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Jogo como estratégia de ensino - O jogo como pretexto educativo: educar e educar


29 de julho de 2008


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O jogo como pretexto educativo: educar e educar-se em curso de formação em saúde


Cleidilene Ramos Magalhães

Pedagoga; doutora em Educação; docente, Departamento de Saúde Coletiva, Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre, Porto Alegre, RS

 

Enfoca uma experiência educativa com o uso do jogo, desenvolvida com alunos do 1º ano do curso de Medicina de uma instituição pública federal de ensino. O jogo foi utilizado como estratégia privilegiada para a abordagem da comunicação, espontaneidade e sensibilidade dos alunos no processo educativo em saúde. Por meio dele foi possível abordar o tema "saúde mental" dos estudantes, e estes expressaram seus sentimentos como ingressantes em um curso de Medicina. Essa experiência desencadeou aprendizagens discentes e docentes, o que, numa perspectiva freireana, é encarado como um processo dialógico e de mútua formação com os alunos. Os desdobramentos da mesma favoreceram o repensar da prática docente em saúde, bem como subsidiou a reorientação do processo de prevenção e promoção da saúde mental em propostas e programas de apoio ao aluno, em andamento na instituição.


A origem do pretexto

Este texto visa relatar uma experiência educativa desenvolvida com graduandos em saúde, do Curso de Medicina, na Disciplina Educação e Comunicação em Saúde,1 que tem como um dos seus objetivos proporcionar aos alunos a oportunidade de orientações e reflexões sobre o estudante como sujeito ativo no seu processo de ensino-aprendizagem, bem como viabilizar experiências e reflexões sobre o processo de educação e comunicação em saúde, e sobre o papel educativo do profissional da saúde, tanto em termos da atuação individual quanto coletiva, durante a formação e no futuro exercício da profissão.

A experiência envolveu o uso do jogo no processo educativo em saúde, uma estratégia didática bastante significativa para trabalhar a sensibilidade e emoções dos envolvidos (Torres et al., 2003), bem como possibilitar o autoconhecimento de indivíduos e grupos. Na experiência relatada, o jogo possibilitou a análise da temática educação em saúde, bem como a discussão e reflexão, pelos alunos, do seu próprio processo de ensino, o que se desenvolveu numa dupla perspectiva: a contribuição dos jogos educativos para a formação e atuação de profissionais da saúde e a vivência do jogo no grupo, tendo como foco a saúde mental dos alunos, aprendizagens discentes e docentes. Um processo de autoconhecimento e reflexão por parte dos alunos e, também, de reflexão docente e de reorientação da prática educativa em questão e de outros processos formativos dos quais a docente envolvida participa. A própria gênese do processo educativo e da ação docente carregam em si o pressuposto da indagação, do questionamento, da pesquisa e da constante reconstrução destes processos. Aliado a isto, o repensar da própria prática, bem como o registro e análise da mesma em ambiente naturalístico (Bogdan & Biklen, 1994; Ludke & André, 1986) permitem ao docente não só documentar, mas também lançar mão desses registros para subsidiar seus estudos, suas pesquisas e reorientar sua própria prática (Zabalza, 1994) como docente e pesquisador. Um processo que faz parte, ou melhor, deveria fazer parte do trabalho docente, como um dos saberes necessários para a prática docente (Freire, 2000) consciente e comprometida com a melhoria constante do processo de ensino-aprendizagem.

Neste sentido, o trabalho aqui apresentado se configura como um relato reflexivo de uma experiência de ensino desenvolvida pela autora. Os dados que subsidiam esta análise reflexiva são os registros escritos (pelos alunos) do jogo realizado, bem como a observação in loco do referido jogo e sua discussão com os alunos participantes.

Assim, entendemos que o referido relato guia-se pela perspectiva qualitativa de pesquisa (Bogdan & Biklen, 1994; Lüdke & André, 1986), uma vez que se baseia em dados coletados em situação naturalística e envolve um olhar indagador (Freire, 2000) sobre a experiência realizada: os registros escritos que a acompanharam, as memórias e reflexões desencadeadas no momento de sua realização, as distanciadas com o tempo e as do momento de produção deste texto.

Aliado a isto cabe mencionar que o repensar da própria prática docente, bem como a recondução de atividades educativas e de processos formativos em desenvolvimento no próprio ambiente onde ocorrem, caracterizam esta experiência e são, nos últimos anos, apontados como primordiais quando se fala em formação e atuação docentes ( Barea et al., 2005; Mizukami et al., 2002, 1998; Schön, 1993).

Ainda podemos dizer que este processo se mostra como uma possibilidade viável e interessante de busca de alternativas educativas cada vez mais significativas para os alunos, por sua natureza lúdica e educativa, e por seu comprometimento com as aprendizagens e formação desses profissionais, que atuarão essencialmente em contexto de interações humanas e que lidarão com emoções, com vidas. Portanto, proporcionar-lhes uma formação mais humanizada e sensível a esses interesses se mostra bastante apropriado, e o constante repensar desse tipo de prática docente é mais que oportuno, necessário.

O texto está estruturado da seguinte forma: traz apontamentos sobre a formação profissional em saúde e caminhos adotados na instituição, situando a proposta da disciplina em questão; toma a discussão da educação em saúde e, em especial, as contribuições das atividades lúdicas, como o jogo, para a formação humanística dos profissionais em saúde; apresenta a atividade realizada e seus desdobramentos para o grupo, para a condução da disciplina e condução de demais atividades no âmbito institucional. Por fim, são apresentadas algumas reflexões desencadeadas pela experiência com base na perspectiva da docência em saúde, processo que envolve o formar e o formar-se em saúde em termos específicos, e o educar e o educar-se em saúde em termos mais amplos, do ponto de vista socioeducativo.

 

 
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