mesmo sentido, em Adaptation vitale et psychologie de l'intelligence, Piaget afirmou, a propósito da coordenação das ações, o seguinte:
essas coordenações se apóiam elas mesmas sobre as coordenações nervosas que derivam enfim das coordenações orgânicas. Em outras palavras, embora essas estruturas não sejam propriamente hereditárias, constituem uma prolongação das regulações orgânicas. (1974, p.74).
Como podemos ver, temos que a coordenação das ações se apóia nas coordenações nervosas, que essas últimas derivam das orgânicas e, por último, que as estruturas lógico-matemáticas prolongam as regulações orgânicas.
Deste modo, concluimos, em primeiro lugar, que o fato de as coordenações neuronais derivarem das orgânicas significa que entre ambas medeia uma relação de derivação, isto é, qualquer variação de magnitudes em uma delas não pode não se trasladar à outra; em segundo, que a forma que possa oportunamente adotar a coordenação das ações se apóie na coordenação nervosa não significa que, por isso, elas se confundam; e em terceiro lugar, que as estruturas epistêmicas prolonguem as regulações orgânicas, ou seja, que estendam ou continuem realizando aquilo que estas últimas já realizavam, não nos obriga a cair nas garras de um vitalismo orgânico e teleológico.
No nosso entender, o fato de afirmar simultaneamente a pressuposição, a heterogeneidade material e a correspondência funcional, acaba obrigando Piaget a recorrer à idéia das "reconstruções convergentes com ultrapassagens" para assim sustentar seu edifício epistemológico. Assim, entre a vida e os processos epistêmicos há, por um lado, uma continuidade funcional a ponto tal que é possível identificar, num e noutro campo, o império de certas correspondências e, por outro, um isomorfismo parcial, derivado de uma série de reconstruções convergentes e não de uma filiação direta. Como vemos, em primeiro lugar, as reconstruções convergentes são responsáveis por certo ar familiar que compartilham entre si o organismo e a inteligência e, em segundo lugar, como qualquer processo de filiação, ele precisa também apoiar-se em alguma outra coisa. Em poucas palavras, as funções cognitivas, para poderem realizar seu trabalho, apóiam-se nas regulações orgânicas e dessa forma não fazem mais do que prolongar a autoregulação inerente à vida.
Nesse sentido, cabe afirmar que, se estamos decididos a deixar de lado a tese da suposição causal, então, deve-se concluir que a relação de pressuposição que a inteligência mantém com a materialidade neuronal é de caráter epistemológico. Mais ainda, no nosso entender, apelando à idéia duma pressuposição epistemológica, conseguimos resolver o impasse no qual se cai na hora de fazer referência às possibilidades orgânicas.
A esse respeito, é sabido que Piaget se referiu, por um lado, ao contra-senso lógico de falar do "conjunto de todos os possíveis" (Piaget & Garcia, 1983, p.26) e, por outro, à impossibilidade de conhecer "o conjunto das condições possíveis ... ainda não observáveis, mas realizáveis" (1974, p.18). Justamente, em L'épistémologie génétique afirma que "o possível é reconhecido de forma autêntica apenas retroativamente, uma vez realizado" (Piaget, 1970a, p.111), ou seja, temos acesso ao possível quando ele deixou de sê-lo.
Entretanto, é nos Études sociologiques que encontramos uma sugestiva e polêmica referência a essa problemática:
entre uma maturação orgânica fornecedora de potencialidades mentais, mas sem uma estruturação psicológica pronta, e uma transmissão social fornecedora dos elementos, bem como do modelo de uma construção possível, mas sem impôr essa última em bloco, existe uma construção operatória que traduz4 em estruturas mentais as potencialidades oferecidas pelo sistema nervoso. (Piaget, 1965, p.25).
No entanto, cabe lembrar que em L'épistemologie génétique sustenta que o inferior/anterior encerra em si as potencialidades do superior/posterior, embora a passagem de um para o outro não possa se calcular a priori, enquanto resultado necessário de uma construção efetivamente constitutiva (Cf. 1970a, p.100 e ss.). Ora pois, sobre esse particular se deve tirar duas conclusões: por um lado, a reflexão piagetiana merece ser pensada como uma epistemologia dos efeitos de uma gênese, tanto imprevisível quanto não-aleatória; por outro, o organismo só entra na história epistêmica a título de limite e não de potência causal, como se pensa no contexto de uma leitura kantiano-evolutiva.
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Analisemos agora o estatuto da interação. Como assinalamos, se as teses piagetianas são interpretadas em uma perspectiva diádica, então nega-se o caráter constitutivo da interação, pois consideram-se, tanto a inteligência quanto o dito meio, como duas realidades pré-constituídas que mantêm entre si uma relação de exterioridade.
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