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Artigos de Pedagogia


Inteligência emocional


31 de agosto de 2008


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José Maurício Haas Bueno I, II;
Ricardo PrimiI

I Universidade São Francisco
II Universidade Presbiteriana Mackenzie

 

 

Essa variável foi correlacionada com traços de personalidade (16PF), inteligência (BPR-5), e com o desempenho dos participantes numa tarefa de Psicodiagnóstico. Foram participantes 76 alunos do 5º ano do curso de Psicologia, com idades entre 21 e 50 anos, estagiários na disciplina de Psicodiagnóstico, além de 8 professores supervisores da mesma disciplina. Os protocolos foram pontuados por 3 métodos: concordância com o consenso, concordância com especialistas e concordância com a pessoa-alvo. Discutiu-se alguns problemas metodológicos relacionados a esses critérios de pontuação. Obtiveram-se correlações estatisticamente significativas com o traço de praticidade, com o estilo de resposta administração da imagem, e com raciocínio espacial; somente a subescala faces apresentou correlação estatisticamente significativa com o desempenho no estágio em Psicodiagnóstico.

O termo "inteligência emocional" foi utilizado pela primeira vez num artigo de mesmo nome, no qual é apresentado como uma subclasse da Inteligência Social, cujas habilidades estariam relacionadas ao "monitoramento dos sentimentos e emoções em si mesmo e nos outros, na discriminação entre ambos e na utilização desta informação para guiar o pensamento e as ações" (Salovey & Mayer, 1990, p. 189). A utilização de processos relacionados à Inteligência Emocional se inicia quando uma informação carregada de afeto entra no sistema perceptual, envolvendo os seguintes componentes: a) avaliação e expressão das emoções em si e nos outros; b) regulação da emoção em si e nos outros; e c) utilização da emoção para adaptação. Esses processos ocorrem tanto para o processamento de informações verbais, quanto não-verbais (Salovey & Mayer, 1990).

Em 1997, Mayer e Salovey apresentam uma revisão ampliada, clarificada e melhor organizada do modelo de 1990, que enfatizava a percepção e controle da emoção, mas omitia o pensamento sobre sentimento. Nas palavras dos autores, a definição que corrige esses problemas é a seguinte:

    A Inteligência Emocional envolve a capacidade de perceber acuradamente, de avaliar e de expressar emoções; a capacidade de perceber e/ou gerar sentimentos quando eles facilitam o pensamento; a capacidade de compreender a emoção e o conhecimento emocional; e a capacidade de controlar emoções para promover o crescimento emocional e intelectual. (Mayer & Salovey, 1997, p. 15)

O processamento de informações emocionais é explicado através de um sistema de quatro níveis, que se organizam de acordo com a complexidade dos processos psicológicos que apresentam: a) percepção, avaliação e expressão da emoção; b) a emoção como facilitadora do pensamento; c) compreensão e análise de emoções; emprego do conhecimento emocional; e d) controle reflexivo de emoções para promover o crescimento emocional e intelectual, descritos a seguir.

A percepção, avaliação e expressão da emoção abrangem desde a capacidade de identificar emoções em si mesmo, em outras pessoas e em objetos ou condições físicas, até a capacidade de expressar essas emoções e as necessidades a elas relacionadas, e ainda, a capacidade de avaliar a autenticidade de uma expressão emocional, detectando sua veracidade, falsidade ou tentativa de manipulação. A emoção como facilitadora do ato de pensar diz respeito à utilização da emoção como um sistema de alerta que dirige a atenção e o pensamento para as informações (internas ou externas) mais importantes. A capacidade de gerar sentimentos em si mesmo pode ajudar uma pessoa a decidir, funcionando como um "ensaio", no qual as emoções podem ser geradas, sentidas, manipuladas e examinadas antes da tomada de decisão. A compreensão e análise de emoções (conhecimento emocional) incluem desde a capacidade de rotular emoções, englobando a capacidade de identificar diferenças e nuances entre elas (como gostar e amar), até a compreensão da possibilidade de sentimentos complexos, como amar e odiar uma mesma pessoa, bem como as transições de um sentimento para outro, como a de raiva para a vergonha, por exemplo. Finalmente, o controle reflexivo das emoções para promover o crescimento emocional e intelectual refere-se à capacidade de tolerar reações emocionais, agradáveis ou desagradáveis, compreendê-las sem exagero ou diminuição de sua importância, controlá-las ou descarregá-las no momento apropriado.

