Maria Christina Anna Grieger*
OBJETIVOS: Analisar o comércio de trabalhos científicos na internet e o modo como são oferecidos esses serviços.
MÉTODOS:Foram selecionadas 18 páginas eletrônicas nacionais que oferecem serviços de elaboração de artigos científicos, monografias, dissertações e teses. Para cada uma foi enviada mensagem solicitando informações sobre a elaboração de uma monografia de conclusão de um curso de especialização fictício. A pesquisa já havia sido realizada, de forma que suas características técnicas, éticas e bibliográficas já eram conhecidas pela autora.
RESULTADOS: Dez empresas aceitaram a encomenda e, exceto por uma delas, não se opuseram às condições impostas: pesquisa de campo, aprovação por comitê de ética em pesquisa e utilização das normas de Vancouver. Seis não responderam e duas não aceitaram a encomenda alegando não ter colaboradores disponíveis.
CONCLUSÃO: O comércio de trabalhos científicos é uma realidade que pode interferir negativamente na formação ética, científica e profissional de graduandos e pós-graduandos, bem como na produção científica, falseando dados e informações da literatura. Recomenda-se uma nova abordagem principalmente na avaliação de trabalhos de conclusão de cursos e monografias.
INTRODUÇÃO
O processo de produção científica – seja qual for sua caracterização e o nível do pesquisador – pressupõe a obediência às normas e preceitos éticos rígidos, que vão desde a elaboração do projeto até a divulgação final dos resultados1-3. Os pesquisadores, no entanto, não estão imunes às condutas antiéticas e fraudes4. Incluem-se nestas vários tipos de má conduta em autoria, como a autoria "de presente", a autoria fantasma e o plágio5. O Wall Street Journal publicou um artigo sobre médicos-escritores que são pagos pela indústria farmacêutica para elaborar artigos científicos para publicação com o nome de pesquisadores proeminentes6. Essa prática é denominada ghostwriting e quem a pratica é chamado de ghostwriter (escritor-fantasma), termos que indicam o anonimato do verdadeiro escritor nas publicações. Naturalmente, o autor que emprestou seu nome e credibilidade ao artigo é conivente com a situação, embora quase todos se defendam afirmando que participaram ativamente da pesquisa7. Esta prática vem sendo usada na medicina para mascarar conflitos de interesse com a indústria farmacêutica, o que por si só caracteriza uma conduta antiética de todos os envolvidos. Por outro lado, essas publicações podem produzir vieses para a medicina baseada em evidências, pois, os escritores-fantasma podem ser instruídos a inserir resultados favoráveis aos produtos analisados na publicação7.
Outro tipo de ghostwriting que vem sendo relatado em várias publicações da imprensa leiga no Brasil é a venda de trabalhos científicos, desde projetos de pesquisa até teses, passando por artigos científicos, monografias e dissertações8-23. A oferta é feita abertamente pela internet, prometendo-se originalidade, rapidez e sigilo. O acesso às páginas eletrônicas é muito fácil: basta digitar em sítios de busca as palavras-chave: venda e monografia ou tese, ou dissertação. Na versão em inglês do Google (www.google.com), os termos que produzem resultados mais consistentes são essay, ordering, thesis. Um sítio de notícias do Instituto Tecnológico de Bandung, West Java, Indonésia, revela a existência de páginas eletrônicas que vendem teses em várias áreas24. Estes fatos sugerem que a prática parece disseminada em todo o mundo.
Se a prática de ghostwriting a serviço da indústria farmacêutica é danosa para a ciência7, a venda de trabalhos científicos é mais ainda porque, além de poder causar as conseqüências negativas daquela, permite ao fraudador obter títulos, créditos e vantagens indevidos25, conferindo-lhe prerrogativas para atuar em níveis profissionais ou acadêmicos que lhe são desmerecidos.
Na literatura científica há vários relatos de plágio parcial ou total de trabalhos científicos copiados da internet26-27, mas poucos se referem à comercialização que ocorre tanto na internet como em anúncios comerciais25,27-28. Considerando a disseminação da prática e a magnitude dessa questão para a produção científica e, em última análise, para a ciência como um todo, julga-se oportuna a sua análise e divulgação.
OBJETIVOS
Analisar a oferta de trabalhos científicos pela internet e o modo como as empresas oferecem esses serviços; alertar o meio científico sobre os riscos desta prática.
MÉTODOS
Realizou-se uma pesquisa em sítios de busca da internet, utilizando-se preferencialmente o sítio do Google (www.google.com.br) para obter um levantamento das páginas que oferecem serviços tais como: elaboração de monografias, teses e dissertações.
Na primeira busca realizada foram relacionadas 45 páginas eletrônicas nacionais cujos resumos referiam elaboração de monografias e outros trabalhos científicos. Deste total, excluíram-se 24 endereços que representavam sítios de compra, sítios relacionando endereços já obtidos, sítios que comercializam apenas trabalhos prontos e outros nos quais o acesso não foi possível ou que tratavam de outro assunto.
Dos 21 endereços restantes, três remetiam a outros endereços já constantes da lista, restando 18 empresas que foram incluídas na amostra.
Após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Itajubá, foram feitos contatos eletrônicos via e-mail ou preenchimento de formulário de contato próprio do sítio, solicitando a elaboração de uma monografia de conclusão de um curso fictício de especialização em saúde pública, em nível de pós-graduação lato sensu. O contato eletrônico foi feito por e-mail criado apenas para essa finalidade, caracterizando um aluno fictício. Para que houvesse um parâmetro fidedigno, foi selecionado um tema de uma pesquisa já realizada, de modo que o prazo para a elaboração da mesma e outros detalhes fossem conhecidos (Anexo A)29-30. Desta forma, solicitou-se a elaboração de uma monografia, no prazo de um mês, cujo tema era a qualidade da coleta de material para exame de papanicolaou feita por profissionais da área da saúde. A pesquisa deveria conter os seguintes requisitos:
1. Ser uma pesquisa de campo e utilizar como instrumento de coleta de dados um questionário a ser aplicado a uma amostra populacional pré-determinada, implicando a necessidade de dimensionamento amostral;
2. Ter aprovação prévia do projeto por um comitê de ética em pesquisa;
3. Conter análise estatística dos resultados;
4. Conter revisão bibliográfica do assunto, com utilização do estilo Vancouver e, no mínimo, 30 citações;
A negociação com as empresas não foi concluída, pois os objetivos eram apenas analisar as respostas das empresas.
RESULTADOS
Das 18 empresas consultadas, dez (55%) responderam aceitando a encomenda mediante pagamentos que variaram entre R$ 200,00 e R$ 1.200,00. A média de preços para a confecção da monografia foi de R$ 600,00 e o sistema adotado pela maioria das empresas foi o de pagamento antecipado de 50% do valor, devendo o restante ser pago após a entrega da monografia. Uma delas ofereceu, mediante pagamento de taxa R$ 150,00, o registro em cartório do direito autoral.
Exceto por uma empresa – que não aceitou fazer a pesquisa de campo – todas as outras aceitaram as condições impostas, incluindo a aprovação prévia por um comitê de ética em pesquisa e a utilização das normas de Vancouver.
Das oito empresas restantes, seis não responderam e apenas duas não aceitaram a encomenda por não contarem com colaboradores disponíveis.