Não renunciar ao pensamento e à ação: nada é tão velho que não possa ser inventado
Desde as escolas missionárias, a educação brasileira foi destinada a "civilizar" a população, isto é, a ensiná-la a negar-se como índio, como negro, como mulher, como criança para tornar-se outro. A continuidade da existência da escola somente será viável se ela conseguir incorporar a idéia de ser um espaço de aceitação e afirmação das diferenças, mas ao mesmo tempo de criação de novas formas de convívio comum. A reflexão no campo da alteridade estimula o gosto pelo pensamento, pelo conhecimento e ensina a intervir no mundo através da política, da justiça, da sensibilidade e argumentação.
Estamos cotidianamente referindo a importância de se compreender a diversidade, mas continuamos operando em uma escola que tem um currículo único – desatualizado, empobrecido, fragmentado –, onde as práticas pedagógicas remetem a seculares tradições. As crianças não são as mesmas, os conhecimentos também não. E o mundo? Bem, o mundo mudou. O meio é a mensagem, já afirmava Marshall McLuhan em um título de livro na década de 1960, não é possível separar a cultura escolar como mensagem dos meios para democratizá-la (McLuhan & Staines, 2005). É preciso incorporar na escola possibilidades de realizar a educação através de práticas diferenciadas, de outras formas de socialização, não apenas as colonizadoras.
Para garantir o caráter de universalização da escolarização das crianças, é preciso defender a interlocução com a diversidade social e cultural, das crianças e adultos, das culturas familiares e suas formas de socialização, das culturas consideradas legítimas e ilegítimas promovidas pela escola. Uma escola de qualidade somente pode ser construída na tensão entre os conhecimentos universais – construídos e socialmente compartilhados – e as singularidades.
Compreender a diversidade cultural no contexto particular em que foi elaborada, sem qualquer determinação universal, pode ser uma proposta redutora que defende uma visão de cultura imóvel e pouco miscigenada. Existem diferentes culturas nas sociedades, mas elas também estão em permanente movimento, interinfluência e reconstrução. As culturas infantis de hoje não são iguais às culturas infantis de ontem, elas se manifestam e se estruturam num outro tempo e espaço, com outro formato e conteúdo.
Se, ao explicitar a diversidade que a compõe, uma sociedade se humaniza, respeita e valoriza a diversidade cultural, isso não pode ser confundido, em nenhuma hipótese, com a manutenção das desigualdades sociais ou com políticas educacionais que abandonem a capacidade de ser e estar junto dos seres humanos. Como pensar uma escolarização de qualidade que respeite as diversidades sem aprofundar, ainda mais, as desigualdades sociais?
Do ponto de vista das teorias educacionais, o século XXI anuncia uma discussão que vai "para além da qualidade" única, padronizada, pré-definida. Dahlberg, Moss e Pence (2003), ao politizarem a noção de qualidade, revisaram este conceito como algo histórico e socialmente construído, baseado em valores, crenças, lutas de poder e de interesses e, assim, o "desnaturalizam". Portanto, a qualidade é um processo dinâmico, que continuamente estará se alterando, não tendo nunca um enunciado final, verdadeiro.
Estabelecer o caráter de qualidade a uma proposta educativa é sempre uma perspectiva transitória. A qualidade se manifesta na condensação de um trabalho coletivo, participativo, democrático e de construção de sentido no confronto entre culturas. Ela é contextual, relacional, reflexiva, subjetiva, instável; ética, não sendo apenas uma definição técnica. Certamente, é muito mais uma questão filosófica e política, de afirmação de valores e de disputas (Dahlberg, Moss & Pence, 2003; Bondioli, 2004).
Se seguirmos estes pressupostos, vamos verificar que somente haverá qualidade no ensino e na educação brasileira quando for possível colocar abertamente as diferentes culturas que convivem em uma escola, sendo elas consideradas legítimas ou não, e compreender suas lógicas, construindo significados compartilhados, isto é, instituindo novos processos culturais a partir das diferenças.