Esse modelo de quatro níveis acabou sendo reduzido a um modelo de três níveis correspondentes à percepção, compreensão e controle de informações carregadas de afeto em decorrência de estudos fatoriais de validade de construto (Mayer, Salovey & Caruso, 2000). Nesse trabalho, focalizar-se-á apenas a primeira ramificação do construto, relacionado à capacidade de perceber emoções.

Mensuração: Tipos de Instrumentos e Critérios de Pontuação

Um dos problemas mais evidentes relacionado à inteligência emocional é o de sua mensuração. Desde a proposição da inteligência social (Thorndike, 1920) que não se consegue desenvolver um instrumento confiável para medi-la. E sem esse recurso não é possível conhecer objetivamente suas características funcionais (e estruturais, mas esse é um outro problema) na mente humana.

A principal discussão se dá em torno dos tipos de instrumentos utilizados para mensuração dessas formas de inteligência que têm sido propostos ao longo da história. Esses instrumentos têm sido, invariavelmente, baseados em auto-relato, isto é, instrumentos que colhem a opinião do sujeito a respeito de si próprio na área que se pretende investigar. Assim, se pretende-se mensurar o quanto o sujeito é ansioso, apresentam-lhe frases contendo os sintomas, pensamentos e formas de se comportar de pessoas ansiosas para que classifique se e/ou quanto cada item apresentado se aplica ao seu caso.

Esse tipo de mensuração, que tem sido utilizada com sucesso para avaliação de traços de personalidade, é inadequado para mensuração da inteligência. Supõe-se que, sendo a inteligência uma capacidade cognitiva, esta deva ser medida através do desempenho do sujeito em tarefas nas quais demonstre possuir tal capacidade (medidas de desempenho). Não faz sentido mensurar qualquer tipo de inteligência perguntando-se ao sujeito o quanto ele se considera inteligente, ou o quanto ele se considera capaz de resolver problemas deste ou daquele tipo. Esta seria uma medida de algo como a auto-percepção da capacidade de resolver problemas, porém não relacionada diretamente à real capacidade do sujeito em questão. Portanto, ao se propor a inteligência emocional como um tipo de inteligência, deve-se apresentar um instrumento composto de tarefas cuja resolução dependeriam do uso de capacidade.

No entanto, a maioria das escalas construídas para avaliação da inteligência emocional tem se baseado em auto-relato, como por exemplo o O BarOn Emotional Quotient Inventory (BarOn Eq-i) (Bar-On, 1996, 1997) e a Medida de Inteligência Emocional (Siqueira, Barbosa & Alves, 1999), para citar apenas uma estrangeira e uma nacional, respectivamente. Ambos os instrumentos apresentam rigorosos estudos de construção, assim como boas propriedades psicométricas, mas são compostos de subescalas tradicionalmente associadas à traços de personalidade, habilidades sociais e outros construtos que não a inteligência.

O primeiro instrumento baseado em desempenho para avaliação da inteligência emocional lançado comercialmente foi a Multifactor Emotional Intelligence Scale (MEIS, Mayer, Salovey & Caruso, 1997). Esse instrumento é composto por 12 tarefas destinadas a investigar quatro ramificações da inteligência emocional (Mayer & Salovey, 1997): identificação das emoções, utilização das emoções, compreensão das emoções e gerenciamento das emoções. A primeira ramificação desse instrumento, relacionada à percepção de emoções, é constituída de tarefas em que os participantes têm de avaliar a presença de determinadas emoções em quatro tipos de estímulos: faces, músicas, quadros e histórias. A subescala histórias representa o estímulo verbal e as outras três os estímulos não-verbais. Essa ramificação da MEIS foi utilizada como base para o desenvolvimento desse projeto.

Além do tipo de instrumento relatado acima, também há um problema relacionado ao critério de avaliação. Os instrumentos baseados em desempenho requerem que, para cada item apresentado, conheça-se a resposta que será considerada como correta. Essa é a principal diferença entre instrumentos baseados em desempenho e em auto-relato: o segundo não trabalha com respostas corretas, mas com respostas características. Em testes tradicionais de inteligência, quando um problema é proposto, já se sabe de antemão qual é a resposta certa. No caso das tarefas relacionadas à inteligência emocional, como escolher a resposta a ser considerada como correta? Os critérios que têm sido utilizados nas pesquisas relacionadas à inteligência emocional são descritos a seguir (Davies, Stankov & Roberts, 1998; Mayer, DiPaolo & Salovey, 1990; Mayer & Geher, 1996).

