Bernadete Malmegrim Vanzella Amem I;
Lena Cardoso Nunes II.
I Universidade Federal Fluminense, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil
II Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, Brasil
INTRODUÇÃO
O século 20 marcou a história como um período extremamente dinâmico e transformador. O homem não apenas alcançou a lua, como também temos hoje as informações em tempo real. Estamos vivendo numa era de transformações, uma era de interdependência global com a internacionalização da economia, nomeada por Tapscott1 de "Economia Digital", que se baseia no capital intelectual humano e nas redes, por meio das quais conhecimento e informação se transformam em meios de produção.
Os recursos tecnológicos de comunicação e informação estão presentes na vida cotidiana dos cidadãos e não podem ser ignorados, embora sua difusão ocorra de forma desigual. Hoje, os mais importantes fenômenos sociais, econômicos e culturais não acontecem isoladamente. O espaço geográfico é coberto por um denso emaranhado de redes por meio das quais transitam fluxos dos mais variados tipos, ocorrendo, assim, conexões entre os diversos lugares do planeta. Marshall Mcluhan, citado por Alves2, lembra que o mundo se tornou uma aldeia global, referindo-se à globalização da cultura e das informações, criando novas exigências profissionais.
O avanço das TIC – Tecnologias de Informação e Comunicação – tem propiciado maiores possibilidades de disseminação de informações, facilitando o acesso a estas, mas é preciso desenvolver competências e habilidades num mesmo ritmo para se apropriar dos conhecimentos oferecidos pelas informações. È interessante registrar que são três os elementos básicos e mínimos da noção de informação: tradução possível em sinais, codificação possível desses sinais em dados e transmissibilidade dos mesmos. Se considerarmos somente essas características, todo tipo de linguagem contém e veicula informação. Talvez seja importante salvaguardar essa amplitude do conceito, mesmo porque hoje tendem a prevalecer como referência desse conceito a codificação/decodificação e a interconectividade eletrônica.
Vale ressaltar que:
"a geração de dados não estruturados não conduz automaticamente à criação de informação, e nem toda informação pode ser equiparada a conhecimento. Toda a informação pode ser classificada, analisada e refletida e processada de várias maneiras para gerar conhecimento"3.
No momento, esse novo modelo de comunicação com múltiplas fontes de informação demanda um novo cenário de aprendizagem que extravase a sala de aula, com um currículo que ultrapasse as fronteiras disciplinares.
Assim, no caso da educação superior não há somente que se adaptar às novas necessidades dessa sociedade, mas, principalmente, assumir um papel de ponta nesse processo. Para tanto, é necessário que os estudantes se apropriem de conhecimentos sociais, políticos, econômicos e culturais, numa perspectiva integrada, para que possam exercer uma prática profissional qualificada no ambiente em que estão inseridos. O ensino superior, se orientado nessa perspectiva, abre espaços para a compreensão de que o homem não está isolado, ao contrário, estabelece complexas relações de interdependência com o mundo. "O ser humano nos é revelado em sua complexidade: ser, ao mesmo tempo, totalmente biológico e totalmente cultural"4.
No entanto, os professores, no esforço de levar seus alunos a aprenderem, freqüentemente, dão maior importância ao conteúdo em si, desvinculado da realidade social, gerando a clássica dissociação entre teoria e prática, fato que pode ser observado nos recém-graduados do ensino superior. Assim, consideramos que a integração de conhecimentos e habilidades pode ser dificultada se as informações recebidas durante os cursos são dissociadas da prática pedagógica, sem um foco ao redor do qual se organize o conhecimento.
A sociedade atual sugere que o estudante seja alguém que busque construir seu conhecimento, alguém flexível, que saiba lidar com as necessidades de maneira criativa e que manifeste vontade de aprender, pesquisar e saber. Assim, precisamos envolver professores e alunos neste cenário e contextualizá-lo. Para isto, é importante pensar sobre um projeto pedagógico dos cursos superiores que contemple a perspectiva interdisciplinar e as TIC.
A legislação educacional brasileira em vigor, por meio das Diretrizes Curriculares Nacionais, aponta a exeqüibilidade em relação à estrutura e ao funcionamento da graduação. As diretrizes atuais, homologadas a partir de 2001, indicam a necessidade de estruturar os cursos por meio de um projeto pedagógico. O domínio das TIC também é recomendado5.
Nesse sentido, a presente pesquisa foi orientada com o objetivo de analisar as contribuições das Tecnologias da Informação e da Comunicação para o ensino médico, numa proposta interdisciplinar. Deste objetivo decorrem as seguintes questões: a) como as tecnologias digitais são utilizadas como possibilidade pedagógica para criar um ambiente de aprendizado colaborativo e b) que contribuições a internet pode trazer para a interdisciplinaridade prevista nas atuais diretrizes curriculares nacionais do ensino superior.
O contexto do ensino superior hoje, produto histórico da atividade humana, pode ser modificado, e sua transformação é realizada pelas ações concretas dos seres humanos. Daí a relevância em conhecer a atuação dos professores, os obstáculos na busca de uma nova práxis pedagógica e, por fim, oferecer indicações que norteiem a comunidade acadêmica para novas formas do saber no mundo contemporâneo. No momento em que estamos cuidando de questões relacionadas à aprendizagem, estamos também cuidando dos aspectos que preparam o indivíduo para a vida na coletividade, orientando-o para o pensamento 6.