Definir a qualidade de uma realidade é um processo de interpretação, feito na construção de significados, por meio da argumentação, da relação, do dialogo e da reflexão entre as culturas. Dahlberg, Moss e Pence (2003) transgridem a concepção tradicional de escola e propõem a escola como um fórum democrático de socialização, como a ética de um encontro. Isto é, um espaço para acolher as pessoas – adultos e crianças – nas suas diversidades e propor novas possibilidades para viver a experiência de infância na contemporaneidade, junto com as crianças. O conceito de 'espaços das crianças' entende as escolas como sendo ambientes de várias possibilidades – culturais, científicas e sociais, mas também econômicas, políticas, éticas, estéticas, físicas –, algumas pré-determinadas, outras não, algumas iniciadas pelos adultos, outras pelas crianças. Escola é prática ética e política, que se dá no debate, na construção de conhecimentos, como oficina e laboratório social e humano permanentes.
Trabalhar com a "ética do encontro" na pedagogia exige que escutemos o pensamento – as idéias e teorias, perguntas e respostas das crianças e dos adultos – e o tratemos séria e respeitosamente. O "Outro" não está somente lá, ele também está aqui. Significa lutar para entender o que é dito, sem idéias preconcebidas sobre o que é correto ou apropriado. Uma pedagogia da "escuta" trata o conhecimento como sendo uma construção, que tem uma perspectiva provisória, e não como a transmissão de um corpo de saber verdadeiro que uniformiza o "outro".
Se acreditarmos que as crianças possuem as suas próprias teorias, interpretações e questionamentos, que são protagonistas do seu processo de socialização nos espaços culturais em que vivem e que constroem culturas e conhecimentos, então, os verbos mais importantes na prática educativa não serão mais 'falar', 'explicar' ou 'transmitir', mas "ouvir", "compreender", "divergir, "dialogar", "traduzir", "formular novos conhecimentos". Escutar significa estar aberto aos outros, compreender e construir um diálogo, acolher as diferenças e propor unidades flexíveis.
A escola, atualmente, funciona muito mais como um espaço de socialização, organização, integração, análise de conhecimentos, percepção de pontos de vista diferenciados do que como transmissora de informações. Até pouco tempo, por sua constituição mais sólida, a transmissão dos conhecimentos sociais, culturais e científicos, isto é, das culturas escolares, se confrontava com as culturas infantis e familiares. A ênfase esteve sempre naquilo que as separa, no que difere, tendendo a não manter a atenção naquilo que existe de comum e que liga crianças, adultos – professores, pais e mães –, escola, conhecimento, sociedade.
As novas perspectivas sobre as culturas da infância, as culturas familiares e a cultura escolar podem, certamente, nos auxiliar a pensar em um novo modelo de escolarização de qualidade para as crianças brasileiras, que entreteça culturas e não as negue. Uma escola que seja plural, mas não excludente. Uma escola que possa "escutar" as crianças e se construir para e com elas. Que escute o barulho do confronto, faça emergir os mal-entendidos, compreenda as diferenças nos modos de recepção e significação, ajuste as lógicas de cada grupo cultural, analise as relações de poder e hierarquia entre eles, proponha processos de inserção social de todos. Problematizar a incomunicabilidade das culturas e criar com significados compartilhados e contínuos, que envolvam e discutam as culturas legítimas, não-legítimas, de massas, populares, infantis, as muitas culturas do mundo contemporâneo, são fundamentais no processo de escolarização.
Produzir a qualidade, criar o encontro intercultural para construir uma escola que entreteça culturas e incorpore o mundo. Criar uma escola que rompa e transgrida com o papel da "Dona Lógica da Razão", do Poeminha em língua de brincar, de Manuel de Barros (2007), potencializando as crianças para pensarem, falarem, poetizarem e, assim contribuírem para a novidade do mundo.
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