Maria de Fátima Aranha de Queiroz e Melo
Psicóloga, professora do Departamento das Psicologias da Universidade Federal de São João del Rei e membro do LAPIP (Laboratório de Pesquisa e Intervenção Psicossocial), mestre em Educação pela PUC–Rio, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da UERJ, sob a orientação do Profofesor Doutor. Ronald João Jacques Arendt. Fonte de financiamento: bolsa de doutorado Capes PQI, UFSJ/UERJ.
À luz das idéias de Bruno Latour, buscamos elaborar os rudimentos para uma psicologia social do brinquedo, tomando a Teoria Ator-Rede como metodologia para registrar tal construção. Elegemos a pipa, objeto de tradição milenar que encerra múltiplas histórias, como objeto a ser investigado nas redes que garantem a sua sobrevivência, nas aprendizagens que suscita, nos efeitos que promove. Discutiremos os princípios e regras metodológicas da Teoria Ator-Rede, testando a sua aplicabilidade ao nosso objeto de pesquisa, tentando, sempre que possível, fertilizar uma reflexão para o campo de estudo da psicologia, que é onde se situa o seguimento de nossa ação.
SEGUINDO AS PIPAS COM A METODOLOGIA DA TAR
A Teoria Ator-Rede (TAR) nasceu no interior de um campo chamado Estudos da Ciência e Tecnologia e vem sendo trabalhada desde os anos 1980 para atender ao Princípio de Simetria instaurado pela Antropologia das Ciências, disciplina transversal que surgiu influenciada pela convergência dos estudos em diversos campos do conhecimento. Em linhas gerais, a Teoria Ator-Rede defende a idéia de que, se os seres humanos estabelecem uma rede social, não é apenas porque eles interagem com outros seres humanos, mas é porque interagem com seres humanos e com outros materiais também. A TAR permite verificarmos uma multiplicidade de materiais heterogêneos conectados em forma de uma rede que tem múltiplas entradas, está sempre em movimento e aberta a novos elementos que podem se associar de forma inédita e inesperada. Todos os fenômenos são efeitos dessas redes que mesclam simetricamente pessoas e objetos, dados da natureza e dados da sociedade, oferecendo-lhes igual tratamento.
A Teoria Ator-Rede foi concebida, segundo Latour (1996), pela fusão de três eixos de preocupação que legitimam uma prática de estudo integrada: 1) a definição das entidades que atuam nas redes, constituídas de material heterogêneo, destacando a simetria entre os elementos humanos e não humanos; 2) a definição das próprias redes, em sua dinâmica particular, pelas cadeias de tradução e, finalmente; 3) por um quadro metodológico para registrar tal construção. Iremos, neste artigo, nos dedicar à discussão deste quadro metodológico compatível com a TAR para dar conta da tarefa de seguir a pipa em ação e verificar os efeitos por ela produzidos.
Cientes de que as opções epistemológicas estão subjacentes aos métodos e técnicas, tomamos como marco inicial os princípios e regras metodológicas lançadas por Latour (1985, 1996; LATOUR; WOOLGAR, 1997, 2000, 2003). Nestes textos, o autor aborda mais extensamente a tarefa daqueles que constroem fatos e artefatos, assim como rediscute o papel dos pesquisadores à luz de princípios e regras que buscam ser simétricas para todos aqueles envolvidos nos eventos de fabricação.
Quando escreve "Vida de Laboratório" (1997) em parceria com Steve Woolgar, Latour assume a noção de simetria como base moral de seu trabalho. A busca de explicações simétricas implica a recusa de várias distinções: entre o que emerge do social e o que emerge da técnica; entre fatos e artefatos; entre fatores externos e fatores internos como ponto de partida para o entendimento da gênese de fatos e artefatos; entre senso comum e raciocínio científico. Situando-se numa perspectiva simétrica, o pesquisador é definido como resultante dos conflitos de apropriação ocorridos no contexto do laboratório ou campo de estudo, como ponto de uma vasta e heterogênea rede de elementos.
