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Artigos de Pedagogia


Interdisciplinaridade - Acerca da interdisciplinaridade: aspectos epistemológico


29 de agosto de 2008


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Vilma de Carvalho

Professora Doutora Livre-Docente. Professora Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora Titular de Enfermagem em Saúde Pública, Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Licenciada em Filosofia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Pesquisadora do CNPq.

 




UMA COLOCAÇÃO INTRODUTÓRIA

A emergência dos experts na crise de nosso tempo

Todos sabem que vivemos um tempo de incertezas em um planeta tumultuado por crises. A representação corrente condiz com as agendas das nações, das organizações internacionais, de tão apertadas quase sem espaço para discutir as questões mundiais nas circunstâncias que dizem respeito a todos os homens, associados a uma história comum. Em toda parte, as pessoas são bombardeadas com informações da ciência e novos resultados da tecnologia. As notícias ligam as pessoas aos protestos de resistência popular, às reivindicações de movimentos contra o terrorismo ou apelos de proteção aos direitos de uns ou de todos. E tudo culmina refletindo as imagens velozes de transformações políticas e sociais cuja tônica maior gira em torno da escala das variações econômicas nas bolsas de valores das grandes capitais.

Os governantes tornam-se viajantes febris, buscando horizontes utópicos do mundo globalizado, porém desarticulado, onde os experts - especialistas em ciência, tecnologia, economia, política social - colocam seu saber para os outros que não sabem. As assembléias mundiais acontecem em várias partes da terra, às vezes no mesmo país, e aí mesmo o expert assume a tarefa de extrair a ordem internacional das crises que não cessam de pô-la em perigo e, por vezes, consegue seu intento(1). Existem comitês de experts para assessorar os governantes ou líderes nessas conferências e, com maior ou menor êxito, ajudam a resolver problemas e acordos com novas regras de mercado para equilibrar as pendências políticas ou econômicas, entre os países. Mas apesar dos especialistas,

    os verdadeiros problemas de nosso tempo permanecem em um oceano de não saber e de incompetência. E permanecem as incertezas em torno da paz e da guerra, da desigualdade de desenvolvimento econômico, técnico e cultural, entre as nações do mundo, e outras tantas questões colocadas como a exclusão social, a fome e o (des)respeito às liberdades(1).

Não se pode dizer, das últimas décadas do século XX aos nossos dias, que os líderes mundiais são indiferentes aos problemas que afligem as pessoas em toda parte. Os chefes das nações empreendem esforços para ajuizar as questões mundiais em torno do interesse geral, ou da maioria, e de sorte a equilibrar a conjuntura internacional.

    [...] Assembléias mundiais foram criadas para fazer reinar a paz no respeito ao direito (ONU), ... para promover a educação e a cultura (UNESCO), ... para velar pela boa repartição dos recursos alimentícios (FAO), ... para controlar as condições impostas aos trabalhadores (OIT)(1).

E assim surgiu espaço para a contribuição disciplinar em questões complexas exigindo opiniões de diferentes experts. Mas, embora cresça o número desses especialistas de aconselhamento e assessoria aos governos e líderes mundiais, a cada dia, a humanidade sofre rupturas políticas e turbulências crescentes. As crises se refletem na vida individual e coletiva, nas políticas de trabalho, na educação em geral, e nos processos da formação profissional em todas as áreas. Desde 1960, o mundo é impulsionado, avassalado, por revoluções científicas/tecnológicas e pela emergência de uma multidão de especialistas que dominam a política e a prática profissional em qualquer área de saber.

    [...] A medicina contemporânea tornou-se, por excelência, o reduto privilegiado dos especialistas, cuja competência se exerce sobre um território cada vez mais reduzido. O homem doente é cortado em pedaços; um clínico se encarrega de seu coração, outro de seus pulmões, outro de seus órgãos sexuais, etc. Cada um aplica sua terapêutica própria, sem pensar nas possíveis repercussões sobre os órgãos vizinhos, nem nas reações do moral sobre o físico(1).

Os críticos falam do risco de contradições da consciência, com tantas especialidades, podendo levar a uma patologia contemporânea do saber que, na ordem do pensamento, traduz a deficiência ontológica, - deficiência do real objetivado (em filosofia interessa ao estudo do ser enquanto ser). Uma deficiência do conhecer substantivo das coisas e seus significados, proporcional à precariedade do fundo de saber do sujeito comprometido em manejar procedimentos explicativos quanto aos cânones metodológicos nas ciências. Ou seja, sem o expert detalhando conceitos do campo de seu saber (que só ele compreende), não se propicia a clareza de muitos. Precisamos esperar, sobretudo, que o expert queira ser não apenas um especializado em seu setor de específico saber, mas também o sábio da totalidade da área que abrange sua competência.

Anteriormente, os sábios eram bem poucos. Agora, quanto mais especialidades, multiplicam-se os experts, e diversificando-se as disciplinas do conhecimento, mais elas perdem conexão com o real da totalidade humana. Corremos o risco de uma inércia intelectual (um obstáculo epistemológico no âmago do ato de conhecer)(2) e o perigo de submissão a teorias abstratas, por vezes desligadas de significados da vida humana e de seu valor, conduzindo o pensar face à totalidade do real ao reflexo de uma consciência esfacelada, quase impotente para uma idéia geral bem colocada, ou para formar a imagem mais aproximada do mundo atual.

Abordagem ao tema e propósito principal

Uma descrição do mundo, e percebe-se o maior desafio nos ramos da atividade acadêmica - a necessidade de conversão da atenção intelectual e científica. Precisamos de coerência entre o sujeito da nova consciência disciplinar e a realidade atual em que opera. E precisamos de uma nova pedagogia onde possa, também, tomar lugar a disciplina da não-especialidade ou da polivalência, pois já existem peritos polivalentes em várias disciplinas. Com mais freqüência, existem equipes multidisciplinares ou pluridisciplinares, nas quais

    os especialistas, de formação diversificada, permanecem estranhos uns aos outros; falam linguagens diferentes que, longe de se comporem, de se harmonizarem entre si, se excluem, se negam reciprocamente(1).

Não surpreende, pois, o insucesso das reuniões internacionais, nas assembléias regionais ou locais, e o fracasso de metas unificadoras para o equilíbrio do desenvolvimento político-social e cultural das nações. Em escala menor é o que acontece nas equipes de caráter científico, formalizadas nas instituições universitárias, para reunir especialistas de várias áreas em torno de uma meta comum. Há discussões e muita polêmica, mas a maioria dos planos extrapolam os propósitos e prazos.

Neste texto, todavia, não se fala de evidências nem de proposta de soluções. No meu caso, vale a visão crítica e a postura filosófica um tanto eclética. Em relação ao tema Acerca da Interdisciplinaridade: aspectos epistemológicos e implicações para a enfermagem, a crítica é sobretudo um instrumento valioso de apreciar e nomear as coisas que nos dizem respeito e serve para revelar a abordagem metodológica pautada em filosofia de reflexão e tangenciamento de idéias sobre situações da prática acadêmica e experiências de relações interpessoais próprias da vida profissional.

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Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.

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