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Educador, como seus alunos pronunciam as palavras?


24 de setembro de 2009


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Educador, como seus alunos pronunciam as palavras?
 
Rita de Cássia ALVES-LIMISSURI*
rita_dias_alves@hotmail.com
 
Introdução
Há algum tempo a instituição escolar e os profissionais da saúde vêm trabalhando juntos na detecção e no atendimento precoce das crianças portadoras de dificuldades de linguagem. Essa atenção se explica pelo fato de ser reconhecida a importância da linguagem na formação da personalidade da criança e no seu desenvolvimento social, escolar e, futuramente, profissional.
A fonologia é um dos aspectos da linguagem mais simples de ser reconhecido pelos que estão próximos à criança. Não temos grande dificuldade ao reconhecer uma criança que “fala errado”, porém, a questão do falar certo ou errado deve ser considerada em relação a vários fatores, entre eles, a idade da criança.
O que pode levar uma criança de 5 anos ao tratamento fonoaudiológico, pode ser totalmente aceitável em uma criança mais nova, o que não significa que uma criança pequena deva estar livre de uma escuta um pouco mais crítica.
 
Desenvolvimento da Fonologia
De acordo com WERTZNER (2000), no desenvolvimento lingüístico da criança, normalmente observamos processos fonológicos ou simplificações das regras que regem a fonolologia e que podem ser ou não apropriados à faixa etária em que a criança se encontra. A partir de sua pesquisa com crianças da cidade de São Paulo, a autora caracterizou os principais processos fonológicos realizados, relacionando-os com as idades limite onde eles são aceitos. No quadro abaixo cito alguns desses processos:
 
 
 
Idade Limite
Nome do Processo Fonológico
Exemplos
Até 2;6 anos
redução de sílaba
harmonia consonantal
plosivação de fricaticas
“neca” para boneca
“papato” para sapato
“baca” para vaca
Até 3;0 anos
frontalização de velares
“tama” para cama
Até 3;6 anos
posteriorização para velar
simplificação de líquidas
“bóca” para bota
“balata” para barata
Até 4;6 anos
posteriorização para palatal frontalização de palatal
“chapo” para sapo
“save” para chave
* para conhecer todos os processos fonológicos ver WERTZNER (2000).
 
Os processos fonológicos citados no quadro acima são considerados como normais durante o desenvolvimento de fala, ou seja, realizados por quase todas as crianças. No entanto, a autora cita outros processos como não típicos, sendo eles:
 
Não típicos
Nome do Processo Fonológico
Exemplos
 
sonorização de plosiva
sonorização de fricativa
ensurdecimento de plosiva
ensurdecimento de fricativa
“bato” para pato
“vaca” para faca
“panco” para “banco”
“faca” para vaca
 
 
Como a fonologia é considerada pelas educadoras
Para minha dissertação de mestrado perguntei a sete educadoras de uma creche municipal quais crianças elas consideravam ter uma dificuldade de comunicação. Em seguida, apliquei o teste de fonologia desenvolvido por WERTZNER (2000) em todas as crianças (as mencionadas e as não mencionadas pelas educadoras). Dessa maneira, 123 crianças de 3;0 a 5;11 anos passaram pelo teste.
Vale dizer que outros testes foram realizados, porém, para esse artigo, vamos considerar as crianças que falharam exclusivamente na prova de fonologia.
Considerando as três faixas etárias, 21 crianças que foram indicadas pelas educadoras como tendo alguma dificuldade de comunicação falharam em alguma das provas aplicadas e, entre elas, 38,1% apresentaram um desempenho em fonologia abaixo do esperado para a idade. Por outro lado, entre as 28 crianças que não foram indicadas, mas que apresentaram alguma dificuldade nos testes realizados, 46,4% falharam apenas na prova de fonologia. Os resultados indicam que a maneira como a educadora nota a desenvolvimento fonológico de seus alunos, varia segundo a idade das crianças, como mostram os quadros a seguir:
 
Crianças indicadas pelas educadoras e que falharam exclusivamente em fonologia:
3 anos
14,3%
4 anos
44,4%
5 anos
60,0%
 
Crianças não indicadas pelas educadoras e que falharam exclusivamente em fonologia:
3 anos
72,7%
4 anos
28,6%
5 anos
30,0%
 
Como podemos verificar, torna-se mais evidente a dificuldade em pronunciar os fonemas da língua, quando em crianças mais velhas. O que é inquietante, no entanto, é o fato de termos encontramos um número importante de crianças de 3 anos que não foram indicadas como tendo uma dificuldade de comunicação, mesmo havendo um atraso no desenvolvimento fonológico.
Parece que a crença de que “nada pode ser feito antes dos 4 anos” ainda existe em nossa sociedade. Ou talvez os educadores encontrem tanta dificuldade em encaminhar uma criança para uma avaliação fonoaudiológica no sistema público de saúde, que acabam por esperar que o atraso ou dificuldade sejam superados com o tempo.
O fato é que, mesmo reconhecendo todos os problemas relacionados ao nosso sistema de saúde (lista de espera longa, poucos profissionais atuantes, etc), nós devemos nos conscientizar de que nem tudo é aceitável quando vindo da boca de um “pequenino” de 3 anos. Se o encaminhamento não é viável, o simples estado de “alerta” e uma atenção complementar já podem ser suficientes para garantir o bom desenvolvimento da linguagem dessa criança.
 
Conclusão:
Atualmente muito se discute sobre a importância da fonologia para o desenvolvimento da leitura e da escrita. Nas literaturas, coloca-se a consciência fonológica (consciência das particularidades de cada fonema e da interação entre eles) como uma das principais habilidades prejudicadas nas crianças disléxicas (SIEGEL & LE NORMAND, 2007). É por essa razão que, a partir do estudo realizado, concluiu-se que existe a necessidade de que educadores e profissionais da linguagem troquem mais informações sobre o desenvolvimento lingüístico das crianças e, especificamente, sobre o que é normal ou não segundo cada faixa etária.
 
Bibliografia:
?ALVES, R.C.D. Fonologia e vocabulário na percepção de educadoras sobre comunicação de pré-escolares. Dissertação apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre pelo Departamento de Lingüística. São Paulo, 2005.
?WERTZNER, H.F. Fonologia. In ANDRADE, C.R.F.; BEFI-LOPES, D.M.; FERNANDES, D.M.; WERTZNER, H.F. ABFW – Teste de Linguagem Infantil nas Áreas de Fonologia, Vocabulário, Fluência e Pragmática. São Paulo: Pró-Fono: 2000, cap.1, p.5-16.
?SIEGEL, L.S.; LE NORMAND, M.-T. Troubles spécifiques des apprentissages. Les dyslexies. In CHEVRIE-MULLER, C.; NARBONA, J. Le langage de l’enfant. Aspects normaux et phonologiques. Issy-les-Moulineaux: Masson: 2007, cap.22A, 454-482.
           
           
 
*Fonoaudióloga pelo Centro Universitário São Camilo; Especialista em Linguagem pela PUC-SP; Mestre em Lingüística pela USP-SP; Pós-Graduada em Psicolingüística no LSCP/ENS – Paris, França.
Site: http://fonolang.blogspot.com
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