Para o autor (LATOUR; WOOLGAR, 1997), existe, no debate histórico, a tendência de que os fatos construídos sejam vistos como fatos descobertos, obscurecendo as circunstâncias que permitiram a sua emergência enquanto uma construção. A idéia da criação de fatos enquanto ficções científicas convincentes aplica-se tanto à atividade dos pesquisadores em laboratório como aos pesquisadores de outros campos. Nestes, em vez do laboratório, o pesquisador tem o texto como lugar de suas experiências, utilizando-o para construir uma descrição, para colocar em cena conceitos e personagens, para invocar fontes e relacionar argumentos. Com estas ações, pretende-se diminuir a desordem do mundo pela proposta de enunciados mais verossímeis que outros dentro de uma determinada controvérsia. Para criar ordem a partir da desordem, o pesquisador começa por penetrar em seu campo de estudo às apalpadelas para, lentamente, do ruído e da confusão, fazer emergir "bolsões de ordem" (LATOUR; WOOLGAR, 1997, p. 290).1
A única forma de fazer uma organização emergir da desordem, defende Latour (LATOUR; WOOLGAR, 1997), é conservar um traço por meio de uma inscrição.2 Fatos e artefatos, pela ação de cientistas e engenheiros, surgem por meio da produção constante de um foco de organização criado a partir da desordem. Todo o conhecimento produzido na história da ciência seria fruto do trabalho de mobilização e transporte de inscrições, fazendo com que pessoas, acontecimentos e lugares sejam levados aos "centros de acumulação" (CA).3 A forma de tornar possível esta operação é a invenção de meios que tornem estes elementos: (a) móveis para que sejam transportados; (b) estáveis para que não se distorçam nem se decomponham; (c) combináveis para que possam ser agregados ou embaralhados como um maço de cartas.4
Pesquisar necessariamente coloca-nos numa tomada de posição diante de caixas-pretas,5 seja para acompanhar as controvérsias que as encerram, seja para acompanhar as controvérsias que as reabrem. Será tarefa do pesquisador, que aparece como metarregra inegociável, permitir aos não-especialistas o acompanhamento de uma controvérsia, por mais tempo e de forma mais independente, mostrando o máximo possível como os elementos se interligam uns com os outros, como se articulam em redes mais – ou menos – extensas, por meios de ligações mais – ou menos – fortes (LATOUR; WOOLGAR, 2000).
Segundo Latour (LATOUR; WOOLGAR, 1997, p. 36) os princípios são "os fatos empíricos que temos em mãos", gerando decisões quanto à forma de considerá-los. Estas decisões constituem as regras metodológicas tomadas como necessárias para o estudo deste campo que o autor chamou de "ciência, tecnologia e sociedade". Dentro da perspectiva de um conhecimento construído em redes, explicitaremos os princípios e, posteriormente, as regras metodológicas deles decorrentes, tentando sempre fertilizar a discussão no campo de estudo da psicologia que é onde se situa o seguimento de nossa ação.
Princípios (LATOUR; WOOLGAR, 1997, p. 423-424): "Os fatos são construídos coletivamente: passam de mão em mão, se deformam e se traduzem, dificilmente mantendo-se estáveis e inalterados". Nas fabricações realizadas pela ciência e pela tecnologia, não há objeto ou teoria que não passe por várias mãos e se valha de elementos heterogêneos (humanos e não humanos) que trocam propriedades, fazendo-se e refazendo-se incessantemente. A pipa, nosso objeto de estudo, é um objeto que, ao passar de mão em mão, vai se modificando ao mesmo tempo em que produz diferentes efeitos, evidenciando uma história de traduções que faz do global e do local meras variações de escala. É esse caráter coletivo das fabricações que lhe confere legitimidade. Este princípio implica diretamente a primeira regra metodológica.
"Os objetos novos emergem como sobreviventes dos testes de força a que são submetidos e têm os cientistas e engenheiros como seus representantes. São 'construções' cuja existência pode ser posta em dúvida".6 O pesquisador é, antes de tudo, um fabricador de fatos: mobiliza partes da realidade para transportá-la, combiná-la e recombiná-la nos centros em que se acumulam as informações. É paradoxal, no nosso caso, afirmar que um objeto de aproximadamente três mil anos possa se constituir em um objeto novo. Entretanto, a pretensão de lançar um foco de luz sobre um objeto, ao mesmo tempo banal e potente na mobilização de conexões tão duráveis, pode vir a torná-lo um objeto novo pelas controvérsias que se instauram ao seu redor. A pipa tem resistido com bravura aos testes de força a que lhe condenam, que lhe atribuem uma condição de obsolescência, ou que lhe decretam a extinção. Um objeto novo, segundo Latour (LATOUR; WOOLGAR, 1997), freqüentemente emerge como uma formação complexa a partir de articulações inéditas com outras disciplinas, pela importação de objetos já sedimentados que foram novos em algum ponto do tempo e do espaço. Este princípio se desdobra diretamente na segunda regra metodológica.
"Estudar/descrever fatos e máquinas é a mesma coisa que entender a tessitura das redes que lhes dão sustentação em suas associações mais fracas ou mais fortes". Quando estudamos/descrevemos os movimentos da pipa, certamente estamos estudando e descrevendo a tessitura das redes que lhe permitem continuar existindo; estaremos falando da história dos elementos humanos e dos elementos não humanos que estão envolvidos nas várias traduções pelas quais tem passado e vai passando em tempos e espaços diversos: estaremos falando ao mesmo tempo de uma natureza e de uma sociedade que aparecem como uma estabilização dessas redes. Este princípio está ligado à terceira e à quarta regra metodológica.