O primeiro deles é baseado na resposta consensual (consenso) dos participantes que responderam ao teste. Esse critério foi definido como "a habilidade de perceber emoções que são consensualmente definidas como presentes e igualmente concordar quando a emoção não estiver presente" (Mayer & cols., 1990, p. 776). Em termos de pontuação, uma resposta é considerada consensual quando estiver dentro da margem de mais ou menos um ponto em relação ao valor modal. Uma outra alternativa é considerar o peso do grupo com o qual concordava o julgamento do participante (Ex.: se um participante escolher uma alternativa juntamente com 90% do grupo de participantes, então 0,9 será adicionado à sua respectiva pontuação).

Outro critério utilizado é a concordância com a pessoa-alvo. Pessoa-alvo é a pessoa que produziu o estímulo utilizado. As pessoas que cederam os estímulos utilizados nos instrumentos também responderam às mesmas questões apresentadas posteriormente aos participantes que se submetem ao teste, porém, suas respostas são consideradas como um referencial já que a proposição dos testes é avaliar o que eles estariam sentindo no momento em que o estímulo foi produzido. Segundo esse critério, o testando recebe um ponto toda vez que sua resposta concorda com a resposta da pessoa-alvo.

Semelhante ao critério anterior é a concordância com especialistas. Nesse caso o referencial utilizado é uma avaliação realizada por profissionais, que decidem as respostas consideradas como corretas, baseados em teorias e pesquisas relacionadas ao tema. Por esse critério, o testando recebe um ponto cada vez que sua resposta concorda com a dos especialistas.

Além dessas possibilidades, pode-se citar a utilização de outros critérios como a intensidade e a amplitude das emoções percebidas. A intensidade é uma nota correspondente à média e a amplitude ao desvio-padrão em relação às respostas dos participantes ao longo de todos os itens de cada escala.

Em vários estudos, a convergência entre os métodos de pontuação foi estudada. Num deles foram encontradas baixas correlações entre as pontuações por consenso, intensidade e amplitude (Mayer & cols., 1990); em outros, no entanto, os pesquisadores relatam ter encontrado convergência entre os sistemas de pontuação por consenso, especialistas e pessoa-alvo (Mayer & cols., 2000), e entre concordância com o consenso e com a pessoa-alvo na avaliação da subescala histórias (Mayer & Geher, 1996). Em todos os casos, ainda, a pontuação baseada na concordância com o consenso apresentou os melhores resultados com a relação à consistência interna.

Medidas de Inteligência Emocional: Evidências de Validade e Precisão

Nos estudos relacionados à inteligência emocional, Mayer, Salovey e colaboradores (1990, 1996, 1997, 2000) procuraram evidências de que a inteligência emocional pudesse ser considerada como uma inteligência independente das inteligências anteriormente propostas e já estabelecidas e aceitas no meio científico (validade discriminante), assim como também apresentasse uma certa variância em comum com outros tipos de inteligência para poder ser considerada uma inteligência (validade convergente). Também investigaram as relações entre as medidas de inteligência emocional e construtos de personalidade, tais como empatia e alexitimia, que dizem respeito a capacidade de compreender os outros a partir de seus pontos de vista e à incapacidade de nomear e expressar sentimentos próprios, respectivamente. Finalmente, a validade fatorial também foi estudada aplicando-se análise fatorial de primeira e segunda ordem para investigar a dimensionalidade do construto.

Num experimento para a investigação da percepção de emoções em expressões faciais, cores e desenhos abstratos (Mayer & cols., 1990), utilizando os critérios de pontuação por concordância com o consenso, intensidade e amplitude das emoções percebidas citados anteriormente, encontraram: a) solução unifatorial para a pontuação por consenso, indicando que a percepção emocional pode ser generalizada para os três domínios investigados; b) alta fidedignidade (coeficiente a) para as pontuações por intensidade (a=0,94) e amplitude (a=0,90), porém baixa para pontuação por consenso (a=0,63); e c) correlações estatisticamente significativas entre as seguintes variáveis: concordância com o consenso e empatia (r=0,33; p<0,001), consenso e extroversão (r=0,15; p<0,05), amplitude e intensidade das emoções percebidas e alexitimia (r=0,16, p<0,05 e r=0,20, p<0,01, respectivamente), e amplitude e intensidade das emoções percebidas e neuroticismo (r=0,23, p<0,001 e r=0,22, p<0,01, respectivamente). As correlações positivas com alexitimia e neuroticismo foram explicadas pelos autores em razão das escalas utilizadas para essas medições. Eles alegam que ambas, Toronto Alexithymia Scale e Eysenck Neuroticism Scale, na verdade, captam melhor angústia, tristeza, dor (distress), do que os fatores a que se propõem investigar e, nesse caso, faria sentido pensar que tais indivíduos tendem a perceber afetos negativos com maior intensidade e a experimentar alterações de humor com maior freqüência.