Nessa perspectiva, a sociedade contemporânea requer profissionais tecnicamente competentes, humanos, éticos, capazes de desenvolver ações no âmbito tanto individual como coletivo e em contextos situacionais diferentes, cujos saberes avançam pari passu com o desenvolvimento científico e tecnológico, desafiando professores, sociólogos, psicólogos, pedagogos, pesquisadores e planejadores, entre outros. Precisamos ter uma visão desta sociedade, na tentativa de buscar espaço para uma nova práxis pedagógica. Entende-se neste estudo por práxis a consciência crítica e reflexiva da prática – na ação e sobre a ação – do ensino, no ambiente de ensino-aprendizagem, visando integrar o conteúdo teórico, a técnica, o contexto social. "É a compreensão da realidade humano-social como unidade de produção e produto, de sujeito e objeto, de gênese e estrutura"7.
Sob esta ótica, seria inaceitável que "a arte de ensinar a ciência da vida"8 não ousasse novas altitudes e novos rumos. A Medicina é ciência que cuida do bem-estar físico, psíquico e social, num meio ambiente equilibrado e sustentável, e não apenas uma técnica para diagnosticar e tratar uma patologia, e saúde é conservação da vida, e não ausência de doença. Para tanto, é necessário que o aprendiz detenha algum conhecimento sociocultural-antropológico, para assumir o exercício de uma abordagem integral e efetiva e uma prática profissional consciente.
Neste sentido, as análises contidas neste artigo podem contribuir para uma reflexão dos profissionais da área das ciências biológicas e saúde sobre o desenvolvimento de um perfil crítico, criativo, ético, reflexivo da área em foco, na urgência de prepará-los para os avanços contínuos da tecnociência, para as relações de trabalho e para as transformações sociais. Assim, poderão atuar como agentes transformadores do saber de modo amplo e global, com consciência da realidade social, aptos a se defrontar com os problemas de seu ambiente natural e cultural.
A SOCIEDADE INFORMACIONAL E O ENSINO SUPERIOR
Nas últimas décadas, presenciamos tanto o incremento de ocorrências desastrosas – como, por exemplo, o ataque terrorista de 11 de setembro em Nova York, aumento da pobreza mundial, deficiência energética, tráfico de drogas –, quanto uma grande expansão econômica, explosão das TIC, maior produção de bens sofisticados, além da descoberta do DNA humano.
Este panorama multifacetado aponta para a complexidade do real, pois agrega todos os aspectos nas dimensões intelectuais, religiosas, sociais e biológicas, ou seja, todos os fatos são interdependentes e interligados. Capra 9 alerta que os principais problemas atuais são sistêmicos, portanto não podem ser entendidos no âmbito da metodologia fragmentada, característica de nossas disciplinas acadêmicas e de nossos organismos governamentais. Observa-se que os especialistas não estão preparados para explicar e/ou resolver os problemas referentes às suas áreas de atuação. Essa complexidade requer que reconheçamos os traços constitutivos, que não contêm apenas diversidade, desordem, mas também leis, ordem e organização9.
Todas estas transformações acabam por determinar mudanças sociais, políticas e culturais, dando maiores poderes sobre a nossa própria natureza e sobre o planeta. Estas alterações dependerão da utilização inteligente dessa tecnologia. Segundo Forester, ocorreu a "alteração da forma como os homens e as mulheres da Era Electrónica se vêem a si mesmos e no mundo"10.
A correlação entre conhecimento e eficiência está bem nítida nas organizações multinacionais que investem nas TIC para aumentar suas margens de lucro. Deste modo, a tecnologia move a revolução da informação: desenvolvida em função da lógica de acumulação capitalista e não de um projeto de integração social, reproduz um modelo já existente, tendo agora a informação como moeda e uma estratificação social determinada pelo conhecimento e não pela propriedade1.
Ressalta-se que, enquanto os países desenvolvidos investem nas TIC para manter a hegemonia, os países em desenvolvimento necessitam dessa tecnologia para reduzir o abismo que os separa do mundo desenvolvido. Independentemente de qualquer fator, um dos objetivos a alcançar é uma força de trabalho educada, capaz de interagir com as ferramentas informacionais e de desenvolver a Educação para a estabilidade e a coesão social.
A partir das TIC, estabeleceu-se uma cultura informacional, que proporciona um aumento da interação em tempo real, sem deslocamento físico, ou seja, simultaneidade e unicidade do espaço geográfico.
A sociedade se organiza em rede11; "a rede constitui um conjunto de nós interconectados", cujo instrumento básico é o computador individual conectado, fenômeno internacional que tem como 'carro-chefe' a internet, onde as redes informáticas favorecem a formação de indivíduos por descentralização de tarefas, dessincronização das atividades e a desmaterialização das trocas, além de potencializar a possibilidade de atores criativos, comunicantes, produtores e consumidores de novos instrumentos interativos, multiplicando os poderes e a eficácia de cada um. Esta sociedade é denominada 'Sociedade informacional"12.
A tendência é um aumento crescente da interação nos campos da educação, informação, lazer e trabalho, entre outros, permitindo que uma pessoa seja capaz de concorrer com empresas estabelecidas no mercado. Esse novo tipo de espaço, "ciberespaço", econômico, social, cultural e imaterial, permite um relacionamento não linear e multidimensional com uma dinâmica amplificadora. Este contexto cria uma nova cultura que hoje coexiste com a anterior12.