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Culturas de Infância


30 de junho de 2008


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Culturas escolares, culturas de infância e culturas familiares: as socializações e a escolarização no entretecer destas culturas



Maria Carmen Silveira Barbosa

Doutora em Educação e professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS). E-mail: licabarbosa@uol.com.br


 

 
Este artigo visa estabelecer a articulação entre os impasses na escolarização das crianças e as contribuições acerca das culturas de infâncias, das culturas familiares, das culturas escolares na atualidade. Propomos verificar as novas dimensões de ser criança e viver a infância neste momento histórico e repensar a socialização escolar a partir do entrecruzamento das culturas escolares, consideradas legítimas, e suas relações com algumas culturas familiares e infantis consideradas, até hoje, ilegítimas pela escola. Conhecer as culturas das infâncias e as culturas familiares possibilita ampliar a compreensão sobre as crianças brasileiras e possibilita a construção de um projeto de escolarização que entreteça as culturas escolares, as culturas da infância e as famílias na sociedade contemporânea. A formulação de uma "educação de qualidade" somente poderá acontecer por meio do estabelecimento de indicadores socialmente compartilhados entre estes três discursos.



Impasses na escolarização das crianças brasileiras

Desde o final da década de 1970 o Brasil conseguiu a quase universalização da escolarização das crianças de 7 anos. Mesmo assim, ainda se faz necessário construir respostas adequadas para explicar o maciço fracasso da escola que, apesar de atender a quase totalidade das crianças, ainda não conseguiu oferecer a elas um espaço social onde adquiram conhecimentos culturais, artísticos e científicos, além de valores e habilidades, para viver de forma cidadã o século XXI (Moysés & Lima, 1982; Brandão, Baeta & Rocha, 1983: Patto, 1984, 1990; Carraher et al. 1988).

A escola pública e obrigatória para todos tinha como objetivo central a igualdade entre as pessoas, o progresso das nações, o desenvolvimento econômico, a justiça social, a difusão dos conhecimentos em defesa da valorização da razão – e do conhecimento escolar – como modo de ser e estar no mundo. A crença na mudança da sociedade através da escolarização das massas é resultado do projeto iluminista, a partir do qual, como diria Kant (1993), o povo sairia da sua situação de "minoridade" intelectual e poderia afirmar sua cidadania por meio da leitura e da escrita. Como afirma Canário (2006) era um tempo de promessas. As políticas de universalização da escola apontavam para a superação das desigualdades sociais por meio da educação e as expectativas das crianças, dos jovens e de suas famílias estavam voltadas para a promessa da ascensão social via mérito escolar.

Nos últimos anos, estamos vivendo uma situação onde fica evidente que esta promessa, como havia sido formulada, não se cumpriu. Agora, as perguntas aos pesquisadores, educadores e formuladores de políticas educacionais centram-se na discussão sobre a "qualidade da educação e do ensino" que se está oferecendo nas instituições educativas. O questionamento inicia com perguntas como: Será possível realizar a promessa republicana? Como oferecer qualidade na educação para todos em uma sociedade com imensas desigualdades sociais? Como desmontar esta situação perversamente paradoxal de "oferecer educação sem proporcioná-la"?

Desde o inicio da modernidade, e até hoje, grande parte da população aprendeu a ler e a escrever não por vontade própria, mas por ter sido obrigada a se alfabetizar, afinal, aprender a ler e a escrever, além de ter sido apontado como uma necessidade para o ingresso no mundo do trabalho, tomou também o lugar de salvação, redenção pessoal e social. O analfabetismo apenas tornou-se um problema com a industrialização e a urbanização. A escolarização obrigatória, como afirma Enzensberger (1995, p. 48),

    (...) nunca tratou de abrir um caminho para a "cultura escrita" e muito menos de libertar as pessoas para que falassem por si mesmas. O que estava em jogo era um tipo completamente diferente de progresso. Ele consistia em domesticar os analfabetos, "esta classe inferior de pessoas", acabando com a imaginação e a teimosia deles, passando-se desde então a explorar não apenas a força muscular e suas habilidades, como também os seus cérebros.

Como lembra Varela (1995), a escolarização obrigatória é um fenômeno recente em nossa sociedade. A idéia de que a escola é a "única" instituição educativa e que os conhecimentos por ela transmitidos são os legítimos pode também ser analisada como uma estratégia de poder que visa legitimar um tipo de conhecimento, considerado legitimo ou oficial, em detrimento de outros, os populares, desqualificando assim outras formas de cultura e de estilos de vida. A escola tem sido a instituição social central para veicular, de forma homogênea, a cultura considerada "legítima" e para desconsiderar as culturas "não legítimas", isto é, não-hegemônicas (Lahire, 2006).

Nesta perspectiva, a escolarização também pode ser analisada como um processo de "colonização" pelo qual passaram, obrigatoriamente, as crianças – de todas as classes sociais – e as pessoas adultas das classes populares para poderem pertencer ao mundo industrializado (Barbosa, 2006). A separação presente ainda hoje entre os processos de escolarização, de alfabetização e a cultura escrita é tão evidente que, apesar de termos uma escola pública, obrigatória e gratuita de nove ou doze anos, ainda temos, mesmo nos países mais desenvolvidos, o retorno do analfabetismo em sua nova versão "iletrada". A escolaridade obrigatória não garantiu o acesso à cultura escrita para todos. Como e por que a escola brasileira "falha" na transmissão cultural que, em linhas gerais, seria a sua função explícita?
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Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.

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