Os resultados de outro experimento envolvendo informações verbais (Mayer & Geher, 1996) indicaram que apenas a pontuação por concordância com o consenso apresentou alta fidedignidade (a=0,92), e que não houve correlação estatisticamente significativa entre as pontuações por consenso e pessoa-alvo, nem entre estes dois critérios e o auto-relato dos participantes-alvo. Os participantes que obtiveram as maiores pontuações por concordância com o consenso e com a pessoa-alvo também obtiveram as maiores pontuações numa escala de empatia e no Schoolastic Aptitude Test (SAT), e os menores escores numa escala de defensividade. Esses resultados foram interpretados como evidência de que a solução de problemas emocionais requer tanto a abertura emocional quanto inteligência geral.

Finalmente, Mayer e colaboradores (2000) publicam um estudo bastante completo sobre os critérios que uma "inteligência" deve preencher para ser legitimada como tal, e investigam, através da MEIS, se o modelo por eles proposto preenche esses critérios, que, a saber, são: a) deve permitir a operacionalização em grupos de habilidades; b) deve preencher certos requisitos correlacionais, ou seja, deve estar moderadamente correlacionada com inteligências anteriormente definidas (para ser considerada como um inteligência) e ainda apresentar alguma variância única (para ser considerada independente das demais); e c) as habilidades do modelo proposto devem desenvolver-se com a idade e a experiência.

Os resultados dessa investigação mostraram que: a) a inteligência emocional pode ser operacionalizada num conjunto de habilidades, que foram apresentadas como tarefas para serem realizadas pelo sujeito (MEIS); b) essas tarefas possuem respostas que podem ser claramente distintas entre melhores e piores, conforme indicou a convergência entre os três métodos de pontuação utilizados (consenso, especialistas e alvo); c) todas as tarefas apresentaram correlações mutuas, independentemente do método de pontuação empregado; d) a inteligência emocional correlacionou-se moderadamente com medidas de inteligência verbal, indicando que possui alguma variância em comum com outra forma de inteligência, mas também alguma variância única; e) a inteligência emocional mostrou-se promissora como preditora de outras qualidades, tais como, empatia, estilo parental (calorosidade emocional dos pais, capacidade para ouvir os filhos, conduta não-abusiva, flexibilidade, etc.) e atividades de vida nos aspectos culturais, crescimento pessoal e entretenimento; f) adultos tiveram um desempenho melhor do que adolescentes, evidenciando que a inteligência emocional se desenvolve com a idade e a experiência, apesar de manter em adolescentes as mesmas relações com empatia e inteligência verbal observadas em adultos; e finalmente g) a escala produziu quatro fatores, um primeiro fator geral de inteligência emocional, que pode ser subdividido em três subescalas: percepção, compreensão e gerenciamento de informações carregadas de afeto, reduzindo o modelo inicial de quatro níveis para um modelo com três níveis.

Um outro grupo de pesquisadores, no entanto, encontrou resultados menos encorajadores. Davies e colaboradores (1998) publicaram um artigo contendo três estudos, cujos principais objetivos eram: a) examinar o status empírico das medidas de inteligência emocional por auto-relato e por desempenho em tarefas específicas; b) determinar as relações que a inteligência emocional possa ter com habilidades cognitivas tradicionais, incluindo índices de inteligência fluída, cristalizada e social; e c) examinar a relação entre os vários tipos de medidas de inteligência emocional e variáveis relacionadas à personalidade, incluindo medidas dos seis tipos de personalidade (extroversão, neuroticismo, psicoticismo, conscienciosidade, socialização e abertura).

O primeiro estudo incluiu uma ampla gama de medidas de inteligência emocional, tanto por auto-relato quanto por desempenho, além de outras, como habilidades cognitivas, inteligência fluída e cristalizada, inteligência social e traços de personalidade. As principais medidas de inteligência emocional por desempenho eram as provas de percepção de emoções em faces, cores, músicas e sons, com pequenas modificações em relação às utilizadas por Mayer e colaboradores (1990).

