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Artigos de Pedagogia


Construção do conhecimento


30 de junho de 2008


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O papel do professor na construção discursiva da argumentação em sala de aula



 

 

Sylvia De Chiaro*; Selma Leitão**

Universidade Federal de Pernambuco, Recife


 

 


A natureza canônica dos referentes do discurso de sala de aula, a relação assimétrica professor-aluno e a previsibilidade dos resultados das discussões parecem tornar a sala de aula um espaço pouco propício à argumentação. Entretanto, reconhecendo a importância desta como recurso didático, o presente artigo discute sua construção em situações instrucionais. A tese central é que ações discursivas, nos planos pragmático, argumentativo e epistêmico, implementam a argumentação em sala de aula. Dois grupos de discussão da quinta série são analisados, um gerido pelos alunos e outro mediado pela professora. Os resultados mostram que ações facilitadoras da emergência e sustentação da argumentação surgem nos dois grupos, porém, ações que aproximam as conclusões dos alunos do conhecimento convencionalizado dependem prioritariamente da mediação da professora.

Este trabalho focaliza a argumentação como atividade social e discursiva que se realiza pela justificação de pontos de vista e consideração de perspectivas contrárias com o objetivo último de promover mudanças nas representações dos participantes sobre o tema discutido. Vista deste modo, a argumentação se caracteriza como uma discussão crítica (Van Eemeren & Gootendorst, 1992) durante a qual pontos de vista são construídos, negociados e transformados.

O pressuposto central deste trabalho é que a ênfase sobre negociação e mudança - características definidoras da argumentação - confere a este tipo de discurso uma dimensão epistêmica que o institui como recurso privilegiado de mediação em processos de construção de conhecimento que ocorrem em contextos sociais diversos (Leitão, 1999, 2000b). Essa dimensão epistêmica remete à possibilidade - criada na argumentação - de construção e transformação de crenças e conceitos e de implementação e desenvolvimento de raciocínios típicos do domínio do conhecimento a que tais crenças e conceitos se referem. Um segundo pressuposto, igualmente central neste trabalho, é oferecido pelo construto da mediação semiótica, tal como proposto por Vygotsky (2000) e elaborado por variados teóricos da chamada psicologia sócio-histórica (Wertsch, 1985; Wertsch, del Río & Alvarez, 1995, entre outros). De acordo com esta perspectiva, formas superiores e tipicamente humanas de funcionamento psicológico se realizam e desenvolvem pela mediação de signos/sistemas simbólicos, sobretudo da linguagem. Tais formas aparecem primeiramente embutidas em atividades sociais diversas do cotidiano da criança e, uma vez internalizadas, possibilitam sua constituição como sujeito de consciência e pensamento.

Partindo dos pressupostos acima, este trabalho examina o papel mediador da argumentação em processos que possibilitam a construção de conhecimento em uma situação social particular, a sala de aula. De modo mais específico, examina-se como ações discursivas dos participantes - da professora, em particular - criam condições que possibilitam a emergência da argumentação em sala de aula e a instituem como método de negociação de diferenças de opinião que favorece a emergência de novas perspectivas sobre conteúdos curriculares.

Argumentação e Construção de Conhecimento

Em Leitão (1999, 2000b), a argumentação é descrita como uma atividade discursiva que potencializa mudanças nas concepções dos indivíduos sobre temas discutidos. O que confere à argumentação um potencial único neste sentido (e a distingue de outros tipos de discurso) é a forma como esta desencadeia, nos participantes, um processo de revisão de suas perspectivas a respeito do mundo, físico ou social. O confronto entre a posição defendida pelo proponente de um argumento e dúvidas, pontos de vista alternativos e contra-argumentos, levantados por um oponente, impele o primeiro ao exame de suas posições à luz das perspectivas contrárias trazidas pelo segundo. Embora o engajamento de um indivíduo no processo de revisão de pontos de vista, por si só, não garanta mudanças de ponto de vista, este processo é visto como pré-requisito fundamental para que mudanças de perspectiva possam ocorrer (Leitão, 2000b). Partindo desta idéia, a autora propõe um procedimento analítico desenhado para capturar o processo pelo qual os indivíduos revêem suas posições no curso da argumentação. Este procedimento se ancora numa unidade de análise constituída por três elementos: argumento, contra-argumento e resposta.
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