Foram encontradas algumas evidências que apóiam e outras que não apóiam as validades das medidas e do construto. Por exemplo, a favor da validade contam as correlações negativas encontradas entre medidas de alexitimia e de inteligência emocional (avaliada tanto por auto-relato quanto por desempenho), e as intercorrelações entre as quatro escalas de percepção de emoções (faces, cores, músicas e sons) que confirmam a hipótese de Mayer e colaboradores (1990) de que o julgamento consensual de emoções se generaliza por entre diferentes tipos de estímulos. Contra essas evidências, contudo, conta o fato de que essas mesmas quatro escalas, apesar de se apresentarem agrupadas isoladamente em um único fator (percepção de emoções), não se correlacionaram significativamente nem com medidas de inteligência emocional por auto-relato, nem com variáveis de habilidades cognitivas e personalidade, contradizendo o postulado de Salovey e Mayer de que tais habilidades incluiriam um conjunto de habilidades conceitualmente relacionadas; além disso, altas correlações entre medidas de inteligência emocional por auto-relato e traços de personalidade levaram os autores a sugerir que a inteligência emocional pode não ser inteiramente distinta de construtos relacionados à personalidade.

Uma análise fatorial exploratória (dos componentes principais com rotação oblimin) realizada com as 30 variáveis incluídas nesse primeiro estudo, resultou em oito fatores. O primeiro deles foi capaz de explicar apenas 15% da variância total, considerado muito fraco para confirmar validade unifatorial do construto estudado. Os oito fatores encontrados foram relacionados a neuroticismo, psicoticismo, extroversão, clareza emocional, conhecimento emocional, percepção de emoções, inteligência cristalizada e inteligência fluída. Esse conjunto de fatores foi capaz de explicar 64% da variância total encontrada.

Entre esses fatores, aqueles que supostamente estariam relacionados à inteligência emocional conforme proposta por Salovey e Mayer (1990), clareza emocional, conhecimento emocional e percepção de emoções (faces, cores, música e sons), se mostraram totalmente independentes tanto da inteligência cristalizada quanto da inteligência fluída. Além disso, os autores também concluíram que outros componentes da inteligência emocional, como regulação emocional, expressão emocional e ambos impulsividade e empatia, apresentaram cargas em fatores tipicamente relacionados à dimensões da personalidade, como neuroticismo, extroversão e psicoticismo, cujos construtos já foram extensivamente demonstrados como independentes de habilidades cognitivas.

Também foram levantados dois problemas metodológicos relacionados à mensuração da percepção de emoções. O primeiro problema diz respeito à utilização da resposta consensual como critério para pontuação das respostas corretas. No mínimo, argumentam, é preciso investigar se a resposta consensual é a que melhor representa as emoções realmente presentes nos estímulos apresentados. O segundo problema se refere à baixa consistência interna encontrada em três dos quatro subtestes: 0,58 para faces, 0,55 para músicas e 0,36 para cores. Tais resultados indicam que boa parte das variações encontradas entre os participantes se devem mais a erros de medida do que a variações verdadeiras na habilidade em questão, colocando sob suspeita os resultados derivados dessas medidas.

Os resultados apresentados não são nem totalmente contra as evidências de validade do construto, nem tampouco totalmente a seu favor. Podem ser interpretados como encorajadores se se levar em conta a dificuldade histórica em relação ao construto, ou como desanimadores, se comparados com os resultados obtidos com outras formas de inteligência já consagradas no meio científico. Como as investigações de validade realizadas até o presente momento só apresentam evidências baseadas em critérios cujas observações foram colhidas através de outros instrumentos; como nenhuma evidência de predição de desempenho em atividades da vida real foi apresentado; e como no Brasil não existe nenhum estudo relacionado a esse construto baseado em medições de desempenho dos participantes, optou-se pela realização desse projeto com a pretensão de contribuir, ainda que de forma limitada, para o preenchimento dessas lacunas. Assim, o objetivo geral desse trabalho foi investigar a validade de um instrumento para avaliação da capacidade de perceber emoções, em um grupo de estudantes de Psicologia; e, mais especificamente, verificar as propriedades psicométricas do instrumento e investigar sua validade concorrente em relação aos seguintes critérios: desempenho dos participantes no estágio em Psicodiagnóstico, segundo a avaliação de seus supervisores; e desempenho dos participantes em medidas de inteligência e personalidade.

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